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Ninguém Sobrevive Inteiro No Mundo Que Conhecemos

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Summary

Dylan nunca planejou questionar o rumo da própria vida: casamento sólido, filhos crescendo e uma rotina que parece segura o suficiente para não ser questionada. Mas encontros inesperados com o vizinho dele Noah e desejos que ele passou anos ignorando começam a rachar essa estabilidade silenciosa. Em um drama íntimo sobre identidade, família e silêncio emocional, cada decisão aproxima Dylan de uma verdade que não promete conforto, apenas realidade.

Genre
Lgbtq
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
10
Rating
n/a
Age Rating
16+

Ato 1: O Meu Problema É Com O Vizinho

29/01/26


Um homem.

O que é um homem? Na modernidade, um homem é mais do que carne e ossos, mais do que o peso de tradições herdadas. É um ser que carrega em si a contradição entre força e fragilidade, entre liberdade e prisão invisível. Ele caminha pelas ruas iluminadas por telas, onde cada gesto é observado, cada palavra registrada. Um homem, hoje, é ao mesmo tempo indivíduo e multidão, singular e replicável. Mas este homem — o da minha história — não se contenta em ser apenas reflexo. Ele busca compreender quem realmente é, em um mundo que lhe diz o tempo todo o que deveria ser…

Ou seja… ele precisa mesmo tirar a merda da camisa toda vez que lava a porcaria do carro?

Olha, eu não quero ser o tipo de vizinho que fica observando aquele corpo sarado dele com sabão e água, onde a luz reflete mais do que deveria — como se o universo estivesse conspirando pra transformar cada gota em pornografia doméstica. Me faz pensar em ir até lá e oferecer uma toalha. Ou a minha língua pra secá-lo. Mas a verdade é que eu nem deveria estar aqui pensando essas coisas, nessa janela, cortinas fechadas, olhando pela fresta, só imaginando ele ali com o bíceps contraído e o peitoral que parece ter sido esculpido por um escultor com fetiche em pecados. Não. Sabe por quê? Resposta simples: eu sou casado.

Meu nome, pra começo de conversa, é Dylan Hayes. Tenho 37 anos, cabelos levemente castanhos claros, barba sempre por fazer — aquele tipo de desleixo calculado que diz “sou ocupado demais pra me importar, mas bonito demais pra não parecer charmoso”. Sou um cara comum, vivo num subúrbio como qualquer outro, trabalho, tenho esposa e filhos. E não — eu não sou o que vocês estão pensando. Eu não me casei pra “esconder” nada. Eu e a Melissa somos parceiros, namoramos por muito tempo antes de nos casarmos. Quando mais novo tive aventuras bêbado com homens , mas isso só foi coisa de moleque, uma coisa só levou a outra. Então não, eu nem sempre gostei de homens. E ainda não gosto. Mas o meu vizinho, o Noah Sterling… ele faz até o homem mais hétero questionar a própria sexualidade. E isso deveria ser ilegal. Deveria ter um telefone pra denunciar vizinho que lavam o carro demais se esfregando neles.

Noah tem aquele tipo de beleza que parece ter saído de um catálogo de moda masculina, mas com a maldita vantagem de ser alguém que vive a algumas casas da minha. Cabelos escuros e encaracolados. Rosto simétrico, mandíbula marcada, olhos que parecem saber mais do que deveriam. E aquele corpo… aquele corpo malhado que ele insiste em exibir toda vez que resolve lavar o carro. Na frente da garagem dele. Sem camisa. Com sabão. Com movimentos lentos. Com a porra de um sorriso.

Essa merda vai ser esfregada até quando? Até o carro sumir? Até ele cavar um túnel pro Japão com a esponja? Só para de lavar o carro e veste uma camisa, irmão. Pelo amor de Deus.

— O que está fazendo, pai? — pergunta minha filha Cathy, de 13 anos, aparecendo do nada como um ninja emocional na sala mexendo no seu celular.

— Nada — digo, assustado, quase caindo. — Já pegou tudo, querida? Precisamos ir logo antes do trânsito ficar uma loucura.

— Já sim — diz ela, sem tirar os olhos do celular, como se o mundo real fosse uma pausa entre notificações.

— Chama o seu irmão pra gente ir — digo, tentando parecer funcional. — Eu vou tirar o carro do sabão, quer dizer… da garagem.

Ela se vira e sai da sala, deixando um rastro de perfume adolescente e desprezo silencioso pela minha existência.

Eu olho pra fora.

O vizinho está molhando o carro com a mangueira, erguendo ela de um lado pro outro como se estivesse dançando com o maldito veículo. A água escorre pelo capô como se fosse uma cena de videoclipe dos anos 2000. Espera um pouco. Eu acho que vi ele dar um tapa no carro.

Um tapa? No carro? Como quem diz “bom garoto”.

— Pai! — grita minha filha, me arrancando da hipnose.

— Já vamos, filha — digo, fechando o resto da cortina com a delicadeza de quem está escondendo um crime. — Eu já estou indo.

Suspiro. Não por cansaço. Por vergonha. Por desejo. Por confusão. Porra, por tudo.

Saio de casa, tentando parecer normal. Abro a garagem. O carro está lá, me esperando como um cúmplice silencioso. Entro, ligo o motor, e por um segundo, olho pelo retrovisor.

Noah ainda está lá. A mangueira ainda está lá. E eu… Eu ainda estou aqui.

Tiro o carro da garagem e paro em frente à minha casa, esperando meus filhos virem até o carro. Fico lá, tentando olhar direto pra frente, como se fosse um soldado em posição de sentido. Não vou virar a cabeça pra ficar olhando aquela cena de lavagem de carro de cunho explícito. Agora não tenho mais cortinas pra me esconder, só o vidro e a minha cara de “homem sério que não está olhando nada”.

De repente, ouço ao lado do carro alguém tossir.

Viro o rosto, assustado, e então… voilà. O vizinho. Sem camisa. Amante de carros e aparentemente inimigo da minha sanidade.

— Ah, oi — digo assutado, tentando manter a postura como se a presença dele não tivesse acabado de me dar um mini-infarto. — É Noah, né? Oi. Lavando o carro de boa. Né, parceiro?!

— Oi, Dylan — diz ele, com aquela calma irritante de quem sabe exatamente o efeito que causa. — Está indo trabalhar?

— Sabe como é — respondo, tentando não manter contato visual com o abdômen dele? A verdade é que ele parece ter sido desenhado por engenheiros da NASA. — Alguns de nós não têm o privilégio de trabalhar em casa como você.

— Tem suas vantagens.

— Imagino — digo, sorrindo nervoso, como quem acabou de ser pego vendo pornografia em horário comercial.

E então acontece. O momento que, por um milhão de anos a partir de agora, vai me assombrar. Eu viro o rosto levemente pro lado e meus olhos caem, com a precisão de um míssil teleguiado, exatamente na região da cintura dele sob o seu short da nike preto.

E lá está. O contorno perfeito do seu membro. Um desenho anatômico tão claro que poderia estar num livro de biologia avançada. E isso só me deixa claro que o que ele queria com isso era:

A: me mostra que o pênis dele é maior do que qualquer coisa que eu já vi na vida incluindo o Burj Khalifa.

B: ele está sem cueca.

Quem em sã consciência sai com um bicho daqueles solto, sem coleira? Isso não é irresponsabilidade, é terrorismo emocional. Se essa coisa escapar, abracem seus filhos, porque o apocalipse chegou.

Tento, claro, disfarçar que vi o que vi.

— Eu posso te ajudar? — pergunto, como se oferecer ajuda fosse apagar a imagem que já está tatuada na minha retina.

— Eu só queria dizer um oi — diz ele, simples, como se não tivesse acabado de destruir minha vida. — Quase nunca te vejo por aí.

— Sabe como é, né — digo, tropeçando nas palavras. — Tenho filhos e sou casado, não é como se eu pudesse largar tudo e… sei lá… fugir com você.

— O quê? — pergunta ele, franzindo a testa. — Quem falou de fugir?

— Eu quis dizer… fugir no sentido… de ir pra algum lugar. Tipo o O’Malleys. Tomar uma cerveja. Estou precisando disso.

Ele me olha de cima a baixo, como quem avalia um carro usado antes de comprar.

— Eu ia gostar disso — diz ele.

— Gostar do quê? — pergunto confuso.

— Sexta-feira, as 6h — responde ele, se afastando do carro e dando um tapinha no meu teto, como se fosse um selo de aprovação. — Uma cerveja vai ser legal.

— O quê? — pergunto, já sem saber se estou convidando ou sendo convidado. — Eu não quis dizer…

Mas ele já se afastou, deixando pra trás só o cheiro de sabão e testosterona. Eu fico lá, parado, sem entender o que aconteceu. Eu convidei ele ou ele se convidou?

Meus filhos finalmente chegam, entram no carro, e eu só acelero, ainda imaginando como foi que acabei combinando um “encontro” com o meu vizinho na sexta.

O motor ronca, a rua passa devagar, mas minha cabeça corre mais rápido do que qualquer carro poderia. Cathy está no banco de trás rindo de alguma coisa no celular, o irmão dela, meu outro filho Colin de 11 anos, já reclama do cinto de segurança, e eu… eu só penso em sexta-feira.

Sexta-feira. Uma cerveja. Um vizinho que está sempre sem camisa. E eu, um pai de família, tentando convencer a minha consciência de que isso não é um encontro, é só dois caras rindo da vida.

Mas a verdade é que, enquanto viro a esquina, sinto que não estou dirigindo, talvez pela última vez como um homem sem um problema de verdade.


***


Música suave de fundo, algo quase zen, toca na minha cabeça. De repente, uma mulher surge de um fundo branco na minha mente. Ela limpa a garganta, elegante, como quem vai apresentar um TED Talk.

— Bom dia, Dylan. Eu sou a sua guia espiritual do cérebro, acho que ainda não fomos apresentados. O meu nome é Consciência, mas você pode me chamar de Constance. — diz ela, voz suave, quase serena. — Vamos começar com um exercício simples. Repita depois de mim: Eu sou hétero.

— Eu sou hétero — digo, encarando meu reflexo no espelho do banheiro enquanto ajeito a gola da camisa.

— Eu amo a minha esposa — continua ela, com aquele tom professoral.

— Eu… amo… amo a minha esposa — repito, tropeçando nas palavras como se fossem pedras.

— Eu em hipótese alguma vou pra casa dele se ele pedir …

— Eu em hipótese alguma vou pra casa dele — digo, tentando acreditar.

— Muito bem. Agora, lembre-se: hoje não é sobre vergonha. São só dois caras tomando uma cerveja no O’malleys e rindo das próprias vidas.

— O que acha dessa camisa? — pergunto.

— Ele nem usa camisa. Então não se preocupe com isso — diz ela sorrindo. — Apenas se concentre no que treinamos.

Respiro fundo.

— Nada de passar vergonha. Vão ser só duas cervejas e depois casa — digo. — A minha casa — corrijo imediatamente.

Constance sorri, satisfeita, mas logo fica séria:

— Agora só me faz mais um favor. Lembre-se que você é um pai de família. Pense nos seus filhos antes de deixar um cara daqueles te… bem… te comer.

— Bom, eu poderia… comer ele.

Ela ri alto, debochada:

— Com isso aí que você chama de pênis? Me poupe. Ele vai acabar com você se te pegar de jeito por trás — diz ela rindo alto. — Então, nada de ficar bêbado e querer cair de boca no seu vizinho. Acho que nem vai caber na sua boca mesmo.

— Ele poderia cair de boca em mim — digo.

Ela gargalha, quase dobrada de rir.

— Claro que não, idiota. Ele com certeza é mais homem do que você — diz ela.

— Por que diz isso?

— Porque agora ele não deve estar no banheiro da casa dele escolhendo camisa e se perguntando se os pelos do rabo dele são muitos pra ser desejado por outro cara.

— Olha aqui, sua… — começo a alterar minha voz, irritado, quando de repente ouço a porta do banheiro se abrir.

Melissa entra, distraída, procurando uma escova. Eu quase deixo cair a gravata, engasgado, como se tivesse sido pego conversando com alguém que não existe, o que não é mentira. Meu devaneio acabou ali.

Ah, a minha esposa Melissa Hayes. Como eu amo ela. E como ela me ama. Minha mulher. Sabe aquela coisa que homens héteros têm e que, teoricamente, deveria ser o suficiente pra eles não precisarem questionar a própria sexualidade?

Melissa tem 34 anos e uma beleza que não grita — ela sussurra de forma gentil. Cabelos curtos, castanhos longos e encaracolados. Ela tem aquele olhar direto, firme, que parece saber mais do que diz. Usa sempre brincos dourados pequenos e um colar discreto, mas tudo nela tem presença, e mesmo sem tentar, parece saída de uma campanha de moda minimalista. Ela é elegante sem esforço, intensa sem drama. E quando ela sorri… eu lembro por que me apaixonei.

— Vai usar mesmo essa gravata? — pergunta ela, arqueando a sobrancelha.

— O que tem a minha gravata? — digo, alisando o tecido como se fosse uma prova de masculinidade. — Não gostou?

— Nada contra — responde ela. — Mas é tão formal. Pensei que você só ia sair pra tomar umas cervejas com os caras do trabalho.

— Pois é — digo. — Duas cervejas e eu volto pra casa. Pra você e pras crianças.

— A Cathy vai dormir na casa de uma amiga e o Colin está no quarto dele jogando online com os primos.

— Isso quer dizer… — digo, me virando pra abraçá-la e beijando o pescoço dela. — Que a casa é só nossa.

— Ai, para — ela ri. — O Colin está aqui do lado.

— Jogando videogame — digo. — Ele não presta atenção em nada além daquela porcaria. Eu, uma vez pensei que tínhamos perdido ele pro Minecrafts e Call of Dutys da vida. Frequentei até um grupo por um tempo pra falar sobre isso.

— É verdade.

— E eu me lembrei também de uma vez que a cozinha pegou fogo. Eu gritei pra ele sair de casa, mas ele nem se mexeu. Continuou jogando enquanto os bombeiros apagavam o incêndio. Depois desceu e perguntou só o que ia ter pro jantar — digo.

— Só vai — diz Melissa, sorrindo. — Você merece um dia de folga só com os caras.

— Tem certeza? Eu posso cancelar.

— Não seja bobo — ela me beija de leve. — Se divirta. Eu vou abrir um bom vinho e ler um livro.

— Por favor que não seja o cinquenta tons de cinza de novo — digo. — Ainda estou com as costas doendo da última vez.

— Não seja exagerado — diz ela. — Eu já superei esse livro. Estou lendo os da Bridget Jones de novo.

— Eu não vou dormir na casa do cachorro quando você terminar — digo já me adiantando. — E o pior é que nem temos um cachorro por isso fica esquisto.

Ela sai do banheiro e eu fico sozinho, encarando meu reflexo no espelho. Coloco a gravata, o cabelo no lugar, mas os olhos… os olhos não mentem. Eu podia arrancar eles e dai o problema estaria resolvido. Bom, pelo menos o problema Noah.

Eu respiro fundo e digo baixinho, como se fosse um mantra:

— Eu sou hétero. Eu sou hétero pra valer — digo ajustando a gravata. — Mulher é o meu negócio. Eu não quero ficar aleijado ou perder a vida em cima do vizinho.

Mas a verdade é que, lá no fundo, eu já sei: Hoje não vai ser só sobre cerveja.

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