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Um Ato Indecente.

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Summary

Na Inglaterra dos anos 60, onde amar podia levar à prisão, Adrian descobre que o verdadeiro perigo não está apenas na lei, mas também nas pessoas ao seu redor. Entre o amor silencioso por Rory e a presença inquietante de Rupert — amigo, rival e sombra constante — nasce um triângulo marcado por obsessão, ciúme e segredos. Esta é a história de como um sentimento proibido pode redefinir o destino de três homens e os levar a cometer algo verdadeiramente indecente.

Genre
Lgbtq
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
11
Rating
n/a
Age Rating
16+

Prólogo: Pecados em Tweed ou Um acordo entre cavalheiros

02/02/26


Cambridge, 1966.

É uma noite de neblina — daquelas em que até os pecados parecem vestir tweed e pedir desculpas em latim. No pub mais antigo da rua, entre retratos amarelados de rugbi e manchetes que ninguém mais lê, eu estava afundado num banco gasto, fumando mais um dos meus cigarros e ouvindo uma proposta absolutamente indecente do meu amigo — também escritor, também perdido, também meio gênio.

O lugar é conhecido por acolher o que a sociedade chama de escória e o que eu chamo de companhia: poetas bêbados, prostitutas aposentadas, dramaturgos em crise e estudantes que fingem entender Sartre. Todos unidos por duas coisas — a cerveja mais barata da cidade e um ambiente onde ninguém julga ninguém, pelo menos não em voz alta.

Antes de revelar qual é a proposta (e por que, contra todo bom senso, estou inclinado a aceitá-la), devo dizer que talvez seja culpa do excesso de Pimm’s No. 1 — bebida que, misturada com conversa fiada e intenções dúbias, transforma qualquer ideia ruim numa aventura literária.

Mas antes de tudo, nomes. Porque nomes, meus amigos, são importantes, por isso o temos. Eu que vos falo me chamo Adrian Sterling. Tenho 29 anos, cabelo castanhos escuros rebelde, óculos redondos e uma tendência preocupante a aceitar convites estranhos em noites úmidas nas quias estou me sentindo solitário. Escrevo contos que ninguém publica, fumo como se o pulmão fosse opcional, e tenho uma queda por pessoas que falam difícil e sorriem pouco.

Nossa conversa, não sei bem como, virou isso. Mas virou. E devo admitir: não era algo que eu já não tivesse considerado antes. Só que agora, com ele ali na minha frente, com aquele olhar de quem sabe mais do que diz, a ideia parece menos absurda. Parece… inevitável.

Sentado à minha frente está Rupert Calloway, meu amigo dramaturgo — e, infelizmente, mais bem-sucedido do que eu. Aos olhos dos outros, ele é um cidadão decente: fala baixo, veste-se como um professor de ética e tem aquele sorriso que parece pedir desculpas por existir. Mas eu o conheço há tempo suficiente para saber que essa decência é só um papel. E como bom dramaturgo, ele o interpreta com perfeição.

Rupert tem aquele tipo de elegância que só existe em homens que sabem que são admirados. Blazer de lã, cotoveleiras, cigarro sempre aceso, e um olhar que parece estar escrevendo uma peça sobre você enquanto você fala. Ele publica com regularidade, é citado em jantares acadêmicos, e já foi convidado para falar na BBC — embora tenha recusado, alegando que “a televisão emburrece até os bons argumentos”.

Mas aqui, neste pub onde a cerveja é barata e os segredos são caros, Rupert relaxa. Ou melhor, ele desmonta a pose, mas mantém o roteiro. E hoje, o roteiro inclui uma proposta que, se dita em voz alta, poderia nos render olhares atravessados — ou convites inesperados.

— Qual de nós faria as honras? — pergunto com o cigarro nos lábios, acendendo com um fósforo que estala como uma promessa. — Afinal de contas, somos os dois bem equipados pra esse papel.

Rupert sorri, inclina-se levemente para trás e toma um gole da cerveja morna.

— Bom, eu faria com certeza — diz ele. — Afinal, sempre te achei meio… delicado.

— Eu não sou delicado — protesto, soltando a fumaça com indignação. — E por que não você?

— Você sabe que eu desmaio com agulha — justifica ele, ajeitando os óculos com um ar de quem já perdeu essa discussão antes.

— Um pênis é diferente de uma agulha.

— Justamente — diz ele, dando de ombros. — É algo muito maior.

— E grosso — digo, orgulhoso, batendo cinzas no cinzeiro como quem marca território.

— Eu não vou permitir que faça isso comigo — diz ele, cruzando os braços. — Eu tenho uma noiva e preciso manter as coisas como estão.

— Tá me dizendo que a sua noiva olha o seu rabo pra conferir quantas pregas você ainda tem? — pergunto rindo, quase engasgando com a fumaça.

— Não seja tão indecente — acusa ele, com um tom que não convence nem o copo vazio à sua frente. — A Cynthia é uma boa moça cristã que está se guardando pro matrimônio.

— Por isso está me propondo um absurdo desses?

— Eu não sabia a quem mais pedir — diz ele, olhando para o fundo do copo como se lá estivesse a resposta. — Você é o meu amigo. Por isso estou negociando com você.

— Isso é uma negociação? — pergunto rindo, agora já me divertindo demais. — Bom saber.

— Meus termos — diz ele, sério. — O hotel a duas quadras receberá dois rapazes respeitáveis com duas camas de solteiro pra uma “troca rápida de roupas”. Vamos até lá depois de mais uma cerveja.

— E por que não na sua casa ou na minha? Não seria mais seguro?

— Eu prefiro que aconteça num ambiente neutro — diz ele, firme. — Isso é inegociável.

— E depois?

— E depois o quê? — retruca ele, franzindo a testa.

— Continuaremos amigos?

— Claro que vamos continuar — diz ele com convicção, como quem tenta convencer a si mesmo. — Eu só quero uma aventura, não um compromisso de mais do que alguns minutos.

Eu olho pra ele e sorrio, apagando o cigarro com um gesto lento.

— Minha contraproposta — digo. — Eu em você, depois a gente toma champagne pra comemorar o ato corajoso bem-sucedido da sua parte.

Rupert ri, mas há um nervosismo no fundo da risada.

— Eu em você, e depois eu pago a garrafa de champagne.

Eu rio também, agora mais leve.

— Podemos revezar — digo, pegando meu copo.

— Isso poderia dar certo — diz ele, pensativo. — Mas tem um problema.

— Qual?

Rupert se inclina, como quem vai confidenciar um segredo de Estado.

— Quem vai primeiro? — pergunta ele, soltando a bomba com a naturalidade de quem pede sal.

— Essa é fácil — digo, sorrindo. — Eu, porque eu dei a ideia.

— Eu não sei.

— Eu prometo ser gentil — digo, tragando o cigarro e soltando a fumaça devagar, como se fosse parte da negociação.

— Se nos pegarem podemos ser presos.

— Eu já fui preso — digo dando de ombros, batendo cinzas no cinzeiro. — Não é tão ruim assim.

Rupert franze a testa, mas estende a mão.

— Isso quer dizer que temos um acordo então? — pergunta ele.

Eu seguro a mão dele e a aperto firme, quase como um pacto silencioso.

— Só pra saber, isso é mesmo sério, não é? — pergunto, estreitando os olhos.

— Por que está pensando em desistir? — retruca ele, erguendo uma sobrancelha. — Já me viu sem roupas, então sabe o que esperar.

— Ainda bem que eu pulei o café hoje cedo — digo, apertando ainda mais a mão dele antes de soltar Rupert chama o garçom com um gesto preguiçoso, mas eu coloco a mão sobre o ombro dele, firme.

— Que tal se pularmos a cerveja e irmos cumprir o nosso recém-firmado acordo? — pergunto, olhando-o direto nos olhos.

Ele me encara por alguns segundos, como se pesasse as consequências, e então sorri com aquele ar de quem já escreveu a cena inteira na cabeça.

— Tá — diz ele. — Mas você vai pagar a conta.

Ele se levanta, ajeita o blazer com cotoveleiras e começa a andar em direção à porta, o cigarro ainda preso entre os dedos.

Eu tiro dinheiro do bolso, jogo sobre a mesa sem contar, ajeito meu chapéu e sigo atrás dele, atravessando o pub como se tivesse acabado de assinar o melhor contrato da minha vida.

Do lado de fora, a neblina de Cambridge nos engole. O som abafado das conversas e das canecas batendo fica para trás. Caminhamos lado a lado pela rua úmida, sem pressa, como dois conspiradores que sabem que o dia guarda mais do que promessas.

Rupert acende outro cigarro, me oferece fogo, e eu aceito. O silêncio entre nós não é desconfortável — é cúmplice.

E enquanto seguimos em direção ao hotel, penso que talvez, só talvez, os pecados vestidos de tweed sejam os únicos que realmente valem a pena.


***


Eu adoraria descrever cada detalhe do que houve naquele quarto de hotel, mas prefiro preservar um pouco da minha privacidade, espero que entendam. Basta dizer que cumprimos nosso acordo como verdadeiros cavalheiros.

Na frente do hotel, saímos juntos, ambos nervosos, sem saber exatamente o que dizer. A neblina de Cambridge parecia cúmplice, escondendo nossos silêncios.

— Pra onde você vai agora? — pergunta ele, acendendo outro cigarro com mãos ligeiramente trêmulas.

— Eu vou pra casa, tomar um belo banho, tirar o seu material genético de cima de mim e depois escrever um pouco — digo, ajeitando meu chapéu. — E você?

Ele parece envergonhado pelo que acabei de falar, mas disfarça com naturalidade.

— Eu vou jantar com os pais da Cynthia que estão na cidade — diz ele, surpreendendo-me pela calma com que pronuncia aquilo.

Eu sorrio sem conseguir evitar também acendendo um cigarro.

— Mande um abraço meu a eles — digo, soltando a fumaça devagar.

Ele balança a cabeça, dá um trago rápido no cigarro que ainda segurava e então estende a outra mão para um cumprimento.

Eu olho para aquela mão — a mesma que há pouco me tocava de um jeito que eu nunca imaginaria. Aperto firme.

— Muito obrigado pela tarde agradável — diz ele.

— Eu quem agradeço — digo, puxando-o discretamente para perto e falando bem no ouvido dele. — Eu te beijaria se não estivéssemos na rua.

Ele cora, olha ao redor.

— Pare imediatamente de falar isso — diz ele sem graça. — Estamos em público. Podemos nos encrencar.

— Não pude evitar — digo, rindo baixo.

Ele respira fundo, como quem volta ao papel de cidadão respeitável.

— Te vejo em breve — diz ele. — Por favor, mantenha contato. Quero saber como anda o livro.

— Pode deixar.

Nos despedimos. Ele segue pela rua em direção ao jantar com os futuros sogros, e eu caminho na direção oposta, com a sensação de ter feito o melhor acordo da minha vida. A neblina nos engole, e por um instante penso que talvez seja ela a única testemunha confiável dessa noite.

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