Os Homens E As Cores by Gean F.M. at Inkitt
Customize readability
Aa

Os Homens e as Cores

All Rights Reserved ©

Summary

Santa Rita é uma pequena ilha ensolarada que atrai, todos os anos, milhares de turistas. Em um verão que parecia ser como qualquer outro, Ivan Darli decide que não deixará mais a rotina repetitiva arruinar seus planos. Determinado a viver o melhor verão de sua vida, ele e sua amiga Cloe resolvem se aventurar nas experiências mais loucas que Santa Rita pode oferecer. O que Ivan não poderia imaginar é que um jovem turista vindo de Viena mexeria profundamente com seus sentimentos, fazendo-o mergulhar de cabeça em sensações novas e intensas. Entre descobertas, inseguranças e paixões inesperadas, ele perceberá que o amor pode surgir das formas mais improváveis - e que sempre encontra maneiras de se reinventar. Uma história leve e envolvente sobre verão, descobertas e as infinitas formas de amar.

Genre
Lgbtq
Author
Gean F.M.
Status
Ongoing
Chapters
9
Rating
n/a
Age Rating
18+

Branco: O ponto de partida.

_Tá sentindo a brisa?

Eu captava o movimento dos lábios de Cloe, mas não sua voz. O som parecia afogado, como se o mundo tivesse sido mergulhado em água e eu estivesse preso no fundo, olhando tudo acontecer na superfície.

Meu corpo estava estranhamente leve, distante da realidade. Eu olhava para a minha mão — meus dedos aumentavam e diminuíam a cada piscada, como se não obedecessem às leis naturais. As cores ao redor pulsavam em tons exagerados, quase fluorescentes. O azul era azul demais. O vermelho parecia queimar. Era como estar em uma balada noturna, mas sem a multidão, sem o calor, sem as vozes sobrepostas — apenas o eco silencioso de luzes que respiravam.

A brisa tocava meu rosto com delicadeza, mas até ela parecia artificial, como se alguém tivesse programado sua intensidade. Eu tentava focar em Cloe. Seus olhos tinham um brilho diferente, ou talvez fosse apenas o reflexo daquele universo distorcido.

— Você está aqui comigo? — ela perguntou de novo, agora mais devagar, como se falasse com alguém que estivesse aprendendo a ouvir.

Eu quis responder, mas minha própria voz parecia pertencer a outro corpo. Abri a boca e senti as palavras se dissolverem antes de nascer.

O chão sob meus pés ondulou por um segundo. Respirei fundo. O ar tinha gosto de algo metálico e doce ao mesmo tempo.

Talvez eu estivesse sonhando.Ou talvez estivesse acordando para alguma coisa que sempre esteve ali — só que escondida atrás da normalidade.

Ela acenava as mãos bem na frente do meu rosto até finalmente capturar minha atenção. Seus dedos atravessavam meu campo de visão como rastros de luz, deixando pequenos borrões coloridos no ar. Eu estava completamente afundado na maravilha daquela sensação — a estranha paz de estar perdido exatamente no momento que se desenrolava agora.

Uma música tocava no toca-fitas do carro, a fita girando com um chiado suave antes de cada refrão. O grave parecia bater direto no meu peito, enquanto o resto da melodia se espalhava como tinta na água.

Cloe ria alto com todas as minhas caretas, a cabeça jogada para trás, os cabelos dançando com a brisa que entrava pela janela aberta.

— Porra, você tá muito brisado.

A voz dela finalmente atravessou a névoa e me alcançou, ainda levemente distorcida, como se viesse de dentro de um túnel comprido demais.

Eu tentei responder, mas antes fiquei encarando o próprio riso dela — parecia desacelerar, quadro a quadro, como um filme antigo. Cada detalhe ganhava importância absurda: a curva do sorriso, o brilho no canto dos olhos, o som fragmentado da gargalhada.

— Eu... — comecei, mas a palavra se perdeu no meio do caminho. — Eu acho que tô sentindo tudo ao mesmo tempo.

Passei a mão pelo rosto, sentindo minha pele como se não fosse exatamente minha. O vento parecia atravessar meus pensamentos. A música, a noite, o cheiro do banco de tecido aquecido pelo dia — tudo era grande demais.

E, no fundo daquela confusão bonita, havia uma pequena pergunta sussurrando:

“Será que eu estava fora de mim...ou finalmente dentro demais?”

Cloe aumentou o volume do toca-fitas até o som vibrar na lataria. Abriu a porta do carro com impulso e, num salto ágil, subiu na caçamba, como se a noite inteira fosse um palco só dela.

Eu ainda batia as mãos nas coxas, tentando acompanhar o ritmo, quando criei coragem e abri a porta. O mundo deu uma leve inclinada. Desci meio tonto, apoiando a mão na lateral do carro, sentindo o metal frio sob os dedos.

— Vem, Ivan, sobe! — ela gritava, rindo, já dançando como se não existisse gravidade.

Tentei subir, mas minhas pernas pareciam não receber o memorando. Escorreguei uma vez, quase duas. Cloe, ainda rindo, estendeu a mão e me puxou com força suficiente para me arrancar do chão e me jogar ao lado dela.

A música pulsava alta demais, viva demais.

Fiquei parado por um segundo, observando-a dançar sem pausa — o cabelo rodopiando, os pés marcando o ritmo na lataria, os braços desenhando formas invisíveis no ar. Ela fazia sinais exagerados com as mãos, me chamando para entrar naquele universo particular.

Eu nunca fui bom em dançar.

Mas, naquela hora, isso parecia o detalhe mais irrelevante do mundo.

Comecei a me mexer do meu jeito — duro, travado, quase mecânico. Um robô tentando entender o que significa ter um corpo. Cada tentativa frustrada arrancava dela uma gargalhada nova, mais alta que a anterior.

E aquilo não me envergonhava. Pelo contrário. O riso dela era combustível.

Ela se aproximou, dançando colada a mim, os movimentos dela fluindo contra a minha rigidez. A proximidade tornava tudo mais intenso: o cheiro do perfume misturado com vento noturno, o calor da pele, a vibração da música atravessando nossos corpos.

A canção não parava.

Eu torcia para que nunca parasse.

Torcia para que aquela fita não chegasse ao fim, para que o chiado não anunciasse silêncio algum. Para que aquela noite se estendesse infinitamente, suspensa no tempo.

Queria que fôssemos sempre assim — jovens demais para medir consequências, inconsequentes demais para temer o amanhã.

Queria que o mundo ficasse exatamente daquele tamanho:uma caçamba de carro,uma música alta,o riso de Cloe,e a sensação de que nada jamais poderia nos alcançar.

Mas nada do que queremos permanece intacto. Nada volta a ser tão bom quanto a primeira vez — não com a mesma intensidade crua, não com o mesmo gosto de descoberta.

Ali, naquele lugar, sob aquela luz pálida que misturava lua e faróis distantes, com a praia respirando logo adiante e as luzes da cidade piscando como um lembrete de que o mundo continuava, eu sabia. Sabia que o amanhã viria com seu peso.

Eu me arrependeria.

De cada exagero.De cada palavra dita sem filtro.De cada decisão tomada no impulso.

E, ainda assim, eram justamente essas coisas que nos marcavam. Fazíamos porque queríamos sentir que não éramos apenas versões domesticadas de nós mesmos. Que não vivíamos só de horários, expectativas e regras silenciosas. Às vezes era preciso atravessar a linha — nem que fosse só para provar que ela existia.

Eu estava sem fôlego. Cloe também. A música diminuía aos poucos, a fita chegando ao fim com aquele chiado preguiçoso. O ritmo desacelerava como nossos próprios corações tentando encontrar um compasso normal.

Paramos.

Nos deitamos na caçamba, olhando para o céu aberto. Os efeitos do que quer que tivéssemos usado iam se dissolvendo devagar, como tinta diluída pela chuva. As cores já não gritavam tanto. O mundo voltava a ter contornos mais firmes.

Cloe apoiou a cabeça no meu ombro, o cabelo espalhado pelo meu peito. Ainda respirava ofegante, mas sorria daquele jeito calmo, diferente da gargalhada de minutos antes.

— A gente vai lembrar disso, né? — ela murmurou, quase num sussurro.

Eu não respondi de imediato. Fiquei olhando as estrelas, tentando memorizar a disposição delas, como se pudesse guardar aquele exato recorte do céu dentro de mim.

— Mesmo que doa um pouco depois... — completei.

Porque era isso. Algumas noites não existem para durar. Existem para marcar.

E, enquanto a música finalmente morria no toca-fitas e o silêncio da praia tomava conta, eu desejei — mesmo sabendo que era impossível — que o tempo tivesse piedade suficiente para deixar aquela versão de nós dois intacta em algum canto do universo. Observavamos o céu nortuno, com suas milhares de estrelas infinitas.

— Faltam três dias para o início do verão — disse Cloe, ainda ofegante, os olhos fixos no céu como se tentasse enxergar o futuro entre as estrelas.

Três dias.

O verão em Santa Rita era, ao mesmo tempo, a melhor e a pior época do ano. A cidade deixava de ser nossa e passava a pertencer aos visitantes — gente de todos os lugares, trazendo empolgação demais, risadas altas demais, carros demais. Vinham com os bolsos cheios e a sensação de que ali tudo era permitido.

Os comerciantes amavam. Era o período mais lucrativo do ano. As ruas se enchiam de música, luz e promessas de dinheiro fácil.

Eu nem tanto.

Santa Rita ficava apertada. Sufocante. Como se a ilha encolhesse a cada carro novo estacionado, a cada barraca improvisada na areia.

Eu teria que ajudar minha irmã no negócio de bebidas dos nossos pais. O movimento dobrava, às vezes triplicava. Caixas, gelo, troco, gritos, pedidos, mais gelo. Dias longos demais sob o sol forte demais.

E Cloe...

Quase não a veria.

Os pais dela tinham um negócio de pesca do outro lado da ilha. No verão, praticamente se mudavam para lá. Turistas pagavam caro por passeios, por peixe fresco, por qualquer coisa que tivesse gosto de mar autêntico. Ela passava dias inteiros ajudando, voltando para casa só quando o cansaço vencia.

— A gente vai ficar ocupado — eu disse, mais para mim do que para ela.

Ela virou o rosto na minha direção, ainda deitada, o cabelo espalhado na lataria da caçamba.

— Sempre ficamos — respondeu, mas havia algo diferente no tom. Não era despreocupação. Era consciência.

O vento soprou mais frio. Ou talvez fosse só a realidade se aproximando.

O verão chegava como uma onda bonita de longe — dourada, vibrante, cheia de promessa. Mas, quando quebrava, vinha com força suficiente para separar o que antes parecia inseparável.

Fiquei em silêncio, ouvindo o mar ao fundo, imaginando os dias acelerados que nos aguardavam.

Três dias.

Parecia pouco.Parecia inevitável.

— Vai tentar fisgar algum mauricinho rico esse ano? — perguntei, num tom debochado.

Cloe me deu um soco leve no braço.

— Ai!

Ela riu logo em seguida e me encarou, os olhos brilhando.

— Talvez. Por quê? Tá com ciúmes?

Revirei os olhos, rindo.

Cloe era importante para mim. Eu a amava — do jeito simples e antigo que nasce no jardim de infância e cresce junto com as pessoas. Minha melhor amiga desde sempre. E, sinceramente, eu nunca tinha sentido ciúme dela. Nem quando, no ensino médio, ela mudou de repente — corpo novo, olhares novos sobre ela, comentários que eu fingia não ouvir. Nem ali algo tinha me atravessado desse jeito.

— Claro — respondi. — Vou lançar meu olhar ameaçador pra todos eles.

Ela soltou uma gargalhada espontânea, daquelas que começam no peito e saem sem filtro.

— Acho que esse ano vou tentar ficar mais de boa. O do ano passado não saía do meu pé. Ainda tenho pesadelos com ele.

— Qual era mesmo o nome dele? — perguntei, sorrindo de lado.

— Não começa, Ivan.

— Vai, qual era? Lonton? Londres? Um negócio assim, né?

Ela se levantou na caçamba e me olhou, rindo baixo, quase constrangida.

— Era London.

Eu balancei a cabeça, segurando o riso.

— Isso definitivamente não é nome de homem. Mas eu imagino vocês dois e você dizendo: “Assim, querido London... não para, querido London...”

Ela não me deixou terminar. Pulou em cima de mim e começou a me cutucar sem parar, os dedos atacando minhas costelas. Eu gargalhava, tentando me defender, quase caindo da caçamba.

— Você é um babaca, Ivan Darli!

— Eu só tô dizendo que parece nome de capital europeia! — retruquei entre risadas.

A briga virou um emaranhado de risos e empurrões leves, até ficarmos sem ar de novo. Em algum momento, paramos. Ela ainda por cima de mim, segurando meus pulsos, tentando manter uma expressão séria que não durava dois segundos.

O riso dela foi diminuindo aos poucos.

E, por um instante, ficamos só nos olhando.

O vento voltou a soprar da praia, levantando o cabelo dela e trazendo o cheiro salgado do mar. A cidade piscava ao longe, indiferente à nossa pequena guerra.

Eu sorri.

Porque, independentemente de mauricinhos ricos, nomes estranhos ou verões caóticos, aquilo — aquele caos leve, aquele riso fácil — era o que realmente importava.

— E você, Ivan? Não vai fisgar nenhuma garota bonita? Até quando pretende permanecer esse virjão?

Eu ri e fiz uma careta exagerada.

— Vá se foder. Eu sou um homem à moda antiga.

Cloe me olhou séria por dois segundos — dois segundos longos demais — e então soltou um som de nojo dramático.

— Meu Deus, eu quero vomitar.

Ela saiu de cima de mim e desceu da caçamba com um pulo leve. Arrumou os cabelos loiros tingidos, curtos e desalinhados pelo vento, depois puxou a saia azul desbotada para o lugar. Me lançou um olhar de canto e foi em direção ao banco do motorista.

— Vem. Vamos pra casa. Não quero sua irmã no meu pé por causa do horário.

Eu me levantei, mas permaneci ali na caçamba, sentado outra vez. Observei o mar mais uma vez. Estava calmo. A lua refletia na água como um caminho prateado que levava a lugar nenhum — ou a todos os lugares.

Olhei para Cloe.

— Cloe... vamos prometer que esse verão tudo vai ser diferente.

Ela apoiou o braço na porta aberta e sorriu, já conhecendo aquela fala.

— Você me pede pra prometer isso todos os anos.

— Eu sei. Mas dessa vez eu quero que seja possível. Quero realmente sair da curva.

Falei sério. Talvez ainda fosse efeito do que usamos. Talvez fosse só a verdade que eu sempre escondia atrás das piadas. Sentia uma vontade de viver me atravessando — quase dolorida. Como se o mundo fosse pequeno demais. Como se houvesse algo em mim que ainda não tinha sido preenchido.

Santa Rita era casa. Era memória. Era raiz.

Mas também era repetição.

E, às vezes, a repetição sufoca.

Talvez fosse por isso que a gente fazia essas coisas — para sair da órbita, nem que fosse por algumas horas. Para aguentar mais um ano inteiro ali. Amávamos Santa Rita, mas ela podia ser cruel na monotonia. Em certos dias, a fuga parecia a única forma de colorir o cinza.

Cloe me observou por um momento mais longo do que o habitual.

— Tudo bem, querido. Eu prometo. Esse será o nosso verão.

Ela entrou no carro e ligou o motor.

De repente, senti a lataria vibrar sob meus pés.

— Ei! — gritei, tentando me equilibrar quando o carro começou a se mover.

A caçamba sacudiu. Eu me segurei na lateral, quase perdendo o equilíbrio antes de conseguir ficar de pé.

— O que você tá fazendo?!

Ela colocou metade do corpo para fora da janela, rindo como sempre.

— Te levando pra casa à moda antiga!

O vento bateu forte contra meu rosto enquanto o carro ganhava velocidade pela estrada quase vazia. A praia ficou para trás, a lua nos acompanhando como testemunha silenciosa.

E, ali, de pé na caçamba em movimento, com o coração acelerado e o futuro ainda indefinido, eu senti — pela primeira vez em muito tempo — que talvez a promessa pudesse ser real.

Talvez aquele verão fosse diferente.

Ou talvez fôssemos nós.

Chegando em casa, encontrei minha irmã dormindo no sofá, a televisão ainda ligada, lançando flashes azulados pelo rosto dela. Peguei o controle devagar de sua mão e desliguei a TV. Ela nem se mexeu. Fui até o armário, peguei uma manta fina e a cobri com cuidado. Por um instante, fiquei observando seu rosto tranquilo — tão diferente da correria que o verão nos traria em poucos dias.

Subi as escadas com Cloe logo atrás de mim. Entramos no meu quarto quase em silêncio e nos jogamos na cama, exaustos, ainda sentindo um leve resquício do que tínhamos usado — como se o mundo estivesse um pouco mais macio do que o normal.

Deitei de lado para olhar para ela. Cloe fez o mesmo.

Ficamos nos encarando sem dizer nada. Não era um silêncio desconfortável. Era cheio. Cheio de tudo o que já sabíamos um do outro. A respiração dela foi ficando mais lenta. A minha também.

E então adormecemos.

Naquela noite — ou talvez naquela manhã — eu sonhei.

Eu era pequeno de novo, correndo pela praia de Santa Rita numa manhã ensolarada demais. O céu tinha aquele azul limpo de verão recém-nascido. Meus pais estavam sentados em cadeiras de praia, conversando distraídos. Minha irmã nadava perto da margem com a melhor amiga dela, rindo alto, o som ecoando como algo distante.

Eu corria na direção dos meus pais.

Mas, por mais que minhas pernas se movessem, eu não parecia sair do lugar. A areia ficava pesada sob meus pés. A distância entre nós não diminuía.

— Pai! Mãe! — eu chamava.

Eles não reagiam.

Continuei correndo, agora com desespero. Minha voz parecia engolida pelo vento. Eles estavam ali, perfeitamente visíveis, mas inalcançáveis. Como se pertencessem a outra realidade.

Então acordei.

O quarto estava iluminado por uma luz dourada. Devia ser umas dez da manhã. O sol entrava pela fresta da janela, desenhando uma linha quente na parede.

Por um segundo, fiquei imóvel, sentindo o eco do sonho ainda grudado em mim.

Virei o rosto.

Cloe ainda dormia ao meu lado, o cabelo espalhado pelo travesseiro, a respiração calma. A luz do sol tocava metade do rosto dela, deixando a outra metade na sombra.

Fiquei observando-a em silêncio.

O sonho ainda apertava meu peito — aquela sensação de correr sem sair do lugar, de chamar e não ser ouvido.

Talvez fosse só saudade.Talvez fosse medo.

Ou talvez fosse apenas o aviso silencioso de que crescer é, de alguma forma, começar a perder distâncias que nunca mais poderão ser percorridas da mesma maneira.

Levantei-me e a dor de cabeça veio junto, martelando todos os lados do meu crânio como se alguém estivesse testando resistência óssea. Passei a mão pelo rosto, respirando fundo, e fui até o banheiro.

Abri o armário, tateando até encontrar um comprimido. Coloquei-o na boca e me inclinei sobre a pia. A água da torneira estava gelada. Enchi a boca, engoli de uma vez, sentindo o gosto amargo do remédio insistir por alguns segundos.

Fiquei ali parado, encarando meu reflexo. Olheiras leves. Cabelo bagunçado. A promessa de um verão diferente começando com uma ressaca moral e física.

Quando voltei para o quarto, Cloe já estava acordada, sentada e encostada na cabeceira da cama. Espreguiçava-se lentamente, como se tivesse dormido a melhor noite da vida.

Ela me olhou e sorriu.

— Bom dia, querido. Que noite, hein?

— Eu tô explodindo de dor. Você não?

Ela abriu um sorriso ainda maior e se levantou como se nada a tivesse atingido.

— Ah, meu amorzinho... Regra número um de ingerir certas coisas: esteja sempre preparado para os efeitos colaterais do dia seguinte.

Fiz uma careta de mau humor. Ela riu, veio até mim e apertou minha bochecha com força.

— Vem. Vamos ver o que sua querida irmã preparou de café. Tenho certeza de que você vai se sentir muito melhor depois de forrar o estômago.

Suspirei, ainda sentindo a cabeça latejar, mas deixei que ela me puxasse pela mão até a porta do quarto.

O sol já dominava a casa inteira. O dia estava claro demais, vivo demais — como se não se importasse com o fato de que nós dois ainda estávamos tentando nos recompor da noite anterior.

Talvez fosse isso que os dias faziam: seguiam em frente, independentemente do que prometemos sob a lua.

Descemos as escadas devagar — eu segurando o corrimão como se ele fosse meu melhor amigo naquele momento — enquanto Cloe descia quase pulando, elétrica demais para alguém que tinha passado pela mesma noite que eu.

Na cozinha, minha irmã organizava algumas garrafas e caixas sobre o balcão. O cheiro de café forte dominava o ambiente, misturado com o sal que sempre entrava pelas frestas da casa por causa da proximidade com a praia.

Cloe praticamente voou até ela.

— Bom dia, maninha! — disse, abraçando-a com entusiasmo exagerado.

Minha irmã tinha uma personalidade mais fechada, mais contida, mas com Cloe era diferente. Sempre acabava sorrindo daquele jeito sincero, como se não tivesse escolha diante daquela energia.

Ela retribuiu o abraço.

— Bom dia. Pelo visto alguém acordou muito bem hoje — disse, olhando para Cloe com um meio sorriso.

Eu me sentei à mesa, perto da porta que dava para o quintal e, além dele, para a faixa de areia que começava poucos metros depois. A luz da manhã entrava sem pedir licença.

Minha irmã trouxe uma xícara de café preto, forte o suficiente para ressuscitar defunto, e colocou na minha frente. Depois passou a mão pela minha cabeça, massageando devagar. Era um gesto automático, antigo. Relaxante. A dor começou a ceder aos poucos.

— Mas parece que nem todo mundo, né, meu queridinho irmão?

— Eu nunca mais confio na Cloe pra diversão — resmunguei antes de dar um gole no café.

Cloe saltou do banco alto e se sentou na minha frente, cruzando os braços sobre a mesa.

— Olha só, queridinho... da próxima vez que quiser um rolê entediante, pede pra tia da biblioteca municipal. Você queria diversão e eu te dei.

Ela piscou para mim.

Minha irmã riu baixo e voltou a organizar as coisas no balcão.

— Ivan, preciso que você esteja no bar às cinco pra organizarmos tudo pro verão.

Engoli mais um gole de café e respirei fundo.

— Temos que fazer isso hoje mesmo?

— Sim. Tudo tem que estar pronto até o fim de semana.

Ela pegou algumas caixas menores e foi em direção à porta do quintal, que dava acesso direto ao bar improvisado perto da areia.

Revirei os olhos.

Cloe soltou uma risada curta.

— Às cinco, não se atrase. E toma um banho.

— Ai, tá bom, meu Deus... nem começou a temporada e eu já estou sofrendo a pressão da nossa chefa Julia sem coração.

Minha irmã — Julia, oficialmente a general daquela operação de verão — soltou uma gargalhada verdadeira antes de sair pela portinha.

O som do mar entrou na cozinha junto com ela.

Fiquei olhando para a xícara de café, sentindo o calor nas mãos, pensando que o verão ainda nem tinha começado — e já dava sinais de que não pediria permissão para acontecer.

Cloe me observava com aquele sorriso de quem sabia que, apesar das reclamações, eu nunca fugiria.

E talvez fosse exatamente isso que me assustava.

— Acho que sua irmã deveria sair mais. Ela passa tempo demais presa no trabalho — disse Cloe, apoiando o quadril na mesa.

— É... eu sei. Mas você sabe como ela é. Prioriza tudo que considera relevante. E, no caso dela, isso sempre foi o trabalho.

Cloe pegou a própria xícara, lavou na pia e a deixou escorrendo. Ficou alguns segundos em silêncio, olhando pela janela para a faixa de areia quase vazia naquela manhã.

— A gente devia levar ela pra sair qualquer dia desses. Nem que seja à força. Vai que ela muda de ideia.

Soltei um riso curto.

— Você conhece a Julia há uns vinte anos. Sabe que ela odiaria isso.

Cloe deu de ombros, como se o impossível fosse apenas um detalhe menor.

Ela subiu as escadas num pulo rápido, provavelmente para pegar alguma coisa que tinha deixado no meu quarto. Voltou na mesma velocidade, parando perto da porta de saída. Sentou-se por um instante na cadeira de madeira, depois veio até mim.

Sem aviso, me deu um beijo leve na testa.

— Eu sei, querido. Mas vale a pena tentar. Afinal... esse é o nosso ano.

Eu sorri.

Ela acenou e saiu pela porta da frente, deixando o som do vento e do mar invadir a casa mais uma vez.

Fiquei sozinho na cozinha por alguns segundos.

Esse ano tem que ser diferente.

Não só para o verão. Para mim.

Talvez eu precisasse de um Ivan diferente — alguém que não aceitasse automaticamente o roteiro que sempre se repetia. Talvez eu precisasse dizer mais “sim” do que “depois”. Talvez eu precisasse parar de correr no mesmo lugar, como no sonho.

Coisas novas.Aventuras novas.Amigos novos.Lugares novos.

O que realmente pode acontecer se eu ceder ao meu instinto e arriscar?

A pergunta não soava mais como medo.

Soava como desafio.

E, enquanto o som das ondas preenchia o silêncio da casa em Santa Rita, eu tive a estranha sensação de que aquele verão — gostando eu ou não — estava prestes a me testar.

Let Gean F.M. know what you thought about this chapter!
Love this

1

Love this

Funny

0

Funny

Spicy

0

Spicy

Suspenseful

0

Suspenseful

Emotional

0

Emotional

Profound

0

Profound

Heartwarming

0

Heartwarming

Shocking

0

Shocking

Good Writing

0

Good Writing

Compelling Plot

0

Compelling Plot

Great Character

0

Great Character

Strong Dialog

0

Strong Dialog

Further Recommendations

Charly's Weihnachten

T.M: Ich kann es gar nicht anders sagen also ich liebe diese Geschichte einfach. Sie hat für mich einfach alles was es braucht. Sie hat mich einfach mitgenommen auf eine echt schöne Reise. Danke❤️

Read Now
Destino Secreto

Karin Rogowski: Gut geschrieben und beschrieben. Die Charaktere und Situationen sind stimmig und nehmen einen gefangen. Mich hat das Buch ab der ersten Zeile fasziniert, genau wie die anderen Bücher davor. Sehr guter Schreibstil und eine sehr gute Übersetzung, nebenbei bemerkt. Dankeschön, dass Du Deine Bücher ...

Read Now
Fated to My Ex- Best Friend

Kota2015: A really good read. This is my first time on this web site. Glad I found it!

Read Now
Half-Claimed

AlyKeller: I like this story, the cold hands stick with me. She wasn't that cold she was warm on her heart.She and her sister problems start in child hood her parents where not careful, one twins got it all.it's probalable the reason she was treat bad by her boyfriend and sister. I really like this story, espe...

Read Now
Mystic Wolf

Akthea: Fantastica

Read Now
The Grumpy Next Door

ccssppmm: A truly enchanting story. You start reading and you can't stop, I found myself reading with a smile on my face.I loved it.

Read Now
Ruthless Lord

Ock: romance captivante. Hâte de lire la suite

Read Now
Stripped Shadows

Pfefferwinz: Richtig gut geschrieben und spannend bis zum Schluss.Ich kann es nur absolut empfehlen und bin auch schon bei der Fortsetzung, ... soweit wie sie eben schon fertig gestellt ist. Ich bin sehr gespannt was noch kommt ♥️Danke für die Bereicherung meiner Freizeit. Für mich der perfekte Ausgleich zumArbe...

Read Now