Prólogo
Rodolfo Fenestrini era um coelho branquinho e ambicioso. Quando jovem, além de esforçado, ele era sempre otimista e resoluto em relação às perspectivas de seu futuro. Seu sonho era ser gerente na Lagomorph BioMedicine (LagBMed), uma empresa de biomedicina que ele admirava.
Um dia, quando ele mal havia atingido a fase adulta, Rodolfo levou sua namorada, Linda, uma bela coelha branquinha de olhos rosados, para frente da sede da LagBMed de sua cidade, apontou para a sede e disse para Linda:
– Você vai casar com o gerente daquela empresa.
Linda lhe mostra um sorriso brincalhão.
– É mesmo?
– Em breve, mais cedo que imagina, dentro de 10 anos, meu nome estará na mesa do gerente daquele lugar.
Com o decorrer dos próximos 10 anos, Rodolfo consegue seu cargo na LagBMed e avança profissionalmente até virar o vice-gerente regional, uma espécie de braço direito do gerente regional da empresa. Rodolfo teria atingido o sonho de ser gerente se a sua esposa, Linda, não tivesse tomado o cargo primeiro. Ao menos ele estava parcialmente correto: o sobrenome dele estava no identificador da mesa do gerente dentro do prazo estipulado. E o nome completo estava na mesa do vice-gerente.
Tanto Rodolfo quanto Linda levam a vida profissional e amorosa com seriedade e dedicação e preferem não misturá-las. Eles concordam em manter assuntos de trabalho longe de casa e assuntos de casa longe do trabalho. Rodolfo assume naturalmente o papel de líder da casa e do relacionamento com a esposa, enquanto que humildemente se sujeita à liderança de Linda no trabalho, sendo um verdadeiro assistente pessoal da gerente.
Rodolfo é tão estrito neste acordo que no trabalho ele sempre se refere a Linda como “Sra. Fenestrini”. Linda acha desnecessário, mas prefere não contrariar. Inclusive, no trabalho ela procura chamar o marido somente pelo nome, evitando termos e apelidos carinhosos.
Os Fenestrini também guardam um segredo: cada um possui um aparelho que eles acharam na casa que compraram ao casarem. Os aparelhos lhes permitem ir para um “limbo temporal” e de lá voltar para o exato ponto na linha do tempo de onde saíram. Tal funcionalidade se prova muito útil em certas situações, considerando a preocupação deles em cumprir seu papel específico em cada ambiente.
Com aquelas máquinas eles podem pedir ajuda para o cônjuge de outro momento da linha temporal sem grandes consequências.
Por algum motivo, não é possível que duas versões da mesma pessoa existam naquele limbo ao mesmo tempo, mas é possível que pessoas diferentes, de momentos distintos da linha do tempo ou não, estejam lá juntas.
Os aparelhos individuais de Rodolfo e Linda acompanham a posição, dentro ou fora do limbo, do outro aparelho. Quando ambos os aparelhos entram naquele limbo, eles esperam até que ambos estejam fora de lá ao mesmo tempo novamente e então, depois de um tempo desconhecido, eles apagam as memórias de seus usuários sobre o uso do aparelho para evitar complicações na linha do tempo. Portanto, a Linda do passado poderia, por exemplo, pedir conselhos para o Rodolfo do futuro, e vice-versa, sem que o respectivo cônjuge de seu ponto da linha do tempo jamais saiba. O casal está ciente de como funcionam os aparelhos e de que eles os usaram várias vezes, mas não lembra exatamente como os usaram.
Os aparelhos do limbo temporal são pequenos quadrados pretos que cabem no bolso e têm um grande botão redondo de plástico que os faz entrar ou sair do limbo. Linda ficou com o que tinha o botão índigo, que era seu tom preferido de azul, deixando o aparelho com botão turquesa para Rodolfo.