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A Garota Que Ele Destruiu…

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Summary

Anie aprendeu cedo que amar pode destruir uma pessoa. Não porque nasceu fraca, mas porque a vida a ensinou a sobreviver escondendo dores que ninguém nunca percebeu. Durante anos, tentou seguir em frente e fingir que Maylon tinha se tornado apenas uma lembrança. Até ele voltar. O garoto que um dia foi o seu lugar seguro agora é o homem que carrega todas as cicatrizes que ela tentou esquecer. Mais frio. Mais intenso. Mais perigoso. Anos atrás, Maylon foi embora sem olhar para trás, deixando promessas quebradas e um vazio que Anie nunca conseguiu preencher. Mas ele não voltou sozinho. Carina, sua ex-noiva, continua ao redor dele como um fantasma elegante e venenoso. Invejosa, manipuladora e incapaz de aceitar perder, ela fará qualquer coisa para afastar Anie mais uma vez. Só que o verdadeiro perigo tem nome. Ernesto. Cruel, obsessivo e incapaz de sentir remorso, ele não quer apenas destruir Maylon. Quer quebrar Anie lentamente, atingindo exatamente as feridas que ela esconde do mundo. Entre reencontros carregados de tensão, silêncios sufocantes e sentimentos que nunca morreram, Anie e Maylon vão descobrir que algumas histórias não acabam. Elas esperam. Crescem nas sombras. E voltam mais intensas. Porque o amor que tentaram esquecer ainda existe. E dessa vez, não será apenas o coração deles que estará em risco.

Genre
Romance
Author
Batistad
Status
Ongoing
Chapters
24
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 — O Dia em Que Você Voltou

Anie


O dia em que Maylon voltou, o céu estava claro demais para uma coisa tão cruel acontecer.

A luz atravessava os vidros da universidade como se nada no mundo tivesse sido quebrado.

Como se meu peito não soubesse reconhecer passos antes mesmo dos meus olhos.

Como se meu corpo não tivesse memória.

Mas ele tinha.

E quando virei o rosto e vi Maylon atravessando o corredor principal, com aquela postura de quem não pede licença nem para a própria dor, tudo dentro de mim parou.

O som das conversas ficou distante. O cheiro de café da cantina desapareceu. O chão pareceu inclinar um pouco sob meus pés.

Ele estava mais alto. Mais largo. Mais sério.

O garoto que um dia me abraçava como se eu fosse a única coisa certa do mundo tinha virado um homem de olhar fechado, barba por fazer e uma calma perigosa demais para alguém que já havia destruído minha vida uma vez.

Eu não devia sentir isso.

Não depois de tanto tempo.

Não depois de ter juntado meus pedaços com as mãos sangrando por dentro, sem que ninguém visse. Não depois de aprender a respirar sem esperar mensagem, sem esperar pedido de desculpa, sem esperar que ele voltasse.

Mas meu coração era um traidor antigo.

Ele ainda me afeta.

Droga.

A pasta escorregou dos meus dedos antes que eu percebesse. Folhas se espalharam pelo chão frio do corredor, como se até meus papéis tivessem desistido de fingir controle.

Abaixei depressa.

Precisava fazer alguma coisa com as mãos. Com os olhos. Com a vergonha.

Não podia olhar de novo.

Não posso me aproximar.

Mas ouvi os passos.

Lentos.

Firmes.

Conhecidos de um jeito que me deu raiva.

Então uma mão apareceu diante de mim, pegando uma das folhas. Dedos longos. Veias discretas. Pele morena. O mesmo anel preto no polegar. Meu estômago fechou.

Tarde demais.

Levantei o olhar.

Maylon estava agachado à minha frente.

Perto demais.

O cheiro dele me atingiu antes da voz. Amadeirado. Limpo. Quente. Um cheiro que meu corpo reconheceu com uma intimidade que me deu vontade de chorar.

Ele segurou a folha entre nós, mas não me entregou de imediato.

Ficou me olhando.

Como se tivesse direito.

Como se o tempo não tivesse passado.

Como se eu não tivesse sido deixada no pior dia da minha vida.

— Anie.

Meu nome na boca dele ainda era uma ferida.

A forma como ele disse foi baixa, quase rouca, como se também doesse nele.

Eu puxei a folha da mão dele com força demais.

— Não.

Ele franziu a testa.

— Não?

Juntei o restante dos papéis sem encará-lo.

— Não fala meu nome desse jeito.

O silêncio entre nós caiu pesado.

Por um segundo, achei que ele fosse recuar. Era o mínimo que alguém decente faria. Mas Maylon nunca foi bom em fazer o mínimo quando queria alguma coisa.

Ele continuou ali.

Respirando perto.

Existindo perto.

Machucando perto.

— Eu não sabia que você estudava aqui.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Claro que não sabia.

Ele entendeu a lâmina escondida na frase. Vi pelo modo como a mandíbula dele endureceu.

— Anie...

Levantei de uma vez.

Ele também levantou.

O erro foi esse.

De pé, ele parecia ainda maior. Mais presente. Mais impossível de ignorar. A distância entre nós era pequena demais para tantos anos. Pequena demais para tanto não dito.

Apertei a pasta contra o peito.

— Fica longe de mim.

Os olhos dele escureceram.

— Eu acabei de chegar.

— Então já chegou tarde.

A frase saiu antes que eu pudesse controlar.

Vi o impacto no rosto dele. Foi rápido. Quase nada. Mas eu conhecia Maylon antes de ele aprender a esconder tudo atrás daquela máscara adulta. Conhecia o menino que apertava a boca quando estava ferido. Conhecia o silêncio dele.

E odiava conhecer.

Porque isso significava que alguma parte de mim ainda guardava detalhes que eu deveria ter queimado.

Ele passou a mão pelo cabelo, olhando ao redor como se percebesse, só então, que havia pessoas passando, observando, cochichando.

Eu também percebi.

E percebi outra coisa.

Carina.

Ela estava parada perto da escada, impecável em uma roupa clara, os cabelos alinhados, a boca pintada de um vermelho elegante demais para aquela manhã. O olhar dela ia de mim para Maylon como quem mede uma ameaça.

Eu não a conhecia pessoalmente.

Mas conhecia o tipo.

Mulheres como Carina sorriem antes de ferir.

E ela sorriu.

Pequeno. Venenoso.

Maylon seguiu meu olhar e a viu. Alguma coisa atravessou o rosto dele. Irritação. Cansaço. Talvez culpa.

Ah.

Então era verdade.

Ele não tinha voltado sozinho.

A ex-noiva.

A mulher que, segundo os murmúrios que eu nunca pedi para ouvir, tinha sido perfeita para ele. Linda. Rica. Educada. O tipo de mulher que cabia no mundo dele sem rasgar as bordas.

Diferente de mim.

Eu dei um passo para trás.

Maylon percebeu.

— Anie, espera.

— Não.

— A gente precisa conversar.

Aquela frase abriu uma porta dentro de mim. Uma porta que eu mantinha trancada havia anos.

Conversar.

Ele queria conversar agora?

Depois de ter ido embora quando eu mais precisei dele?

Depois de deixar minhas mensagens sem resposta?

Depois de sumir como se o amor tivesse sido uma fase ruim?

Senti a garganta fechar.

Mas não chorei.

Eu tinha aprendido a não dar esse tipo de vitória para quem me quebrou.

— Por que você voltou?

A pergunta saiu baixa.

Não era só curiosidade.

Era acusação.

Era medo.

Era a parte mais fraca de mim implorando para ele dizer que voltou por mim, e a parte mais forte rezando para ele não dizer.

Maylon sustentou meu olhar.

— Porque eu precisava voltar.

— Para quê?

Ele abriu a boca.

Nada saiu.

E o vazio da resposta me atingiu com uma violência antiga.

Sorri sem alegria.

— Continua igual.

— Você não sabe de tudo.

— Não. Eu só sei o suficiente.

Ele deu um passo.

Eu dei outro para trás.

— Anie...

— Não agora.

Minha voz falhou no final, e odiei isso. Odiei que ele percebesse. Odiei que os olhos dele baixassem para minha boca por meio segundo, como se aquela falha tivesse tocado algo nele.

Meu corpo também percebeu.

O ar mudou.

A distância entre nós pareceu se encher de tudo que nunca foi embora. Do primeiro beijo atrás da quadra. Das mãos dele na minha cintura quando éramos jovens e burros o suficiente para achar que amor protegia de tudo. Do modo como ele dizia meu nome no escuro, como se eu fosse promessa.

Memória física é uma crueldade.

Ela não pergunta se você perdoou.

Ela só lembra.

Maylon respirou fundo.

— Eu procurei você.

A frase me atravessou.

Pisquei.

— O quê?

— Depois.

Meu peito apertou.

Depois.

Havia muitos depois entre nós.

Depois da noite em que ele foi embora.

Depois das minhas ligações.

Depois do hospital.

Depois do quarto branco demais.

Depois do sangue que ninguém deveria ver.

Depois do silêncio.

Apertei os dedos na pasta até as unhas doerem.

— Não mente para mim.

— Eu não estou mentindo.

— Você sumiu.

— Eu fui obrigado a ir.

Soltei uma risada baixa.

— Sempre tem uma desculpa boa, não é?

— Não era desculpa.

— Então era o quê, Maylon?

Meu tom subiu. Algumas pessoas olharam. Eu não me importei.

Ele olhou ao redor, depois voltou para mim.

— Não aqui.

— Claro. Porque sua vida sempre precisa parecer limpa por fora.

Os olhos dele queimaram.

— Você acha que eu fiquei bem?

Aquilo me irritou de um jeito irracional.

— Eu não me importo.

Mentira.

A pior mentira que já contei naquele dia.

Ele chegou mais perto. Não o suficiente para me tocar, mas o bastante para meu corpo entender o perigo.

— Se não se importa, por que está tremendo?

Baixei os olhos para minhas mãos.

Traidoras.

Estavam tremendo mesmo.

Fechei os punhos.

— Porque você me dá raiva.

— Só raiva?

Meu coração tropeçou.

O corredor inteiro desapareceu por um segundo.

Maylon perguntou baixo, mas a pergunta não era inocente. Ela vinha carregada de passado. De noites. De promessas. De desejo não resolvido. De tudo aquilo que eu tentei enterrar com nomes mais fáceis: ódio, rancor, sobrevivência.

— Não faz isso — murmurei.

— Isso o quê?

— Me olha como se ainda tivesse algum direito.

Ele ficou imóvel.

Então a máscara dele rachou um pouco.

— Eu perdi esse direito?

A pergunta foi quase um sussurro.

Doeu porque parecia verdadeira.

Doeu mais porque minha resposta também era.

— Você jogou fora.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, havia algo cru ali. Algo que me assustou mais do que a frieza.

— Se você soubesse...

— Não começa.

— Você não faz ideia do que aconteceu.

— E você não faz ideia do que eu sobrevivi.

O silêncio que veio depois não foi vazio.

Foi cheio demais.

Cheio de todas as palavras que quase saíram. Cheio do segredo que queimava minha língua havia anos. Cheio do bebê que ele nunca soube. Cheio do nome que eu nunca dei. Cheio da dor que me fez adulta antes da hora.

Maylon me observou como se tivesse sentido alguma coisa escapar de mim.

— O que você quer dizer com isso?

Meu corpo gelou.

Eu tinha falado demais.

Muito pouco para revelar.

O bastante para abrir uma fresta.

Desviei o rosto.

— Nada.

— Anie.

— Nada, Maylon.

— Olha pra mim.

Não olhei.

Porque, se olhasse, talvez ele visse.

E se ele visse, talvez perguntasse.

E se perguntasse, eu talvez não tivesse força para mentir de novo.

Do outro lado do corredor, Carina se aproximou.

O perfume dela chegou antes. Doce. Caro. Enjoativo.

— Maylon.

A voz era macia demais.

Ela parou ao lado dele como quem marca território.

Sorriu para mim.

— Você deve ser Anie.

Não gostei do modo como ela disse meu nome. Como se já tivesse provado e achado amargo.

Maylon não pareceu feliz com a presença dela.

— Carina, agora não.

O sorriso dela não caiu.

— Eu só vim lembrar que a reunião começa em dez minutos. Seu pai não gosta de esperar.

Pai.

Então não era só volta.

Era família. Poder. Algum plano antigo se reorganizando ao redor dele.

Carina tocou o braço de Maylon com intimidade calculada.

Meu estômago se contraiu.

Eu não devia sentir isso.

Ciúme era ridículo.

Ciúme era uma humilhação extra.

Mesmo assim, senti.

Carina percebeu.

Claro que percebeu.

Mulheres como ela farejam rachaduras.

— Desculpa interromper — disse ela, sem desculpa nenhuma na voz. — Não sabia que vocês eram próximos.

Olhei para Maylon.

Ele também olhou para mim.

Por um segundo, pareceu esperar que eu respondesse.

Quase ri.

Próximos.

Como se existisse palavra pequena o suficiente para o que fomos.

Como se “próximos” explicasse duas pessoas que se conheceram por dentro e depois fingiram virar estranhas.

— Não somos — respondi.

A frase saiu limpa.

Fria.

Final.

Maylon sentiu.

Vi nos olhos dele.

Carina sorriu mais.

— Entendi.

Não, ela não entendia nada.

E talvez fosse melhor assim.

Passei por eles.

Queria sair dali antes que o ar me rasgasse por dentro. Antes que Maylon dissesse meu nome de novo. Antes que minhas pernas desistissem de fingir força.

Mas ele segurou meu pulso.

Não com força.

Só o suficiente para me parar.

Meu corpo inteiro acendeu com aquele toque.

Raiva.

Saudade.

Desejo.

Medo.

Tudo junto, como uma música errada tocando alto demais dentro de mim.

Olhei para a mão dele.

Depois para o rosto.

— Solta.

Ele soltou imediatamente.

Mas o estrago já estava feito.

A pele do meu pulso ainda queimava.

— Desculpa — ele disse.

A palavra quase me desarmou.

Quase.

— Não encosta em mim.

— Eu não quis...

— Você nunca quis nada, Maylon. As coisas só acontecem e você vai embora depois.

Carina arqueou uma sobrancelha, interessada demais.

Maylon ficou pálido.

— Isso não é justo.

— Não?

Dei um passo na direção dele.

Agora fui eu que me aproximei.

Perto o bastante para sentir a respiração dele falhar.

Perto o bastante para ver que seus olhos ainda tinham aquele tom indecente entre o mel e a sombra.

Perto o bastante para lembrar como era ser beijada por ele.

Meu corpo quis inclinar.

Minha boca quase esqueceu o ódio.

Quase.

— Justo teria sido você atender o telefone — sussurrei.

Maylon congelou.

— Que telefone?

A pergunta caiu entre nós como vidro quebrando.

Senti o sangue fugir do meu rosto.

Não.

Não agora.

Não ali.

Carina estreitou os olhos.

Maylon deu um passo mais perto.

— Anie, que telefone?

Engoli seco.

Meu peito doía tanto que respirar parecia uma escolha perigosa.

— Esquece.

— Não.

A voz dele mudou.

Ficou baixa. Firme. Assustada.

— Você me ligou?

Meu estômago afundou.

Eu deveria mentir.

Deveria dizer que não.

Deveria proteger o túmulo invisível que carreguei sozinha por anos.

Mas a lembrança veio inteira.

Eu, sentada no chão frio do banheiro.

A tela do celular iluminando meus dedos tremendo.

O nome dele na chamada.

Uma vez.

Duas.

Três.

Nenhuma resposta.

Depois, a dor.

Depois, o hospital.

Depois, o silêncio definitivo.

Afastei-me.

— Eu disse para esquecer.

Maylon não piscou.

— Quando?

— Maylon — Carina chamou, agora menos doce. — A reunião.

Ele nem olhou para ela.

— Quando, Anie?

A intensidade dele me prendeu no lugar.

Mas havia outra coisa chegando.

Uma sensação ruim.

Meu celular vibrou dentro da bolsa.

Uma vez.

Duas.

Três.

Peguei sem pensar.

Número desconhecido.

A mensagem tinha apenas uma foto.

Minha foto.

Tirada naquele corredor.

Há poucos segundos.

Abaixo, uma frase:

“Ele voltou. Agora começa.”

O frio subiu pela minha nuca.

Minhas mãos perderam força.

Maylon viu meu rosto mudar.

— O que foi?

Eu não consegui responder.

A tela brilhou entre meus dedos como uma ameaça viva.

Carina tentou olhar.

Maylon tomou o celular da minha mão antes que eu pudesse reagir. Leu a mensagem.

E então o homem diante de mim desapareceu.

No lugar dele surgiu algo mais escuro.

Mais perigoso.

Mais assustado.

Ele levantou os olhos para mim.

— Quem mandou isso?

Minha garganta fechou.

Eu sabia.

Mesmo sem querer saber.

Mesmo antes de ouvir aquele nome de novo.

Porque algumas ameaças têm cheiro.

E a minha tinha nome.

Ernesto.

Meu celular vibrou outra vez na mão de Maylon.

Uma nova mensagem apareceu.

“Diga ao Maylon que ele ainda me deve uma vida.”

Maylon ficou imóvel.

E, pela primeira vez desde que voltou, eu vi medo nos olhos dele.

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