CAPÍTULO I - ARBURDICON

Arbatror entrou na Ponte de Comando da nave às pressas. Como Imediato, preocupava-se em estar o mais breve possível na presença de seu superior naquele exato momento. A nave executava as manobras finais de aproximação do terceiro planeta do Sistema Andrur. À frente de Arbatror, uma esfera azulada crescia em tamanho. Era noite no planeta que aparecia no imenso visor frontal da Ponte, considerando o ângulo pelo qual se aproximavam.
Herdron levantou o braço direito com o punho cerrado à altura da cabeça. Foi o bastante para que, mesmo sem emitir palavra, os navegadores soubessem que deveriam manter a gigantesca nave estável em sua posição.
“Parada total, Senhor”, um dos muitos oficiais sentados nas mesas de navegação respondeu em retorno à ordem visual dada.
No salão da Ponte, sob a parca iluminação dos controles manipulados pelos oficiais e uma discreta e elegante faixa que brilhava logo acima do elevador que trouxera Arbatror, todos entreolharam-se em um misto de curiosidade e contida surpresa.
Da cadeira de comando, no centro e no alto do ambiente, acima dos postos de trabalho dos navegadores, a imponente figura de Herdron girou a cabeça para trás na direção do Imediato.
“Estamos na posição certa.”
Não havia dúvida na voz grave de Herdron quanto a isso. Ouvia-se a exasperação, de quem havia feito aquela viagem, incrédulo em seus propósitos, em cada palavra da curta sentença.
Arbatror, mesmo assim, não hesitou. Tocou o finíssimo dispositivo translúcido que trazia em cima da luva negra de seu uniforme e disse:
“Informar localidade.”
Em consequência, uma voz masculina, quase imperceptivelmente metálica, inundou o local, agregando a sua fala imagens, em delicadas projeções de um azul frio e brilhante, que construíam, à medida em que acompanhavam a narrativa, o mapa de onde a nave se encontrava.
“Posição 4.5.7.8.9, vetor 3.5.7-1, Sistema Andrur confirmado”, descrevia calmamente a inteligência artificial, com a passagem das linhas azuis pelo espaço da Ponte. “Posição 4.5.7.8.9-1.2, vetor 3.5.7-1.4, Planeta Arburdicon, terceiro planeta da escala da estrela Termênis confirmado. Distância do Sistema Mator, confirmada. Distância de Talvegan, confirmada. Posição final: correta. Dartrok, Espaçonave Imperial de Combate e Exploração, Categoria 1, encontra-se no destino esperado”.
Arbatror queria dar de ombros, mas se conteve. Não seria apropriado na hierarquia e nem era de seu feitio ter reações espontâneas, mesmo que conhecesse seu Comandante há um considerável tempo.
“Arburdicon ...” a única coisa que conseguiu fazer foi reproduzir o nome do pequeno planeta à frente, como que reconfirmando o que o próprio computador de bordo já havia assegurado.
Herdron voltou-se para a imagem no visor.
“Não há uma única luz emanando desse lugar ... só escuridão. Pelos cálculos, acredito que ..."
“De acordo com nossos cientistas e historiadores, Arburdicon deveria estar em um estágio civilizatório nível 5, compatível com viagens estelares e exploração espacial de curto alcance. Tecnologia para os levarem até os confins deste Sistema”, Arbatror interrompeu-o.
“Então, o que houve? ” Herdron riu levemente, de um jeito debochado todo próprio. “Você vê algo ali compatível com uma civilização que explora outros corpos celestes?”
“Oficial de Ciências”, Arbatror virou-se firme para um rapaz um pouco mais jovem que ele mesmo, que trabalhava em pé, em uma estação lateral, na altura da plataforma em que estava o Comandante.
O rapaz, mesmo antes da solicitação velada do Imediato sobre informações, já estava mapeando todo o tipo de dado que pudesse dar pistas sobre a rocha escura que jazia à frente.
“Leitura da atmosfera, solo e área líquida indicam índices elevados de radiação”, o rapaz continuou deslizando os dedos da mão esquerda, frenéticos, entre telas iluminadas no ar. Passava-as, uma a uma, com agilidade na altura de seu peito. Lia o mais rápido que conseguia.
“A radiação é compatível com detritos e sub compostos de explosões nucleares primitivas. Descartada intervenção galmaniana pelo tipo de sinal”.
Herdron ergueu-se de sua cadeira. A longa capa de seu uniforme seguiu graciosa seu dono alto e corpulento.
“Radiação?” a palavra soou tão irreal quanto a viagem que o trouxera até ali.
“Alguma civilização nível 5 próxima com capacidade nuclear que justifique um ataque?” Arbatror perguntou ao Oficial de Ciências.
“Que civilização nível 5 transportaria armamentos tão primitivos pelo espaço para atacar outra, Arbatror?” Herdron retrucou com espanto.
“Nenhuma ...” o Imediato rendeu-se à obviedade da constatação de seu Comandante.
“A radiação é bem espalhada”, o jovem cientista completou. “Não há áreas de concentrações absolutas. Está por todo o planeta ...”
“Eles atiraram uns nos outros?” Herdron parecia confuso a respeito, mas no fundo achava a hipótese perfeitamente plausível. Ele fora um dos poucos que se opuseram à viagem a Arburdicon. Lembrava-se bem de seus protestos e argumentos nos quais defendia que se tratava de uma espécie há muito abandonada pelo Império e de natureza agressiva, pelo que havia de registros nos arquivos históricos de Talvegan.
“Em algumas partes, Senhor, a leitura de radiação é menor. Consegui varrer esta face do planeta por completo”, o Oficial continuou. “Há evidências de destruição em massa ...” ele suspirou. “O que parecem ter sido edificações estão em ruínas.”
Herdron olhou bem para o globo escuro no visor.
“Viemos então para nada?” e riu novamente com aquele seu particular ar de deboche.
“Seguimos as ordens do Imperador”, Arbatror disse com a máxima delicadeza. Ainda assim, não escapou do olhar reprovador do Comandante pelo comentário ousado.
“Sobreviventes?” Arbatror virou-se para o Oficial, tentando fugir da expressão pouco amigável que o arrebatava.
“Um momento, Senhor.”
Aproximou-se, então, de seu Comandante na esperança que a raiva já se dissipasse rapidamente. Sabia que, na verdade, mesmo que o olhar houvesse sido de reprimenda, Herdron era razoável e conhecia a fundo sua personalidade e intenções zelosas como “Segundo” na nave.
“Lembro bem das ordens de Karelffar”, Herdron murmurou suavemente, mas sem encará-lo. Manteve os olhos no horizonte do visor com o planeta à frente. Um desdobramento esperado. Era a forma como manifestava alguma flexibilidade e simpatia em sua natural dureza como Comandante de uma nave Imperial.
“Desculpe, Senhor, não quis ser impertinente ...”
“Você sabe que nunca concordei com essa empreitada. O que Karelffar esperava que encontrássemos?” O tom do Comandante continuou baixo. Não desejava que os oficiais tivessem ciência do que falavam.
“O Imperador é dedicado aos estudos de Arburdicon.” Compreendeu, acompanhando-o no mesmo tom de voz e, finalmente, ganhando de volta o olhar verde acinzentado de seu Comandante.
“Dedicado? Você pensou em dizer obcecado.”
Arbatror limitou-se a concordar com um aceno leve de cabeça e um sorriso.
“Karelffar imagina que encontraríamos guerreiros, aliados em nossa luta”, Herdron continuou. “Ele lê sobre as antigas explorações talveganianas, dos tempos das primeiras colonizações, e acha Arburdicon e os relatos fantásticos dos nossos oficiais da época apaixonantes.”
“Uma raça de humanoides curiosa e inteligente como nunca vimos, que nos encantava, enquanto nos confundia com deuses e nos adorava”, Arbatror enunciou eloquente um trecho famoso de um dos relatos aos quais Herdron se referia.
“Inteligente?” Herdron não se conteve.
Agora, finalmente, Arbatror arriscou o levantar de ombros para o qual não tivera coragem antes.
“Devemos reportar ao Império com brevidade, Senhor?” emendou a pergunta na sequência da ação.
“Sim, claro. Oficial de Comunicação”, Herdron voltou-se a um rapaz, no nível inferior da Ponte em uma estação próxima ao grande visor central. “Conecte a sala principal de observação deste deque da nave com o canal exclusivo do Imperador. Informe, previamente, que chegamos a nosso destino e que desejamos contar o que encontramos. Ninguém deve se dirigir para a sala enquanto estivermos na presença do Imperador. Arbatror, você vem comigo”, ordenou, chamando-o com uma das mãos em direção à saída.
Herdron e Arbatror deixaram a ponte. O primeiro pensava em como relatar a Karelffar o estado de destruição de Arburdicon. Ele sabia que suas frases, cheias de reprovação pela viagem sem propósito, soariam desafiadoras. O segundo pensava em que momento desceriam para investigar o pálido e morto ponto azul.
Entraram na sala principal de observação alguns corredores depois de deixarem a Ponte. O ambiente, com sua grande mesa ovalada no centro, deixava à mostra, através das laterais, o espaço escuro. Pequenos pontos iluminavam o cenário deslumbrante, enquanto planetas exibiam-se distantes. Arbatror nunca se cansaria de imagens como aquela. O espaço era misterioso, divinamente belo e trazia paz a sua alma nas constantes viagens. Ele esperou Herdron sentar-se para escolher uma das poucas cadeiras disponíveis para si próprio.
Herdron cruzou os braços e suspirou longamente.
“Pergunte ao Oficial de Ciências se já conseguiu descobrir se há sinais de seres vivos nesse lugar.”
Arbatror, prontamente, tocou o pequeno ponto de sua luva e voltou a questionar o Oficial sobre os resultados requisitados acerca de sobreviventes. O rosto iluminou-se quando o Oficial lhe respondera que localizara assentamentos. Virou-se para seu Comandante com indisfarçável entusiasmo na voz.
“Humanos. Encontramos humanos.”
“Transmita para cá o visual. Vejamos antes de falar com Karelffar.”
Em alguns segundos, um conjunto de imagens formou-se à cima da mesa ovalada. Primeiro, um mapa, apontando os assentamentos vistos do espaço como pontos vermelhos na região norte do planeta. A segunda imagem e as seguintes, mais precisas e extremamente nítidas, exibiam os pequenos povoados e seres transitando nestes lugares, em tempo real.
Herdron franziu a testa. A expressão era tão grave que Arbatror percebeu de imediato a insatisfação de seu Comandante.
“São primitivos!” Herdron reportou o óbvio em voz alta. “Bom, a julgar pela radiação que detectamos não seria surpresa alguma”, deduziu. “Esses pontos”, agitou a mão direita na direção do mapa. “O que são? Ou melhor, o que eram antes de ficarem assim?” bufou visivelmente contrariado com a constatação do atual estado de Arburdicon.
“Nossos registros históricos, Senhor, indicam que eram países que compuseram o que chamavam de Europa”, esclareceu a voz do Oficial de Ciências pelo diminuto aparato multifuncional na luva de Arbatror.
“Isso eram as regiões que exploramos no passado?”
“Não totalmente, Comandante”, o Oficial de Ciências continuou. “O Império Talvegan esteve presente nas áreas conhecidas como Egito, Roma, Grécia, Astecas, Maias e Incas. Poderíamos dizer, considerando Roma e Grécia, que nossos exploradores conheceram uma parte bem pequena do que viria a ser Europa.”
“O que são países?” Herdron não entendeu a referência.
“País é um agrupamento geopolítico com determinadas características culturais, Senhor.”
“Eles reproduziram, em microescala, a divisão que existe na Galáxia? Na Galáxia há algum sentido, afinal os planetas são diferentes entre si, habitados por raças diferentes entre si. Eles pertenciam todos ao mesmo planeta ... porque se dividiam? Seres incomuns, não?” Herdron encarou Arbatror com um tom propositadamente depreciativo na expressão.
“Nós também já nos dividimos no passado ...” Arbratror murmurou. Outro olhar gélido foi sua resposta.
“Há milênios, você quer dizer, não?” Herdron retrucou secamente.
“O Sentinela!” Arbatror cortou, subitamente, aquele momento de desprezo de seu superior. “Deixamos um Sentinela!” lembrou-se com a alegria de uma criança que descobre algo fascinante.
“Sim, Senhor. Há registro de um Sentinela deixado por nossos antepassados quando saíram de Arburdicon”, o Oficial confirmou.
“Verifique se o Sentinela está operacional na órbita e se transmitia dados para Talvegan”, Arbatror ordenou.
O Oficial, com agilidade, identificou a trajetória orbital do Sentinela e interceptou seu sinal.
“Sentinela funcional e transmitindo, Senhor”, anunciou. “Aparentemente, nunca interrompeu a transmissão nos últimos 5 mil anos da contagem temporal terráquea ... estamos recebendo informações de Arburdicon desde sempre em Talvegan”, terminou surpreso.
“Isso explicaria o fascínio do Imperador ...” Arbatror concluiu. “Karelffar devia estar estudando as transmissões e estar ciente da situação evolutiva de Arburdicon. Mas como ele não saberia de algum conflito ou catástrofe que houvesse ocorrido?”
“Senhor”, o Oficial interrompeu-o. “Uma correção. Sentinela continuou coletando dados de Arburdicon sem interrupções até o momento. Entretanto, as transmissões pararam no que parece ter sido o ano de 1815 do calendário humano. Não consigo estabelecer a razão em específico ... mas acredito que possa ter sido em consequência de impacto. O Sentinela parece danificado próximo à área de transmissão.”
“Consegue nos dizer em que estágio de desenvolvimento representa esta data para os humanos?” Herdron perguntou.
O Oficial continuou veloz nos dedos pelas imagens que flutuavam a seu redor, enquanto acionava, simultaneamente, a inteligência computacional da nave para mapear e diagnosticar a raça humana e seus feitos um pouco antes de 1815.
“Senhor, pelo que identifico rapidamente, arriscaria afirmar algo pré-civilizatório nível 3. Máquinas manuais, emissão de gases tóxicos, produção de escala limitada. Tecnologia bem primitiva ... o paralelo em Talvegan seria ...”
“Na aurora de nosso planeta”, Herdron completou. “Há tanto tempo atrás que nem nos lembramos ...”
“Isso também explicaria a curiosidade do Imperador”, Arbatror continuou. “Se Karelffar estava estudando e acompanhando registros humanos, é de se imaginar que desejasse saber o motivo do fim das transmissões do Sentinela e o que estava perdido em informações.”
“Essa é, então, definitivamente uma missão exploratória ...” Herdron suspirou certo de que os caprichos do Imperador os havia conduzido até ali. “Oficial, consulte e compile todos dados disponíveis dos últimos cem anos humanos que não recebemos do Sentinela”, ordenou. “Em quanto tempo consegue nos posicionar a respeito?”
“Precisarei de alguns minutos, Senhor.”
“Prossiga e nos retorne, então. Avise Comunicação para postergar um pouco o contato com o Imperador.”
“Sim, Senhor”, o Oficial assentiu, desligando.
Realmente, não mais que dez minutos se passariam até que o rapaz contatasse a sala principal de observação com os resultados da ordem cumprida. Durante esse intervalo, Arbatror e seu Comandante tergiversaram sobre ações que, talvez, poderiam executar nas próximas horas ou dias.
“O que descobriu?” Herdron começou a conversa.
“Nos últimos cem anos, ou século, como os humanos se referem a esse intervalo, parece ter havido uma forte disputa entre o que devem ter sido potências no planeta. Pelo que entendi, algo a ver com domínio de mercados. Exploração de recursos, Senhor. Como nós, em Talvegan, face aos Galmanianos.”
“Que tipo de recursos, Oficial?” Arbatror perguntou.
“Não fica claro, Senhor. Nada que me parecesse lógico. Os registros indicam disputas envolvendo recurso não reais, traduzidos em valores fictícios atribuídos a algo que chamavam de moeda. Não há nada que soe como razoável ... Há registros de escassez de recursos reais para alimentação e energéticos também. Mas ...”
“Continue, Oficial”, Arbatror estimulou, percebendo sua incredulidade.
“Mas a moeda ou moedas, pelo que entendi, havia várias, apresentam inúmeras referências nas gravações do Sentinela. Isso e disputa de mercados para circulação desse conceito de “moeda” são temas recorrente nas tensões. As flutuações atribuídas a esse valor fictício também me pareceram muito importante na cultura contemporânea deles. Importante a ponto de justificar um conflito.”
“Então, eles realmente tiveram um conflito? Exiba o planeta e identifique onde ocorreu o conflito”, Arbatror pediu.
O planeta surgiu à frente de Arbatror e Herdron acima da mesa ovalada. Tudo estava marcado com um tom alaranjado vivo na projeção flutuante da esfera o que, aliás, condizia com a observação do Oficial sobre a radiação em toda parte.
“O planeta inteiro ...” Herdron disse pausadamente. A expectativa que nutria, desde o início daquela pequena investigação sobre Arburdicon, finalmente estava confirmada. “Destruíram uns aos outros ...”
“O conflito foi em escala global de fato”, o Oficial continuou. “Os humanos chamaram de Terceira Guerra. Identifiquei que houvera duas antecessoras.”
“Não é extraordinário?” Herdron riu prazerosamente. Um riso honesto em sua satisfação. “Eles conseguiram a façanha de três guerras entre eles mesmo!”
Arbatror encolheu-se na cadeira.
“Por isso, não há luzes no planeta ...” Um lamento genuíno podia ser percebido no seu comentário. Era simpatizante das histórias sobre Arburdicon. Jamais confessaria isso a Herdron, mas partilhava do mesmo romantismo do Imperador pelo pequeno planeta azul.
“Após o conflito, Oficial, o que temos de registro no Sentinela?
“Nada, Comandante. As comunicações do planeta cessaram. O conflito foi devastador. As estimativas a que cheguei, em simulações, é que o extermínio tenha sido em larga escala no ano do conflito e nos anos seguintes”.
“Silêncio porque não havia mais nada a captar e gravar ...” Arbatror concluiu.
“Ano do conflito?” Herdron recostou-se tranquilamente na cadeira. Agora, certo de que olhava para um planeta destruído, sentia uma certa curiosidade em conhecer o final da história da civilização humana. Uma curiosidade meio sombria que se juntava a seu imenso desejo de deixar aquele sistema solar tão distante de Talvegan.
“2.036 do calendário humano, Senhor”, o Oficial de Ciências respondeu.
“Os pontos vermelhos que você mostrou antes foram responsáveis pelo conflito?”
“Boa parte sim, Comandante. Entendi que muitos países participaram da Guerra. Em especial, países da área norte do planeta.”
Arbatror e Herdron entreolharam-se. Deveriam dar essas notícias ao Imperador Karelffar. E não se passaria muito tempo entre a breve conferência de Herdron, seu Imediato e o Oficial de Ciências da Espaçonave Dartrok e a chamada do Oficial de Comunicação, anunciando que o Imperador apareceria projetado na sala principal de observação. Herdron e Arbatror não puderam articular quaisquer pensamentos em comum, decentemente, antes da imagem de Karelffar materializar-se na sala.
“Majestade”, em uníssono, Herdron e Albatror cumprimentaram-no em pé, curvando levemente os corpos em sinal de reverência. Só após receberem um sorriso amistoso de volta e um leve gesticular para que se sentassem, Comandante e Imediato sentiram-se autorizados a retomarem seus lugares junto à mesa.
O jovem Imperador, com belo rosto e o vigor típico dos homens de sua idade, retirava o véu que lhe cobria os longos cabelos castanhos. A leve tiara, que assentava o véu branco em sua cabeça, saíra junto. Ele estava com vestimentas ornamentais. Devia ter participado de alguma cerimônia.
O olhar de Herdron foi atraído para o véu e para a tiara que simbolizavam o sagrado que guiava os Monarcas de Talvegan. A tiara, de metal parecido com o ouro dos humanos, brilhava encantadoramente. Nada poderia ser diferente daquilo, pensou, pois a tiara remetia ao conhecimento primordial que havia gerado tudo que existia, quando a primeira luz havia aparecido para informar e gerar todas as outras luzes e toda a matéria que nascia e renascia, em um ciclo quase eterno. Quase eterno, acreditavam os talveganianos, porque nada era infinito. Como tudo começara um dia, tudo deveria um dia terminar.
Sem querer, permitiu também que seus olhos admirassem o suntuoso traje de Karellfar. A cor azul extremamente escura, em contraste com o dourado, representava o universo em sua escuridão, e as estrelas, berçário da vida em suas fantásticas explosões e no ocaso de suas mortes.
Os talveganianos eram uma gente religiosa a sua maneira. Eles acreditavam na força original, que inundou o cosmos e permitiu que tudo existisse, dos seres complexos aos seres minúsculos e simples, das mais ínfimas partículas na matéria até as manifestações gigantescas de quasares e buracos negros. Tudo o que possuía um lugar no espaço viera e voltaria para essa força original. Amparados nessa crença, a família real talveganiana, desde os princípios do Império, homenageava essa força nos rituais.
Karelffar, em sua projeção corpórea, virou-se para a imensa área lateral de observação.
“Arburdicon! Magnífico como dizem os escritos de nossos antepassados! Já fizeram contato?”
Arbatror e Herdron entreolharam-se novamente. Herdron suspirou antes de tomar a palavra.
“Não, Majestade”, limitou-se a uma resposta curta.
“Por que razão não, Comandante?” Karelffar reagiu com admiração.
Herdron rateou a voz, tossindo levemente antes de responder.
“Não há nada para contatarmos, Majestade. O planeta está em ruínas”.
Karelffar franziu a testa, a expressão definitivamente conturbada. Galman não se interessava, ao menos ainda, por aquele quadrante da Galáxia.
“Travaram uma guerra entre eles ... destruíram-se.”
A expressão do Imperador continuou inquieta.
“Tudo o que encontramos foram radiação, destroços e uns poucos povoados em condições lamentáveis”, Arbatror completou a fala de seu Comandante. “Não podemos ter os humanos como aliados, Majestade, se essa era a intenção de Vossa Majestade”.
Karelffar demorou a reagir à sentença que ouvira. Alguém se aproximara do Imperador e o ajudava a retirar o traje azul. Por baixo, viam-se, no corpo altivo, a roupa usual da realeza: camisa branca com longas mangas afofadas nos punhos e a calça branca sobre a qual corria um cinturão dourado com franjas que lhe iam abaixo do quadril. Botas, tão alvas quanto à roupa, subiam por fora da calça.
Um pajem colocou um manto de forte cor vermelha em Karelffar, perpassando-o em largos e meticulosos franzidos sobre o peito do Imperador e prendendo uma das partes no ombro com um grande ornamento, também dourado, na forma da cabeça da imponente ave símbolo da família real e do Império. O mesmo manto vermelho estendeu atrás do Imperador, deixando que caísse como uma pseudo capa lateral à direita de suas costas. Karelffar permanecia calado, pensativo. O pajem terminou seu serviço, encaixando um adorno em pedras brilhantes do pescoço do Imperador até alcançar o manto vermelho sobre o peito. O mesmo material estava presente nos adornos que seguiram para os pulsos, sob as mangas fofas. Finalmente, após todo o processo, ao ver o pajem cumprimentá-lo e afastar-se, o Imperador disse:
“Façam contato”.
Herdron não entendeu.
“Majestade, Arburdicon não possui sequer recursos de aurinion que possamos extrair. Aliás, esse sistema solar inteiro é pobre no minério. Detectamos aurinion apenas em duas luas de um planeta colorido com grandes anéis a sua volta. Como os humanos chamavam mesmo esse planeta?”, recorreu a Arbatror.
“Saturno”, o Imediato sussurrou.
“Saturno!” Herdron completou em voz alta, como se quisesse demonstrar que havia se recordado. “E mesmo nessas luas, as quantidades são irrisórias! Dartrok e a frota que a acompanha seria de maior uso extraindo esse pouco minério e investigando a área do quadrante. Podemos descobrir novas potenciais colônias ou mesmo tropas galmanianas tão perdidas quanto nós por aqui ...”
Karelffar sorriu. Herdron, sem notar, havia deixado claro como se sentia sobre a missão a Arburdicon: perda de tempo, de energia, de tudo.
“Desçam o quanto antes”, o Imperador disse calmo. “E me reportem tão logo tenham informações sobre os povoados que detectaram. É meu desejo.”
Com essa frase final, a imagem de Karelffar desfez-se no ar em milhões de minúsculos pontos luminosos.
Herdron respirou fundo e sentou-se. Ergueu o olhar na direção de Arbatror que continuava de pé.
“Prepare uma missão exploratória. Trinta pessoas. Dez oficiais cientistas e médicos. O restante, soldados. Uma nave apenas descerá. Bem armada. São primitivos, mas não desceremos sem precauções.”
Arbatror sentiu-se confuso. Armas? Para quê armas contra criaturas desprovidas de tecnologia?
“Não me interessa que sejam primitivos”, Herdron entendeu bem o silêncio e o semblante do Imediato. “Desceremos armados de acordo com uma incursão em terreno hostil. Considero humanos imprevisíveis e violentos. Para não acrescentar à lista estúpidos! E isso é o que importa.”
Arbatror assentiu com a cabeça.
“Algo mais, Senhor?”
“Disperse a frota pelo sistema solar e proximidades. Uma nave deve patrulhar para além da zona de influência da estrela. As demais devem se organizar e vigiar o sistema em si, dividindo-se pela área de asteroides ao final e a área dos planetas internos. Dartrok deve se retirar da órbita e aproximar-se do satélite de Arburdicon. Quero posição defensiva.”
“Sim, Senhor.”
Herdron levantou-se e caminhou para a saída da sala. Voltou-se para trás quando a porta abriu.
“E você e eu desceremos.”
Saiu, deixando Arbatror com o inusitado anúncio e com um súbito frenesi na alma. Ele finalmente conheceria de perto o mito de Arburdicon contado nos livros antigos de Talvegan.