Quando tudo mudou ⚡(capítulo 1)
Sara era uma menina comum... ou pelo menos era isso que todos diziam.
Mas a verdade é que a vida dela nunca teve nada de comum.
Ela passava a maior parte do tempo trancada no próprio quarto, deitada na cama, mexendo no celular sem realmente prestar atenção em nada. Era como se o mundo lá fora fosse barulho demais... e dentro dela já tivesse barulho suficiente.
O quarto dela era simples. Um lugar onde ela tentava existir sem ser incomodada.
Até que—
— Sara, vem aqui agora!
A voz da mãe atravessou a casa inteira.
Sara fechou os olhos por um segundo, como se isso pudesse apagar o som.
Mas não apagou.
Ela soltou um suspiro longo, jogou o celular na cama e se levantou.
Quando chegou na sala, a mãe já estava lá, com aquele olhar cansado e irritado.
— O que foi, mãe?
A mulher cruzou os braços.
— O que você vai fazer da sua vida, Sara? Vai ficar trancada nesse quarto pra sempre?
Sara desviou o olhar.
Ela já tinha ouvido aquilo tantas vezes que parecia parte da casa.
— Eu só tô cansada... eu queria ir embora daqui.
A mãe soltou uma risada seca.
— Ir embora? E com quem? Com seus "amigos"?
Sara sentiu o peito apertar.
Porque ela sabia que não tinha amigos de verdade.
— Vai fazer alguma coisa útil da sua vida. Para de agir como se tivesse escolha.
Sara engoliu seco.
— Eu vou sair com meus amigos.
A mãe riu mais alto.
— Amigos?
Aquilo bateu mais forte do que deveria.
Sara não respondeu.
Só virou as costas.
E saiu de casa enquanto os gritos continuavam atrás dela.
A rua estava escura.
O vento soprava forte, fazendo o cabelo dela bater no rosto.
Sara caminhava sozinha, com aquela sensação estranha de estar sendo observada o tempo todo.
Homens passavam por ela, olhares rápidos demais... desconfortáveis demais.
Ela apertou o passo.
O mundo parecia grande demais para ela.
Na praça, já estavam eles.
As pessoas que chamavam de amigos.
Sara sabia que não eram.
Mas era o que tinha.
E lá estava Rafael.
Seu namorado.
Ele parecia sempre impecável. Sempre no lugar certo. Sempre com a imagem perfeita.
Rafael tinha 19 anos. Era gentil, rico, cuidadoso com a mãe dela... e sempre dizia as palavras certas.
Mas havia algo nele que Sara nunca conseguiu ignorar completamente.
Algo que parecia mais encenação do que verdade.
Mesmo assim, todo mundo o amava.
Menos ela... do jeito real.
O grupo conversava animado.
Falavam de festas, dinheiro, roupas, viagens, vidas perfeitas.
Sara apenas observava.
Quando perguntavam algo pra ela, ela mentia.
Criava uma versão da vida que ninguém iria questionar.
Rafael então a puxou e a beijou na frente de todos.
O grupo riu.
Mas não era riso de felicidade.
Era riso de algo estranho.
De algo que todos sabiam... menos ela.
Ou talvez ela também soubesse, mas fingisse que não.
Mais tarde, Rafael a chamou para longe do grupo.
— Você tá estranha hoje.
— Eu só tô cansada desses seus amigos.
Ele franziu o rosto.
— Você precisa aprender a se comportar. É por isso que você não tem amigos.
Sara ficou em silêncio.
Aquilo era sempre assim.
Sempre culpa dela.
Sempre algo errado nela.
Ela virou as costas e foi embora.
E, no caminho, deixou até a comida cair sem perceber.
Em casa, a porta mal fechou e a voz da mãe já veio de novo.
— Você não entende, Sara? O Rafael é o seu futuro!
— Ele vai te salvar dessa vida!
Sara não respondeu.
Só entrou no quarto.
Fechou a porta.
E se deixou cair contra a parede.
O silêncio ali dentro parecia mais pesado do que qualquer grito.
Naquela noite, ela foi obrigada a sair de novo.
— Você vai pedir desculpa pra ele.
A mãe não perguntou.
Mandou.
Sara não queria.
Mas aceitou.
Porque já tinha perdido o pai.
Já tinha perdido o irmão.
E tinha medo de perder o pouco que ainda restava... mesmo que esse pouco também doesse.
Ela se arrumou.
Saia preta.
Blusa branca.
Tênis branco.
Por um segundo, ela se olhou no espelho.
E quase gostou do que viu.
Quase.
Mas não o suficiente.
Nunca o suficiente.
Quando saiu do quarto, a mãe olhou para ela com desprezo.
— Tá parecendo uma qualquer.
Sara voltou.
Trocou a saia por uma calça preta.
E saiu mesmo assim.
O vento estava mais frio do que antes.
A noite parecia mais escura.
E então a chuva começou.
Mesmo assim, ela continuou andando.
Rafael nem tinha ido buscá-la.
Mas ainda era "um bom namorado".
Segundo todo mundo.
Quando chegou, ele a olhou como se ela estivesse atrasada demais... ou errada demais.
A discussão começou.
Palavras duras.
Silêncios mais duros ainda.
E, como sempre, ela saiu pior do que entrou.
No caminho de volta, o mundo parecia diferente.
O vento ficou mais forte.
O céu começou a tremer com trovões distantes.
Sara não parou.
Ela já tinha decidido.
Ia embora.
Sumir.
Recomeçar.
Quando chegou em casa, não entrou pela porta.
Subiu pela janela do quarto.
Algo estava errado.
A casa parecia mais pesada.
Mais silenciosa.
Mais viva.
Como se estivesse esperando algo acontecer.
E então ela sentiu.
O ar mudou.
O vento parou por um segundo... como se o mundo prendesse a respiração.
E depois—
Um raio cortou o céu.
Direto nela.
Sara não teve tempo de reagir.
A luz engoliu tudo.
O som desapareceu.
O corpo perdeu força.
E o mundo caiu.
Quando abriu os olhos...
Ela não estava mais lá.
Um lugar estranho.
Desconhecido.
Vivo.
Como se respirasse.
Ela viu um garoto.
— Onde eu tô? — ela perguntou.
Ele a olhou.
— Quem é você?
— Sara.
— Eu sou Caio.
Ele observou o lugar ao redor.
— Você tá em Elaris.
E naquele momento...
Tudo mudou.








