A Escolhida

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Summary

Misty é uma garota que perdeu a mãe aos 13 anos, por um enorme lobo preto de olhos vermelhos. Tal assassinato gerou uma guerra entre 2 territórios, após o confronto decidiram nunca mais se cruzarem, e manterem limites nas fronteiras. Aquele que rompesse os limites seria condenado a uma morte dolorosa. Em um dia de fúria, Misty se vê dentro deste território assassino, que seu companheiro vive. Por alguma razão, seus pelos estão em chamas. E seu pior pesadelo dá início.

Genre
Scifi/Mystery
Author
Mistyc
Status
Ongoing
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
18+

Chapter 1

ههMemóriasهه


Capítulo 1


Conrí

Tudo que eu via era um borrão vermelho.

Não importava a direção, não importava o quanto eu tentasse, não conseguia controlar meu próprio corpo.

Ouvia apenas gritos se esvaindo e vozes gritando ao fundo.

Sentia um gosto forte, metálico.

Um cheiro de ferro.

Era sangue.

Agora via com meus próprios olhos perfeitamente a cena.

Uma besta enorme, os olhos ardendo em vermelho. Seu pelo preto manchado de sangue.

E uma mulher.

Com a pele pálida, e parte de seu ombro por entre os dentes do grande lobo.

Seu cabelo em tom cinza escuro caindo sobre as patas do animal, o sangue escorrendo sobre seu braço e pingando na neve branca.

Os olhos vidraram em mim, e começaram à vir em minha direção em alta velocidade.

E eu caí.

Num abismo vermelho que mais parecia o inferno.

Cada vez mais fundo.

Mais quente.

E...

Ω


Vi um lençol cinza.

Estava num quarto, um quarto escuro.

Era o meu quarto.

Imediatamente soltei um suspiro alto, mas não tinha ideia se era alívio ou cansaço.

Cansaço de reviver esse trauma todas as noites. De ver, sentir o cheiro daquele sangue. Olhei para a cama a minha volta. Encharcada. E então me levantei.

Afinal, sabia que não conseguiria dormir novamente.


Misty

Lá estava eu.

Sentada, à beira do rio onde minha mãe foi morta.

Com as costas apoiada em uma árvore.

Eu olhava para as nuvens passando entre as folhas dos pinheiros no céu que amanhecia.

O dia estava limpo, e bonito.

Mas meu coração estava triste. Hoje, dia 20 do mês de Outubro. Completa exatamente 7 anos que ela morreu.

Mesmo que faça tanto tempo, ainda não consigo apagar da minha mente a cena.

Seu sangue escorrendo, os dentes da fera cravados em seu ombro.

E aqueles olhos...

Vermelho vivo.

Me olhavam com tanta raiva, tanta fúria...

Fico me perguntando.

Quem seria capaz de tal coisa?

Quem seria capaz de tal abominação?

Matando da própria espécie...

Um suspiro escapa dos meus lábios, e ouço alguns pássaros começarem à cantar.

Fecho meus olhos e apenas escuto.

A água correndo, o cantar dos pássaros, minha respiração lenta, um galho quebrando, e... Um galho quebrando?

No mesmo instante sinto um baque forte contra meu corpo que me derruba no chão.

Quando olho pra cima prestes a me defender, vejo um lobo preto, com uma mancha branca no peito, e olhos azuis.

- Aah! Mas que merda você está fazendo??!! - Gritei empurrando-o para longe e tirando as folhas secas que grudaram na minha roupa.

- Você é muito distraída - Disse Ray telepaticamente para mim.

Isso era algo que nós, como lobos, tínhamos. Somos uma espécie de lúpus. Ou seja, 'lobisomem”, se você quiser chamar assim... Temos o poder de nos transformar em lobos a hora que desejarmos.

Somos unidos em matilhas, assim como lobos normais, temos uma hierarquia a seguir.

Mas somos respectivamente maiores, nossas cabeças passam da altura de um humano. Podemos também conversar com nossos semelhantes através de pensamentos.

- Hm. -Bufei, - O que você está fazendo aqui Ray? Sabe que deveria estar treinando com o alfa. - Olhei para ele novamente me levantando. Ele olhou para o chão, e vi seu peito subir e descer.

- Bom, você sabe.. -Disse Ray deitando no chão e recostando a cabeça sobre as patas, - Hoje faz 7 anos.

Fiquei ali o olhando por um momento, até que relaxei e me sentei ao seu lado.

Ficamos encarando o riacho por um longo tempo.


Ω


Já era quase meio-dia.

Ray dormia ao meu lado em sua forma de lobo. Passo as mãos nele, acariciando seu pelo.

Era um pouco seco, mas brilhoso. Ray não é muito de cuidar do próprio corpo.

Me escapa um sorriso e ergo a cabeça para o céu. Aiai.. Ray, Ray. Um pestinha que cuida dos outros, mas não cuida de si mesmo.

Queria que você não tivesse que ver aquela cena. Talvez assim você não teria esse instinto em você, esse medo de não querer perder mais ninguém que você ama.

Ray tinha 8 anos quando nossa mãe morreu, eu tinha 13 anos.

Lembro bem da emoção em seu rosto.

Ele simplesmente paralisou, ficou lá como uma estátua. Os olhos azuis arregalados.

Aquele dia foi o pior da minha vida.

Não tenho certeza se deveria agradecer, ou me culpar...

Afinal, era para ser eu na boca da besta, não ela. Minha mãe se sacrificou, para me salvar...

- Vamos voltar para casa Mis? - Diz Ray bocejando, pondo sua enorme língua para fora da boca, me distraindo dos meus devaneios.

Olho para ele e digo - Sim, vamos voltar para a casa. - Nos levantamos e caminhamos pela trilha da floresta, de volta para a casa da matilha.

- Misty, você acha que algum dia isso irá mudar? - Ray fala por pensamento, sem me olhar, andando à minha frente.

Fico olhando como as folhas secas de outono que vem vindo contrastam o pelo preto dele.

Não o respondo, e continuamos caminhando, até que chegamos na casa.

A casa da matilha fica na Noruega, nosso território se chama Coastlagoon. Como o próprio nome diz, o território fica perto de uma grande lagoa, que acaba no mar. Já a casa, fica entre um círculo formado por pinheiros, protegida de ser vista. É quase como se fosse um castelo no centro, cercado por um campo vasto e limpo, flores de todas as cores e tipos.

No meio há uma calçada laranja que leva às portas de ferro. Caminhamos até a porta calmamente, passando pelos guerreiros que guardam a entrada.

De perto é possível ver desenhos como arabescos, e no centro a face de um lobo, dividida pela porta.

Entrando, somos abordados por um homem mais velho, com rugas finas e leves abaixo dos olhos, cabelo marrom vibrante e olhos azuis claro.

Vindo em nossa direção, olhava com raiva para Ray. Muita raiva.

- Onde diabos você estava?! - Diz ele com seu tom de voz alto e rouco, extremamente furioso.

- Boom...eu vou indo- Digo baixo já saindo de fininho, mas a mão grossa me segura pela manga da blusa, e eu suspiro.

- O que eu fiz agora, pai?

- Você chegou com ele! Sabe que ele tem que treinar, precisa aprender o quanto antes a se defender! Por que não o trouxe mais cedo?! - Seu tom aumenta e vejo sua veia do pescoço começar a aparecer.

Conheçam, o meu pai.

Beta da nossa matilha.

Ele costumava ser muito amável, mas ficou extremamente irritado após a morte da mamãe.

- Hoje faz 7 anos, pai. - Ray fala, já saindo da sala cabisbaixo.

Meu pai fica quieto por um segundo, mas volta à sua fúria instantaneamente.

- Volte aqui Raymond! Eu não te dispensei! - Ele grita. Mas Ray já estava longe demais para ouvir.

- Que garoto teimoso!

- Pai, você sabe que é difícil para ele. Dê um tempo. -Digo olhando em seus olhos azuis.

- Para mim é tão difícil quanto para ele, e você sabe disso muito bem, Misty. - Dando sua última palavra, o vejo se afastar.

Não o culpo. O vínculo do companheiro é forte demais, nem mesmo a morte pode separar tal conexão.

A Lua nos consagradou com uma parte de nossa alma.

Não que para ser completo e feliz você precise dele ou dela. Mas juntos podem criar o inimaginável.

Cada um de nós, tem um companheiro de alma. No mundo dos humanos, escuto dizerem "Chama gêmea".

Mas diferente dos humanos que não seguem os próprios instintos, nós sentimentos coisas além do que é "possível " existir.

Os companheiros lúpus sentem a dor um do outro, e acredito que a morte de um, seja a pior dor que exista.

- Sei disso, pai. - Digo baixinho e olho em volta da sala.

Uma sala grande, com paredes de uma cor de carvalho e o chão de piso, na cor baia.

Na minha frente uma escada gigante que leva para o andar de cima, não há tapete aqui como você imagina. haha..

Há plantas em alguns cantos para dar um contraste.

À minha esquerda e direita, duas entradas, que levam à sala de estar, e a outra à cozinha.

Eu respiro fundo e subo às escadas de carvalho.

Chegando no topo há um corredor com várias portas de cada lado. Sigo para o final e entro na penúltima porta à direita.

Finalmente.

Meu quarto.

- Lucy, cadê você? - Olho em volta, procurando pela minha companheirinha e a avisto na janela. - Lucyyy~ Minha bebêzinhaa! - Corro pra ela e imediatamente ela pula para o meu ombro. Eu sorrio e acaricio sua cabeça. Lucy é um Falcão. Diferente da maioria, ela tem uma cor mais clara, um cinza clarinho com a barriga branca. Me deito na cama e olho para o teto.

Meu quarto tem as paredes brancas, e o chão bege claro.

Amo a cor azul, então quase tudo aqui é desse tom.

Lucy aparece no meu campo de visão.

Seu bico belisca minha bochecha de leve e os grandes olhos me encaram.

Ela sabe quando não estou bem.

Acaricio ela por um momento que parece ser longo demais, e sem notar, caio no sono.

Ω


Batidas soam na porta, e eu abro os olhos.

Está escuro já?

Eu dormi tanto tempo assim?

Novamente outra batida soa na minha porta.

- Estou indo - Levanto e olho pela janela.

Está aberta.

Mas não me lembro de tê-la deixado aberta.

-A lua está cheia...- Franzo a testa e coloco a mão no bolso para pegar meu celular, mas ele simplesmente não está lá, e nem minhas roupas. - Lucy? Cadê você? - Procuro em volta do quarto, e entro em desespero. - Você não pode ter fugido! Não, não, não!

Imediatamente ouço uma voz.

Uma voz suave e macia.

Uma mulher.

- Misty.

Olho pela janela e vejo uma sombra abaixo das árvores.

Não conseguia ver seu rosto, mas seu vestido branco no meio da noite era nítido para mim. Longo, sem detalhe algum.

Apenas branco como a Lua.

- Venha até mim. Minha querida Misty.

Sem aviso meu corpo começa a flutuar para fora da janela, indo em direção à grama.

Quando meus pés tocam o chão, olho para a sombra abaixo da árvore e vejo apenas seus lábios carnudos num tom vermelho.

- Misty.. Você é a minha escolhida. - Sua voz me traz uma sensação de calma por todo o corpo, me fazendo esquecer meus medos e traumas. Como uma mãe faria.

A mulher sorri percebendo isso.

- Se aceite, por favor. - Sua mão pálida estica para fora das sombras e encosta na minha bochecha, me causando ainda mais conforto.

- Se não o fizer por vontade própria. Ela irá se revelar, por si mesma. Sem sua aceitação. - E então tudo fica distante.

A mulher parece ir cada vez mais longe, a floresta some, e sinto meu corpo sendo puxado. Até que...

- Misty! Acorda! Sei que está aí!