Prólogo
Espero que goste...
Eu adorava correr. Desde que fiz a minha primeira transformação, há uns dois anos, tudo o que eu queria era correr. Sempre que podia, eu ia para a floresta, dava voltas na fronteira ou perseguia coelhos só para me divertir; eu nunca me cansava. Isso me ajudava a clarear a mente. Sempre que me sentia sufocado em casa ou tinha outra discussão com o meu pai, eu vinha para cá correr.
Naquele momento, eu estava ali dando voltas porque o meu pai e eu tínhamos tido outra briga feia, tudo porque eu não levava o meu cargo de Beta a sério. Honestamente, eu não entendo qual era o problema. Quero dizer, sim, em algum momento a matilha precisaria contar comigo um pouco mais do que contam agora, já que serei o segundo no comando, mas não é como se eu fosse o Jax. Ele sim é quem sempre tinha que agir com responsabilidade e levar as coisas a sério, não eu.
Revirei os olhos mentalmente enquanto as palavras do meu pai flutuavam na minha cabeça. Ele tinha me pegado com outra garota da matilha saindo do meu quarto depois de uma noite de bebedeira. Nem preciso dizer que ele não gostou nada. Eu ainda conseguia sentir minha mãe rondando a minha cabeça, tentando abrir o link mental para falar comigo sobre isso, mas eu apenas a bloqueei e me concentrei na corrida.
Eu amava minha mãe, profundamente, mas às vezes ela era demais. Ela era a mediadora entre o meu pai e eu; ela nunca tomava partido e nunca gritava, mas dava para perceber que havia muito que ela queria dizer. No entanto, ela não era de se meter onde não era chamada e ficava ali ao lado de nós dois enquanto gritávamos na cara um do outro, agindo mais como uma juíza do que como mãe e esposa.
Não é que eu não me desse bem com o meu pai; ele era, provavelmente, um dos meus melhores amigos. A questão era que éramos parecidos demais. Nós dois sempre tínhamos que estar certos e odiávamos estar errados. Mas tivemos bons momentos. Ser tão parecidos também significava que tínhamos os mesmos passatempos. Nós dois adorávamos praticar nossas técnicas de luta, assistir e jogar futebol e acampar. Todo ano, minha família inteira, incluindo minha irmã Louise, ia para o território de outra matilha passar uma semana acampando. Claro, pedíamos permissão ao Alfa antes e nunca interferíamos na vida deles, mas sempre aproveitávamos nosso tempo de sossego. Como o papai trabalhava muito com o Alfa Jackson e a mamãe fazia companhia à Luna Emily como a fêmea Beta, era raro a família ter mais de uma noite sem interrupções, mas quando tínhamos, era incrível.
Ainda não tínhamos feito nossa viagem anual este ano, mas pretendíamos sair nas próximas semanas. O lugar onde costumávamos ficar estava com problemas com lobos desgarrados e eles não se sentiam confortáveis com quatro estranhos no seu território. Não que eu culpasse o Alfa; lobos desgarrados são um assunto sério.
Sorri com as lembranças e suspirei ao sentir o vento bagunçar meu pelo. Eu mal podia esperar para estarmos lá fora, longe da matilha por um tempo e longe das distrações. Minha matilha era meu lar, eu sabia disso, mas era bom sair um pouco e relaxar.
Eu mal podia esperar para pescar no lago com o papai, geralmente sem sucesso, enquanto falávamos sobre os últimos jogos de futebol. Rir da Louise enquanto a via comer seu sexto marshmallow tostado mergulhado em calda de chocolate, a calda escorrendo pelo queixo enquanto ela tentava enfiar aquele doce enorme na boca de uma só vez. Sorrir ao ver meus pais, ainda tão apaixonados, dançando à luz da fogueira, movendo-se ao som de uma música que obviamente tocava apenas na cabeça deles. Era pura felicidade.
Às vezes eu odiava minha família, mas, porra, como eu os amava.
Bem nessa hora, ouvi um galho quebrando não muito longe atrás de mim, no meu lado esquerdo. Gelei na hora e me agachei levemente; o treinamento que eu tinha feito recentemente com o meu pai veio à tona, até que era só nisso que eu conseguia pensar. Infelizmente, eu estava contra o vento e não conseguia sentir o cheiro do lobo, mas se ele estava agachado e não se anunciava, devia ser má notícia.
Esperei o momento certo, aguardando que ele chegasse um pouco mais perto. No segundo em que ele ia saltar de trás de uma cerca viva, eu me movi. Saltei no ar e caí nas costas do lobo, pronto para cravar minhas garras e dentes no pescoço dele, mas quando finalmente olhei para o lobo preto que estava embaixo de mim, suspirei e me levantei.
‘Jesus, Jax, eu quase arranquei a sua cabeça’, ri enquanto revirava os olhos para ele. Só ele mesmo para achar hilário chegar de fininho em alguém que estava fazendo patrulha de fronteira.
‘Nos seus sonhos, Xavier. Não tem chance nenhuma de você conseguir me vencer’, ele riu enquanto sacudia o pelo, soltando algumas folhas que tinham ficado presas. ‘O que você está fazendo aqui, afinal? Não é o seu turno de patrulha’, perguntou ele enquanto se aproximava e ficava ao meu lado.
Esperei que ele se ajeitasse antes de me virar e continuar correndo. Eu era o único na patrulha porque mandei o outro cara para casa, então não podia simplesmente ficar de papo e deixar o resto da fronteira desprotegido.
‘Eu queria dar uma corrida, clarear um pouco a mente, e pensei: que jeito melhor do que fazer algo útil?’
‘O que aconteceu dessa vez?’, Jax riu, acompanhando meu ritmo com facilidade. Não que fosse difícil, já que eu estava apenas trotando.
Fiquei em silêncio, esperando que ele mudasse de assunto se eu não demonstrasse interesse em continuar, mas, infelizmente, isso pareceu apenas incentivá-lo mais.
‘Deixa eu adivinhar’, ele riu. ‘Você foi naquela festa ontem à noite, encheu a cara, voltou para casa com uma garota qualquer e acabou sendo pego pela sua mãe ou pelo seu pai quando eles a viram saindo da casa de fininho esta manhã?’
Droga, ele me conhecia bem demais. Vamos apenas dizer que não era a primeira vez que eu fazia algo assim.
Suspirei e baixei a cabeça, um pouco envergonhado. Será que eu era tão óbvio assim?
‘Está tudo bem, cara, todos nós já passamos por isso’, Jax murmurou, tentando me fazer sentir melhor. Ele sabia o quanto era doloroso para mim na manhã seguinte, a culpa de dormir com alguém que não era minha parceira. Era sempre igual: depois de beber um pouco, parecia que o mundo era um lugar melhor e cada garota que eu via era minha parceira, uma pessoa em potencial para ajudar a preencher o vazio que doía no meu peito.
‘Você nunca passou’, resmunguei, sentindo-me um pouco irritado com o quanto de autocontrole ele tinha. Quero dizer, claro, ele já tinha cedido uma ou duas vezes — era natural com a quantidade de hormônios correndo nas veias de um lobo adolescente —, mas ele não fazia tanta besteira quanto eu. ‘Eu só acho tudo muito difícil às vezes. Às vezes me sinto tão sozinho, mesmo estando cercado de pessoas. Aí eu olho para os meus pais e para os outros casais da matilha e fico tão com inveja que sinto que preciso preencher o vazio com qualquer coisa que eu encontre... qualquer pessoa que eu encontre’. Eu sabia que soava triste, e um pouco meloso demais, mas eu estava sofrendo muito por não ter minha parceira ao meu lado.
Não ter uma parceira pode afetar as pessoas de maneiras diferentes. Alguns, como o Jax, não sofriam nada com a separação. Claro, ele queria tê-la ao seu lado e fazia de tudo para encontrá-la, mas não sentia o buraco enorme no peito que eu sentia. Já eu era um caso raro, um vínculo raro que não costumava se formar devido aos efeitos colaterais que podia ter no lobo.
Eu tinha lido em um dos livros de história da minha mãe que um vínculo de sangue, embora extremamente raro, podia acontecer, e eu parecia ser um dos poucos sortudos que sofriam com um vínculo de sangue não conectado. Ninguém sabia ao certo por que a Deusa escolhia fazer alguns sofrerem com o vínculo de sangue enquanto outros podiam esperar alegremente até que sua parceira aparecesse, mas diziam que era porque as pessoas que tinham esse vínculo precisavam de uma ligação forte com sua parceira mais tarde na vida. Não sei o que isso significava para mim, mas eu sempre preferi deixar para resolver isso quando chegasse a hora.
‘Então foi sua mãe ou seu pai?’, Jax perguntou de repente ao meu lado, e eu franzi a testa pensando na pergunta. Acho que ele percebeu que eu tinha esquecido completamente do que estávamos falando, porque ele suspirou antes de explicar: ‘Quem viu a garota saindo do seu quarto? Foi sua mãe ou seu pai?’
‘Ah, meu pai’, eu estremeci, a discussão que tivemos mais cedo voltando à minha mente.
‘Ai’, Jax fez uma careta, sabendo como o meu pai era.
‘Nem me fale’, resmunguei. ‘Não é como se ele soubesse o que é ficar sem a sua parceira; minha mãe era da mesma matilha que ele. Assim que eles fizeram dezesseis anos, bam, eles ficaram juntos’.
‘Eu te entendo, cara. Não consigo imaginar como você se sente tendo que ver casais o dia todo, mas se não é fácil para mim, deve ser tortura para você. Se ficar com uma garota qualquer te mantém são, quem sou eu para julgar?’, respondeu Jax.
E era por isso que ele era meu melhor amigo.
‘Eu só odeio o fato de ele achar que serei um Beta ruim por causa disso. Só porque eu durmo com uma garota de vez em quando não significa que sou ruim no meu trabalho. Não é como se fôssemos assumir o comando tão cedo, ainda faltam alguns anos’. Corremos em silêncio depois disso, aproveitando a companhia um do outro enquanto aliviávamos a tensão.
Foi só uns vinte minutos depois que senti o cheiro; um cheiro que faz o sangue de qualquer lobo gelar. Jax e eu nos olhamos por um segundo antes de dizermos, em uníssono, a palavra temida: ‘Rogue’.
Num piscar de olhos, disparamos para seguir o rastro, garantindo que não perderíamos o dono do cheiro. Era isso, era o meu momento de brilhar e provar ao meu pai que eu podia ser confiável para o cargo de Beta.
‘Jax’, enviei pelo link enquanto continuávamos a perseguição, ‘e se não contarmos ao seu pai o que encontramos e resolvermos isso nós mesmos?’, sugeri, hesitante com a ideia, pois não sabia o que ele pensaria.
Ele me surpreendeu com um sorriso lupino: ‘Já pensei nisso’, disse ele, aumentando a velocidade. ‘Você não é o único que precisa provar seu valor para o pai’.
E, com isso, disparamos.
Seguimos o rastro por uns bons cinco minutos, desviando e ziguezagueando enquanto seguíamos o cheiro do lobo solitário. Tive que tirar o chapéu para ele: esse sujeito sabia correr.
Congelamos quando chegamos à clareira, com os músculos prontos para qualquer coisa enquanto analisávamos a área.
‘Não entendo’, murmurei enquanto ficávamos de costas um para o outro, garantindo que nada pudesse nos pegar de surpresa. ‘O rastro acaba aqui, então onde eles estão?’.
‘Eles devem ter se transformado de volta na forma humana para enfraquecer o cheiro ou algo assim’, respondeu Jax enquanto continuava a observar a área.
Saímos da nossa posição e começamos a farejar o local, torcendo para encontrar o rastro do rogue que tinha passado por ali. ‘Não faz sentido. Por que entrar de bom grado no território de uma matilha se é só para se transformar em humano e fugir? Essa é a coisa menos tática que se pode fazer’.
‘Hum, Xav... acho que devemos chamar nossos pais agora’, Jax enviou pelo link, continuando a encarar algo aos seus pés.
Franzi a testa e caminhei até ele, congelando ao ver o que ele encarava. Era uma camiseta, não uma das nossas, que estava encharcada de sangue animal. Abaixei-me, cheirei o tecido e estremeci quando o cheiro de ferrugem encheu minhas narinas; mas não era apenas sangue animal, era o fedor de um rogue.
‘Deve ser isso que estávamos seguindo’, rosnei enquanto chutava a camiseta. ‘Quem fez isso deve ter encharcado o tecido no sangue para matar o cheiro depois de nos levar até aqui’.
“Mas por que eles nos trouxeram até aqui?” Jax perguntou, enquanto seus olhos começavam a ficar nublados.
Fiz o mesmo, conectando-me ao link da alcatéia para tentar contatar qualquer pessoa que pudesse. O que recebi de volta, no entanto, foi apenas um caos; parecia que todos estavam gritando pelo link ao mesmo tempo, pedindo ajuda e tentando encontrar seus entes queridos.
Uma coisa estava clara, porém: estávamos sob ataque... e tínhamos caído direto na armadilha deles.
Como se um tiro tivesse sido disparado sinalizando o início de uma corrida, tanto Jax quanto eu disparamos em direção à floresta, determinados a chegar ao centro da nossa alcatéia o mais rápido possível. Isso não pode estar acontecendo, murmurei para mim mesmo em minha mente, enquanto sentia meus músculos queimarem à medida que eu os forçava a correr cada vez mais rápido. Isso não pode estar acontecendo!
Chegamos onde a maior parte da luta estava acontecendo e eu entrei no combate instantaneamente, matando rogues onde podia e ajudando os membros da alcatéia que precisavam. Não havia tantos deles e, com sorte, poderíamos superar esse ataque sem nenhuma baixa.
Avistei meu pai à distância, lutando contra um rogue de aparência particularmente forte, e estremeci ao ver a pata dele atingir a cabeça do meu pai. O rogue não chegou a tirar sangue, mas aquilo com certeza teria lhe causado uma dor de cabeça.
“PAI!” gritei pelo link enquanto me dirigia até ele para dar uma mão; se algo acontecesse com ele, não sei se conseguiria me perdoar.
“Estou bem, filho, vá até a casa e proteja sua mãe e sua irmã”, ele respondeu pelo link, sem tirar o foco do rogue à sua frente.
Assenti, mesmo que ele não pudesse ver, e me virei para voltar para casa, sussurrando um rápido “Desculpa” para ele enquanto corria. Espero que ele soubesse que eu estava pedindo desculpas por mais do que apenas ter deixado o ataque do rogue acontecer. Eu estava pedindo desculpas por tudo o que tinha dito a ele hoje.
Não olhei para trás para ver se ele tinha entendido a mensagem enquanto corria a curta distância até minha casa; eu precisava ter certeza de que estava totalmente atento aos meus arredores e que ninguém poderia me surpreender.
Dei um suspiro de alívio quando o ar começou a ficar limpo do fedor de sangue que estava forte no ambiente. Eu nunca tinha gostado do cheiro de sangue antes, mas o cheiro de sangue de rogue? Isso era ainda pior.
Respirei fundo enquanto corria, gostando de como o ar frio clareava minha mente, mas quando senti o cheiro de sangue de alcatéia, congelei. Eu conheceria aquele cheiro em qualquer lugar; ele estava gravado no meu cérebro desde que Louise tinha caído de um balanço de corda e quebrado a perna. O osso dela tinha perfurado a pele e eu tive que carregá-la até o hospital enquanto ela chorava de dor o caminho todo. O sangue dela tinha encharcado minha camisa e era um lembrete constante do que tinha acontecido enquanto eu esperava na sala de espera por horas, aguardando que ela saísse da cirurgia.
O que eu senti naquele segundo foi o sangue de Louise.
Se possível, corri ainda mais rápido, e o que vi quando virei a esquina ficaria para sempre gravado no meu crânio. Minha irmã, sem vida, com a garganta arrancada e um rogue parado sobre ela, com o sangue dela escorrendo pelo rosto dele. Ele tinha voltado à sua forma humana e, enquanto olhava para ela, vi um tipo de fogo em seus olhos que fez meu sangue gelar.
Meus olhos foram subitamente atraídos por um movimento do outro lado da casa, onde um pequeno beco levava ao nosso quintal dos fundos.
“MÃE!” gritei enquanto corria em direção a ela, esperando chegar a tempo antes que o rogue que a segurava a matasse também.
“Xavier, saia daqui!” minha mãe gritou de volta ao me ver correndo em sua direção, com lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto seus olhos fixavam na filha fria e sem vida. “Xavier, por favor, corra”, ela implorou, mas eu a ignorei; não havia jeito de eu abandonar minha mãe.
“Quem é esse lobinho?” perguntou o rogue que segurava minha mãe pela garganta, com os lábios roçando na orelha dela enquanto falava.
Rosnei pela proximidade dele com ela, mas parei bruscamente quando o outro rogue bloqueou meu caminho, com sangue escorrendo pelo queixo e pelo peito enquanto ele sorria para mim.
Agachei-me em posição de luta enquanto abria o link da alcatéia, esperando que alguém visse o que estava acontecendo e viesse nos ajudar. Por favor, que alguém venha nos ajudar.
“Aqui, cachorrinho”, o rogue à minha frente zombou, e com isso, eu saltei.
O rogue se transformou rapidamente enquanto desviava das minhas garras, sorrindo com minha tentativa, brincando comigo. Rosnei enquanto ele dançava de um pé para o outro, esquivando-se para a esquerda e para a direita enquanto eu ficava parado e encarava, um olho no rogue à minha frente e outro na minha mãe. Ela estava fazendo o que podia para se soltar das garras do cara, mas com as unhas dele cravadas no pescoço dela, ameaçando rasgar a qualquer segundo, havia pouco que ela pudesse fazer.
Uma das coisas que papai tinha me ensinado foi como avaliar o oponente, descobrir se ele tinha pontos fracos, e após alguns segundos observando aquele rogue dançar de um pé para o outro, notei algo. Não era muito, mas ele estava protegendo a perna dianteira direita levemente; não era muito, mas pelo menos era algo.
Com meu foco fixado na perna do rogue, eu ataquei, fingindo ir para a direita antes de girar rapidamente e bater minha cabeça na perna ferida do rogue. O rogue caiu com um ganido enquanto ouvi um estalo doentio e, ao olhar para trás, vi que a perna tinha sido estilhaçada, quebrada em dois lugares diferentes, fazendo o membro parecer deformado.
Prendi rapidamente minhas mandíbulas ao redor do pescoço do lobo, acabando com sua vida, e quando tive certeza de que ele estava morto, voltei-me para o rogue que segurava minha mãe. Ela estava olhando para mim com os olhos arregalados, seu medo perfumando o ar, mas tentei ignorar tudo isso enquanto me concentrava no último macho rogue.
“Estou chegando, Xavier, apenas segure-o por mais um pouco”, Jax gritou para mim pelo link, e suspirei ao perceber que a ajuda estava chegando.
“Recue, garoto, você não sabe com quem está lidando”, o rogue avisou enquanto se movia para colocar minha mãe na frente dele, usando-a como escudo.
Apenas rosnei em resposta, sangue e saliva escorrendo dos meus dentes enquanto meus pelos do pescoço se arrepiavam.
“Você vai pagar por ter matado meu irmão, ouviu?!” o rogue gritou de repente, afundando suas garras compridas no pescoço da minha mãe.
Rosnei enquanto observava o sangue dela escorrer pelos dedos sujos dele antes de pingar na grama abaixo.
Não me lembro do que aconteceu depois disso; eu de alguma forma tinha conseguido separar minha mãe do rogue por tempo suficiente para saltar sobre ele e arrancar sua garganta. Ele nunca tinha voltado à sua forma de lobo, então foi relativamente fácil para mim rasgar sua pele humana delicada e cortar sua artéria carótida, acabando com sua vida.
Rosnei para ele por mais um segundo enquanto observava a vida se esvair de seus olhos, não sentindo remorso por tirar a vida de outro lobo. Ele merecia, ambos mereciam.
Virei-me, com a intenção de pegar minha mãe nos braços e avaliar seus ferimentos, mas quando ela não estava onde eu a tinha deixado, entrei em pânico. Teria outro rogue vindo e levado ela?
Franzi a testa ao notar uma trilha de sangue que saía do beco e ia em direção ao nosso jardim da frente, e o que vi partiu meu coração. Minha mãe tinha usado o resto de sua energia para rastejar até sua filhinha e segurá-la nos braços enquanto chorava.
Solucei enquanto caminhava em direção à minha irmã e à minha mãe, me transformando no processo para que eu pudesse pegar ambas em meus braços e chorar pela perda da minha irmãzinha. À medida que me aproximava, no entanto, notei algo, algo que partiu meu coração mais do que ele jamais tinha sido partido antes.
Minha mãe, com sua filha morta nos braços, tinha parado de respirar.
Gritei enquanto corria até ela, deslizando até o chão enquanto a pegava em meus braços e pressionava minha mão contra seu pescoço, esperando estancar o fluxo de sangue que vazava de sua pele.
O rogue tinha causado muito mais dano do que eu pensei originalmente, afundando o suficiente para atingir a veia dela e causar um dano grave. Chorei enquanto mantinha firme pressão no pescoço dela com uma mão, enquanto tentava realizar a RCP com a outra, esperando e rezando para que meus esforços ajudassem de alguma forma até que os médicos pudessem chegar.
“Não me deixe, mãe... por favor”, implorei enquanto pressionava repetidamente o peito dela, tentando manter seu coração batendo e oxigênio correndo por suas veias. Minha visão ficou embaçada até que eu mal conseguia ver nada, mas continuei pressionando, rezando para que um milagre acontecesse e seu coração voltasse a bater magicamente por conta própria.
Jax ainda estava a caminho, lutando como podia, mas parecia que, sempre que ele terminava com um, outro o substituía. Como se sua pelagem preta de Alfa fosse um farol para todos de que ele era nosso futuro e precisava ser eliminado.
Enquanto realizava a RCP da melhor maneira que podia, eu chorava, encarando os olhos sem vida de Louise, enquanto ela olhava de volta para mim, vazia e preta. Como isso pôde ter acontecido? Logo nesta manhã, a pior coisa que eu estava sofrendo era uma leve ressaca e mais uma briga inútil com meu pai; agora eu tinha perdido minha mãe e minha irmã em questão de uma hora.
Minhas tentativas de RCP tornaram-se mais fracas à medida que meus músculos ficavam trêmulos; eu vinha correndo há horas na patrulha antes mesmo de tudo isso começar, e com o ataque e o esforço da RCP, eles finalmente tinham desistido.
Eu tinha falhado com elas.
Desabei no chão, com suor na testa que se misturava à incontável quantidade de sangue que cobria meu corpo. Parte dele era dos rogues, mas a maior parte era da minha mãe e da minha irmã. O sangue delas estava literalmente em minhas mãos e eu nunca me perdoaria por isso.
Pareceram horas até que alguém chegasse à minha casa; o sangue que encharcava minha pele agora estava seco, fazendo com que ela ficasse esticada e rachasse cada vez que eu me movia. Meu choro tinha parado enquanto eu segurava as mãos da minha mãe e da minha irmã, recusando-me a soltar. Se eu soltasse, então elas teriam ido embora de verdade, e não acho que conseguiria sobreviver se elas se fossem.
“Xavier, eu estou... eu sinto tanto” ouvi alguém soluçar enquanto se aproximavam e sentavam na minha frente, colocando um cobertor sobre meu corpo trêmulo. Eu nem tinha percebido que estava com frio.
“Eu fiz isso”, murmurei para ninguém em particular, sem encontrar forças sequer para levantar a cabeça e olhar para as pessoas que estavam à minha frente. Demasiado preocupado em olhar para cima e ver a decepção que, sem dúvida, nublava o rosto dos meus amigos e membros da alcatéia; covarde demais para olhar no rosto do meu pai e ver sua expressão devastada enquanto ele olhava para sua parceira e filha mortas.
“Você não fez isso”, a voz continuou enquanto ela se agachava até ficar na altura dos meus olhos.
Olhei para cima levemente e dei de cara com Emily, que me olhava com lágrimas em seus próprios olhos. Minha mãe era sua melhor amiga, e vê-la assim devia estar a destruindo.
“Eu fiz”, chorei enquanto segurava firme nas mãos da minha família. “Sinto muito, pai”, solucei enquanto reunia coragem para olhar para cima.
Notei muitos rostos ao meu redor, todos parecendo um pouco maltratados, mas conforme continuava a olhar, percebi que um rosto não estava lá, um que definitivamente deveria estar.
“Onde está o pai?” perguntei a ninguém em particular enquanto continuava a observar os poucos rostos ao meu redor. Todos olharam de volta para mim com olhos solidários enquanto trocavam pequenos olhares entre si. Franzi a testa enquanto continuava a encarar... algo tinha acontecido.
“Onde está meu pai?” perguntei um pouco mais enfaticamente desta vez, e com um olhar para Emily, que ainda estava agachada na minha frente, eu soube. Meu pai não estava mais entre nós.
Com um simples erro, eu tinha passado de ter uma família feliz para me tornar um órfão.