O Anel do Rei

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Em um mundo onde as estruturas de classe ditam a sociedade e as monarquias detêm o poder, o destino de um reino repousa sobre o Anel do Rei — um símbolo de poder e merecimento. Pela lei da terra, um governante é escolhido com base em sua honra, ações e justiça, ou pelo menos era assim que deveria ser. Há centenas de anos, uma família de dragões transmorfos governa, ignorando as antigas leis e assistindo enquanto seu reino outrora próspero mergulha no caos. Porém, na véspera do Festival das Coroas, o anel é roubado. Amara, uma humilde ajudante de cozinha, encontra o anel sem saber que esse simples ato a lançará no centro de uma crise política. O rei envelhecido, desesperado para pôr fim à rebelião dos camponeses, obriga Amara a escolher o próximo monarca. Suas opções são vastas — desde um plebeu até um nobre, ou até mesmo um dos dois príncipes dragões. Enquanto descobre o caos da corte real, deixando para trás seu noivo e sua vida simples, ela logo aprende que nada é o que parece. O perigo espreita em cada esquina, pois os ladrões que roubaram o anel não medirão esforços para recuperá-lo, mesmo que isso signifique matar. Com o peso de um reino sobre os ombros, Amara inicia, sem saber, uma jornada de sacrifício e descoberta, onde uma única decisão tem o poder de mudar a história.

Status
Completo
Capítulos
41
Classificação
5.0 21 avaliações
Classificação Etária
18+

Prólogo: Tudo começou com um Anel

Julian estava sentado em seu escritório, iluminado pela luz trêmula das velas no teto. O cheiro forte de pergaminho velho e couro enchia o ar, misturando-se ao aroma da cera queimando. Sua barba espessa e os cabelos longos, brancos nas raízes e ainda castanhos nas pontas, lhe davam um ar de idade e experiência. No entanto, as rugas no rosto acrescentavam um toque de cansaço. Ele afagava distraidamente a cabeça de um cão, que descansava satisfeito ao seu lado, enquanto seus olhos permaneciam fixos no anel dourado em sua mão. Era um anel adornado com gemas vermelhas e azuis ao longo da faixa — símbolo de seu reinado sobre o reino de Sylvaris.

No dia seguinte seria o Festival das Coroas, marcando seu trigésimo terceiro ano no trono. Na véspera da festa, o rei “abriria mão” do anel e, por uma noite, Julian deixaria de ser o Rei. Pois as leis de Sylvaris, como as de muitos outros reinos, determinavam que quem usasse o anel seria o rei. E, pela tradição do festival, ao amanhecer, Julian ou recuperaria o anel e continuaria seu reinado por mais um ano, ou nomearia um novo rei.

Mas Julian estava exausto. Cansado das responsabilidades intermináveis que vinham com o poder. O peso da coroa tinha se tornado quase insuportável. Estava farto das decisões constantes, das exigências sem fim de seu povo e das pressões incessantes de seus conselheiros. Estava cansado da solidão que o cercava desde a morte de sua amada esposa. Cada canto do palácio lhe lembrava a ausência dela, e a solidão o corroía dia após dia.

Julian já havia pensado em passar a coroa para um de seus dois filhos, mas a ideia o deixava inquieto. Rhett e Emmett não estavam prontos para o trono; suas imprudências juvenis e falta de visão o preocupavam profundamente. Ainda não haviam demonstrado a maturidade ou sabedoria necessárias para governar um reino, nem conquistado o respeito do povo. Mas, afinal, ele merecera a coroa quando seu pai a colocara em sua cabeça? Julian se lembrava de sua própria juventude rebelde, cheia de decisões impulsivas e aventuras desmedidas. No entanto, era o único filho de seu pai, e o reino precisava de um governante.

Será que seu pai olhara para ele com as mesmas dúvidas e medos que agora turvavam sua mente? Ele havia crescido no papel, mas não sem erros e sofrimentos. Será que algum de seus filhos estaria à altura do trono, como ele estivera, ou fracassariam e deixariam o reino afundar ainda mais no caos?

Para piorar, além dos muros do palácio e da cidade de Casshire, uma rebelião camponesa havia estourado. O que começara como um pequeno levante no início da primavera tinha se transformado em uma agitação generalizada. Brigas estouravam quase diariamente, e o número de mortos só aumentava a cada semana. O reino de Sylvaris estava à beira de uma guerra total, e as chamas do caos ameaçavam consumir tudo.

O coração de Julian doía ao pensar no estado de seu reino. Como poderia abrir mão do anel quando tudo estava desmoronando? Como abandonar seu povo quando eles mais precisavam de seu rei?

Henrik, um dos conselheiros mais próximos de Julian, entrou na sala com uma batida suave no batente da porta. Nas mãos, trazia uma almofada ricamente bordada, o local designado para o anel passar a noite. Ele parou na soleira, observando o rei, cujos ombros curvados e sobrancelhas franzidas revelavam profunda reflexão.

— Vossa Majestade — cumprimentou Henrik, em voz baixa, ao entrar. O cão ergueu os olhos, mas permaneceu ao lado de Julian.

Julian assentiu em reconhecimento, mas seus olhos continuaram fixos no anel. Henrik hesitou antes de colocar a almofada sobre uma mesa próxima e, então, decidiu se sentar ao lado do rei. O silêncio se estendeu entre eles por vários minutos, até que nenhum dos dois falou.

— Julian, será este o ano em que você passará o anel adiante? — perguntou Henrik, quebrando o silêncio. Julian suspirou fundo antes de encarar o conselheiro. — Sabe, você já tem seis anos a mais do que seu pai tinha quando abriu mão do trono.

— Eu sei, Henrik — respondeu Julian, cansado, enquanto passava os dedos pelo anel.

— Odeio ser o chato que aponta o óbvio — continuou Henrik, com um tom mais leve —, mas você não está ficando mais jovem. Aos cinquenta e cinco anos, é um dos reis mais velhos que Sylvaris já teve. Não carregou o fardo da coroa por tempo suficiente?

— Seria egoísmo passar o anel para Rhett ou Emmett com o reino nesse caos? — perguntou Julian, recostando-se na cadeira. — Parece que, se eu entregasse o anel a eles agora, estaria lhes passando um navio em meio a uma tempestade, sem céu limpo à vista. O mar está revolto... Como posso colocar tamanha responsabilidade sobre seus ombros quando as ondas ameaçam nos engolir?

— Seus filhos são fortes, Julian — garantiu Henrik, estendendo a mão para tocar o braço do rei. — Rhett tem experiência militar para esmagar essa rebelião camponesa, enquanto Emmett certamente tentaria uma abordagem mais diplomática. Mas... a decisão final é sua. Se acredita que eles não estão prontos, mantenha o anel.

Julian fechou os olhos por um instante, a mente acelerada. O cômodo voltou a ficar em silêncio, exceto pela respiração suave do cão aos seus pés. Ele suspirou e olhou para o anel por um longo momento antes de falar.

— Vou pensar nisso durante a noite. Mas, por enquanto, parece que continuarei sendo o Rei por mais um ano.

Ele ergueu o anel e o colocou delicadamente sobre a almofada. Henrik olhou para ele e, em seguida, de volta para Julian.

— Muito bem, Vossa Majestade — disse, em voz baixa. — Podemos discutir o assunto mais a fundo pela manhã, se desejar.

— Obrigado, Henrik — assentiu Julian, o rosto suavizando. — E obrigado por me ouvir. São poucos aqueles a quem posso confiar minhas preocupações e receios.

— É uma honra servi-lo, Julian — sorriu Henrik, levemente. — Mas chega de assuntos pesados por hoje. Como anda o progresso do novo sistema de irrigação nos campos do sul? Estive tão ocupado com os preparativos do festival que perdi sua reunião com os engenheiros.

— Está indo bem — respondeu Julian, os olhos brilhando, aliviado pela mudança de assunto. — Eles acreditam que deve melhorar a colheita do próximo ano. O povo de lá tem sofrido com a seca, e isso deve trazer algum alívio.

— Uma bênção dos Criadores. Tenho certeza de que o povo verá a coroa com bons olhos quando estiver pronto. Talvez signifique menos gente se juntando à Rebelião do Povo.

— Talvez — refletiu Julian, assentindo pensativo. — Pequenas vitórias ajudam a vencer a guerra.

— Bem, vou me retirar agora — disse Henrik, levantando-se. — Descanse bem, Julian.

— Boa noite, Henrik — respondeu Julian, com um sorriso cansado.

Henrik fez uma leve reverência e virou-se para sair. Ao entrar no corredor, quase uma dúzia de guardas o aguardava. Eles formaram uma escolta protetora, conduzindo-o pelos corredores vazios em direção ao Cofre Real. O silêncio era quebrado apenas pelo som de seus passos. Os guardas permaneciam atentos, os olhos vasculhando as sombras em busca de qualquer sinal de perigo, enquanto Henrik carregava com cuidado a almofada com o anel.

Ao chegarem às portas do cofre, vários guardas se afastaram, e dois deles adiantaram-se para destrancar as pesadas portas. O cofre se abriu com um rangido, revelando uma sala repleta de tesouros: coroas de antigos governantes, gemas valiosas e incontáveis diamantes. No centro, havia um pedestal. Henrik caminhou até ele e depositou a almofada com cuidado. Deu um passo atrás, certificando-se de que o anel estava seguro.

Com um último olhar ao redor, Henrik virou-se e saiu do cofre. Os guardas o seguiram, e, ao saírem, as portas foram fechadas e trancadas. O som das fechaduras ecoou pelo corredor.

No meio da noite, as pesadas portas do cofre rangeram ao se abrir. Quatro homens encapuzados entraram silenciosamente na sala. O líder do grupo avançou, os olhos fixos no pedestal no centro do cômodo. Ele estendeu a mão e agarrou o anel. Com a joia preciosa em segurança, o líder fez um sinal para um dos companheiros, que se adiantou com pesadas bolsas de moedas. Entregou-as aos guardas que deveriam vigiar o cofre; suas lealdades foram facilmente compradas. Os guardas aceitaram as moedas sem dizer uma palavra.

Os quatro homens encapuzados saíram do cofre rapidamente e em silêncio. Esgueiraram-se pelos jardins do palácio, seguindo para o sul, pelas ruas vazias de Casshire, mantendo-se nas sombras para evitar os bêbados ocasionais ou soldados em patrulha. Enquanto atravessavam becos e passagens estreitas, aproximaram-se da beira de um mercado. Um deles, apressado, esbarrou em uma barraca, fazendo o conteúdo de um barril se espalhar pelas pedras do calçamento com um estrondo. O barulho ecoou pela noite silenciosa, chamando a atenção de um grupo de soldados por perto.

— Quem está aí? — gritou um dos soldados.

Os homens encapuzados tentaram fugir, mas logo perceberam que outro grupo de soldados se aproximava pelo lado oposto. Estavam cercados.

— Precisamos deixar o anel em algum lugar — sussurrou um deles, apressado. — Se formos pegos com ele, estamos mortos.

— Concordo — assentiu o líder, que ainda segurava o anel.

Ele parou perto de um poço, embrulhou o anel em um lenço e o enfiou fundo em uma fenda na pedra. Ao se endireitar, os soldados já estavam quase em cima deles.

— O que está acontecendo aqui? — exigiu um dos soldados. Os homens encapuzados cambalearam, fingindo estar bêbados.

— Só estamos nos divertindo um pouco — balbuciou um deles, oscilando. Os soldados, um tanto irritados, mas sem desconfiar muito, começaram a afastá-los.

— Vão para casa — ordenou um dos soldados, empurrando-os levemente. — E fiquem fora de confusão.

Enquanto eram escoltados para longe, o líder lançou um último olhar para o poço, fervendo por dentro com o quase flagra. Ele se juntou aos outros, voltando para a parte norte de Casshire. Satisfeitos de que os homens eram apenas bêbados, os soldados retomaram a patrulha, sem perceber o tesouro escondido no poço.

A/N: Para quem gosta de mapas, aqui está um do Reino de Sylvaris! Vou postar mapas periodicamente ao longo da série, especialmente quando houver viagens envolvidas.

E se quiserem inspirações para os personagens no final de alguns capítulos, me avisem! ❤