Prólogo - Jantar com o Papai
POV: Harper
Estávamos sentados à mesa da cozinha jantando. Nada chique, apenas peixe com fritas. Consegui um bom negócio com o vendedor que, de vez em quando, trazia o que pescava para vender em Blackheath. A única razão pela qual podíamos ter um pouco de variedade na dieta era porque eu trabalhava.
“Não vejo por que você implica tanto. Não é como se eu estivesse trabalhando no submundo”, eu disse pela milésima vez. “Você mesmo trabalhou lá por trinta anos. Tenho sorte de ter esse emprego. Não tem mais nada por aqui, a não ser que a gente se mude para a cidade.”
Empregos eram raros em Blackheath, e eu estava desempregada desde que saí da escola, quatro anos atrás. Eu pretendia me mudar para Pillsford, mas então o papai ficou preso em um desabamento na mina e, num piscar de olhos, tudo mudou.
“Não gosto que você faça trabalho braçal, ainda mais sendo a única mulher”, disse o papai, empurrando sua cadeira um pouco para trás e cruzando os braços sobre o peito em um gesto que era tanto protetor quanto teimoso.
Suspirei audivelmente. Eu também não gostava, mas quem não tem cão caça com gato. O papai tinha boas intenções, mas as coisas estavam difíceis desde o acidente dele, três anos atrás.
Tivemos sorte que os benefícios do trabalho dele pagaram o suficiente para comprar esta casa geminada, e sua pensão cobriu o resto do financiamento. Na minha opinião, ele recebia muito pouco dinheiro, considerando que perdeu as duas pernas abaixo do joelho.
“Tem a Trixie-May e...”, murmurei, enfiando uma garfada de peixe na boca.
“Ela não pá de carvão”, ele interrompeu.
“Sorte a dela”, resmunguei.
Um punhado de mulheres trabalhava no escritório, a maioria no departamento de contas, e elas estavam lá há anos. Trixie-May cuidava da folha de pagamento — apesar de não ter qualificação nenhuma — e, de alguma forma, conseguiu o emprego que eu queria desesperadamente, mas para o qual nunca nem sequer recebi uma entrevista.
O escritório dela dava direto para o pátio, um esquema projetado para evitar que tivéssemos que atravessar os escritórios principais.
Trixie-May era metida e estava sempre muito bem arrumada. Suas roupas chiques e reveladoras não combinavam com a Boltons, onde a poeira do carvão flutuava no ar e cobria tudo. Seus saltos altos afundavam no chão, e era um milagre não quebrarem.
“Ouvi dizer que ela dorme com...”, ele apontou os dedos para cima, dando a entender que falava dos donos.
Eu caí na risada. “Papai, você realmente não deveria dar ouvidos a fofocas. Tenho quase certeza de que ela tem um namorado em Pillsford.” Eu sabia que o papai passava horas na varanda, ouvindo todo tipo de bobagem das pessoas que paravam por ali para conversar.
“Você está desperdiçando seu tempo lá. Você é esperta demais para ficar jogando carvão naquele forno fedorento”, ele insistiu.
“Se você encontrar um emprego para mim, eu vou à entrevista. Mas, até lá, precisamos comer. E, honestamente, você está parecendo um pouco fraco.”
O cabelo dele estava completamente grisalho e precisava ser cortado há tempos. Ele não fazia a barba há dias e continuava usando as mesmas roupas de ontem.
Seus olhos azuis encontraram os meus. “Eu só me preocupo”, disse ele baixinho, acariciando minha mão.
“Papai, você precisa de ajuda para tomar banho?”, perguntei gentilmente.
Escolhemos essa casa porque tinha um quarto e um banheiro no térreo. Depois de uma pequena reforma, agora havia um chuveiro grande, nivelado com o chão — perfeito para uma cadeira de rodas. Lá em cima, havia dois quartos pequenos e outro no sótão, que eu tinha tomado para mim.
“Claro que não. Além disso, o Malcolm pode me ajudar quando chegar em casa. Onde ele está, afinal?”
Malcolm, meu irmão mais velho, também trabalhava na Bolton’s Gold Mine, e ele foi a única razão pela qual consegui esse emprego. Ele era bonito e charmoso, e parecia que toda garota que conhecia caía aos seus pés, mas ele só queria curtir.
Eu tinha visto um vislumbre dele mais cedo, com os braços em volta de uma mulher. Ela era impressionante, embora eu só a tivesse visto de costas. Quase da altura do Mal, com cabelos longos loiro-platinados e uma silhueta atraente — exatamente o tipo dele.
“Quem sabe? Provavelmente por aí, putaria como sempre”, disse eu, levantando-me para limpar a mesa.
“Não fale assim do seu irmão. Ele é um bom rapaz.”
Fiquei tentada a dizer a ele o quão bom o Mal realmente era. Desde que comecei a trabalhar, ele mal contribuía com comida — ocupado demais gastando com mulheres e bebida.
“Então por que você não pergunta a ele o que ele estava fazendo quando chegar? Pode acreditar, ele não está fazendo hora extra”, retruquei, sem conseguir conter meu aborrecimento.
Enquanto eu lavava a louça, ouvi meu pai levar sua cadeira de rodas para a sala adjacente, com a televisão chiando ao ligar.
Arrumei a bagunça e peguei uma pilha de roupa suja, enfiando tudo na máquina de lavar e deixando deliberadamente as roupas do Mal no cesto. Ele que lavasse as dele. Agora que eu estava trabalhando, já estava cansada de fazer todo o trabalho doméstico enquanto ele ficava zanzando pela cidade. Peguei o jornal, parei para ler as manchetes e soltei uma risadinha.
Seis ovelhas roubadas da Fazenda Holsten. Esse era o auge do crime quando se morava em um buraco como Blackheath. Nem os criminosos se mudavam para cá. Tínhamos uma briga de bar ou um furto de vez em quando, mas era só isso. Quanto às ovelhas, aposto que elas apenas se perderam e ninguém roubou nada.
“Vou tomar banho”, avisei.
Eu trabalhava na Bolton’s há apenas seis semanas, e carregar carvão para o forno era um trabalho exaustivo. No final do dia, eu estava acabada.
Tranquei-me no banheiro e abri a torneira, esperando a água esquentar. Eu conseguia sentir a diferença no meu corpo — com certeza tinha emagrecido. Era difícil não emagrecer trabalhando com tanto esforço físico. Ainda assim, não conseguia deixar de admirar os músculos que tinham começado a aparecer.
Durante aquela primeira semana, achei que fosse morrer de dor muscular. Era tão intenso que eu tinha dificuldade para subir as escadas, mal conseguia levantar os braços e meus dedos cãibravam a cada movimento. Mas eu me endureci e, embora ainda me sentisse cansada, a dor tinha finalmente passado.
Contemplei meu reflexo no espelho. Eu não era feia, mas me faltava o charme natural do Mal. Cortei meu cabelo estilo pixie, pois não conseguia lidar com madeixas longas no calor, e o papai dizia que eu parecia uma fada com meus grandes olhos azuis e cabelo castanho espetado.
Inclinei a cabeça, passando o dedo sobre meus lábios cheios. Suar fazia maravilhas para a minha pele, que nunca esteve tão limpa quando não estava coberta por pó de carvão.
Tomei banho rápido, enrolando uma toalha no corpo ao sair do recinto vaporizado. Eu queria outro emprego e não conseguia imaginar fazer isso por muito tempo, mas, por ora, não havia opções viáveis.
Depois de dar uma olhada no papai, subi as escadas apressada. Sem vestir pijama, joguei a toalha na porta e desabei na cama, que rangeu de forma sinistra a cada movimento.
O sótão era maior que os outros quartos e aconchegante com suas paredes inclinadas — meu pequeno santuário. Nem o Mal se aventurava por ali.
Além da cama e da mesa de cabeceira, eu tinha uma cômoda e um único varão para pendurar minhas roupas. Uma parede azul-petróleo iluminava o espaço, complementada por cortinas contrastantes que esvoaçavam levemente na corrente de ar da janela.
Amanhã era sexta-feira — dia de pagamento. Mal podia acreditar em como as seis semanas tinham passado rápido. Nesse ritmo, eu estaria velha antes mesmo de estar pronta.