Prólogo
18 meses atrás...
O escritório estava silencioso. Não calmo — nunca era —, mas imóvel. Aquela quietude que vem com as horas da meia-noite e a pressão de milhões de dólares.
Imani Jones estava sentada sozinha em sua mesa de vidro, as luzes da cidade piscando atrás dela como se soubessem o segredo que ela carregava: ela estava perto. O acordo entre Lane Corp e Apollo Security — uma fera de um bilhão de dólares — estava quase concluído. Ela passou a maior parte de sete meses construindo tudo do zero e, amanhã, entraria em uma sala de reuniões com Michael e Maxwell Lane para conseguir suas assinaturas.
Sem erros. Sem distrações. Apenas precisão.
Ela recostou-se por um momento, alongando a coluna, deixando o leve ruído do couro da cadeira ecoar pela sala. Seu batom não estava borrado, ela ainda estava de salto alto, e sua armadura — aquela compostura calculada que ela vestia como seda — não tinha rachado uma única vez.
Uma mulher como ela não recebia segundas chances em salas como aquela.
Por isso, ela se certificava muito bem de que não precisasse delas.
Ela esticou a mão para pegar sua água, ignorando a garrafa de Macallan que alguém tinha deixado no aparador ao lado. Tentador, mas não naquela noite. Ela não estava ali para um brinde. Estava ali para terminar o serviço.
Foi quando ela ouviu. Uma batida lenta. Depois, uma voz — casual demais, tarde demais.
“Trabalhando muito, Jones?”
Silas Meade.
Ela não olhou para cima imediatamente. Ela já estava se preparando, seu corpo ficando rígido sob a seda da blusa.
Ele entrou antes que ela respondesse. É claro que entrou. Um sócio nominal. Na casa dos quarenta anos. Sempre barulhento demais, íntimo demais, próximo demais. O tipo de homem que construiu a carreira sabendo a hora de sorrir e a hora de encurralar.
“Imaginei que você ainda estaria aqui”, disse ele, caminhando até a mesa dela com um copo de líquido âmbar na mão. “Pensei em vir ver a garota de ouro da firma em ação.”
Ela olhou para cima lentamente, o olhar indecifrável.
“Só terminando algumas coisas”, disse ela friamente. “O contrato da Apollo está fechado. Reunião com os Lanes amanhã.”
Silas deu um assobio baixo e caminhou para trás da cadeira dela sem ser convidado. “Você é uma máquina, sabia? Faz um homem se perguntar como você é fora do expediente.”
O estômago de Imani revirou. Ainda assim, ela manteve o tom de voz estável.
“Vou encarar isso como um elogio.”
Ele riu. “Foi um elogio. Vamos lá, beba algo comigo. Relaxe.”
Ela virou na cadeira, levantando-se — calma, plena. “Eu realmente deveria terminar de casa. Está tarde.”
Ela começou a guardar os arquivos ordenadamente na bolsa. Cada movimento era suave, deliberado. Mas seus dedos tremiam. Ela só precisava sair dali.
“Eu te acompanho até a saída”, disse Silas.
“Não precisa.”
Mas ele já estava entre ela e a porta. Ele se aproximou. Perto demais. O cheiro de uísque a atingiu primeiro, depois o peso da mão dele em seu braço.
“Você não precisa sair correndo.”
Então — a respiração dele perto de sua orelha. Os lábios dele em seu pescoço.
Ela parou. Por um segundo agudo e intenso. “Silas, não.”
Ele a ignorou. Uma das mãos serpenteou pela sua cintura, a outra agarrou sua bunda, com os dedos cravando na pele.
E então — ela reagiu.
Com um movimento rápido e brutal, seu joelho subiu e acertou em cheio a virilha dele.
Silas se dobrou, um arquejo rouco saindo de seus lábios.
Imani recuou, com os olhos ardendo, mas a voz firme. “Eu disse não.”
Ela não esperou para ver se ele se recuperava. Pegou a bolsa, prendeu os arquivos do contrato debaixo do braço e saiu da sala, seus saltos batendo no chão como tiros.
Ela não chorou. Não hesitou. Não se permitiu sentir nada. Ela arquivaria aquilo — como fez todas as outras vezes em que sobreviveu a um homem que confundiu sua compostura com consentimento.
Mas, desta vez, ela não ia deixar passar.
Não para sempre. Não de novo.
Na manhã seguinte...
O escritório ainda estava escuro quando Imani chegou.
As luzes do teto piscaram enquanto aqueciam, lançando reflexos pálidos nos pisos de mármore. O prédio estava quieto — quieto demais. Mas ela preferia assim. O silêncio a deixava pensar. Deixava-a planejar.
Dentro de sua sala, ela trancou a porta e sentou-se à mesa com uma facilidade treinada. Seu blazer bem cortado abraçava seus ombros, os saltos perfeitamente imóveis sob a mesa. Nem um fio de seu cabelo estava fora do lugar, nem um traço de sua expressão era suave demais.
Ela abriu seu caderno de capa de couro sem hesitar.
Relatório de Incidente – Silas Meade
Sua caneta moveu-se rapidamente, linha por linha. Ela detalhou os eventos: hora, local, linguagem usada, contato físico, a localização precisa das mãos dele. Ela incluiu a bebida favorita dele, sua rota de saída, o momento em que soube que estava em perigo — o tipo de precisão que eles não poderiam ignorar.
Seu relato era meticuloso. Não emocional. Sem bagunça.
Assim como ela.
Ela não estava apenas denunciando um assédio. Estava construindo um caso.
Mas ela nem tinha chegado ao último parágrafo quando a porta se abriu. Sem batida. Sem aviso.
Steinberg.
Rosto vermelho, arrogante e exalando uma autoridade presunçosa.
“Você está fora do negócio da Lane Corp”, disse ele secamente, como se não fosse nada.
Imani não piscou. Ela pousou a caneta com calma deliberada e olhou para cima, com o olhar frio. “Perdão?”
Albert entrou, atravessando a sala com aquela casualidade performática que homens como ele usavam como se fosse colônia.
“Eu remanejei a conta da Lane. O seu namoradinho, Jerome Winslow, vai cuidar disso daqui para frente. Já orientei os clientes.”
A coluna de Imani se endireitou, embora sua expressão não tenha mudado. “Eu liderei esse acordo desde o primeiro dia; construí a estratégia, negociei os termos e gerenciei os dois lados. Agora você está me removendo no meio do fechamento — sem motivo?”
Albert zombou. “Muitos motivos, na verdade.”
Ela se levantou. Lentamente, com toda elegância e firmeza. Seus olhos se fixaram nos dele. “Ilumine-me.”
Ele encontrou seu olhar, o dele cheio de falsa simpatia e uma ameaça mal disfarçada.
“Silas abriu uma queixa esta manhã”, disse ele com um dar de ombros. “Diz que você deu em cima dele ontem à noite. Ficou agressiva e física quando ele tentou ir embora.”
Imani piscou e, por um segundo perigoso, o ar entre eles parou. “Você está me acusando de assédio sexual? Você está falando sério?”
Albert cruzou os braços e sorriu, com um ar predatório e presunçoso. “Gravíssimo. Temos que levar todas as acusações a sério, Srta. Jones. Você sabe disso. Você tem sorte de ele não estar abrindo um processo criminal. Poderíamos ter mandado a segurança escoltá-la para fora hoje de manhã.”
Ela riu — baixo, sem humor, enquanto a fúria surgia quente e afiada em seu peito.
“Você está protegendo um predador e tentando me incriminar como sendo um?”
Albert se inclinou para mais perto. “Deixe-me te dar um conselho: não me ameace, Imani. Você é boa, claro. Mas não é insubstituível. Nem protegida. E, definitivamente, não é intocável.”
“Você está protegendo um predador”, disse ela entre dentes cerrados.
A expressão de Albert não vacilou.
“Cuidado, Imani. Ameaças vazias não combinam com você.” Ele deu um passo à frente. “Você não tem provas. É apenas a sua palavra contra a dele.”
Imani não respondeu de imediato. Ela sustentou o olhar dele, calma e silenciosa, mas seus olhos eram lâminas.
Ela era esperta demais para revelar seu jogo. Por isso, não disse nada sobre a câmera que instalou em seu escritório.
Nada sobre as filmagens.
Nada sobre o que ela estava construindo.
Em vez disso, ela simplesmente sorriu. “Agradeço pelo esclarecimento, Sr. Steinberg.”
Albert inclinou a cabeça, esperando que ela perdesse o controle. Mas ela não perdeu.
Ela simplesmente sentou-se novamente e o dispensou com a facilidade de alguém que já sabia como aquilo terminaria.
Albert ficou ali por um segundo a mais do que o necessário, então virou-se e saiu sem dizer mais nada.
A porta fechou com um clique atrás dele e Imani pegou a caneta novamente. O relatório podia esperar. Ela tinha um jogo maior para jogar agora. Quando Albert Steinberg a visse chegando... seria tarde demais.
Ela exalou lentamente. Sua máscara voltando para o lugar com precisão cirúrgica.
Ela não ia quebrar.
Ela ia ver todos eles queimarem.
Três horas depois...
Imani estava sentada à mesa, quase sem se mover, os olhos fixos no monitor. O briefing da Lane Corp seria em duas horas. Ela não estava na lista de convidados e não fora incluída na preparação pré-reunião. E o silêncio que vinha da sala de Albert era intencional — punição embrulhada em mesquinharia. Ela esperava por isso. Mas o que ela não esperava... foi o ping.
Sua caixa de entrada acendeu.
Assunto: Revisão Final da Fusão Lane-Apollo – Urgente
Ela clicou. Lentamente. Deliberadamente. E lá estava.
De: Michael Lane
Para: Albert Steinberg
CC: Imani Jones, Maxwell Lane, Conselho Jurídico, Hank Turner
Se a Srta. Jones não for reintegrada como advogada principal neste acordo imediatamente, a Lane Corporation rescindirá o contrato. Isso não é negociável. Nós confiamos no julgamento dela. Ponto final.
De: Hank Turner
Eu apoio a decisão. Se ela não estiver à frente deste acordo, a Apollo Security também está fora. Eu apoio a Imani. Sempre apoiei.
Imani piscou uma vez. Seu coração apertou — mas não de nervosismo. Com algo mais caloroso. Algo perigosamente próximo da gratidão.
Outro ping.
De: Albert Steinberg
A Srta. Jones está reintegrada na conta da Apollo Security, com efeito imediato.
Sem pedido de desculpas. Sem reconhecimento. Apenas o controle de danos desesperado de um homem tentando tapar buracos em um navio que afunda.
Imani recostou-se lentamente, os dedos entrelaçados sob o queixo. Calma. Afiada. Mas sob a superfície?
Fogo.
Dez minutos depois, a internet começou a agitar-se. Seu telefone vibrava incessantemente na mesa até que alguém bateu suavemente na porta de seu escritório.
Ela nem precisou perguntar. Ela já sabia.
O nome de Silas Meade estava nos trending topics.
Prints. Alegações. Clipes de áudio.
O escândalo de Aaron Parker tinha explodido e as digitais de Silas Meade estavam por toda parte. Manipulando um quarterback estrela da NFL. Adulterando contratos. Coagindo o silêncio. Usando influência jurídica para controlar resultados.
A Lane Corp cortou os laços imediatamente e uma declaração pública e incisiva foi divulgada:
“Não toleramos comportamento antiético. Devido às revelações recentes envolvendo Silas Meade, estamos encerrando nosso relacionamento jurídico com a Steinberg & Meade com efeito imediato.”
Imani estava de pé junto à janela, de braços cruzados, observando as manchetes rolarem na tela da TV no lounge fora de seu escritório. O andar inteiro estava em polvorosa.
E então a porta de seu escritório se abriu.
Albert.
Seu rosto estava tenso. Seus lábios comprimidos. Mas a fúria em seus olhos mal estava disfarçada.
“Você me custou um acordo de um bilhão de dólares”, disse ele, com veneno em cada palavra.
Imani não se virou. Apenas fitou o horizonte da cidade, a voz tão suave quanto sempre.
“Não”, disse ela suavemente. “Silas custou.”
Albert entrou mais. “Você estava no comando quando tudo desmoronou. Isso torna a falha sua. A Lane Corp se foi. Vou garantir que cada canto desta indústria saiba que foi porque você não conseguiu segurar a situação.”
Ela finalmente se virou, encarando-o. Sua expressão era indecifrável.
“E ainda assim”, ela disse calmamente, “a Apollo Security ficou.”
Ele estremeceu.
“Não por você”, acrescentou ela. “Por mim.”
As narinas de Albert se dilataram. “Não deixe isso subir à sua cabeça. Hank vai te descartar eventualmente. Você não é invencível, Jones.”
Imani caminhou de volta para sua mesa, sentou-se e pegou a caneta.
“Não”, murmurou ela, sem olhar para ele. “Mas eu sou inevitável.”
Albert saiu sem dizer mais nada.
Mais tarde, naquela noite, Imani sentou-se sozinha em seu escritório, uma luz suave lançando um brilho quente sobre sua mesa. Seu telefone vibrou.
Hank Turner:
Orgulhoso de você, Mani. Continue fazendo o que você faz de melhor. Se algum dia você sair daquele lugar... estarei logo atrás de você.
A garganta de Imani apertou levemente ao ler. Ela não sorriu. Mas soltou o ar. Lentamente.
Talvez, só talvez... ela tivesse mais aliados do que pensava. E ela não desperdiçaria o poder da crença deles.
Nem agora. Nem nunca.









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