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Minha mãe sempre disse que eu era intrometida demais, barulhenta demais, exagerada demais. Talvez ela estivesse certa. Eu sempre fui do tipo que enfia o nariz onde não deve. Mas desta vez, desta vez, eu posso ter feito uma grande merda.
Era um sábado à noite típico, mas o cansaço pesava mais do que o normal. Depois de encarar um turno exaustivo de doze horas e suportar o caos de uma festa fora da cidade, meu corpo implorava por descanso. Meus olhos ardiam, meus ombros latejavam e tudo o que eu conseguia pensar era em me jogar na cama. Enquanto eu me arrastava em direção ao carro, o zumbido do meu celular rompeu a névoa. A mensagem de Trent iluminou a tela como um sinalizador de alerta: “Vem logo para casa. Está tarde.”
Casa. Não para um marido ou namorado, apenas um apartamento que eu dividia com minha melhor amiga. Às vezes dividíamos a cama também. Casual, descomplicado. Era assim que eu gostava das coisas.
Enviei uma resposta rápida: “Estou a caminho. Vou pegar uns petiscos. Precisa de alguma coisa?”
Parei em um lugar estranho, uma beira de estrada desolada onde a grama cresce sem controle e o ar cheira levemente a chuva. Não é onde eu costumo estar, mas houve um acidente no meu caminho habitual. Eu desviei e agora estou aqui. Só eu, o brilho fluorescente de um posto de gasolina quase deserto e o silêncio monótono da noite.
Então eu ouvi.
Um grito.
Não era o tipo de grito que você ignora, uma discussão de casal bêbado ou alguém brincando. Não, esse atingiu meu peito, cru e desesperado. Eu congelei, minhas chaves apertando a palma da minha mão, o fôlego travado.
A princípio, não os vi. O posto era mal iluminado, o brilho da lâmpada única sobre as bombas mal atravessava a escuridão. Mas então eu os vi na beira do estacionamento: uma garota sendo arrastada pelo braço, lutando, com seus gritos abafados enquanto o cara que a segurava sibilava algo que eu não conseguia entender.
Meu estômago revirou. Eu deveria ter ido embora. Fingido que não vi. É o que a maioria das pessoas teria feito, certo? Apenas entrar no carro, trancar as portas e dirigir. Mas eu não consegui.
Não quando os olhos dela, arregalados e aterrorizados, encontraram os meus.
“Ei!” Minha voz saiu mais aguda do que eu esperava, cortando a noite silenciosa. O cara parou, virando-se para me encarar. Ele era jovem, não devia ter mais de vinte e um anos, embora eu não conseguisse ver muito do seu rosto com o chapéu de cowboy sombreando seus traços. A garota parecia muito jovem, talvez dezoito. Seu rosto estava pálido, marcado por lágrimas.
“Cuida da sua vida”, ele disse, seu tom quase entediado, como se eu fosse a errada da história. “Estamos só brigando.”
Papo furado.
A garota se encolheu quando ele apertou o braço dela. “Então solta ela”, eu disse, dando um passo à frente. Meu celular parecia escorregadio na minha mão trêmula. “Vocês podem se encontrar à luz do dia e brigar o quanto quiserem.”
Meu celular vibrou novamente, outra mensagem de Trent. “Vem logo para casa. Está tarde.”
Eu deveria ter ouvido.
Porque foi aí que ouvi os passos atrás de mim. Antes que eu pudesse me virar, algo duro atingiu a parte de trás da minha cabeça. A dor explodiu, quente e vívida, e minhas pernas cederam. O mundo girou, o asfalto subindo para me encontrar, mas um braço me pegou antes que eu atingisse o chão.
“Ela viu demais”, uma voz rosnou impaciente.
“Leva ela”, disse o primeiro. “A gente resolve com ela depois.”
Minha visão ficou turva, as luzes do posto borrando em faixas. Tentei lutar, mas meus membros pareciam lentos, distantes. O pânico surgiu, arranhando meu peito, mas era tarde demais.
Eu me intrometi.
E agora eu era um problema para eles.
“Eu sinto muito, por favor, deixem...”
As palavras vieram abafadas e distorcidas, como se estivessem debaixo d'água. Alguém estava soluçando, não, não alguém. Ela. A garota. Aquela que estava gritando.
Minha cabeça latejava, uma dor surda e implacável na base do meu crânio. Tudo parecia errado. Minhas pálpebras estavam pesadas como chumbo, difíceis de levantar, mas eu lutei contra isso, piscando devagar, atordoada. A escuridão ao meu redor continuava puxando minha consciência como areia movediça, mas os solavancos do carro me traziam de volta.
Um carro. Eu estava em um carro. Isso eu sabia.
O banco sob mim era áspero, pegajoso em alguns pontos. Vinil, talvez. Minhas mãos não queriam se mover. Ou talvez não pudessem. Não. Eu conseguia movê-las. Eu só… não conseguia senti-las direito, como se não me pertencessem. Pareciam pesadas demais, como âncoras.
O carro passou por um solavanco e minha cabeça tombou para o lado. Foi quando eu a vi.
A garota.
Ela estava encolhida no banco da frente, com os ombros trêmulos e as mãos pressionadas contra o rosto. O cabelo estava bagunçado, grudado nas bochechas com lágrimas. “Eu sinto muito”, ela continuava dizendo, com a voz quebrando repetidamente, como um disco arranhado. “Eu sinto muito, eu não quis dizer...”
“Cala a porra da boca!” O rosnado me fez estremecer, ou pelo menos acho que fez. Eu não conseguia distinguir onde meu corpo terminava e a dor começava. Minha visão nadava, formas borradas mudando como sombras na água, mas eu vi flashes: cabelo loiro, um maxilar marcado, um punho fechado segurando algo, um celular? Uma carteira? Eu não conseguia dizer.
O homem se inclinou para frente, sua voz afiada, cortando a garota. Ele empurrou algo em direção a ela, e ela recuou como se aquilo pudesse queimá-la. “Eu disse, para de chorar! Você vai piorar as coisas!”
Ela soluçou, um soluço abafado preso na garganta.
Tentei me mover novamente, sentar, falar, mas minha boca parecia cheia de algodão, minha língua pesada e inútil. Um gemido fraco escapou, um som patético que mal passou pelos meus lábios.
A cabeça do homem se voltou para mim. Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo, e meu estômago despencou. O rosto dele se contorceu, o maxilar apertando, antes de se virar para o segundo homem. “Que porra eu te disse? Você deixou ela ver meu rosto, né? Você é inútil!”
Ele bateu no painel com a palma da mão, o som afiado ecoando no espaço confinado. A garota estremeceu de novo, encolhendo-se como se quisesse desaparecer.
O carro desviou levemente e minha cabeça tombou para o outro lado, batendo em algo duro, uma porta, talvez. Um som metálico surdo. Deixei escapar outro gemido, este mais alto, mas só me rendeu um sibilado: “Cala a boca dela!”
“Por favor, eu sinto muito”, a garota choramingou de novo, a voz mal passando de um sussurro agora. Eu queria gritar, dizer a ela que a culpa não era dela, pedir para ela correr. Mas meu corpo não obedecia. Tudo o que eu podia fazer era piscar devagar, lutando para me manter acordada enquanto as sombras ao meu redor engoliam a luz.
Eu não ia para casa hoje.
O tempo passou. Minutos, horas, quem poderia dizer? O zumbido do motor era uma vibração surda sob minha pele, me embalando entre a consciência e o desmaio. Eu acordava, meio consciente, e então desmaiava novamente, afundando naquele espaço estranho e escuro onde a dor latejava, mas o mundo parecia distante, irreal.
Quando o carro finalmente parou, meus olhos se abriram, embora tudo ainda estivesse borrado.
“Ela não consegue andar. Só pega ela”, uma voz rouca rosnou.
Antes que eu pudesse processar as palavras, senti mãos sob mim. Meu corpo se moveu, sem peso por um momento, depois pressionado contra o peito de alguém. Estavam me carregando. Senti o calor constante do corpo deles, o balanço rítmico de seus passos. O ar bateu no meu rosto, mais frio agora, mais fresco. Tinha cheiro de terra e grama. Lutei para entender, para me ancorar. O que está acontecendo? Onde estou? Meus pensamentos giravam, escorregadios e fragmentados.
Minha visão focou, só um pouco, quando minhas pálpebras se abriram novamente. Formas borradas se resolveram no contorno de um celeiro. Um grande. Uma estrutura gasta, sua madeira escurecida pelo tempo e pela umidade. Campos se estendiam infinitamente além, nada além de espaço aberto por quilômetros. Sem estradas. Sem luzes. Do outro lado, uma floresta.
Quem estava me carregando parou, suas botas estalando contra um caminho de terra. Outro som rompeu: o choro dela. A garota. Seus soluços estavam mais altos agora, crus e quebrados.
Meu peito apertou ao ouvir, embora eu nem conseguisse levantar a cabeça para procurá-la. E então, de repente, o som de carne batendo em carne. O estalo me acordou completamente, meu estômago revirando como se eu mesma tivesse sido atingida.
Os gritos dela viraram um gemido, e ouvi a voz rouca novamente, baixa e ameaçadora: “Fica quieta, ou vai ser pior.”
Tentei me mover, levantar a cabeça, mas era como se meu corpo não me pertencesse. Meus membros estavam lentos, meu pescoço fraco. Um gemido escapou da minha garganta, não intencional, e senti os braços que me seguravam vacilarem.
“Merda. Ela está acordando.”
Antes que eu pudesse me localizar, fui jogada no chão.
O impacto tirou o fôlego, não foi forte, mas o suficiente para fazer minha cabeça girar. Caí em algo áspero, que coçava, espetando meu lado. Feno. Eu estava deitada em feno.
O cheiro de terra encheu meu nariz enquanto eu piscava, tentando focar no ambiente. Uma risada áspera soou acima de mim. “Deixa ela aí. Ela não vai a lugar nenhum.”
Eu conseguia ver mais agora, minha visão clareando lentamente. Virei a cabeça, ou pelo menos pensei que virei. O mundo inclinou, mas vi vultos: a garota ajoelhada, o rosto vermelho e manchado, as mãos protegendo a bochecha. O homem loiro de pé sobre ela, um cigarro pendurado nos lábios. Atrás deles, as portas do celeiro estavam abertas, sombras se espalhando como tinta.
Engoli em seco, o gosto de sangue e bile subindo pela garganta. A voz rouca falou de novo, mais perto agora. “Leva ela para dentro. A gente vê o que faz com elas depois.”
Elas. Eu. Ela.
Senti uma onda fria de medo me atingir, mais aguda agora que minha cabeça clareava. Eles não tinham terminado conosco.
Nem de longe.
Não estou amarrada.
Isso é algo, pelo menos. Não estar amarrada significa que posso fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Pense, Sam. Pense.
Me movo devagar, pressionando as palmas das mãos contra o chão para me estabilizar enquanto subo de joelhos. Minha cabeça lateja como um tambor, cada batida mais forte que a anterior. Meus dedos instintivamente vão para a parte de trás da minha cabeça, e quando saem pegajosos e quentes, sei que é sangue. Meu cabelo está emaranhado com ele, grosso e grudado, e eu me contorço com a sensação dele grudando no couro cabeludo.
Eles me bateram forte, provavelmente com algo contundente. Um cano? Uma chave inglesa? O que quer que tenha sido, deixou minha cabeça latejando e meus pensamentos lentos.
Concussão, diagnostico silenciosamente, me forçando a respirar devagar e uniformemente. Pelo nariz, solta pela boca. Já vi pior antes, muito pior. A respiração está firme, a visão clareando. Sem sinais imediatos de dano cerebral, embora meu estômago revire perigosamente.
Foco.
A garota está chorando, seus soluços afiados e irregulares, cortando a névoa como vidro. Olho para cima, minha visão focando o suficiente para distinguir sua forma. Ela está encolhida no chão, ombros trêmulos, mãos protegendo a cabeça como se esperasse outro golpe.
Dois deles.
O cara loiro está andando de um lado para o outro, resmungando irritado. Seu cigarro pende dos lábios, a brasa laranja brilhando fracamente na luz fraca do celeiro. O outro, o da voz rouca, paira perto da garota, observando-a com o tipo de desdém cruel que faz meu sangue gelar.
Dois homens.
Não posso fazer muito contra dois. Não assim.
E estou com medo. Deus, estou com tanto medo.
Meus braços tremem enquanto tento mudar meu peso, e a náusea que estava borbulhando no meu estômago finalmente surge.
Não, não, não, agora não.
Fecho a boca com força, mas não adianta. O ânsia de vômito vem forte e rápido, rasgando-me com uma força que não consigo controlar.
Me inclino para o lado, segurando o estômago enquanto vomito no feno. É alto, bagunçado e impossível de esconder. Minha garganta queima e lágrimas picam meus olhos enquanto tento respirar entre as ânsias.
Os passos param.
“Que porra é essa agora?” A voz do loiro é afiada, irritada. Posso ouvir o estalo de suas botas enquanto ele se aproxima.
“Ela está vomitando?” diz o rouco, seu tom de nojo. “Merda, cara, ela deve estar com concussão ou algo assim.”
“É, não brinca”, dispara o loiro. “Ótimo. O que diabos a gente vai fazer com ela agora? Se ela estiver muito ferrada...”
Não dou a eles uma chance. Me levanto, minhas pernas tremendo, mas firmes. Deus, só me dá essa chance. Só uma chance. A garota ainda está chorando, seus soluços diminuindo enquanto ela me encara, com os olhos arregalados. Ela sabe que algo está prestes a acontecer. Inferno, eu também sei. Meu pulso dispara nos meus ouvidos. Move-se, imploro silenciosamente. Não fique aí parada. Faça alguma coisa. Se a gente não lutar, estamos mortas, ou pior.
Um deles é só um pouco mais alto que eu, o outro paira sobre nós como uma parede, facilmente com quase dois metros e um porte físico maior. Minha altura é o suficiente para me manter de pé, mas minha cabeça lateja como se alguém estivesse martelando pregos no meu crânio. Não importa. Se eu puder pegá-los de surpresa, se eu puder acertar um soco limpo e forte em um deles, posso ganhar impulso. Só preciso desse segundo.
Olho para a garota. Ela está me observando, arregalada, os ombros tremendo. “E-eu preciso de água”, gaguejo, segurando a bainha da minha saia para estabilizar minhas mãos trêmulas. Tento parecer fraca e atordoada, menos como uma ameaça, mais como um problema para ser descartado.
O loiro franze a testa, olhando para o homem mais alto. O mais alto geme, acenando com a mão de forma desdenhosa. “Fica de olho nelas”, ele resmunga, caminhando em direção à porta do celeiro como se não fôssemos mais perigosas do que alguns gatinhos perdidos.
Perfeito. Um a menos.





great 😲😍
Will never forget this book, so poignant. Great job author👌💯I still feel sad about it and they don't even exist 🤭🤗
A horrible situation to be in with 2 horrible men. Don’t know how they will get out of this. 😯