Capítulo 1
Maggie
Eu não sei por que ainda me dou ao trabalho de pagar por este apartamento de merda. Eu quase não fico aqui. Na maioria das noites, estou afundada em turnos dobrados na lanchonete, servindo café e hambúrgueres gordurosos para caminhoneiros e notívagos que mal deixam gorjeta. Quando finalmente me arrasto para casa, meu corpo dói como se tivesse sido atropelado por um caminhão, e a única coisa que me espera é uma bancada de cozinha lascada, armários amarelos que não veem uma camada de tinta fresca há décadas e um fogão que só funciona quando bem entende. A geladeira faz um barulho alto demais, o chão range como se estivesse sussurrando segredos, e a água demora uma eternidade para esquentar. Mas é meu. Pelo menos, é isso que digo a mim mesma quando pago o aluguel todo mês.
Fugi de casa aos quinze anos. Saí pela porta da frente enquanto minha mãe estava chapada demais para notar. Saí com uma mochila, cinquenta e três dólares que roubei da bolsa dela e aquele tipo de instinto de sobrevivência que você só ganha quando cresce sabendo que não pode contar com ninguém além de si mesma. Naquela época, eu achava que a liberdade seria diferente — talvez mais leve. Em vez disso, ela parece exaustão, como o cheiro de café queimado no meu uniforme e a dor nos pés que nunca vai embora.
Mas não me arrependo de ter ido embora. Nem por um segundo. Nem quando me lembro do jeito que ela costumava olhar através de mim, mais interessada em buscar o próximo barato do que em olhar para a própria filha. Algumas noites, quando a lanchonete está calma e o mundo lá fora não passa de luzes de rua piscando e algum bêbado passando tropeçando, eu me pergunto se ela sequer lembra que eu existo. Então, espanto esse pensamento.
Eu tenho minha própria vida agora. Mesmo que seja apenas um apartamento de merda e um crachá que diz Maggie.
O prédio é um lixo. A tinta descasca em tristes enroladinhos pelo corredor, e o elevador dá solavancos como se estivesse decidindo se vai despencar toda vez que você entra. Tem um cara que ronca alto do outro lado da parede fina como papel do meu quarto, e parece que ele está cerrando madeira dentro do meu crânio às três da manhã. A Sra. Levinson, a velhinha duas portas depois, coloca o Jeopardy! tão alto que juro que o Alex Trebek está assombrando o lugar, e ela não apenas assiste — ela grita as respostas, mesmo quando está errada. E ainda tem os babacas do segundo andar. Não sei os nomes deles, mas conheço o tipo: barulhentos, sempre bebendo, sempre rindo como se não tivessem preocupação nenhuma no mundo. Eles deixam latas de cerveja na escada, batem as portas a qualquer hora e acham que o corredor é o lounge de fumantes particular deles.
A única coisa que se salva neste buraco é o cara do outro lado do corredor. Um policial. Não sei o nome dele, mas conheço o olhar: ombros largos, maxilar marcado, olhos que não deixam passar nada. O tipo soturno. Chega sempre tarde, uniforme meio desabotoado, chaves tilintando na mão enquanto abre a porta sem dizer uma palavra. Nunca o ouvi dizer olá, nunca o vi sequer acenar na minha direção, mas sei que ele está observando. Não de um jeito assustador — apenas... atento. Como se tivesse um radar embutido para encrenca. E em um lugar como este, aposto que esse radar apita muito.
Não que isso seja da minha conta. Eu mantenho minha cabeça baixa, minhas gorjetas bem dobradas no bolso do avental e minha porta trancada. É assim que você sobrevive em lugares como este. Fique na sua. Não se envolva.
E, ainda assim, toda vez que ouço suas botas pesadas no corredor, dou por mim ouvindo.
É bom ter um policial no prédio. Mantém a maior parte da encrenca longe — pelo menos o tipo que normalmente prosperaria em um lugar como este. Nada de invasões aleatórias, nada de viciados tentando forçar portas no meio da noite. Até o senhorio, um bastardo nojento com olhos esquivos e uma tendência a "esquecer" de consertar as coisas, mantém distância. Já lidei com a minha cota de senhorios escrotos antes — aqueles que acham que, por você ser uma mulher solteira morando sozinha, eles podem "ignorar" um atraso no aluguel em troca de um favor. Mas não esse cara. Ele pode ser um mão-de-vaca, mas é inteligente o suficiente para não tentar nada com um policial morando bem na porta da frente.
E então, tem os tarados.
Já roubaram minhas calcinhas antes. É sempre o mesmo tipo de cara — aqueles que demoram demais na lavanderia, que encaram um pouco demais quando acham que você não está olhando. Uma vez, no meu último apartamento, peguei um babaca com a mão na massa revirando minha cesta, segurando uma calcinha de renda como se fosse um troféu. Eu fiz um escândalo, mas o senhorio apenas deu de ombros. "Meninos são meninos", ele disse, como se não fosse nada. Como se não fosse nojento.
Mas não aqui.
Não neste prédio.
Talvez seja sorte. Talvez seja o fato de que a maioria dos caras aqui não quer arriscar irritar um policial. De qualquer forma, não preciso me preocupar em encontrar minhas roupas íntimas faltando ou algum tarado respirando no meu pescoço quando estou verificando a correspondência. E embora eu não conheça o cara do outro lado do corredor, sei o suficiente. Ele anda como alguém que não tolera merda. Ele se porta como alguém que já teve que quebrar alguns narizes.
E, por alguma razão, isso me faz sentir mais segura do que eu jamais admitiria.
Às vezes o vejo chegando em casa com um pacote de seis cervejas, geralmente em dias de jogo. Sempre a mesma marca — barata, nada chique. Apenas algo para beber enquanto relaxa. Ele nunca carrega mais do que isso, nunca chega cambaleando de bêbado ou cheirando a uísque como alguns dos outros caras no prédio. Apenas o pacote de cerveja, uma expressão cansada e aquela mesma atenção de olhos vivos, como se, mesmo fora de serviço, ele não conseguisse desligar totalmente.
Já vi vislumbres dele quando a porta se abre — um apartamento escuro, mobiliado com pouco, o brilho de uma TV passando algum resumo de esportes tarde da noite. Sem decoração, sem aconchego. Apenas um sofá, uma mesa de centro cheia de papéis e o brilho fraco de um abajur que mal atravessa as sombras. Um homem que mora ali, mas não realmente.
Às vezes, quando entro no corredor na hora certa, ouço o som do jogo através da porta dele — comentários baixos, o rugido ocasional da torcida saindo pelas caixas de som. Fico imaginando se ele grita com a TV, se ele é do tipo que joga o boné quando o time dele faz merda, ou se apenas assiste em silêncio, com o maxilar travado e a cerveja na mão.
Não sei por que me importo.
Talvez porque ele seja a única pessoa neste prédio que eu não consigo decifrar. Os barulhentos, os babacas, os solitários — eu já entendi todos eles. Mas ele? Ele é um ponto de interrogação. Um policial que fica na dele, que não puxa conversa, que nunca bateu na minha porta, embora eu saiba que ele ouve a mesma merda que eu.
Isso deveria fazer com que ele parecesse apenas mais um estranho. Mas não parece.
Porque eu sei que, se a encrenca viesse bater à porta, ele seria o primeiro a atender.









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