0 - Eu nem queria estar aqui mesmo
Se eu tivesse coragem, eu Certamente te morderia
Lex Silvas
27/12/25
Não acredito que o idiota do meu marido me trouxe para esse inferno de retiro espiritual disfarçado de terapia de casal, como se ouvir um sujeito presunçoso mal disfarçado de guru espiritual falando sobre a santidade do casamento fosse me fazer esquecer das infidelidades do meu querido marido. E sim, no plural mesmo, porque o grande Michael Boswan aparentemente é incapaz de controlar seus impulsos sexuais e precisa se envolver com qualquer coisa que se mexa, melhor ainda se tiver peitos e atenda por algum nome de vagabunda tipo Christy ou Sally. Isso é ridículo.
Enfim, não quero me alongar demais em xingar aquele merda, porque senão essa história seria classificada como para maiores de 18, recheada de palavrões inventados do tipo “bostífero”, que não seriam permitidos em algoritmo algum. Mas vamos aos fatos. Oi, eu sou Danielle Boswan, mas esse sobrenome tem data e hora para cair, se depender de mim. Sou uma executiva da grande indústria do cinema e, em outra análise, passo boa parte da vida lidando com idiotas e incompetentes também conhecidos como homens engravatados, que acham que sabem mais sobre tudo do que eu só porque tem um pênis, mesmo eu estando nesse ramo há, pelo menos, trinta anos.
Fisicamente, dizem que eu tenho uma mistura curiosa: uma elegância fria, o olhar intenso e quase melancólico, e uma força discreta. Eu, sinceramente, acho tudo isso besteira. Convenhamos, sou o que eles chamam de beleza bruta misturada com elegância. Cabelos médios, loiros e claros, sempre prontos para uma foto; pele clara que carrega tanto sofisticação quanto fadiga; e um rosto que, mesmo quando sorri, deixa escapar uma sombra de ironia. Sou o tipo de mulher que entra numa sala e ninguém ousa ignorar, mesmo que preferissem.
Enfim, mesmo assim eu fui meio que forçada pelo meu marido querido a tentar uma última vez salvar o nosso casamento. Afinal de contas, se ele não estiver casado, com quem ele vai poder ser infiel, não é mesmo? Essa é a lógica torta que sustenta essa palhaçada toda.
Então cá estou eu, nesse hotel perdido no meio do nada, sem sinal de celular, cercada por árvores que parecem mais interessadas em me sufocar do que em me dar paz. O silêncio aqui não é calmante, é sufocante. E enquanto todos fingem meditar, respirar fundo e se conectar com o universo, eu só planejo mentalmente um jeito de acabar com essa farsa de uma vez por todas. Não, não literalmente matar todo mundo — embora essa ideia tenha seu charme — mas sim matar essa encenação, esse teatro barato de “cura espiritual” que só serve para me lembrar que paz, para mim, só virá quando eu me livrar do Michael e de toda essa comédia trágica que chamam de casamento.
— Bom dia, senhora Bowan — diz o atendente atrás do balcão do hotel, um jovem de cara lisa e sorriso falso, do tipo que parece treinado para parecer simpático, mas só consegue parecer cansado.
— Senhorita Ross — corrijo, baixando os óculos com a ponta dos dedos. — Prefiro meu sobrenome de solteira. Menos dor de cabeça.
— Eu entendo — diz ele, sem graça, tentando disfarçar o constrangimento.
— O seu marido e você estarão hospedados na suíte 150 — completa ele, como quem tenta mudar de assunto. — E onde ele está?
De repente, atrás de mim, vestindo uma camisa floral brega que eu insisti para ele não usar — mas ele nunca me escuta — surge o meu marido.
Michael, senhoras e senhores, eu lhes apresento o homem que um dia foi o motivo da minha alegria e que agora só me causa problemas. Alto, com aquele ar de quem acha que está sempre prestes a ser fotografado, mesmo quando não deveria. Cabelos castanhos bem aparados um pouco grisalhos, olhos azuis que já me encantaram e hoje só me irritam, e aquele sorriso de canto de boca que ele usa como se fosse um cartão de visita. Ele veste um blazer escuro por cima da maldita camisa florida, tentando parecer casualmente elegante, mas o resultado é mais “pai de noiva bêbado no casamento da filha” do que qualquer outra coisa.
Michael tem aquele tipo de beleza que envelhece bem demais para o próprio bem: o rosto ainda firme, a barba bem cuidada, e uma expressão que mistura charme com uma dose insuportável de autoconfiança. Ele é o tipo de homem que sabe que chama atenção — e abusa disso como se fosse um talento nato.
E eu? Eu sou a mulher que já caiu nessa armadilha à vinte anos atrás.
— Aí está ele — digo, revirando os olhos. — Deve ter cansado de amolar o valet sobre a porcaria do carro dele.
Michael chega e me abraça por trás, como se estivéssemos num comercial de margarina. Troca algumas palavras amigáveis com o recepcionista, aquele mesmo com cara de quem está preso num estágio eterno de hotelaria e já desistiu de fingir entusiasmo.
Depois de nos entregar as chaves do quarto, o rapaz nos informa, com um sorriso forçado, que antes de irmos para a suíte 150, devemos passar no salão principal para uma apresentação do guru — ou seja lá o que ele for — que vai tentar salvar nosso casamento de naufragar. Boa sorte pra ele. Eu já pulei fora no primeiro bote salva-vidas, pode apostar. Mulheres e crianças primeiro nessa merda.
Seguimos adiante pelo corredor decorado com plantas falsas e quadros genéricos de paisagens que ninguém nunca viu. Michael caminha ao meu lado, com aquele ar de quem acha que está fazendo um grande gesto só por estar aqui. Ele até tenta segurar minha mão, mas eu finjo coçar o nariz e escapo com elegância.
O salão grande tem cheiro de incenso barato e uma iluminação que tenta ser zen, mas só consegue ser deprimente. Casais espalhados em cadeiras acolchoadas olham para frente como se esperassem um milagre ou, no mínimo, um bom café. No palco, um homem de túnica branca e expressão beatífica ajusta o microfone, pronto para despejar sabedoria de almanaque sobre amor, perdão e reconexão espiritual.
Michael me lança um olhar como quem diz “vamos tentar, né?”, e eu respondo com um sorriso que diz “tenta você, eu só vim pela ironia”.
Nós estamos sentados no salão quando o homem finalmente começa a falar. O microfone chia, como se até ele estivesse cansado da palhaçada.
— Alô, alô, testando… — diz o sujeito, com uma voz que tenta soar profunda, mas só consegue ser irritante. — Oi, o meu nome é Cassius McCalister. Eu serei o líder de vocês nessa jornada.
Jornada. Claro. Como se eu tivesse me inscrito para escalar o Himalaia e não para ouvir um charlatão de camisa branca e sorriso ensaiado. Ele fala devagar, pausado, como se cada palavra fosse uma revelação divina. Eu só penso que se ele demorar mais dois minutos nesse ritmo, metade do salão vai dormir antes da tal “cura espiritual” começar.
Michael, ao meu lado, está com os olhos brilhando, como se tivesse encontrado o messias. Eu, por outro lado, só balanço a perna, entediada, contando quantas pessoas já parecem arrependidas de estar aqui. Uma mulher na primeira fila força um sorriso, um casal atrás de mim cochicha, e eu só imagino o quanto esse guru deve cobrar por hora para repetir frases de calendário motivacional.
Cassius abre os braços, teatral, como se fosse abraçar o mundo. Eu seguro uma risada. Se esse é o homem que vai salvar meu casamento, então boa sorte para ele. Eu já pulei fora do barco faz tempo — e não pretendo voltar a bordo.
Nós estamos sentados lá enquanto Cassius McCalister continua seu discurso sobre “abrir o coração” e “permitir que o amor flua”. O microfone chia, o incenso barato sufoca, e eu já estou contando quantas cadeiras têm nesse lugar só para não dormir.
De repente, uma mulher surge no palco como se tivesse brotado do chão. Os olhos dela estão cheios de lágrimas, a respiração é curta, e antes que alguém consiga reagir, ela puxa uma arma de fogo de dentro da bolsa.
O salão inteiro congela assutado e alguns até se agitam surpresos. Um disparo ecoa, seco, atravessando o ar. As pessoas gritam, cadeiras caem, casais correm em direção às portas como se o apocalipse tivesse começado. A mulher tenta virar a arma contra si mesma, mas dois seguranças aparecem rápido, agarram seus braços e a impedem de se ferir.
O salão está em caos. Pessoas gritam, correm, tropeçam umas nas outras, enquanto os seguranças arrastam a mulher para fora do palco. Cassius McCalister tenta manter a calma falando no microfone que está bem — infelizmente, mas sua voz treme no microfone, repetindo frases sobre “amor e perdão” que ninguém mais escuta.
Michael e eu permanecemos sentados, imóveis, como se estivéssemos assistindo a um filme ruim que insiste em se alongar. Ele olha para mim, eu olho para ele, e por um instante parece que somos os únicos lúcidos nesse circo.
— Que merda — digo sem ânimo.
— Eu sei — responde ele, ainda encarando o palco.
— Porque não fui eu quem pensou em fazer isso antes — completo, cruzando as pernas e ajeitando meus óculos, como se tivesse acabado de descobrir a piada escondida no meio da tragédia.








