Amor Profano

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Um conto mítico sobre devoção, desejo e igualdade divina que remodela o mundo em uma terra governada por um deus que se alimenta de obediência. Esta história explora o choque entre deuses e mortais em um mundo onde o amor é regulado, a paz é temida e a igualdade é proibida. Homens são ensinados a conquistar, mulheres a se curvar, e o desejo a sangrar em silêncio. Dentro das paredes de pedra de um templo sagrado, um guardião devoto vive segundo essas leis — até que um desejo proibido fratura sua fé. O que começa como uma fome secreta torna-se rebelião: um questionamento da violência, uma recusa ao ódio, um anseio pela verdade escrita não nas escrituras, mas no corpo. Sua rebeldia não fica sem resposta. De florestas esquecidas e rios trêmulos, algo se agita — uma força antiga ligada à natureza, ao prazer e ao equilíbrio. Um deus há muito enfraquecido desperta através de atos considerados pecaminosos. O deus da natureza desperto apaixona-se pelo guardião e o amor de ambos desafia uma ordem divina construída sobre o medo. Isso abala os céus. Acima, o firmamento prepara-se para a guerra. Abaixo, o desejo se acumula nas sombras. O que se segue não é uma batalha de espadas, mas de filosofias: Ódio contra amor. Controle contra liberdade. Tirania contra humanidade. E quando os deuses caem, não é o poder que decide o futuro, mas quem ousa amar quando o mundo diz que não devem.

Gênero
Fantasy
Autor
Ozan Obashi
Status
Completo
Capítulos
25
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

Capítulo 1: Dharma

A primeira luz do amanhecer surgiu sobre a antiga cidade de Dharmapuri como um ladrão cauteloso, pintando as torres imponentes do grande templo de Deva em ouro derretido. Da varanda mais alta dos aposentos Dharmarkar, Veer observava o sol nascer. Seus ombros largos estavam tensos sob o fino algodão branco de seu traje ritual.

Ele tinha vinte e quatro verões, era forte e favorecido — o tipo de homem que as mães apontavam ao ensinar aos filhos como a devoção deveria ser. Sua pele morena, de tom médio e rico, brilhava com o leve resplendor do suor do início da manhã, conquistado após uma hora de formas de combate que ele já havia completado no pátio lá embaixo. Seu cabelo preto como azeviche, grosso e ondulado, chegava exatamente à altura das orelhas, com as pontas enrolando-se suavemente contra a linha firme de seu maxilar. Algumas mechas rebeldes caíam sobre sua testa, e ele as empurrou para trás com a mão impaciente; o movimento revelou o corte definido de suas maçãs do rosto e a intensidade que ardia em seus olhos escuros.



Veer era belo da maneira dos guerreiros esculpidos em frisos de templos — seu peito poderoso subia e descia em um ritmo constante, o abdômen marcado por músculos profundos que se contraíam a cada movimento, os braços musculosos e com veias saltadas por anos manuseando a pesada lâmina khanda. No entanto, sob aquele exterior perfeito, algo inquieto e agitado se movia.



Ele deveria sentir apenas gratidão. O deus Deva o escolhera cedo. Aos doze anos, os altos Dharmarkars viram potencial no menino órfão que conseguia superar em corrida e combate qualquer outro novato. Eles o vestiram, o alimentaram e o ensinaram que a força e a obediência eram as maiores virtudes. A guerra era sagrada. A conquista era o Dharma. O desejo que não servisse ao deus era uma fraqueza a ser queimada.



E Veer tentara queimar todo desejo.


Todas as manhãs, ele se levantava antes que as conchas soassem, realizava os asanas rigorosos que mantinham seu corpo um receptáculo digno e, depois, banhava-se em água fria para acalmar qualquer calor indesejado. Ele recitava os hinos de guerra até sua garganta doer. Ele liderava os treinandos mais jovens na prática de espada até que suas palmas ficassem em carne viva. Tudo isso para manter afastados os pensamentos proibidos — aqueles que surgiam sem serem convidados quando ele via o suor traçar caminhos lentos pelas costas de outro homem durante o treino, ou quando mãos fortes o estabilizavam após um combate difícil, demorando-se um segundo a mais.

Ele dizia a si mesmo que era uma tentação enviada por espíritos menores para testar sua pureza. Ele punia seu corpo com mais rigor. Ele jejuava. Ele ficava sob cachoeiras congelantes até que seus dentes batessem e sua pele ardesse. Contudo, a fome só se tornava mais aguda, como uma lâmina sendo amolada em segredo.

Hoje era o Festival do Trovão Vitorioso, o dia mais sagrado do ano. Milhares inundariam o templo para oferecer sangue e ouro a Deva, para ouvir os Dharmarkars proclamarem os triunfos sem fim do deus. Veer, como um dos guardiões jovens mais promissores, ficaria à direita do alto Dharmarkar durante o rito principal. Seu peito deveria estar estufado de orgulho.

Em vez disso, um pavor pesado se instalava em seu estômago.

Ele se virou da varanda e caminhou de volta para seu pequeno quarto. O cômodo era austero — piso de pedra, um catre estreito, um único baú de madeira para seus poucos pertences. Na parede, pendia seu traje cerimonial para o dia: um dhoti de algodão branco imaculado, um cordão sagrado largo para cruzar seu torso nu, braceletes dourados que circulariam seus bíceps. Tudo projetado para exibir o corpo masculino como um instrumento de guerra divina — forte, controlado, intocável.

Veer despiu-se de seu tecido de treino e ficou nu diante do espelho de bronze polido. Ele estudou a si mesmo com o olhar crítico de um soldado avaliando a armadura em busca de fraquezas.

O reflexo mostrava um homem no auge: ombros largos e quadrados, peito amplo, mamilos escuros contra a pele bronzeada e quente. Sua cintura afinava dramaticamente antes de se alargar em quadris e coxas poderosos. Entre eles, seu pau descansava espesso mesmo em repouso, aninhado em uma mancha aparada de pelos negros — outro presente do deus, ou assim diziam os anciãos ao se gabarem de sua perfeição. Veer odiava como seu próprio olhar se demorava ali, como o calor surgia baixo em sua barriga ao ver sua própria forma.

Ele fechou os olhos e forçou-se a recitar o voto da manhã.

“Eu sou a lâmina de Deva.

Minha força pertence à guerra.

Meu desejo pertence apenas à vitória.

Tudo o mais é cinza.”

As palavras tinham gosto de poeira.

Ele se vestiu rapidamente. O dhoti envolvia seus quadris baixo, as pregas precisas, deixando seu torso nu, exceto pelo cordão sagrado que cortava uma linha diagonal pelo peito. Os braceletes dourados brilhavam contra sua pele. Quando ele saiu para o corredor, cabeças se voltaram — novatos se curvando, Dharmarkars seniores acenando em aprovação. Ele era o ideal ao qual todos aspiravam.

E ele estava apodrecendo por dentro.

Quando ele chegou ao grande salão, o templo já estava lotando. Tambores troavam em louvor rítmico. A fumaça do incenso subia densa e doce. Os fiéis se empurravam para tocar os pés da enorme estátua de pedra de Deva que dominava o santuário interno — uma figura imponente de brutal masculinidade, músculos saltados, espada erguida, rosto congelado em eterna conquista.

Veer tomou seu lugar na plataforma elevada ao lado do altar, espinha ereta, mãos cruzadas atrás das costas. Dali ele podia ver todo o salão: homens em seus melhores dhotis, mulheres veladas mantidas nos anéis externos como exigia a escritura, crianças agitando pequenas bandeiras de guerra.

Seu olhar varreu a multidão — e travou.

Através do mar de corpos, perto da frente da seção dos homens, estava um estranho.

Alto, esguio, com a pele um tom mais clara que a de Veer e cabelos negros ondulados na altura das orelhas que captavam a luz como tinta derramada. O rosto do homem estava meio virado, oferecendo apenas um perfil, mas mesmo aquilo era o bastante — nariz afilado, lábios carnudos, um maxilar que implorava para ser traçado pelas pontas dos dedos. Ele vestia um dhoti de viajante simples em azul-pálido, e algo na maneira como o tecido se colava aos quadris estreitos deixou a boca de Veer seca.

O estranho levantou a cabeça. Seus olhos se encontraram.

O tempo desacelerou.

Naquele único olhar compartilhado, Veer sentiu todo o peso de tudo o que ele havia enterrado vir à tona — desejo afiado como a ponta de uma lança, terror frio como ferro. Os olhos escuros do estranho se arregalaram ligeiramente, as pupilas dilatando. Reconhecimento. Interesse. Fome.

Então o homem desviou o olhar, curvando a cabeça em aparente devoção.

Mas Veer tinha visto.

Seu coração martelava contra as costelas como um tambor de guerra enlouquecido. Suas palmas suavam dentro dos punhos cerrados. Cada respiração arrastava o incenso para o fundo de seus pulmões, mas não fazia nada para resfriar o fogo repentino sob sua pele.

Ele forçou seu olhar de volta ao altar, com o maxilar tão cerrado que doía.

Aquele era o dia mais sagrado do ano. Ele era a lâmina escolhida de Deva. Ele não quebraria.

Mas, enquanto as conchas soavam o início do grande rito, e milhares de vozes se erguiam em louvor trovejante, Veer soube — com uma certeza que o aterrorizava até os ossos — que hoje algo dentro dele se despedaçaria sem conserto.

As conchas soaram três vezes, profundas e ressonantes, sinalizando o início do grande rito. A multidão avançou como um só corpo, vozes subindo no hino antigo de conquista. Veer permaneceu imóvel na plataforma, cada músculo travado, seu peito nu subindo e descendo em respirações controladas.

De sua posição elevada, ele ainda podia ver o estranho.

O homem havia se movido para mais perto da grade interna, agora a apenas vinte passos de distância. De perto, ele era ainda mais marcante — físico esguio e gracioso, a pele era de um dourado-amarronzado quente que captava a luz bruxuleante. Seu dhoti azul-pálido colava-se aos quadris estreitos e pernas longas, o tecido estava úmido nas bordas devido ao aperto dos corpos. Cabelos negros na altura das orelhas, grossos e ondulados, emolduravam um rosto que pertencia às pinturas do templo: maçãs do rosto altas, uma boca feita para segredos, olhos que pareciam conter rios inteiros de noite.

Aqueles olhos encontraram Veer novamente.

Desta vez, o estranho não desviou o olhar.

Um calor lento e deliberado desenrolou-se baixo na barriga de Veer. Seu pau mexeu-se sob o fino algodão de seu dhoti, endurecendo contra sua vontade. Ele mudou sua postura, grato pela sombra do altar que escondia a parte inferior de seu corpo da multidão. O suor formou gotas ao longo da linha do cabelo, traçando um caminho pelo lado do pescoço e sobre a curva rígida de sua clavícula.

O alto Dharmarkar começou a invocação, sua voz ecoando pelo salão.

“Deva, Senhor do Trovão, da Vitória e de tudo o mais! Aceite nossa força! Aceite nossa obediência! Que nenhuma fraqueza contamine seus escolhidos!”

Milhares ecoaram a resposta, punhos erguidos. Os lábios de Veer se moveram automaticamente, mas nenhum som saiu. Seu olhar estava preso ao do estranho. A língua do homem deslizou para fora, umedecendo seu lábio inferior — um movimento pequeno, quase acidental, mas que atingiu Veer como um golpe físico. O sangue rugia em seus ouvidos.

Ele imaginou atravessar o espaço entre eles. Imaginou pressionar aquele corpo ágil contra a pedra fria. Imaginou a sensação dos cabelos negros ondulados deslizando entre seus dedos enquanto ele inclinava aquela cabeça para trás e reivindicava aquela boca.

A fantasia brilhou vívida e impiedosa: o suspiro do estranho contra seus lábios, mãos esguias agarrando os ombros nus de Veer, quadris se chocando através das finas camadas de tecido, dureza encontrando dureza.

A respiração de Veer falhou. Sua ereção estava completamente dura agora, forçando dolorosamente contra o dhoti. Ele cerrou os punhos até que as unhas cavassem as palmas, usando a dor aguda para se ancorar.

O rito continuou. Oferendas foram trazidas — vasos de ouro, guirlandas de flores, uma cabra branca levada balindo para o altar. O alto Dharmarkar ergueu a lâmina cerimonial. A multidão cantava mais rápido, mais alto.

Veer forçou sua atenção para o ritual. Ele havia realizado aquele dever cem vezes. Ele conhecia cada passo. Contudo, hoje cada movimento parecia distante, como se ele observasse a si mesmo de muito longe.

Quando a lâmina caiu e o sangue se espalhou pela pedra, a congregação rugiu em aprovação. O estômago de Veer embrulhou — não pela visão, mas pelo contraste súbito e selvagem em sua mente: a garganta imaginada do estranho arqueada em prazer em vez de sacrifício.

O estranho sorriu.

Foi pequeno, secreto, sumiu em um instante — mas era destinado apenas a Veer. Uma promessa. Um convite.

O rito se arrastou. O incenso tornou o ar denso até que respirar parecesse pesado, entorpecedor. A pele de Veer formigava com consciência. Cada vez que ele olhava para cima, aqueles olhos escuros estavam esperando. Cada olhar compartilhado durava mais, tornava-se mais ousado. O peito do estranho subia e descia mais rápido; um rubor leve coloria sua garganta.

Finalmente, o alto Dharmarkar declarou as cerimônias formais encerradas. A multidão começou a se dispersar lentamente, muitos demorando-se para oferecer orações pessoais ou buscar bênçãos. Dharmarkars moviam-se entre eles, aceitando presentes, dando orientação.

O dever de Veer era permanecer na plataforma até que o salão se esvaziasse, um símbolo vivo da força de Deva. Normalmente ele ficava orgulhoso, deixando os fiéis admirarem o corpo que o deus havia forjado.

Hoje, ele só queria escapar.

Mas escapar era impossível. Ainda não.

Ele observou o estranho se dirigir a um dos corredores laterais — a passagem sombria que levava às celas de oração menores e, eventualmente, aos jardins externos. O homem parou na entrada, olhando para trás mais uma vez. O olhar era inconfundível agora: dizendo siga-me.

O coração de Veer bateu violentamente contra suas costelas.

Minutos se arrastaram. Os fiéis diminuíram. Os Dharmarkars seniores dispensaram os mais jovens para ajudar na limpeza. Veer permaneceu, estático como uma estátua, até que o alto Dharmarkar finalmente acenou com permissão para ele se retirar.

Ele desceu os degraus da plataforma lentamente, cada passo medido. Os fiéis restantes se afastaram para ele com murmúrios de respeito. Ele acenou em reconhecimento sem vê-los.

A boca do corredor surgiu à frente, sombras frescas derramando-se como um convite para a perdição.

Veer entrou nele.

O barulho do salão silenciou instantaneamente. Paredes de pedra erguiam-se altas em ambos os lados, arandelas de tochas lançando poças de ouro e preto. O ar estava mais fresco ali, perfumado com incenso remanescente e algo mais verde trazido dos jardins adiante.

Ele caminhou devagar, os pés descalços silenciosos na pedra lisa. Seu corpo vibrava com tensão — músculos contraídos, pau ainda semiereto, pele hipersensível. Cada respiração parecia alta demais.

Dez passos à frente, um nicho mais estreito abriu-se à esquerda — uma pequena cela de meditação raramente usada durante festivais. A entrada estava

meio escondida por uma pesada cortina de brocado.

Uma mão emergiu de trás da cortina, os dedos curvando-se em um chamado silencioso.

A pulsação de Veer troava em sua garganta.

Ele entrou no nicho.