1. Alexandra
Corra.
A palavra é um ritmo mecânico na minha cabeça. É a única coisa que faz minhas pernas continuarem se movendo, enquanto meus pulmões gritam por socorro.
Corra. Corra. Corra.
Mais rápido — droga, Lex, mais rápido.
É claro que isso está acontecendo. Minha vida sempre foi uma longa sucessão de decisões ruins, mas isso... isso é o que vai me fazer ser enterrada em uma cova rasa, em um país que nem sabe o meu nome do meio.
“Alexandra — pare! Volte aqui agora mesmo!”
A voz atrás de mim não está apenas com raiva; ela é cheia de soberba. É o som de um homem que nunca ouviu um não na vida. O pânico me arranha a garganta, denso e com gosto de cobre. Não posso voltar para o campus. Se eu for para os dormitórios, ele vai me encurralar em um corredor onde o monitor do alojamento está de fones de ouvido e as câmeras de segurança estão “em manutenção”.
Meu Deus, eu sou uma idiota. Como eu não vi isso chegando?
Eu corro como se minha vida dependesse disso — porque depende. Porque se ele me pegar, ele vai me matar. Mas não antes de me fazer implorar pelo fim.
Corro por essas ruas estreitas e caindo aos pedaços há o que parece uma hora. Meu relógio biológico está quebrado. Vinte minutos? Trinta? Cada curva que faço para despistá-lo só me joga mais fundo em uma parte da cidade que não existe no mapa brilhante da universidade. Faz só três semanas que moro neste lugar maldito, tempo suficiente para perceber que deveria ter ficado na Dinamarca. Tempo suficiente para perceber que troquei uma gaiola por outra muito mais perigosa.
Passos batem no pavimento atrás de mim. Pesados. Rítmicos. Ganhando terreno.
Não consigo continuar assim. Não sou atleta; sou designer de UX e passo a vida debruçada sobre uma tela iluminada. Minhas pernas tremem, meu peito é uma caixa de fogo e eu preciso de um buraco para me esconder. Agora.
A paisagem é um borrão de metal enferrujado, cercas de arame e postes com luzes amarelas que piscam e zumbem com o som de moscas morrendo. Industrial. Desolado. Não há casas aqui. Nem varandas com cadeiras de balanço. Nem vizinhos para acordar.
Bom trabalho, Lex. Você escolheu o único bairro onde as sombras engolem os gritos.
Arrisco olhar por cima do ombro.
A distância diminuiu. Consigo ver o suor na testa dele, o brilho frio e predatório nos seus olhos. Ele olha para mim e sorri — uma expressão consciente e doentia que faz meu estômago revirar.
“Porra”, eu arquejo. Minha visão começa a ficar cinzenta nas bordas.
“Se você não parar agora”, ele grita, com a voz terrivelmente calma, “isso vai terminar muito mal para você, Alexandra.”
Viro à direita. Depois à esquerda. Já nem procuro uma rua; estou procurando um fim. Faço uma última curva, com os pulmões chiando no peito, e então eu vejo.
Um bar.
O alívio me atinge com tanta força que quase derruba minhas pernas. É um prédio baixo e comprido de concreto manchado. Motocicletas estão alinhadas na frente como uma fileira de feras adormecidas — pelo menos umas dez, com muito cromo e aço pesado brilhando sob o zumbido irritante de um letreiro de neon.
O letreiro é uma auréola quebrada.
Três homens enormes estão perto da entrada, envoltos em uma nuvem de fumaça de cigarro. Parecem ter sido esculpidos em granito e vestidos com couro gasto. Eles são assustadores para caramba.
Corro na direção deles mesmo assim. O que quer que eles sejam, não podem ser piores que ele.
Meus joelhos atingem o asfalto a um metro da porta. O impacto envia uma dor lancinante pela minha coluna, mas não paro. Rastejo para frente usando as mãos e os joelhos.
“Por favor... me ajudem.”
As palavras saem de mim, quebradas e cortantes. Nem consigo olhar para eles. Estou ocupada demais tentando desaparecer. Uso o que me resta de força para rastejar entre as motos, me encolhendo em uma bola nas sombras manchadas de graxa, rezando para que as armações de aço sejam o bastante para me esconder.
Meu coração bate tão alto que tenho certeza de que o quarteirão inteiro consegue ouvir.
Não chore. Não faça barulho.
Uma mão pousa no meu ombro.
Deixo escapar um grito sufocado, encolhendo-me com tanta força que minha cabeça bate contra o guidão cromado. Estrelas explodem na minha visão.
“Ei... ei. Você está bem.”
Olho para cima, semicerrando os olhos por causa da dor. Não é um dos gigantes. Uma mulher está ajoelhada na terra à minha frente. Ela é pequena, com cabelos escuros saindo de um coque bagunçado e olhos que parecem... preocupados? Não, não apenas preocupados. Focados.
Seus traços são suaves, mas não delicados — o tipo de rosto marcado por turnos longos e pela vida real, não por cremes caros. Ela não parece ser uma ameaça.
Eu desmorono. O primeiro soluço trava no meu peito, violento e doloroso.
“Ele... ele estava logo ali”, sussurro, apontando com a mão trêmula para a rua.
O rosto da mulher muda de suave para granito em um segundo. Ela olha para a estrada, semicerrando os olhos enquanto examina as sombras de onde eu vim. Depois ela olha para mim e aperta meu braço com firmeza.
“Venha comigo. Agora mesmo.”
Ela me puxa. Sou como uma boneca de pano em suas mãos, minhas pernas mal obedecem enquanto ela me arrasta pelas pesadas portas de madeira. Batemos de frente com uma parede de calor, com cheiro de lúpulo, couro e graves altos e distorcidos. Tenho apenas um vislumbre de uma sombra contornando a esquina lá fora — uma silhueta familiar e frenética — antes que a porta bata com força.
O som da tranca deslizando é a coisa mais bonita que já ouvi.
A mulher não diminui o passo. Ela me guia pelo bar lotado e escuro, ignorando os olhares curiosos dos homens de jeans e couro. Seguimos por um corredor estreito até que ela chuta uma porta para abrir uma pequena enfermaria surpreendentemente limpa. Parece o consultório de um médico, se o médico morasse em uma oficina.
Ela me coloca na maca. O papel amassa sob o meu corpo — um som doméstico e agudo que parece absurdamente fora de lugar.
Então, a adrenalina passa.
Ela não apenas vai embora; ela leva meu oxigênio junto. Minha visão afunila até que o quarto seja apenas um ponto de luz. Meu peito aperta, os músculos travam, recusando-se a deixar o ar entrar nos meus pulmões. O tempo perde o sentido.
“Respire”, a mulher diz. Sua voz é distante, como se estivesse me chamando do fundo de um poço. “Você está a salvo, querida. Olhe para mim. Você está bem.”
Eu balanço a cabeça, com as mãos agarradas na borda da mesa. Não estou bem. Nunca mais estarei bem.
“Eu sou Ella”, ela diz, com a voz se estabilizando. “Qual é o seu nome?”
Alguém bate à porta antes que eu possa responder — antes que eu possa até lembrar quem eu sou.
“Agora não!” Ella responde rispidamente para a porta.
O ambiente fica embaçado. Percebo vagamente que alguém entrou. Uma presença pesada. O ar no quarto parece mudar, deslocado por alguém que ocupa mais do que seu espaço. Não consigo olhar para cima. Estou ocupada demais tentando impedir que meus pulmões entrem em colapso.
É isso. É aqui que eu morro.
Então... mãos seguram as minhas.
São enormes. Calosas. Quentes. Elas não agarram; elas simplesmente envolvem meus dedos trêmulos, mantendo-os firmes sobre a mesa. O medo não desaparece, mas para de girar.
Forço minha cabeça a subir.
Os olhos mais azuis que já vi estão me observando. Não é um azul "bonitinho"; é a cor de um céu de pleno inverno — frio, vasto e terrivelmente calmo.
“Respire”, ele diz.
Não é uma sugestão. É uma ordem, dita em um barítono baixo e rouco que vibra no centro do meu peito. É uma voz que, instintivamente, sinto vontade de obedecer.
Inspire pelo nariz.
Expire pela boca.
“Isso”, ele murmura, com o olhar fixo no meu. Ele não desvia o olhar, nem mesmo para reconhecer Ella ou o homem enorme e tatuado que agora guarda a porta. “Boa menina. Continue assim.”
Meus pulmões finalmente se expandem, puxando um fôlego trêmulo e irregular que realmente alcança a base das minhas costelas.
“Você está tendo um ataque de pânico”, ele continua, sua voz estável e clínica, mas de alguma forma íntima. “O mundo não está acabando. Seu cérebro está apenas mentindo para você. Olhe em volta e diga cinco coisas que você pode ver.”
Engulo seco, sentindo minha garganta como se estivesse forrada de lixa. Forço meus olhos a se moverem.
“Porta”, eu digo com voz rouca. “Mesa. Computador.”
“Mais duas”, ele incentiva.
“Pessoas.” Aponto fracamente para Ella e para o homem na porta. Ambos estão me observando como se eu fosse uma peça de porcelana rachada que eles têm medo de respirar perto.
Ele segue meu olhar e dá um aceno curto e preciso. “Bom. Fique comigo. Qual é a quinta?”
Olho de volta para ele. Minha visão está limpando e os detalhes de seu rosto começam a ficar nítidos. A barba por fazer ao longo do maxilar rígido. E aqueles olhos.
“Olhos azuis”, sussurro.
Um sorriso lento e devastador surge em seu rosto. Covinhas aparecem — fendas profundas e inesperadas nas bochechas que parecem ser ilegais em um homem que parece tão perigoso.
“Agora quatro coisas que você pode tocar.”
“Minhas mãos estão nas suas”, digo, com a voz trêmula. “Você.”
Ele solta relutantemente, como se estivesse testando se eu vou sair flutuando. Estendo a mão, meus dedos tocando as superfícies. “A mesa. O travesseiro. Seu... seu jeans.”
“Você está indo muito bem”, ele diz, e consigo ouvir uma nota de orgulho genuíno em sua voz. Ele segura minhas mãos novamente, com firmeza. “Três coisas que você pode ouvir.”
“Sua voz.” Sinto um calor subir pelo meu pescoço. Desvio o olhar, envergonhada por estar me apoiando tanto em um estranho. “A música vindo do bar. O computador zumbindo.”
“Duas coisas que você pode cheirar.”
Inspiro, procurando o cheiro no ar. “Álcool.” Respiro mais fundo, sentindo algo mais nele — algo como ozônio e asfalto aquecido pelo sol. “Verão.”
Ele pisca, a máscara de estabilidade em seu rosto oscila por um segundo. Ele não esperava por isso.
“Uma coisa que você pode sentir o gosto.”
“Lágrimas.”
E essa é a gota d’água para mim.
A represa rompe. Sem dizer uma palavra, ele se inclina para frente e me puxa para o peito. Ele me envolve em um abraço tão apertado que parece que está tentando fundir minhas partes quebradas de volta por pura força de vontade.
Deveria parecer errado. Acabei de fugir de um homem. Eu deveria estar me encolhendo, gritando, lutando para me afastar do cheiro de couro e do peso sólido de um corpo masculino.
Mas não faço isso.
Meu corpo se derrete nele como se estivesse esperando por essa âncora específica. Ele não está me encurralando; ele está me protegendo. Ele não está tirando; ele está oferecendo. Meus instintos, que estavam gritando alerta vermelho na última hora, de repente ficam em silêncio.
Eu me agarro a ele, enterrando meu rosto no couro frio do seu colete, respirando-o até que meus batimentos cardíacos finalmente se sincronizem com as batidas firmes e pesadas dele. Ele não se move. Ele apenas me sustenta porque sabe que minhas pernas não conseguirão.
Quando finalmente me afasto, meus olhos ardem, mas a visão em túnel desapareceu.
“Obrigada”, sussurro.
As mãos dele permanecem nos meus braços um pouco tempo demais. Uma tensão estranha e pesada vibra entre nós — uma frequência que não reconheço, mas que sinto em cada terminação nervosa.
Ele não sabe meu nome. Não sei se estou a salvo neste prédio.
Mas sei de uma coisa: minha vida acaba de se dividir entre antes dele e depois dele.









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I love how you wrote the come down process of the panic attack. This is exactly how my I learned it in therapy emotional 🤧
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