Um
O ar estava denso, pesado com o cheiro de suor, esterco e aquela ardência forte de amônia que sempre arranhava a garganta se a gente não tomasse cuidado. Minhas botas já afundavam alguns centímetros no solo revolvido e, a cada pá de sujeira que eu erguia, uma nova onda de poeira quente e sufocante tentava me asfixiar. O sol castigava como se tivesse um rancor pessoal, colando minha camisa nas minhas costas.
Atrás de mim, um touro destruía tudo, mais selvagem que um cavalo bravo recém-saído da baia, batendo contra a cerca de madeira. O estrondo se perdia no meio do resto do barulho: gritos, alguns palavrões escolhidos a dedo e o latido rouco dos peões que cuidavam dos currais. Só mais um dia de trabalho, por assim dizer.
Então, as dobradiças do portão soltaram um guincho metálico longo e estridente que abafou todo aquele caos. E ele passou por ali.
Usava jeans bem gastos, que pareciam ter visto mil rodeios, caídos baixos no quadril. Camisa jeans, mangas arregaçadas, com poeira impregnada em cada dobra como se fizesse parte do tecido. Chapéu de cowboy puxado para baixo, apenas o suficiente para sombrear o rosto e deixar a gente na dúvida.
Palhaço de rodeio, claro, essa era a fachada. Mas... porra, tinha algo nele que era diferente. Mesmo visto dali. A base branca da maquiagem já rachava com o sol, borrada ao longo do maxilar onde ele provavelmente tinha limpado o suor. Riscos pretos e vermelhos cortavam de uma têmpora à outra, com um sorriso pintado largo demais. Mas a boca de verdade, por baixo daquilo tudo, não estava sorrindo. E os olhos dele... Jesus. Da cor de uísque velho em uma garrafa empoeirada, daquele tipo que prometia uma queimação infernal ao descer.
Mas dava para ver, mesmo com a pintura, a sujeira e o sol brilhando dourado nos ombros dele. O jeito que os músculos se moviam sob o jeans folgado, com naturalidade e sem pressa. Como se ele soubesse que todos os olhos do lugar estavam nele. Porra, como se ele quisesse que estivessem.
Eu estava plantado ali, sentindo como se minhas botas estivessem criando raízes no chão, com a pá pendurada, frouxa nas mãos. Provavelmente eu parecia um idiota completo.
Ele chegou à cerca, apoiou uma bota no trilho inferior com naturalidade, como se fosse dono do lugar, e inclinou o chapéu para trás. Uma mecha de cabelo loiro sujo apareceu, grudada na testa pelo suor. E o olhar escuro dele cortou a poeira e pousou direto em mim. Por um segundo, talvez dois, foi como se o rodeio inteiro tivesse ficado em silêncio. Apenas ele e eu, e o ar ficando mais denso a cada segundo.
“Não te vi muito por aqui.”
Minha mão apertou o cabo da pá. A única coisa sólida no meu mundo naquele momento. “Não sou peão de rodeio”, respondi, tentando soar casual, apontando para o carrinho de mão. “Só limpo a sujeira deles.” Será que minha voz saiu ofegante?
Ele me estudou, um canto daquela boca real se curvando. “Belo dia para limpar merda.”
“Paga as contas.” Tentei dar de ombros, mas minha voz saiu mais fina que arame de cerca esticado.
Ele segurou uma risada, os olhos brilhando enquanto deslizavam por mim, como se estivesse me avaliando e gostando do que via. “Você sempre trabalha tão duro assim”, ele perguntou, “ou só quando tem alguém olhando?”
O cabo da pá estava escorregadio sob minhas palmas. Não era o calor do sol que subia pelo meu pescoço. Pedi a Deus que ele não conseguisse ver.
Ele se afastou da cerca, botas raspando na terra, com aquele passo gingado cobrindo o espaço como se não fosse nada. O cheiro dele me atingiu então, cortando o fedor dos currais. Não era perfume, nada disso. Apenas... homem. Como terra molhada por uma tempestade após uma longa seca. Eu não conseguia respirar direito.
“Trabalho quente.” As palavras saíram fáceis para ele, preguiçosas, como se ele tivesse todo o tempo do mundo.
“É.” Mal consegui tirar da garganta. Saiu como se fosse lixa.
Os dedos dele se moveram, quase preguiçosos, como se fizesse aquilo todo dia, tirando um pedaço de feno do meu ombro. As costas dos nós dos dedos roçaram na minha camisa úmida, leves como um sussurro, mas foi como se tivessem me marcado a ferro. “Empoeirado também.”
O ar ficou imóvel. Um touro bateu em uma baia em algum lugar ao lado, mas mal notei. Ele moveu a bota para frente, só um pouquinho, e a ponta tocou a minha. Senti aquilo no corpo inteiro.
“Eles lavam os touros depois da montaria”, ele murmurou, a voz áspera e perto demais. “Precisa refrescar eles.” Uma pausa que pareceu durar uma semana. “Mas ninguém vai te dar uma mangueirada?”
Eu engoli em seco. Minha boca estava seca como um deserto.
Ele se inclinou para trás para que eu visse o desafio em sua expressão. E pior: o conhecimento. Como se ele soubesse exatamente o que estava fazendo comigo e soubesse que eu também via.
“Trabalho que dá sede”, disse ele, recuando meio passo, para ver se eu o seguiria. O que, Deus me ajude, eu queria fazer. “Aceitaria uma cerveja. E você?”
O som da multidão, o estalo distante da voz do locutor, o nome de algum peão. Nada disso existia. Apenas ele. O calor que emanava dele e o jeito que ele me olhava, como se eu fosse a única coisa que valia a pena olhar naquela confusão poeirenta toda.
“Ou você vai ficar só olhando?”
Ele deu mais um passo para trás, puxando aquele chapéu de cowboy surrado um pouco mais para baixo, sombreando o rosto novamente, mas não o sorriso. “Meu trailer fica lá atrás”, disse ele, a voz caindo ainda mais baixo, como um segredo só para mim. “O prateado. Tenho umas cervejas no cooler. Interessado? Digamos... lá pelas nove?” Outra pausa, outro olhar lento que percorreu meu corpo e fez minha pele arrepiar. “Botas opcionais.”
A pá escorregou dos meus dedos e caiu com um baque surdo que mal ouvi.
“Sim”, consegui dizer, com a voz rouca. “Ok.”
Ele assentiu, lentamente, como se já soubesse a resposta o tempo todo. Virou-se. “Meu nome é Colt, a propósito.”
A porta da baia bateu atrás dele, ecoando pelos currais. Eu fiquei parado ali na terra, com o suor esfriando na pele e o toque dele ainda queimando no meu ombro.
Nove horas parecia que ia demorar uma eternidade. E eu não queria esperar tanto.
O calor da tarde grudava em tudo — na minha camisa, nas grades de metal, na poeira densa no ar. A arena brilhava sob o sol, a terra subindo em espirais lentas antes que algum touro furioso e um peão azarado a chutassem para o lado.
Touros explodiam das baias, setecentos quilos de músculo e maldade, mal contidos por uma corda e mãos imprudentes. Os peões se equilibravam na linha tênue entre uma fivela de premiação e um osso quebrado.
Oito segundos. Às vezes pareciam oito minutos. Às vezes acabava num estalo. Depois, outro peão atingia o chão, e eu ouvia o baque claramente acima do rugido da multidão. Droga. Era algo que se sentia nos ossos.
O ciclo todo era implacável. Peão sobe, peão desce. A terra os engolia e depois os cuspia de volta, cobertos de mais sujeira. Os salva-vidas se moviam por aquela tempestade, mudando de posição, atraindo o bicho, salvando o couro de algum pobre coitado. E o público se inclinava, inquieto, faminto pela próxima queda, pelo próximo milagre. O jeito como eles ansiavam pelo perigo, às vezes, me deixava desconfortável.
Então a voz do locutor, cheia de ruídos e chiados, ecoou nos alto-falantes.
“Vamos aplaudir nossos salva-vidas! Arriscando o pescoço por esses peões, pessoal!”
E então Colt entrou na arena.
Ele não correu. Acho que não precisava. O movimento era natural para ele, um gingado preguiçoso de músculos e confiança. Seu jeans estava manchado com sabe-se lá o quê, e sua camisa estava riscada de suor e sujeira. Aquela tinta branca no rosto, a que ele usava mais cedo quando falou comigo, tinha começado a escorrer, uma máscara agora gasta e borrada. Seu chapéu de cowboy estava baixo, sombreando qualquer expressão que ele pudesse ter. Aquele chapéu deixava a gente na dúvida.
Um peão caiu. Com força. Daquelas que fazem a gente fazer careta mesmo sem querer.
A poeira o engoliu por um segundo.
O touro se virou, narinas bufando, procurando algo mais para destruir. O ar ficou imóvel.
Milhares prenderam a respiração.
Colt se moveu.
Não para longe. Não para se esquivar como qualquer pessoa sensata faria. Ele se posicionou, suave como a água, guiando aquele animal de meia tonelada para onde ele queria. Um movimento do pano vermelho que ele carregava, um passo, depois uma pausa. Era como assistir a um homem amansar um cervo assustado. A fúria do touro agora pertencia a ele, seu foco, sua raiva. Ele chamava o animal, baixo e provocante, quase brincando. Idiota, mas eu o observava.
Passo a passo, ele guiou a fera para o portão aberto, os dois presos em algo que parecia quase uma dança. O touro baixou a cabeça, os músculos se contraindo sob o couro, os cascos cavando fundo. Eu sabia o que vinha a seguir. Um ataque, uma investida final de pura fúria animal.
E Colt—
Ele não saiu do caminho. Ele saltou.
Uma explosão de músculos, um salto que pareceu congelar antes de terminar. Como se ele fosse feito de fumaça.
O touro passou direto pelo portão, a inércia o levando para dentro do curral. O som do portão batendo e travando veio em seguida. Final. Acabou.
A arena explodiu. Aplausos, assobios, mãos batendo nas grades de metal.
Mas Colt?
Ele aterrissou como se nada tivesse acontecido. Como se tivesse acabado de descer de uma varanda, tirando a poeira do jeans com um movimento relaxado dos ombros. Frio como um pepino congelado.
Então seus olhos se elevaram, vasculhando a multidão.
Me encontraram.
Me seguraram por um segundo que se estendeu, lento e quente.
E ele piscou.
Um movimento tão pequeno que não deveria significar nada. Mas significou, porra. Aquela piscadela deveria ter sido para a multidão, para todos aqueles idiotas aplaudindo. Mas não foi para eles.
Foi para mim.
E de repente, o calor da arena, a poeira, o barulho... nada se comparava ao calor que se espalhava por mim. Problema. Do tipo bom. Talvez.
Eu deveria ter ido embora. Voltado para os currais, terminado o serviço, dirigido para casa com a cabeça limpa e pensamentos em um lugar seguro.
Eu não fui.
Fiquei observando ele se encostar na grade entre os eventos, conversando com um dos outros salva-vidas, um sujeito troncudo e barbudo. Colt inclinou o chapéu para trás, limpou a testa com o antebraço. A tinta estava ainda mais borrada agora, manchada de suor e poeira. Ele falou, o outro cara riu, então Colt se desencostou da grade e voltou para a arena.
“Bela salvação.”
Eu olhei para o lado. Um homem na casa dos trinta anos estava sentado a alguns metros na arquibancada, boné abaixado, mãos descansando nos joelhos. Ele apontou para a arena, onde Colt já se posicionava para o próximo peão.
“É”, eu disse.
“Aquele rapaz tem nervos de aço.” O homem balançou a cabeça, sorrindo. “Já vi muitos salva-vidas ao longo dos anos, mas aquele? Ele é diferente. Você viu aquele pulo?”
“Vi.”
“Loucura.” Ele riu. “Meu filho quer ser salva-vidas agora. Fica falando disso o caminho todo para casa todo ano. A mãe dele vai me matar.” Ele olhou para mim. “Você trabalha aqui?”
“Ajudando com o gado.”
Ele voltou a olhar para a arena. “Bom, você tem um lugar na primeira fila para o melhor show da cidade. Aquele palhaço vale o preço do ingresso sozinho.”
Outro touro investiu. Outro peão escapou por pouco.
Colt já estava lá, puxando a atenção do animal.
O homem assobiou baixinho. “Destemido. Ou louco. Difícil saber a diferença às vezes.”
Eu não respondi. Apenas observei Colt se mover pelo caos como se tivesse nascido para isso.
O homem se levantou, espreguiçando-se. “Bem, vou pegar uma cerveja antes da próxima rodada. Se cuida.” Ele tocou a aba do boné e subiu a arquibancada.
Eu continuei onde estava.
Colt estava no centro da arena agora, mãos na cintura, chapéu inclinado para trás, esperando o próximo peão.
E eu? Eu queria saber o que tinha por baixo daquela pintura.





I really like Scott. Not sure about Colt yet.
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