Capítulo 1
O restaurante estava barulhento, com o som constante de conversas e pratos batendo. Era hora do jantar, o momento mais movimentado do dia, e não havia um minuto de sossego. Garçons e garçonetes corriam de um lado para o outro, das mesas até a cozinha. O cheiro de comida feita na hora pairava no ar. Todos os clientes estavam se divertindo, jantando com seus amigos e entes queridos.
Kellyn sentia inveja deles.
Porque aquilo era algo que ela nunca mais teria.
A morte de sua família ainda estava fresca em sua mente enquanto ela se esforçava para manter um sorriso no rosto e levar os pedidos às mesas. Graças a Deus pela maquiagem, porque ela sabia que estava com cara de cansada. E ela estava cansada.
As coisas não tinham sido fáceis desde que ela saiu de casa. Ela cresceu em Fairview, Nova York. Viveu lá durante todos os seus 24 anos de vida. Agora, estava completamente por conta própria. Em uma cidade nova, onde não conhecia uma única pessoa.
Ela estava em Ned, Colorado, há apenas um mês. Morava no carro, mas, depois do pagamento desta noite, finalmente teria o suficiente para alugar uma casa pequena, porém mobiliada, de um quarto. Ela não via a hora de dormir em uma cama de verdade novamente.
"Kellyn, pedido pronto!", disse o cozinheiro lá do fundo.
O restaurante onde ela trabalhava não era muito grande. Nada era grande em Ned. Era uma cidade pequena, com pouco mais de mil habitantes. Era exatamente o tipo de lugar que ela procurava. Um lugar para fugir. Um lugar onde ninguém a encontrasse.
Ela se aproximou da janela da cozinha e pegou o pedido. Era uma porção dupla de hambúrgueres com batatas fritas. Segurando a bandeja com cuidado, ela atravessou o restaurante lotado até a mesa, onde um casal feliz estava sentado um de frente para o outro.
"Cheeseburger com batatas?", perguntou Kellyn.
"Aqui", disse o rapaz, apontando para o próprio peito.
Kellyn colocou o prato na frente dele. Depois, serviu o outro prato para a garota.
"Eu pedi um molho ranch", disse a garota, em um tom arrogante.
"Ah, certo, desculpe. Vou buscar para você", disse Kellyn.
"E um refil para o meu refrigerante", completou o rapaz.
"Claro. Já volto." Ela pegou a bandeja e se virou para sair. Enquanto se afastava, ouviu o que a garota dizia.
"No que eles estavam pensando? Contratar alguém com essa cara."
Kellyn franziu a testa. Ela realmente chamava atenção naquela cidade pequena com sua pele pálida, piercing no nariz e o cabelo longo tingido de preto. Ela nunca foi uma pessoa muito "colorida". Frequentemente usava preto ou roupas de tons escuros. Quando era adolescente, passou por uma fase gótica completa. Ela achava que uma parte dela nunca superou isso de verdade.
Ela recebia mais olhares do que gostaria naquela pequena cidade rural, onde todo mundo se conhecia. Quando alguém novo chegava, era um acontecimento. Era algo ainda maior quando essa pessoa não seguia o padrão ao qual todos estavam acostumados.
Mas Kellyn não pretendia mudar sua aparência. Ela nunca foi do tipo que se molda aos outros e não ia começar agora.
"Ray, pode me dar um molho ranch?", ela pediu na janela.
"Aqui está", disse o cozinheiro. Ele era um homem mais velho, na casa dos cinquenta e poucos anos.
"Obrigada", disse ela, pegando o molhinho. Ela pegou uma jarra de refrigerante e voltou à mesa.
"Um molho ranch e um refil", disse ela. Depois de colocar o potinho na mesa, serviu o refrigerante no copo do rapaz. Nenhum dos dois agradeceu.
O resto da noite foi praticamente igual. Por volta das 22 horas, o restaurante começou a fechar. Eram 23 horas quando ela finalmente conseguiu sair.
"Aqui está o seu pagamento", disse o patrão. Ele era um homem robusto e parecia ser mais novo que Ray, mas não muita coisa.
"Obrigada", disse Kellyn. Quem a olhasse não diria, mas, por dentro, ela estava feliz. Se não estivesse tão tarde, ela se mudaria para a casa hoje mesmo. Infelizmente, teria que passar mais uma noite no carro.
Ao sair, ela puxou a jaqueta para se cobrir melhor. Fazia muito mais frio no Colorado do que em Nova York. Ficava especialmente gelado dentro do carro. Ela não tinha combustível suficiente para deixá-lo ligado a noite toda.
Não gostando de ficar sozinha no escuro, ela caminhou apressadamente até o carro, entrou no banco do motorista e trancou a porta.
"Você devia ter cuspido no refrigerante daquele casal", disse uma voz, de repente, atrás dela.








