O Que Permanece

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Resumo

Esta história faz parte do concurso "Echoes of Us". Eles não apenas se apaixonaram. Eles destruíram um ao outro primeiro. Lívia Moreira construiu seu futuro do zero — aluna exemplar, filha de um padeiro de cidade pequena, determinada a se tornar advogada sem dever nada a ninguém. Henrique Montenegro nasceu no poder. Riqueza, influência e controle sempre acompanharam seu nome. Quando seus mundos colidem, a conexão é imediata. Intensa. Impossível de ignorar. Mas o amor, no mundo deles, não é simples. Entre o orgulho, o silêncio e tudo o que não foi dito, o que eles constroem começa, aos poucos, a rachar — até que uma noite muda tudo. Eles se afastam. Eles amadurecem. Eles se tornam pessoas que o outro talvez finalmente entenda. Mas o tempo não apaga o que foi perdido. E quando seus caminhos se cruzam novamente... não será sobre recomeçar. Será sobre escolher diferente. Porque alguns amores não desaparecem. Eles esperam.

Status
Completo
Capítulos
56
Classificação
4.8 13 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 — A Vida que Eu Não Escolhi

Aprendi cedo que o cansaço não vai embora. Ele se acumula. E, quando você percebe… algo na sua vida já está se quebrando.

Ele se instala nos ombros, nas costas, atrás dos olhos. Aparece quando você começa a escrever palavras simples errado, a esquecer datas e a trocar os dias da semana. Eu já não sabia se era terça ou quinta — só sabia que estava atrasada.

Sempre.

O despertador tocou às cinco e meia da manhã, e levei alguns segundos para lembrar onde estava. Meu quarto era pequeno e abafado, com uma janela virada para a parede do prédio vizinho. A luz do sol nunca entrava. Apenas uma claridade cinzenta, o suficiente para me lembrar de que o dia tinha começado antes de mim.

Levantei sem pensar. Escovei os dentes, prendi o cabelo e vesti a primeira roupa limpa que encontrei. Café não era mais um ritual — era combustível. Eu nem lembrava a última vez que tinha sentido prazer em tomá-lo. Dei dois goles, deixei a xícara na pia e saí antes que meu corpo tivesse tempo de reclamar.

O turno da manhã na cafeteria começava às sete.

O cheiro de café moído parecia impregnado na minha pele antes mesmo de eu chegar. Eu conhecia cada mesa, cada cliente apressado, cada pedido automático. Cappuccino sem açúcar, café duplo, pão de queijo para levar. Sorrisos educados. Nenhum contato visual que durasse tempo demais.

Enquanto trabalhava, pensava nas minhas aulas noturnas. A faculdade de Direito não era fácil. Nunca tinha sido. Mas eu gostava. Gostava da sensação de entender as coisas, de saber como argumentar, de perceber que minha mente ainda funcionava, mesmo quando o resto do meu corpo queria desligar.

No meu intervalo, sentei no fundo da cafeteria e chequei o celular. Nenhuma mensagem nova. Nem do grupo da faculdade, nem dos meus amigos. Definitivamente, nada do Rafael.

Rafael era meu namorado. Ou, pelo menos, ainda era, até onde eu sabia.

Estávamos juntos há quase dois anos — tempo suficiente para eu perceber que o amor não se parecia em nada com o que eu imaginava quando era mais nova. Não havia grandes declarações, nem surpresas. Havia rotina. Havia silêncio. Havia aquele acordo silencioso de que tudo estava bem, mesmo quando não estava.

Enviei uma mensagem rápida.

"Você vem hoje?"

A resposta demorou mais do que eu queria, mas menos do que eu esperava.

"Hoje não. A gente se vê mais tarde."

Mais tarde. Sempre mais tarde.

A certa altura, parei de perguntar o que isso significava.

Saí da cafeteria às duas da tarde, já pensando no meu segundo turno. À noite e nos fins de semana, eu trabalhava em um bar pequeno perto do centro. Sextas e sábados se estendiam até altas horas. Domingos eu tentava estudar. Tentava.

Entre um emprego e outro, eu tinha algumas horas livres. "Livre" era uma palavra generosa. Eu usava o tempo para revisar o conteúdo das aulas, responder e-mails da faculdade e tentar ignorar o cansaço colado na minha pele.

No fim da tarde, a Marina mandou mensagem no nosso grupo:

"Abriu uma boate nova hoje. Vamos?"

Ri sozinha. Marina sempre convidava. Júlia sempre aceitava. Eu sempre recusava.

"Hoje não dá", respondi quase automaticamente. "Trabalho cedo amanhã."

Marina enviou um áudio longo logo em seguida.

— Lívia, você está sempre cansada. Um dia você vai olhar para trás e perceber que não viveu nada. Só vem.

Suspirei e bloqueei a tela.

Talvez ela estivesse certa. Ou talvez fosse fácil dizer isso quando sua conta de luz não estava atrasada e seu cartão de crédito ainda tinha limite.

Naquela noite, encontrei o Rafael antes do meu turno no bar. Ele parecia distraído, rolando o feed do celular enquanto eu falava sobre minha aula de Processo Civil. Não lembro exatamente quando parei de falar — só lembro de perceber que ele não estava ouvindo.

— Está tudo bem? — perguntei.

— É, é — ele respondeu rápido. — Só estou cansado.

Cansado. Engraçado como essa palavra significava coisas diferentes para pessoas diferentes.

Dei um beijo no rosto dele antes de entrar no bar. Ele não veio comigo. Disse que tinha outro compromisso. Não perguntei qual.

O bar estava lotado naquela noite. Pessoas rindo, música alta, pedidos sem fim. Meu corpo funcionava no piloto automático, mas minha mente estava longe. A certa altura, olhei o horário e pensei que talvez a Marina estivesse certa. Talvez eu precisasse sair do roteiro por uma vez.

Quando meu turno terminou, já passava da meia-noite. Minhas pernas doíam, minhas mãos estavam geladas e tudo o que eu queria era ir para casa e dormir.

Em vez disso, decidi passar na casa do Rafael.

Não avisei. Não mandei mensagem. Apenas subi os dois lances de escada que eu conhecia de cor, com a chave ainda no bolso, com a sensação estranha de estar entrando em um lugar que deveria ser meu também.

A porta estava destrancada.

Ouvi vozes antes mesmo de entrar.

Risadas. Uma risada que não era dele.

Fiquei parada no corredor por alguns segundos, tentando convencer meu cérebro de que estava entendendo errado. Mas o som vinha do quarto. E quando empurrei a porta, não sobrou espaço para dúvidas. Algo dentro de mim já sabia. Eu só não estava pronta para ver.

Rafael estava na cama.

Com outra mulher.

Não houve choque cinematográfico. Nem gritos. Nenhuma cena dramática. Apenas um silêncio esmagador dentro da minha cabeça, como se alguém tivesse desligado o som do mundo.

Eles me viram quase ao mesmo tempo.

— Lívia… — ele começou.

Não respondi. Não chorei. Não perguntei nada. Simplesmente me virei e saí do apartamento antes que ele pudesse terminar a frase.

Desci as escadas com o coração batendo errado, as mãos tremendo, a garganta apertada. Quando cheguei à rua, sentei na calçada e liguei para a Marina.

— Onde você está? — foi a primeira coisa que ela perguntou.

— Na rua. Acabei de pegar o Rafael me traindo.

O silêncio do outro lado durou dois segundos.

— Vem para cá. Agora.

Pensei em dizer não. Pensei em ir para casa, tomar um banho, deitar e fingir que o dia nunca tinha acontecido. Mas algo dentro de mim — talvez raiva, talvez orgulho — não deixou.

Fui para a casa da Marina.

Júlia já estava lá quando cheguei. Elas não fizeram discursos. Não me inundaram com conselhos. Apenas me abraçaram e depois me puxaram para o banheiro.

— Você não vai chorar hoje. — Marina disse, já ligando o chuveiro. — Hoje você vai sair.

— Estou com uma cara péssima. — murmurei, olhando meu reflexo.

— Você está com cara de cansada. Não péssima. São coisas diferentes.

Tomei banho e usei tudo o que a Marina me entregou para a pele e o cabelo. Tudo cheirava incrível, como se eu estivesse lavando minha alma.

Quando saí enrolada na toalha, Júlia me mandou sentar enquanto secava meu cabelo. Marina não perguntou o que eu queria vestir. Ela simplesmente abriu o armário, puxou algo e jogou em cima da cama.

— Confia em mim.

O cropped era feito de um tecido leve, quase líquido, cinza-chumbo com um brilho sutil que refletia a luz quando eu me movia. O decote caía suavemente no peito, desenhando minha clavícula sem esforço. As costas eram quase inexistentes — apenas uma corrente fina e gelada contra a pele.

A calça de cintura alta vestiu perfeitamente, contornando meus quadris e pernas sem ficar apertada.

Marina prendeu meu cabelo em um coque alto propositalmente bagunçado, deixando algumas mechas soltas em volta do rosto. A maquiagem era leve, mas estratégica: pele iluminada, olhos definidos, lábios neutros.

Quando virei para o espelho, levei alguns segundos para me reconhecer.

Eu ainda não achava que era bonita.

Mas era impossível negar: eu estava atraente.

— Você tem esse corpo todo sem nunca ter pisado numa academia. — Júlia disse. — Eu malho há três anos e você me humilha só de existir.

Ri, um pouco sem graça.

Eu não estava me arrumando para alguém.

Eu estava me arrumando contra tudo o que tinha acabado de me ferir.

Mas eu ainda não sabia que aquela seria a última noite da minha vida como eu a conhecia. A última noite em que acreditei que estava apenas cansada. A última noite antes de tudo sair do controle.

Porque algumas horas depois, eu não estaria apenas fugindo da rotina.

Eu estaria entrando de cabeça em uma história que não foi feita para mim… com o único homem que me mudaria de formas para as quais eu não estava pronta.

Eu achava que estava apenas fugindo de tudo o que tinha acabado de me quebrar. Não estava. Eu estava caminhando direto para algo muito pior.

E naquela noite…

Nada sobre mim continuaria o mesmo.



— Nota da Autora —

Se este capítulo fez você sentir alguma coisa… deixe um ❤️.

Eu adoraria saber que você está aqui comigo.

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