Pretiosa - a eterna rainha das sombras

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Resumo

Em um reino sufocado pelo medo, crianças desaparecem sem deixar rastros — levadas de suas camas, das ruas, dos braços de suas famílias. Sussurros se espalham sobre Pretiosa, uma garota misteriosa trancada nas profundezas de uma catedral, uma criança com um poder sombrio imenso e aterrorizante. Dizem que ela se alimenta do sangue de crianças. Dizem que ela é a razão pela qual a terra vive em pavor. Mas Pretiosa nunca é vista. Em vez disso, o povo conhece o padre — o homem que afirma controlá-la. Vestido de preto e marcado com um símbolo estranho, ele e seu exército governam com crueldade, usando o poder dela para impor uma ditadura brutal sobre todo o reino. Por anos, ninguém ousa revidar. Até que um garoto perde tudo. Quando seu irmão mais novo é levado, ele se torna algo que o regime nunca enfrentou antes: resistência. Cinco anos depois, ele surge como o líder de uma rebelião crescente — forte, implacável e perigoso. Seu objetivo é simples, ardente, absoluto: Destruir o sistema. Acabar com o terror. Matar Pretiosa. Mas, à medida que se aproxima da verdade, ele começa a questionar tudo o que pensava saber sobre a Rainha das Sombras... e se ela é realmente o monstro que todos acreditam que seja.

Status
Completo
Capítulos
31
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

Coisas mortas deveriam permanecer mortas.

Mas ninguém nunca diz isso a uma criança.

...

A vila de Hind não tinha nome. Ela ficava encravada entre três montanhas áridas, negras como os dentes apodrecidos da terra, e, no quarto lado, a floresta. Todos a chamavam simplesmente de floresta maligna, como se isso bastasse. E bastava.

As casas eram baixas, com seus telhados pesados, comprimidos pelo peso dos anos e dos invernos. A madeira estava rachada e, em alguns pontos, o barro já havia caído. Ninguém consertava nada além do necessário para evitar que tudo desmoronasse.

A casa delas ficava no limite da vila, onde a estrada se estreitava e começava a se perder rumo à floresta. Era uma casa pequena, pesada pelo tempo, com um cômodo grande que guardava todos os pertences e todos os silêncios, e outro ainda menor nos fundos, onde o frio permanecia mesmo depois que o fogo era aceso.

Três almas viviam ali: Hind, sua mãe e sua avó. Ou melhor, duas almas e meia, porque sua mãe estava ali em corpo, mas não com tudo o que um dia já foi.

Depois que o pai de Hind morreu na mina de sal, engolido pela terra sem deixar nada além da notícia e de um silêncio pesado, algo dentro da mãe dela se fechou aos poucos.

Ela não tocava mais na criança que ainda buscava por ela, não perguntava mais se ela estava com fome ou cansada, não contava mais histórias para remendar as noites, nem levantava os olhos para ver se alguém estava olhando para ela.

Ela trabalhava.

Trabalhava em um silêncio pesado, perdida dentro da própria mente.

Acordava antes da luz, limpava a casa, cozinhava, comia sem sentir o gosto, permanecia em silêncio e, então, adormecia como se o próprio sono fosse apenas mais um tipo de trabalho.

Seu olhar atravessava Hind, nunca pousando sobre ela. E era uma pena, porque, se tivesse parado por um instante que fosse, ela teria visto uma criança como raramente cresce em lugares assim. Uma menina de apenas seis anos, mas cheia de um calor e uma vida tão brilhantes que ela poderia ter preenchido a casa inteira sozinha, se houvesse alguém para vê-la.

Hind era o tipo de criança que ainda não sabia como ser plenamente triste, embora o mundo ao seu redor lhe desse motivos de sobra. Ela ainda se apegava a pequenas coisas e as tornava gigantes: um raio de sol na parede, uma poça d'água que refletia o céu, uma folha caindo que ela seguia até o chão como se fosse algo importante.

Seus olhos eram pretos, grandes e profundos; grandes demais para o seu rostinho. Sua pele era clara e límpida, como se a sujeira só pudesse tocá-la na superfície, sem nunca alcançá-la de verdade. Seu longo cabelo preto caía sobre os ombros em fios emaranhados, mas, sob os dedos da avó, tornava-se macio e obediente, como se ela cuidasse de algo frágil.

Ela sorria com frequência, sem pensar, sem medir sua alegria.

E talvez a coisa mais estranha sobre ela fosse o fato de amar o mundo exatamente como ele era, sem perguntar por que era pesado e sem julgá-lo. Ela encontrava, em cada dia, algo que valia a pena observar mais do que qualquer outra coisa: a chuva que se acumulava em seus cílios e a fazia piscar e rir, o sol que se infiltrava em seus olhos e os forçava a se semicerrarem, o vento que levantava seu cabelo e sussurrava coisas que ela não compreendia, mas que, de alguma forma, sentia.

Hind não sabia que isso era raro. E não havia ninguém ali para lhe dizer.

Sua avó estava doente e só conseguia dar alguns passos pelos cômodos pequenos.

Suas mãos eram finas e nodosas, gastas pelos anos, mas quentes e pacientes. Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas viva; teimosa, como uma pequena luz que se recusava a apagar.

Ela cantava com frequência, quase todas as noites, como se o silêncio da casa fosse pesado demais e precisasse ser quebrado em pedaços suportáveis.

Não eram canções alegres. Não falavam de coisas fáceis ou alegrias simples e, daquela maneira estranha, era precisamente por isso que eram belas.

"Venha cá, passarinho", ela dizia para Hind, puxando-a para perto com cuidado.

Ela penteava o cabelo da menina lentamente, desembaraçando não apenas os nós nos fios escuros, mas, de alguma forma, os nós dos dias que se acumulavam uns sobre os outros.

E então ela cantava, deixando as palavras fluírem como uma água silenciosa que conhece o seu caminho:

Sobre chuvas que nunca retornam ao mesmo lugar, sobre a lua e as estrelas que observam sem julgar, sobre o sol que aquece sem pedir nada em troca, sobre coisas que Hind não entendia completamente, mas que sentia como algo bom.

Sobre crianças que crescem rápido demais...

Hind não entendia tudo, mas não precisava, porque naqueles momentos — pressionada junto à avó, com os olhos semicerrados e a respiração suave —, seu mundo, já belo à sua maneira simples, tornava-se mais quente, mais gentil, mais fácil de amar.

"Um dia, passarinho, você deixará este lugar e encontrará algo melhor que isso", sussurrava a avó, seus dedos quentes deslizando pelos fios emaranhados do cabelo dela, separando-os com zelo, como se cada um fosse algo precioso. "Você irá para algum lugar onde a vida seja doce, onde as pessoas riam sempre e ninguém seja triste."

Hind permanecia perto, com a bochecha encostada no braço da avó, sentindo como cada movimento a acalmava, como cada toque reunia seus pensamentos e os colocava de volta no lugar.

"E lá", continuava a avó, "você encontrará alguém que a veja de verdade — não apenas que olhe para você, mas que a veja como você é, pequena e brilhante —, e essa pessoa segurará sua mão e nunca a soltará. Ela a amará com paixão, com fogo."

Hind não dizia nada, mas em sua mente, imagens simples e quentes começavam a tomar forma — sem rostos claros, sem palavras grandiosas, apenas a sensação de que, em algum lugar, havia um lugar onde ela não precisaria pedir para ser amada.

"E você também terá seu próprio lar, talvez pequeno, mas cheio", a avó continuava, com a voz cada vez mais suave, como uma canção que se esvai, "e você terá filhos que rirão, correrão e puxarão sua mão, e você nunca os deixará sentir-se sozinhos. Seus passarinhos. E você será feliz, minha querida Hind... você será."

Sua voz se tornou fina, dispersou-se, mas o toque permaneceu.

Hind piscou pesadamente, sentindo o sono chegar lentamente, como água morna cobrindo-a sem pressa, e, pouco antes de adormecer completamente, teve a breve sensação de que não estava mais na casa, não estava mais na vila, não estava em lugar algum onde já tivesse estado.

Ela sonhou.

A princípio, não havia nada — apenas uma luz fraca, como o amanhecer quando o sol ainda não decidiu se vai ficar.

Então os olhos apareceram.

Azuis.

Brilhantes.

Hind sorriu enquanto dormia, sem saber o porquê.

E, por um momento, tão breve quanto um suspiro, ela se sentiu amada.