Capítulo 1
KAEL
“Você tem o que é preciso para amar um homem, Alfa Kael?”
“Alfas não amam Ômegas, certo?”
“Patético, porra, patético.”
Essas, e muitas outras, eram as perguntas que eu sempre me fazia, minutos antes de me esgueirar novamente para o apartamento temporário daquela ômega maldita.
Dia após dia.
Eu não conseguia resistir a ela, e ela não conseguia resistir a mim.
Agora, antes que você me julgue e me envergonhe por dormir com a MINHA companheira, deixe-me contar a história de como tudo começou. E saiba de uma coisa: eu foderia minha companheira num piscar de olhos, independentemente do que qualquer um dissesse.
***
A floresta se estendia infinitamente à frente, escura e familiar, úmida com o cheiro de pinho e terra fria. A lua lançava um brilho prateado sobre a copa densa das árvores, e sua luz filtrava-se através delas em feixes tênues.
Ughhh.
Minhas patas golpeavam o solo com aquele ritmo firme e confiante pelo qual eu era conhecido, o vento enrolando-se em meu pelo escuro e espesso enquanto eu disparava entre as sarças e raízes.
Meus companheiros de matilha me flanqueavam por todos os lados... relaxados, barulhentos e arrogantes... seus uivos transformando-se na risada grave de homens.
Corríamos há o que pareciam minutos, mas provavelmente eram horas, apenas para rastrear o novo cheiro que tinha deixado todo o território em alerta.
Algo novo.
Algo que estava totalmente fora do lugar. Não era um renegado, nem de longe, mas também não era familiar. Foi o suficiente para deixar os anciãos agitados, e uma vez que eles ficavam agitados, eu também ficava. Por isso, seis dos machos mais fortes da matilha Blackwood saíram para uma patrulha noturna.
Voltamos à forma humana perto de uma clareira na floresta, ofegantes, com o vapor saindo de nossa pele no frio da noite. A tensão da caçada diminuiu quando alguém me jogou uma garrafa de água.
“O Alfa também fica com sede, hein?”, brincou Brent, com os lábios esticados num sorriso, enquanto passava a mão pelo cabelo loiro e desgrenhado. “Tem que manter o vigor antes que Lyria te desgaste logo.”
Os outros riram... alguns deles uivando de um jeito grosseiro.
Esses caras.
Deixei a garrafa cair da boca e estalei o maxilar. “Tira o nome dela da boca”, eu disse de forma bastante seca.
“Isso é engraçado, considerando onde você já colocou a boca dela”, provocou Corwin, o mais jovem do grupo. Ele desviou da pedra que joguei antes de acrescentar, rindo como um maníaco, devo dizer: “Qual é, Kael, nós vimos a mulher. Aqueles quadris? Aquele cabelo? Se ela fosse minha…”
“Bem, ela não é sua”, rosnei para ele, baixo e afiado, sentindo uma pontada na boca ao permitir que minhas presas crescessem.
O silêncio caiu sobre o grupo.
Bom. Agora que…
Alguém tossiu. “Você já comeu ela, pelo menos?”
Minha cabeça levantou de um solavanco. Pelo amor de Deus.
Brant levantou as mãos. “Só perguntando, Kael. Vocês vão se acasalar em alguns meses, e todo mundo está curioso.”
Não respondi imediatamente, não que qualquer um deles merecesse uma resposta quando se tratava dos meus assuntos particulares.
O ar da noite resfriava minha pele, mas não fazia nada contra o calor que subia pela minha espinha. Lyria… Lá estava ela de novo, nua na minha cama, toda corada e carente. Do jeito que ela suspirava meu nome, agarrada a mim como se tivesse nascido para isso.
Quantas vezes, porra, eu tinha transado com ela desde aquela primeira noite? Cinco? Seis? Sempre com contenção, e sempre com proteção. A lembrança da nossa última vez despertou algo animalesco em mim, mas não era luxúria.
Eu nunca senti luxúria quando se tratava daquela mulher. Ou de qualquer mulher… não, de ninguém.
Sempre tédio.
“Cuide da porra da sua vida”, rosnei para ele, voltando a pegar a garrafa de água.
A provocação terminou ali. Se havia uma coisa que esses seis machos sabiam fazer, era ler o tom das pessoas… e eu tinha ficado frio como gelo.
Voltamos à nossa forma de lobo pouco tempo depois, correndo novamente. As árvores passavam como um borrão, o frio do vento noturno parecendo uma lâmina contra meus flancos. Ali, ali. Deixei o ritmo da corrida limpar minha mente… mais rápido, com mais força, tentando superar aqueles pensamentos que eu não queria nomear.
Lyria.
Responsabilidade.
A coroa que eu não tinha pedido…
Espere um segundo… O que era aquilo?
Havia um cheiro tênue no ar, quase impossível de detectar se você não estivesse procurando ativamente.
Parei no meio da passada, minhas garras cavando a terra. Virei a cabeça rapidamente enquanto cheirava o ar novamente.
Sim, ainda estava lá.
“Vocês estão sentindo esse cheiro?”, perguntei através do nosso elo mental, com o nariz ainda no ar.
Brant diminuiu a velocidade até parar ao meu lado. “Do que você está falando? É só a floresta e o ar úmido.”
“Não”, eu disse bruscamente. Virei a cabeça em direção à parte oeste da floresta. “Definitivamente tem algo mais. Muito mais doce e selvagem. Que porra…”
Delicioso.
“Alfa Kael?”, perguntou Corwin. “Você está bem?”
Mas eu já não estava ouvindo. Respirei fundo novamente, deixando o ar se acomodar dentro de mim. Era como sol derramado sobre minha pele após dias no frio. Como mel aquecido pelo fogo. Como uma voz que eu nunca tinha ouvido na minha vida, mas que, de alguma forma, eu conhecia.
Meu corpo inteiro ficou rígido, e meu coração começou a bater mais forte do que a noite toda.
“Vocês não estão sentindo esse cheiro?”, exigi novamente.
Como eles podiam não sentir?
“Não tem nada aqui, cara. Nós pegamos algo na direção do vento, no entanto. Cheira a sangue e cinzas velhas. Talvez o que estamos procurando seja um renegado. Vamos para a direita.” Brent bufou depois de me olhar de novo. “Talvez você só tenha sentido um pouco do perfume da Lyria no seu próprio pelo.”
Eu o ignorei.
“Vão para a direita”, decidi, já me virando. “Eu vou para a esquerda.”
“O quê? Você está se separando…”
Mas eu já tinha ido.
Minhas patas atingiram o solo com força. Esquerda. Oeste. Para a parte mais densa da floresta, onde o luar não conseguia alcançar, e as árvores sussurravam com os segredos dos ancestrais.
Este não era um lugar onde a maioria das pessoas da nossa matilha costumava vir.
O cheiro crescia ainda mais forte a cada passo. Meu coração trovejava contra minhas costelas, minha respiração ofegante de expectativa.
O que era isso?
Não, não era um 'o quê'. Um 'o quê' não seria assim. A pergunta certa a se fazer era… QUEM era esse?
Não fazia sentido. Eu nunca tinha sentido um cheiro como aquele antes. Nem mesmo o charme da Lyria, e ela tinha de sobra, tinha provocado essa… dor no meu peito.
Meu lobo queria, não, meu lobo precisava encontrar a fonte. Agora mesmo, antes que desaparecesse.
Eu me movi ainda mais rápido, muito mais selvagem. Imprudente. Ignorei o modo como as sarças rasgavam meu pelo, cada vez mais fundo, até que…
CRACK.
Porra.
Uma dor intensa surgiu quando meu corpo colidiu violentamente com algo… não, alguém. Um rosnado saiu da minha garganta, mas antes que eu pudesse reagir, o peso do outro lobo me jogou de lado. Caímos num emaranhado de membros e pelos, rolando por entre as folhas, ladeira abaixo, até que…
SPLASH.
A água gelada fechou sobre mim. Tínhamos caído no lago. Eu me debati uma vez, chutando as pernas o mais forte que pude e emergindo com um suspiro, piscando contra o frio congelante.
O outro lobo também tinha emergido.
Eu congelei.
Ele.
Eu estava com o olhar preso aos olhos dele… estranhos, um azul tão escuro que parecia roxo, e feroz. O peito dele subia e descia, gotas de água brilhando ao longo do pelo molhado. Algo primal me atravessou enquanto nossos cheiros se chocavam e se entrelaçavam no ar frio.
Ele.
Era ele.
O cheiro da floresta. Eu só conseguia olhar para ele, atordoado além das palavras. Meu lobo uivou dentro de mim, não em aviso, mas, sim, em reconhecimento.
Meu.