Capítulo 1 - O Cemitério
Ponto de vista de Emilia
Todo ano, no Dia das Mães, eu faço a mesma coisa. Não levo minha mãe adotiva para almoçar nem a visito, porque não existe qualquer afeto entre nós. Pode parecer duro dizer isso, mas Ann e Harvey Watts deixaram bem claro que só me adotaram para ganhar um dinheiro extra.
Minha mãe biológica foi morta durante uma invasão domiciliar quando eu tinha nove anos. Ela trabalhava em casa, dando aulas de inglês online para alunos de outros países. Ela falava cinco idiomas, algo que dizia ter aprendido porque o pai era militar e ela passou toda a infância morando fora. Meu pai morreu quando ela estava grávida de mim, então éramos só nós duas.
Eu pareço com a minha mãe, ou pelo menos com a imagem que guardo dela. Ela tinha cabelos longos, cacheados e ruivos, além de olhos azuis. Tento me lembrar de cada minuto que passamos juntas, porque, quando a perdi, perdi tudo. Os pais dela já tinham falecido antes de eu nascer e ela não tinha outros parentes, então fui para um orfanato até que meus pais adotivos decidiram me acolher. Eles não me maltratavam nem nada do tipo, o que já era bom, e me davam roupas e comida. No entanto, não havia amor ou qualquer demonstração de carinho. Eu não sabia o quanto um abraço ou um toque gentil faziam falta até que minha mãe se foi. Ela morreu há quinze anos, mas ainda me lembro do cheiro dela e da sensação dos seus braços ao me abraçar.
Limpo as lágrimas do rosto e respiro fundo. É hora de ir ao cemitério. É lá que vou todo Dia das Mães. Faço isso desde que ela morreu. Essa foi uma das poucas coisas decentes que Ann fez por mim. Ela comprava flores e me levava ao túmulo da minha mãe. Quando fiquei velha o suficiente para ir sozinha, passei a pegar o ônibus até onde dava e ia o resto do caminho a pé.
Entro no carro e dirijo até a floricultura no fim da rua. Ainda moro em Arlington, na Virgínia. Não consegui me mudar porque é aqui que minha mãe está enterrada. Entro na loja e aceno para Kimmie, a dona. Além do Dia das Mães, visito minha mãe no aniversário dela, no meu aniversário e na maioria dos feriados, mas o Dia das Mães sempre foi o mais importante para mim. Escolho um buquê e vou até o balcão.
“Oi, Emilia, tudo bem?”, Kimmie pergunta enquanto acrescenta gipsofila ao buquê.
“Estou bem. E como estão os filhos e os netos?” Ela sorri e começa a me contar tudo sobre a família. Esse é o meu jeito de desviar de conversas pessoais. Sempre digo que estou bem e pergunto sobre a família das pessoas ou algo que eu sei que é importante para elas. Depois de pagar pelas flores, saio da loja e sigo para o cemitério.
Eu trabalho para a CIA. Não, eu não sou agente da CIA. Sou assistente administrativa. Muitos documentos confidenciais passam pela minha mesa, mas não faço ideia do que significam. Eu apenas os repasso para os agentes a quem se destinam. Tive sorte de conseguir o cargo, já que havia muitas pessoas mais qualificadas na disputa, mas a gerente de contratação disse que gostou das minhas referências e de mim.
Quando chego ao cemitério, dirijo até onde minha mãe está enterrada, sob um salgueiro-chorão. Parece apropriado que ela esteja sob o tipo de árvore mais triste que já ouvi falar. Eu gosto dele também, porque faz muita sombra; assim, posso passar horas com ela, se eu quiser, protegida do sol. Caminho até o túmulo, retiro as flores velhas do pequeno vaso preso à lápide e as substituo pelas frescas. Depois, sento-me na manta que trouxe.
“Oi, mamãe. Feliz Dia das Mães. Sei que digo o quanto sinto sua falta toda vez que venho, mas isso nunca vai mudar. Cada dia que passa é um lembrete de que você foi tirada de mim e que seu assassino, ou seus assassinos, nunca foram pegos. Eu fui para a escola naquele dia e, quando voltei para casa, meu mundo tinha desmoronado. Fico feliz que a polícia estivesse lá e me impedisse de vê-la, mas vi o sangue depois que te levaram. Essa imagem ainda me assombra até hoje. Tinha sangue por toda parte. Quero saber o que fizeram com você, mas sou covarde demais para pesquisar seu nome no Google. Não quero ver as manchetes do pior dia da minha vida. Diga ao papai para fazer deste um dia muito especial para você.” Olho para a lápide do meu pai ao lado da dela. Não sinto a mesma conexão ou perda por ele como sinto por ela, porque ele é um estranho para mim. Vi algumas fotos dele quando criança, mas, tirando isso, ela não gostava muito de falar sobre ele. Fico imaginando se ela estava com o coração partido e se as lembranças eram dolorosas demais.
Deito-me na manta e olho para a árvore. O céu que aparece entre os galhos é azul e uma brisa quente sopra sobre mim. Não sei como é estar apaixonada. Já saí com homens e até chamei alguns de namorado, mas nunca amei nenhum deles. Sempre que a relação ficava íntima demais, eu fazia algo para que eles se afastassem e acabassem indo embora. Percebo que o medo de amar alguém e essa pessoa ir embora, ou algo pior, é o que me assusta, mas não consigo evitar. Toda vez que afastei as pessoas, elas nunca demonstraram qualquer esforço para insistir e provar que se importavam comigo. Para mim, isso significa que não era para ser. Pode não ser justo, mas se eu vou dar uma chance real a um homem, quero que ele me prove que mereço. Caso contrário, qual é o sentido?
Sento-me ao ouvir passos que param logo adiante. Um homem está me observando. Ele é mais velho, talvez na casa dos cinquenta, com cabelos grisalhos, usando calça jeans e uma camisa preta de botões e manga curta. Fico pensando se ele está aqui visitando a mãe. Por que ele está olhando para mim como se quisesse dizer alguma coisa?
“Posso ajudar?”, pergunto. Ele está a uns vinte metros de distância, mas continua encarando.
“Não acredite em tudo o que você vê.” De início, não tenho certeza se ouvi direito.
“O quê?”, pergunto.
“Não acredite em tudo o que você vê. Eles não estão mortos.” Ele se vira e começa a se afastar rapidamente.
“Espere! De quem você está falando?”, grito enquanto me levanto. Ele para e se vira para me olhar.
“As pessoas que você está visitando. Elas têm lápides, mas seus caixões estão vazios.” Ele começa a correr enquanto eu fico parada, estupefata. Ele só pode estar delirando, não é?









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