The Beginning and the End
!!Alerta de gatilho, assunto sensível como abuso, violência e suicídio são abordados de forma clara”!!!!
Tudo está bem.
Temos feridas grandes e tão profundas que só nós sabemos que existem... Mas tudo está bem.
— Mãe! — chama Talita, tremendo de medo ao ver sua mãe chorar. Ela não gosta nem um pouco de vê-la daquela forma. — O papai fez de novo?
— Não, filha. — disse Natália, claramente mentindo para a filha, pois, como Talita desconfiava, o marido havia lhe batido novamente. Isso era comum, pois acontecia sempre que ele bebia além da conta, o que acontecia muitas vezes.
— Então por que a senhora está chorando?
— Meu amor, está tudo bem com a mamãe, não precisa se preocupar. — Talita tinha apenas 8 anos, mas já percebia o que o pai fazia com sua mãe, mesmo depois de todas as tentativas dela de esconder o fato. — Agora vai dormir, que amanhã tem aula.
Assentindo de forma positiva, Talita voltou para o seu quarto, sem saber que naquela noite tudo mudaria.
Natália, percebendo que sua falta de coragem para sair daquela situação de abuso não só a afetava, mas também a filha, em um momento de desespero — pois estava profundamente perturbada — foi até a cozinha e pegou uma faca que havia usado para preparar o jantar. Em seguida, dirigiu-se ao quarto. Pedro dormia, completamente alheio ao que acontecia ao redor.
Natália sentou-se em uma escrivaninha de madeira, a poucos metros da cama, pensando em tudo o que aquele homem, que um dia amou e ainda amava de forma dolorosa, havia feito com ela.
Pegou uma caneta e um papel na gaveta e começou a escrever:
"Uma carta para quem eu mais amo no mundo: Talita Kessa."
Minha menina linda, quando você nasceu, eu achei que finalmente estava completa, que finalmente eu tinha tudo, porque eu tinha você. Seus cabelos negros combinavam perfeitamente com sua pele iluminada e seus olhos castanhos, os mesmos que iluminaram os meus dias.
Você era o bebê mais lindo que eu já vi na minha vida. Você é a razão de eu ter aguentado até aqui. Mas já não posso, já não consigo.
Sei que a vovó vai cuidar muito bem de você. E saiba que a mamãe vai te amar para sempre.
Tudo está bem com a mamãe.
Te amo.
Quando Natália terminou, estava visivelmente vazia.
Ela se levantou e foi até o marido. Pedro já não estava tão embriagado. Ela o acordou.
— Saiba que eu te amo... mas esse amor me destruiu.
Com essas palavras, seguidas de um beijo, Natália cravou a faca no peito do marido, matando-o instantaneamente, sem que ele pudesse se defender.Apois isso ela cortou seus pulsos.
Em seguida, ela cobriu o corpo dele e o seu, como se estivessem dormindo.
— Bons sonhos, amor.
⸻
Na manhã seguinte, Talita acordou e estranhou o fato de já serem 7h30 e sua mãe ainda não tê-la chamado. Natália sempre a acordava às 7h em ponto, a arrumava e a levava à escola.
Mesmo estranhando a ausência da mãe, Talita resolveu se arrumar.
— Mamãe vai achar que eu sou muito adulta — pensou enquanto tomava banho.
Depois de pronta, foi até o quarto dos pais. Ao ver os dois deitados e abraçados como nunca havia visto, ficou contente e decidiu não incomodar. Mas algo dentro dela ainda a inquietava.
Ela não podia ir sozinha para a escola. Na cidade de Nelo, os pais tinham o costume de levar os filhos como forma de segurança, por causa de uma história antiga de uma criança chamada Ana Clara, que nunca chegou à escola.
Talita decidiu então chamar a mãe.
— Mamãe, acorda.
Ela a sacudiu, mas Natália não respondeu.
— Mamãe, está tarde... eu vou me atrasar para a escola!
Sem resposta, Talita começou a entrar em pânico. Tentou acordar o pai também.
— Papai! Acorda!
Sem saber o que fazer, a menina entrou em desespero. Então lembrou das palavras da mãe:
“Se precisar de ajuda e eu ou seu pai não estivermos, fale com a vovó."
Com mãos trêmulas, ligou:
— Alô?
— Vovó...
— O que foi, meu amor? Por que você está chorando?
— Mamãe não está acordando... nem o papai. Estou com medo.
— Como assim? Fica calma, a vovó já está indo.
⸻
Quando a avó chegou, acompanhada de vizinhos e da polícia, Talita já estava em choque.
Dentro da casa, Dona Márcia encontrou a cena e entendeu imediatamente o que havia acontecido. Ela retirou Talita dali antes que a menina visse a verdade completa.
A polícia isolou o local.
Horas depois, a confirmação veio:
— Sinto muito. Eles estão mortos.
O mundo de Talita desabou.
Dias depois, no funeral, o silêncio era pesado. Parte da família do pai se recusava a aceitar a versão da polícia. Mas a verdade estava ali, escrita de forma cruel “ A violência sempre destrói”.
A guarda de Talita foi entregue à avó materna.
E assim, a menina que diziam ser "grande demais para algumas coisas" tornou-se pequena demais para entender tudo o que havia perdido.
End.
“Nota da autora: Se sentimentos como o de suicídio invadirem a sua mente peça ajuda, a morte não é a solução.
Denunciam abusadores, isso com certeza ajudará a salvar vidas.”






