Sr. Blackwood

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Summary

​Ela foge de um passado sem nome. Ele vive trancado no próprio luto. ​Para Emma Fields, Nova York não é um sonho, é um esconderijo. Com apenas 22 anos carrega um segredo obscuro que a faz olhar por cima do ombro a cada esquina, ela só quer passar despercebida como a nova assistente do implacável Ethan Blackwood. ​Aos 35 anos, o bilionário da tecnologia ergueu muralhas de gelo ao redor de si mesmo. Ethan é frio, metódico e temido por todos. Ele definitivamente não tem tempo para se importar com sua nova funcionária, por mais que a beleza e os mistérios dela o deixem intrigado. ​Até que um elevador quebrado prende os dois no escuro. ​No espaço apertado, o controle do CEO começa a ruir, e a vulnerabilidade de Emma desperta nele um instinto feroz de proteção. Mas a paixão arrebatadora que surge entre eles esbarra em um problema letal: para ficar com Ethan, Emma terá que sair das sombras. ​E o seu passado não parou de caçá-la.

Status
Ongoing
Chapters
16
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1: A Cidade de Vidro

Emma

Hoje pela manhã, o vento cortante de Nova York parecia ter um único objetivo: atravessar o tecido fino do meu casaco escuro e me lembrar de que eu não pertencia a este lugar. Parei na calçada da Quinta Avenida, o som ensurdecedor de buzinas, sirenes e passos apressados engolindo meus próprios pensamentos. Para a maioria das pessoas, aquele caos urbano era exaustivo. Para mim, era o esconderijo perfeito. Ninguém repara em uma garota de vinte e dois anos tremendo de frio no meio de milhões de outras pessoas. Ninguém faz perguntas. E, mais importante, é muito mais difícil ser rastreada quando você é apenas um grão de areia em uma praia de concreto.

Ergui os olhos, forçando meu pescoço para trás até que a nuca doesse, tentando encontrar o topo do imponente arranha-céu espelhado à minha frente. O logotipo prateado e minimalista no alto da entrada principal ditava as regras daquele quarteirão: Blackwood Technologies. A estrutura era fria, elegante e opressiva. Exatamente como diziam ser o homem que a comandava.

Apertei a alça da minha bolsa contra o peito, sentindo o couro sintético ceder sob a força dos meus dedos brancos. Inspirei fundo, deixando o ar gelado preencher meus pulmões, tentando acalmar o ritmo frenético do meu coração. "Você está segura" repeti para mim mesma, como um mantra silencioso. "Ele não sabe onde você está". "Aquele mundo ficou para trás". 'Hoje é o dia um".

Ajeitei a gola da minha blusa social — a única peça decente que consegui comprar em um brechó assim que cheguei à cidade — e empurrei a pesada porta giratória de vidro. O saguão do edifício era um espetáculo de intimidação arquitetônica. Mármore negro no chão, paredes em tons de cinza chumbo e iluminação indireta que dava ao lugar uma aura de santuário corporativo. O silêncio ali dentro era quase palpável, quebrado apenas pelo clique seco dos sapatos de grife das pessoas que caminhavam com pressa e propósito.

Caminhei até a recepção, lutando contra o instinto primitivo de olhar por cima do ombro. Era um hábito terrível que eu ainda não tinha conseguido quebrar. A cada sombra repentina, a cada porta que se abria com mais força, meu corpo inteiro se tensionava, preparando-se para o impacto, preparando-se para fugir. Mas não havia de quem fugir aqui.

— Bom dia. Tenho uma entrevista agendada para as nove horas com o setor de Recursos Humanos. Emma Fields — eu disse à mulher impecavelmente maquiada atrás do balcão de mármore. Minha voz saiu um pouco mais baixa do que eu gostaria, e pigarreei para disfarçar. O nome "Fields", meu sobrenome de solteira, ainda soava estranho na minha própria língua depois de tanto tempo, mas era o único escudo que eu tinha agora.

A recepcionista digitou algo em seu tablet, me avaliando de cima a baixo com um olhar clínico que parou por uma fração de segundo no desgaste sutil da barra da minha calça.

— Décimo quinto andar, Srta. Fields. Procure por Sarah. E, por favor, deixe um documento de identidade com foto aqui para o crachá de visitante.

Meu estômago despencou. Minhas mãos suaram frio enquanto eu abria a bolsa, tateando o interior em busca da minha identidade recém-emitida. Uma identidade que me custou os últimos dólares das minhas economias de fuga para ser expedida sem deixar rastros digitais que pudessem cruzar estados. Entreguei o plástico a ela, prendendo a respiração até que ela imprimisse o adesivo de visitante e me devolvesse o documento.

Caminhei até o banco de elevadores prateados e apertei o botão. As portas se fecharam, me isolando em uma caixa metálica que disparou para o alto em uma velocidade que fez meus ouvidos estalarem. O espelho no fundo do elevador refletia uma garota que parecia cansada demais para a própria idade. Meus longos cabelos loiros, que sempre foram meu traço mais marcante, estavam perfeitamente alinhados, caindo em ondas lisas e pesadas sobre meus ombros. Meus olhos azuis-esverdeados, no entanto, carregavam olheiras arroxeadas que a maquiagem barata não conseguiu esconder totalmente. Eu parecia frágil. E eu odiava parecer frágil.

No décimo quinto andar, fui recebida por Sarah, uma mulher com expressão exausta e um tablet em mãos. Ela não perdeu tempo com cordialidades falsas.

— Emma. A agência nos enviou seu currículo. Suas notas e testes de proficiência em organização e softwares de gestão são impecáveis, o que é um milagre, considerando que você não tem experiência prévia na cidade — ela começou a falar enquanto caminhávamos por um corredor ladeado por paredes de vidro. — A questão é a seguinte: estamos com uma urgência catastrófica. O Sr. Blackwood demitiu três assistentes executivas apenas nas últimas duas semanas. O último saiu chorando na sexta-feira.

Parei de andar por um instante, surpresa com a franqueza brutal. — Chorando?

Sarah suspirou, parando de frente para um elevador privativo no final do corredor, que exigia um cartão de acesso escuro.

— Ethan Blackwood não é apenas o CEO desta empresa, Emma. Ele é o cérebro por trás de todo o nosso código-fonte, o acionista majoritário e o homem mais exigente que você vai conhecer na vida. Ele não grita. Ele não perde a compostura. Mas ele é implacável, frio e espera que você adivinhe o que ele precisa antes mesmo dele saber que precisa. Ele construiu essa muralha em volta de si mesmo e não permite que ninguém chegue perto. A vaga é sua se você durar o dia de hoje. Você tem estômago para isso?

Eu quase ri. Se Sarah soubesse o que eu já tive estômago para suportar nos últimos três anos da minha vida. Um bilionário mal-humorado e exigente não era um monstro; era apenas um homem de negócios. Monstros de verdade trancam a porta de casa, quebram seus telefones e sorriem para os vizinhos no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.

— Eu posso lidar com o Sr. Blackwood — respondi, minha voz soando mais firme do que em qualquer outro momento daquela manhã. Eu precisava do salário exorbitante daquela vaga. Precisava do plano de saúde, da estabilidade e, acima de tudo, do anonimato que os portões de segurança daquele prédio luxuoso me dariam.

Sarah me entregou um cartão de acesso. — Cobertura. Boa sorte. Você vai precisar.

O elevador privativo me levou diretamente para o último andar. Quando as portas se abriram com um bipe suave, fui engolida pelo silêncio. A recepção da cobertura era um espaço vasto, dominado por tons de preto, cinza e vidro. Não havia quadros coloridos, nem plantas, nem toques pessoais. Era um ambiente estéril, calculado, que gritava controle absoluto.

No centro do espaço aberto, além da mesa que seria minha, havia uma porta dupla de carvalho maciço, entreaberta. O coração, que eu havia acabado de acalmar, voltou a bater de forma dolorida contra minhas costelas. Caminhei a passos lentos, o som dos meus saltos abafado pelo carpete espesso. Empurrei a porta de carvalho.

O escritório era gigantesco, com paredes de vidro que ofereciam uma vista panorâmica e assustadora da cidade de Nova York. A luz da manhã inundava o ambiente, mas parecia não ser capaz de aquecer o homem que estava de costas para a porta, olhando para a metrópole lá embaixo como se fosse dono de cada prédio.

Ethan Blackwood era ainda mais intimidador pessoalmente do que nas poucas fotos que encontrei na internet. Ele era assustadoramente alto, os ombros largos preenchendo a paletó de um terno sob medida que, eu sabia instintivamente, custava mais do que eu ganharia em um ano. Suas mãos estavam nos bolsos da calça, e a postura era rígida como pedra.

— Eu pedi o relatório de contingência da fusão asiática há dez minutos — a voz dele ecoou pelo escritório. Era grave, aveludada, mas cortante como uma lâmina de barbear. Ele não se virou para olhar para mim.

Engoli em seco, minha mente correndo. — O relatório ainda não foi impresso, Sr. Blackwood. Mas posso tê-lo em sua mesa em cinco minutos, se o senhor me disser onde fica a impressora da minha mesa.

O silêncio que se seguiu foi denso o suficiente para me sufocar. Lentamente, ele se virou.

O impacto de encará-lo fez com que eu prendesse a respiração. O rosto de Ethan era uma obra de arte esculpida em granito. Maxilar rígido, traços fortes e aristocráticos, com o cabelo escuro impecavelmente penteado, revelando sutis fios grisalhos nas têmporas que lhe davam um ar de autoridade absoluta. Mas foram os olhos dele que me paralisaram. Eram de um verde intenso, quase predatório, mas havia uma sombra espessa neles. Um vazio frio e calculado que eu reconheci imediatamente. Era a mesma expressão que eu via no espelho quando a dor ameaçava me engolir: a expressão de alguém que fechou todas as portas por dentro para que nada mais pudesse machucá-lo.

Ele me analisou. Seus olhos desceram do meu rosto tenso até os meus sapatos e voltaram, sem nenhum traço de lascívia, apenas uma avaliação cirúrgica. Senti vontade de me encolher, de cruzar os braços sobre a barriga em um gesto defensivo ao qual eu estava tão acostumada, mas cavei as unhas nas palmas das mãos e mantive a coluna reta. Eu não iria recuar.

— Você é a nova tentativa do RH — ele constatou, a voz sem qualquer inflexão. Ele caminhou até sua imensa mesa de mogno. Cada movimento dele era fluido, poderoso e exalava perigo contido. — Você parece ter acabado de sair da escola, Srta...

— Fields. Emma Fields. Tenho vinte e dois anos, Sr. Blackwood. E garanto que minha competência não é medida pela minha idade ou pela minha aparência.

Ele parou, apoiando as duas mãos sobre a mesa e inclinando-se levemente na minha direção. A proximidade repentina ativou meu sistema de alerta, e meu corpo deu um milimétrico tranco para trás antes que eu pudesse controlar. Ele notou. Os olhos verdes se estreitaram por uma fração de segundo, captando minha reação de susto, mas ele não comentou.

— Minha última assistente chorou porque eu pedi que refizesse uma planilha de projeção de lucros cinco vezes, até estar perfeita. A anterior a essa pediu demissão porque eu exigi que ela cancelasse suas férias para cobrir uma crise no conselho. Eu não sou um chefe amigável, Srta. Fields. Eu não dou bom dia. Eu não pergunto sobre o seu fim de semana. E eu não tolero erros que me façam perder tempo — ele disse, cada palavra carregada de um peso esmagador. — Por que você acha que vai durar mais do que uma semana nesta sala?

Olhei diretamente nos olhos dele. A frieza que ele exalava era projetada para intimidar, para afastar as pessoas. Ele usava a crueldade como escudo. Mas eu tinha convivido com a verdadeira maldade de portas fechadas. O temperamento ruim de um bilionário viúvo, focado no trabalho para anestesiar a própria dor da perda, não iria me quebrar. Eu já estava quebrada; só precisava dos pedaços no lugar certo para continuar respirando.

— Porque eu preciso deste trabalho, senhor — respondi, mantendo meu tom nivelado, a voz limpa e firme. — E porque, com todo o respeito, o senhor não me assusta. Eu estou aqui para organizar a sua vida profissional, não para ser sua amiga. O relatório estará na sua mesa em três minutos. Com licença.

Dei as costas a ele antes que ele pudesse me dispensar. Uma ousadia que fez meu estômago revirar de ansiedade assim que fechei a porta dupla atrás de mim. Encostei na madeira fria do lado de fora, puxando o ar com força para os pulmões, sentindo minhas pernas tremerem levemente.

Sobrevivi ao primeiro teste. Ethan Blackwood era um homem envolto em sombras, preso em um castelo de vidro acima de Nova York. Mas o que ele não sabia, o que ele jamais poderia descobrir, era que as sombras que me perseguiam eram muito, muito mais escuras que as dele. Caminhei até a mesa da assistente executiva, liguei o computador e comecei a trabalhar. A partir de hoje, a minha vida dependia de não falhar.