Capítulo 1
Capítulo 1
POV: Angie
Não havia outro jeito de chegar à propriedade a não ser a pé.
Minhas sandálias de tiras afundavam na terra seca e empoeirada a cada passo. Naquela manhã, eu fiz uma única mala para o Theo e para mim. Dirigi direto até o pequeno hotel onde fiquei com minha irmã gêmea, Natalie, seis anos atrás. Naquela época, ela estava gravando seu único filme, o que deveria transformá-la em uma mulher rica e famosa.
Não aconteceu.
Em vez disso, ela se atirou para cima dos irmãos Domenico. Saiu de lá com a carreira de atriz destruída e com o menino mais doce do mundo, que passou a viagem toda dormindo tranquilamente no banco de trás do meu carro. O peitinho dele subia e descia com aquele chiado fraco e persistente que eu já estava acostumada a ouvir.
Nós tínhamos dezenove anos na época, e hoje estamos com vinte e cinco. Não me senti mais confiante ou madura ao voltar para as terras dos Domenico.
Depois de fazer o check-in, peguei a mão do Theo e a minha mala. A bombinha reserva dele estava lá dentro, junto com uma folha impressa de instruções que eu reescrevi tantas vezes que conseguiria recitar de cor. Natalie jurou por telefone que tinha resolvido tudo, que eu só precisava aparecer na propriedade de Marc Domenico.
Então eu vim.
Porque viver na cidade, me afogando em contas médicas e avisos de despejo, não era mais uma opção.
Deixei o carro no hotel de propósito. A recepcionista me avisou que o portão da propriedade ficava a quilômetros de distância da cidade e que não abriria a menos que seu nome estivesse em uma lista. Ela sorriu como se estivesse me fazendo um favor ao acrescentar: "Mas existe um atalho lindo, se você não se importar de andar".
Eu deveria saber que não se deve confiar na definição de "lindo" ou "curto" de uma estranha.
Depois de vinte minutos andando pela estrada extensa da propriedade, cercada apenas por campos sem fim e árvores antigas, o nó no meu estômago apertou. Olhei para minhas sandálias arruinadas e para o meu vestido de musselina fino e florido; o tecido já estava grudado na minha pele úmida de suor.
"Não faz sentido voltar agora." Esfreguei a testa. "Devemos estar na metade do caminho."
"Angie." O aperto do Theo na minha mão aumentou, os dedinhos dele tremiam. "Tem um cachorro. Um cachorro enorme."
Eu me virei.
Ao longe, um vulto enorme se movia rapidamente através do mato alto, vindo direto na nossa direção.
Meu coração disparou.
Peguei o Theo no colo, com as pernas compridas e magricelas dele envolvendo minha cintura, e andei mais rápido. Eu sabia que os animais reagem ao medo, e odiava o fato de que o meu pavor profundo por cachorros tinha passado para ele. Tentei esconder isso tantas vezes, me forçando a fazer carinho em vira-latas amigáveis da vizinhança para que ele não herdasse meu pânico.
Não funcionou.
Obviamente.
O cachorro latiu uma vez. Depois, outra. O som grave e estrondoso ecoou pelo chão seco.
"Está tudo bem." Apertei o Theo contra o meu peito, com a respiração falhando. "Ele vai se cansar e nos deixar em paz."
"Tá bom." O Theo enterrou o rosto no meu ombro, a respiração acelerando — aquele tipo de inalação rápida e curta que sempre fazia um peso frio se instalar no meu estômago.
Os latidos ficaram mais altos. Eu conseguia ouvir o baque pesado das patas batendo no chão.
"Ele está aqui, Angie", o Theo sussurrou no meu ombro. "Ele não desistiu."
O pânico criou um vazio na minha cabeça, deixando os sons abafados. Avistei uma grande nogueira à frente, com seus galhos baixos quase encostando no chão.
"Vem." Coloquei o Theo no chão, empurrando-o em direção ao galho mais grosso. "Sobe. Se esconde nas folhas."
Ele subiu como um macaquinho bem na hora em que o cachorro freou a poucos metros de distância, latindo furiosamente.
Meus joelhos tremiam tanto que achei que fosse desmaiar.
"Angie!" o Theo gritou da árvore.
Eu me virei para enfrentar a fera, pronta para proteger o tronco, quando um tremor profundo no chão me fez olhar para cima.
Um homem vinha a cavalo na nossa direção.
O garanhão escuro batia os cascos, levantando uma nuvem de poeira, selvagem e indomável. O cavaleiro puxou as rédeas, controlando facilmente o animal enorme. Recuei, com as duas mãos erguidas em sinal de rendição.
"Esse cachorro é seu?" Minha voz saiu estridente, traindo toda a minha desespero. Eu nunca teria vindo aqui se minha vida não tivesse desmoronado completamente: seis meses de asma do Theo piorando, visitas intermináveis ao médico, e meu chefe finalmente decidindo que uma mulher com um filho doente era um transtorno que ele não queria ter. Depois de dez entrevistas fracassadas, tive que aceitar que ele não era o único pensando exatamente da mesma forma, e que esta era a minha última alternativa.
O homem desmontou. Quando seus olhos escuros e intensos encontraram os meus, senti um arrepio na espinha.
Vid Domenico.
Ele não parecia nada entusiasmado. Não parecia um homem se preparando para receber o sobrinho. Ele só parecia irritado e mau, mas, com aquele rosto e porte largo, seria difícil parecer gentil.
Estreitei os olhos para o homem que a Natalie sempre chamava de o pior espécime de todos. É claro que, para a Natalie, qualquer homem imune à sedução dela era o vilão. Quando o Vid a ignorou no set, ela simplesmente passou para o irmão dele, Marc, um homem que vivia às custas da família e que não tinha nada a oferecer além de gostos caros e promessas vazias.
"Bull", o Vid chamou o cachorro calmamente; seu som grave vibrou no ar, sendo uma ameaça e um comando ao mesmo tempo.
Instantaneamente, o cachorro enorme se curvou, baixou a cabeça e trotou para ficar obedientemente junto à bota dele.
Ergui as sobrancelhas, sentindo meu coração acelerado voltar lentamente ao ritmo normal.
"Bull?" eu perguntei.
O cachorro e o homem inclinaram a cabeça, me observando.
"Sério?" Eu tinha aquele hábito terrível de ficar arrogante quando me sentia acuada. "Pelo menos o pessoal do campo deveria saber a diferença entre as espécies."
Isso rendeu um leve sorriso no canto da boca dele.
"Angie", o Theo chamou lá da árvore. "Acho que ele não acredita que esse seja o 'touro'. Ele sabe que é um cachorro; ele só deu o nome de Bull."
Vid olhou para cima, entre as folhas. Sua expressão severa mudou, seus lábios se contraindo em diversão genuína. "Está tudo bem aí em cima? Precisa de ajuda para descer?"
"Talvez." O Theo parecia sério, carregando a cautela pesada de uma criança que raramente podia ser apenas uma criança.
Eu me virei, de repente territorial. "Eu te ajudo."
Subi no galho baixo e me içei sem hesitar. Nunca fui do tipo delicada; esse papel pertencia à Natalie.
Eu era a garota forte e capaz. Aquela que você não chama para fazer compras, mas sim quando precisa mudar móveis de lugar.
Agarrei a cintura do Theo, guiando-o com segurança, e então pulei do tronco do jeito que sempre fazia.
Sem medo.
Rrrrip.
Um galho seco prendeu no musselina do meu vestido, rasgando-o até a cintura.
Caí no chão, recusando-me a recuar ou cobrir minhas pernas recém-expostas. O rasgo deixou a parte de cima frouxa, tornando cada movimento inconveniente e arriscado.
Levantei o queixo, dei uma volta calculada nos calcanhares, virando as costas para ele enquanto tentava encontrar uma forma de me arrumar.
"Tia, você é desastrada", o Theo riu enquanto a sombra dele pairava sobre mim. Os dedos do Vid pairaram sobre a pele sensível do meu pescoço. Fiquei tensa quando ele removeu os dois ganchos do meu cabelo bagunçado. Depois, ele me virou para encará-lo e prendeu os ganchos no rasgo grande da minha cintura, transformando-o em uma fenda conveniente e deixando a parte de cima do meu vestido segura novamente.
"Isso parece muito melhor. Obrigada", eu disse, sentindo o calor subir pelo pescoço.
Puxei o Theo para perto, minha mão pousada protetoramente em seu ombro. "Agora, pode me dizer onde encontramos Marc Domenico? Ele está nos esperando."
Vid me encarou.
Não houve um lampejo de reconhecimento. Nenhuma reação.
Algo frio deslizou no meu estômago.
"Marc?" ele repetiu, como se o nome pertencesse a um estranho.
"Sim." Minha voz saiu ríspida demais. "Marc Domenico. Natalie disse..."
Os olhos do Vid se estreitaram um pouco. "Natalie."
Eu engoli em seco.
Ele apenas olhou para mim como se eu tivesse pousado no planeta errado.
E, naquela pequena e terrível pausa, eu entendi.
O que quer que a Natalie tenha me prometido, o que quer que ela tenha pintado pelo telefone para me trazer até aqui, nunca foi real.
Não para o Vid.
Não para o Marc.
Não para ninguém.
Meu aperto no ombro do Theo aumentou.
"Droga", murmurei baixinho, a verdade humilhante afundando como uma pedra.
"Estamos em apuros, tia?" o Theo puxou meu braço. Eu não conseguia olhar nos olhos dele.
Ela tinha feito de novo.
Natalie tinha me feito de idiota.
E eu mereci.
Porque não existe nada pior do que uma boba que confia em tudo.
27 de abril de 2026.
Não acredito que já está na hora de outra história. Espero que vocês gostem desta, e se não gostarem, por favor me avisem para que eu possa parar de escrevê-la :) rs, estou só brincando. Não me contem. Deixem-me viver na ilusão.
Amo todos vocês.









Intriguing!
I really love the beginning. it has it all suspense, humor, great characters. As all your books - great reads! ❤️
Reading from Ghana and it is soo nice. keep going please