The Black Dress
Eu quase não fui ao funeral.
Não por causa do Gus, mas por causa dele.
É uma coisa terrível de se admitir. O tipo de coisa que faz as pessoas inclinarem a cabeça e te reavaliarem, mudando silenciosamente o olhar de condolência para algo mais frio. Parei de pedir desculpas por essa mudança. Consome energia demais, e aprendi que as pessoas só exigem que as mulheres sejam doces quando lhes convém.
Gus teria entendido. Ele teria rido, com aquele som de chiado e ruído que seus pulmões faziam nos últimos anos, e dito algo como: "Garota, funerais são para os vivos, e os vivos são exaustivos".
Eu fui mesmo assim.
Não para encerrar um ciclo. Não como uma homenagem. Fui porque sabia que ele estaria lá, e eu precisava descobrir se seis anos tinham sido o suficiente para me tornar imune.
Não tinham sido.
A igreja era um daqueles edifícios de madeira branca da Nova Inglaterra que parecem ter sido tirados de um cartão-postal e colocados em uma cidade costeira castigada pelo vento. Um campanário estreito, telhas desgastadas e um sino que não tocava há anos, porque alguém decidiu que era um risco.
Sentei-me lá atrás, na terceira fileira a partir da saída, usando um vestido preto que servia bem o suficiente para passar despercebido, mas não bem o suficiente para parecer meu. Ele apertava nos ombros e me obrigava a sentar mais ereta do que eu queria. Fez com que eu me sentisse consciente de mim mesma de um jeito que eu não gostava.
Sadie Hart, em luto.
Sadie Hart, mulher que tem a vida sob controle.
A verdade é que eu tinha voado de Chicago na noite anterior e dormido em um motel de beira de estrada porque não conseguia encarar meus pais. Minha mãe faria perguntas. Meu pai não faria, o que era pior. Eventualmente, o assunto voltaria para ele.
Sempre voltava.
Vi Nathan antes que ele me visse, o que pareceu a única misericórdia que eu teria.
Ele entrou com um pequeno grupo, os mesmos amigos que sempre orbitaram ao redor dele e que, aparentemente, nunca pararam. Ele parecia diferente, não irreconhecível, mas lapidado de um jeito que fez algo em meu peito apertar.
Mais largo. Mais marcante. Acomodado em si mesmo.
O garoto que eu amei era pura agitação, com membros soltos e rindo antes mesmo da piada terminar. O homem que caminhava pelo corredor portava-se como se tivesse aprendido a ficar imóvel.
Seu terno caía tão bem que não parecia emprestado. Seu cabelo estava penteado para trás com um cuidado que tentava não parecer cuidado. E seu rosto estava composto, seu pesar contido e educado.
Reconheci a expressão imediatamente. Eu já tinha usado a mesma.
Ele não olhou para mim. Nem uma vez durante a cerimônia.
Ele sentou-se três fileiras à frente e à direita, e eu me peguei observando a nuca dele como se pudesse forçá-lo a virar. Ele não virou.
Eu esperei assim mesmo.
Por um vislumbre. Um erro. Alguma pequena brecha na versão de si mesmo que ele construiu sem mim.
Quando não veio, algo em meu peito mudou — não de forma brusca, não dramática. Apenas... errado.
Como se eu tivesse me lembrado mal de algo fundamental.
Como se eu tivesse imaginado ser amada mais do que realmente fui.
O pastor falou sobre Gus em frases gentis e amplas. Membro amado da comunidade. Uma vida de serviço silencioso. Não deixa herdeiros.
Aquela última frase alojou-se em algum lugar sob minhas costelas.
Não deixa herdeiros.
Mas Gus tinha a nós. Uma vez.
Ele tinha dois filhos que apareciam todo domingo e ficavam tempo demais. Que aprenderam a lixar o chão, mexer o ensopado e existir em uma cozinha que sempre cheirava a sal, farinha e algo caloroso o suficiente para que valesse a pena voltar.
Ele tinha a nós.
Então, nós nos quebramos.
Eu fui embora.
Nathan ficou.
E, de alguma forma, isso se transformou em ninguém.
Eu não chorei. Eu tinha me treinado para não chorar em momentos inconvenientes. Mas algo ficou preso em meu peito, afiado e imóvel.
O enterro foi em uma colina com vista para o Atlântico. O vento soprava forte do mar, atravessando casacos e vestidos, transformando os enlutados em pequenos grupos de preto contra um céu cinzento.
Eu fiquei afastada, como sempre fazia.
Foi quando eu o senti.
Não vi. Senti.
O ar mudou, de forma sutil, mas inconfundível, como a pressão antes de uma tempestade.
Eu me virei.
Nathaniel Olson estava a quase cinco metros de distância, as mãos nos bolsos, me observando.
De perto, os anos apareciam com mais clareza. Havia uma linha entre suas sobrancelhas que não estava lá antes, e uma quietude nele que não pertencia ao garoto que eu me lembrava.
Ele não sorriu. Eu também não.
"Sadie."
Ouvir meu nome na voz dele depois de seis anos atingiu-me com mais força do que eu esperava. Estava mais grave agora, mais rústica nas bordas, ou talvez fosse apenas o tempo se acomodando nela.
"Nathan."
Ficamos ali no vento, sem dizer mais nada por um momento.
"Você veio", ele disse.
"Você também."
"Eu moro aqui."
Claro que ele morava.
Ele tinha ficado.
Ele sempre foi o que ficou.
Deixei isso passar por mim. Eu tinha aprendido a suportar os golpes.
"Eu o amava", eu disse baixinho. "Ter ido embora não muda isso."
Algo passou pelo rosto dele, rápido demais para definir. Depois, desapareceu.
Ele deu um aceno curto e virou-se de volta para o túmulo, a dispensa tão clara que parecia deliberada.
Eu deveria ter deixado terminar ali.
"Sadie."
Eu parei.
Desta vez ele não estava me olhando. Seu olhar estava fixo no caixão, já pela metade na terra, seu maxilar contraindo-se de um jeito que eu lembrava muito bem.
"Tem uma carta", ele disse. "Do advogado do Gus."
"Que tipo de carta?"
"Apenas leia."
A muralha voltou ao lugar tão rápido quanto tinha deslizado.
Depois ele se afastou, e eu deixei.
A carta chegou três dias depois, encaminhada do meu endereço de Chicago para o motel, porque uma parte de mim já tinha decidido que eu ainda não ia embora.
Li sentada na beira da cama, cercada pelo cheiro de água sanitária e cigarro velho. Li duas vezes antes de chegar ao bilhete manuscrito no final, com a letra familiar e irregular de Gus.
Vocês dois foram a melhor coisa que já tive. Não me façam assombrar vocês.
Soltei um suspiro que quase se transformou em risada.
"Aquele velho manipulador."
Claro que ele faria isso.
Claro que ele olharia para os destroços que fizemos um do outro e decidiria que a proximidade era a resposta.
Um ano. Juntos. No Driftwood.
Ele estava errado.
Ele tinha que estar.
Nathan e eu não éramos uma história inacabada. Estávamos acabados, enferrujados de uma forma que não podia ser desfeita. Não há como voltar atrás do que eu fiz. Não se volta de seis anos de silêncio, ou de escolher não retornar.
E, mesmo assim, o Driftwood veio à mente.
O quarto do terceiro andar. O jeito como a luz caía suave e dourada pelas janelas. O terraço onde eu o beijei pela primeira vez, o oceano barulhento logo abaixo de nós.
A memória é uma traidora desse jeito.
O amor também é.
Pensei na Greystone Development e em suas promessas polidas de "vida luxuosa no litoral". Pensei neles destruindo a pousada para transformá-la em algo irreconhecível.
Pensei em Nathan no túmulo, o jeito que sua voz falhou por meio segundo antes de ele se fechar.
E pensei na garota que eu costumava ser, parada na neve fora do caminhão dele, dizendo a pior coisa que conseguiu pensar, porque parecia mais fácil do que dizer a verdade.
Ela acreditava que estava quebrada.
Talvez ela ainda estivesse.
Mas ela não era mais o tipo de pessoa que fugia.
Peguei meu telefone.
Ele atendeu no segundo toque.
Não houve saudação, apenas silêncio e o som suave do vento do outro lado.
"Sou eu", eu disse.
"Eu sei."
"Recebi a carta."
"Eu também."
A pausa que se seguiu estendeu-se mais desta vez.
"Vamos fazer isso?", perguntei.
"Não sei se consigo", ele disse.
Sua voz falhou na última palavra, só um pouco.
"Nathan—"
"Estarei lá amanhã", ele interrompeu. "Nove da manhã. Não se atrase."
A ligação caiu.
Fiquei sentada ali por um momento, o telefone esfriando na minha mão, e percebi que estava sorrindo.
Não porque eu estivesse feliz, mas porque algo tinha começado.
Na manhã seguinte, dirigi até o Driftwood.
A estrada não tinha mudado. Ela ainda serpenteava ao longo da costa, ladeada por rosas-da-praia e pinheiros castigados pelo sal. Minhas mãos se lembravam das curvas antes mesmo da minha mente.
Então as árvores se abriram, e lá estava ela.
O Driftwood estava em seu penhasco como algo que se recusava a desaparecer. Desgastado, gasto, mas ainda de pé.
O caminhão de Nathan já estava na entrada.
Ele estava encostado nele, braços cruzados, olhando para a casa como se ela o tivesse ofendido pessoalmente.
Ele olhou para cima quando estacionei.
Sem sorriso. Sem aceno. Apenas reconhecimento.
Saí do carro. O ar me atingiu imediatamente, sal e pinho e o cheiro fraco de maré baixa. Cheirava a memória.
"Na hora certa", ele disse.
"Não pareça surpreso."
"Não estou."
Uma breve pausa.
"Você sempre foi assim."
Era algo pequeno, mas eu guardei aquilo.
Lá dentro, a pousada parecia suspensa no tempo. Móveis cobertos por lençóis, poeira pairando no ar, um silêncio que parecia menos vazio e mais em pausa.
A escadaria curvava-se para cima em uma curva familiar. A lareira ainda continha cinzas antigas.
E no parapeito da lareira, havia uma foto emoldurada.
Gus no meio. Nós dois de cada lado, mais jovens e sorrindo como se nada pudesse nos tocar.
Nathan parou na frente dela.
Seus ombros se tencionaram, mas ele não tocou na foto.
"O advogado vem às nove e meia", ele disse.
"Eu sei."
"Tem café na cozinha. Gus deixou um bule."
"Ok."
Ele se virou então e me olhou de verdade, pela primeira vez desde que entramos. Não havia suavidade em sua expressão, não havia boas-vindas, mas era real o suficiente para me fazer ficar parada.
"Isso é loucura", ele disse.
"Eu sei."
"Ele está nos fazendo morar aqui. Juntos."
"Eu li a carta, Nathan."
"E você ainda está aqui."
Encontrei seu olhar.
"Você também está?", perguntei.
Ele não respondeu.
Mas ele não foi embora.
Lá fora, o oceano se movia como sempre tinha feito.
Lá dentro, nada se movia.
Mas algo já estava mudando.
Eu podia sentir.
E, desta vez, não era eu quem ia fugir.
Fim do Capítulo Um








Hi! If you made it to the end of Chapter 1, thank you for giving this story a chance. I’d love to hear your first impressions 👀 ~J.M. 🌹
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