O Preço da Paz
Os sinos começaram a tocar antes do amanhecer.
Sons graves.
Pesados.
Sinos de funeral.
Elara acordou com o som vibrando através das paredes de pedra do palácio, como o batimento cardíaco de algo moribundo.
Por um momento de desorientação, ela pensou que os dragões tivessem invadido a cidade.
Então veio a gritaria do lado de fora das portas de seus aposentos. Passos apressados. O trovão metálico distante de armaduras.
Não era um ataque.
Era pior.
Eram notícias.
Elara sentou-se na cama, os lençóis de seda enroscando-se em suas pernas enquanto o frio invadia o quarto escuro. A chuva castigava as altas janelas em arco com vista para a capital de Aurelian, tingindo o vidro de prata sob os clarões dos relâmpagos.
Os sinos tocaram novamente.
Sete badaladas.
O sinal de derrota militar.
Seu estômago contraiu-se.
Não.
Não, não, não.
Ela pulou da cama e atravessou o quarto descalça, pegando o roupão mais próximo sobre uma cadeira. Os criados do palácio ainda não tinham chegado para vesti-la, o que significava que o pânico já havia se espalhado pelo castelo.
Só isso já a aterrorizava.
O palácio real cultuava a rotina. A precisão. As aparências.
Se até os criados tinham abandonado o cronograma, algo catastrófico havia acontecido.
Ela abriu as portas de seus aposentos num puxão.
Uma criada quase colidiu com ela.
“Princesa—”
“O que aconteceu?”
A jovem parecia pálida a ponto de desmaiar. “Os exércitos do norte caíram na Passagem de Ravaryn.”
Elara paralisou.
Passagem de Ravaryn.
O último reduto humano antes dos reinos do interior.
A última barreira protegendo Aurelian do império dos dragões.
Um horror frio e rastejante percorreu sua espinha.
“Quantos sobreviventes?”
A criada engoliu em seco. “Muito poucos.”
Elara fechou os olhos.
Pelos deuses.
Ela os havia avisado.
Durante meses, ela avisou seu pai que os dragões estavam preparando uma nova ofensiva. Ela participou de reuniões do conselho ouvindo homens velhos e arrogantes descartarem a ameaça, porque o tratado se mantivera por vinte anos.
Vinte anos de uma paz frágil, comprada após milhares serem queimados vivos pelo fogo de dragão.
Vinte anos fingindo que monstros tinham se tornado civilizados.
E agora, o tratado estava sendo rompido.
Novamente.
“Onde está o rei?” ela perguntou.
“Na câmara do conselho de guerra.”
É claro.
A criada hesitou. “Princesa…”
Elara já estava se movendo.
Os corredores do palácio eram um caos.
Criados corriam carregando pergaminhos e caixotes. Nobres sussurravam em grupos assustados sob a luz trêmula das tochas. Guardas se moviam pelos corredores em armadura completa, com rostos sombrios.
O medo pairava sobre o palácio como fumaça.
Elara apressou o passo.
Quanto mais perto da câmara do conselho ela chegava, mais silenciosos os corredores ficavam.
Ninguém queria ficar por perto das portas onde reinos estavam desmoronando.
Dois guardas reais estavam parados do lado de fora da entrada da câmara.
Eles se endireitaram imediatamente ao vê-la.
“Princesa Elara,” um disse com cautela.
Ela ignorou a tensão na voz dele. “Abram as portas.”
Nenhum deles se moveu.
Seu pulso diminuiu de forma perigosa.
“Abram-nas.”
O guarda mais velho evitou seu olhar. “O rei ordenou que ninguém fosse admitido.”
Algo gelado se desenrolou em seu peito.
Ninguém.
Nem ela.
Especialmente não ela.
Elara encarou as portas.
Então ela ouviu.
A voz de seu pai dentro da câmara.
“…não há outra escolha.”
Outra voz respondeu.
Grave.
Desconhecida.
“E a princesa aceita estes termos?”
O recinto ficou em silêncio.
O sangue de Elara congelou.
A princesa.
Não as princesas.
Não a família real.
Ela.
Lentamente, ela se virou para os guardas.
“Abram,” ela disse suavemente, “as portas.”
Os guardas hesitaram por apenas um segundo a mais.
Elara passou por eles empurrando-os.
A câmara do conselho mergulhou num silêncio atordoado quando as portas se escancararam atrás dela.
Todas as cabeças se voltaram.
A sala cheirava a fumaça, água da chuva e medo.
Generais cercavam a enorme mesa de guerra no centro da câmara, com mapas espalhados sob marcadores dispersos que mostravam cidades caídas e defesas destruídas.
E, parado perto da outra extremidade da mesa—
Um dragão.
Elara já tinha visto emissários dragões antes, quando criança, mas nada a preparou para a realidade de um totalmente adulto.
Ele era enorme.
Não apenas em altura, embora ele superasse todos na sala, mas em presença. O poder parecia irradiar dele como o calor de um incêndio florestal.
Uma armadura negra envolvia seus ombros largos, gravada com marcas de dragão em prata. O cabelo escuro caía sobre a gola. Seu rosto era afiado o suficiente para cortar pedra.
Lindo.
Desumanamente lindo.
E os olhos dele...
Dourados.
Não eram castanhos com um toque de dourado.
Não eram âmbar.
Eram ouro derretido de verdade.
Olhos predatórios.
Olhos de dragão.
De repente, a sala pareceu pequena demais.
O dragão virou-se lentamente para ela.
Sua expressão não mudou.
Mas Elara sentiu mesmo assim.
Aquele momento aterrorizante em que um predador nota um movimento.
O pai dela levantou-se bruscamente da cadeira. “Elara.”
Sem calor.
Sem alívio.
Apenas aviso.
Ela olhou dele para o emissário dragão. “Quais são as condições?”
Silêncio.
Ninguém respondeu.
O pulso de Elara começou a bater com mais força.
“Quais são as condições?”, repetiu ela.
Desta vez, o dragão falou.
Sua voz era suave. Calma.
Calma demais para alguém que discute uma guerra.
“O Rei Dragão concordou em poupar Aurelian de uma invasão.”
Todos na sala pareceram aliviados ao ouvir aquelas palavras.
Todos, menos Elara.
Porque dragões nunca ofereciam misericórdia de graça.
“O que ele quer?”, ela perguntou.
O maxilar de seu pai tensionou-se.
O olhar dourado do dragão nunca deixou o rosto dela.
“Você.”
A palavra atingiu-a como uma lâmina deslizando entre suas costelas.
A sala ficou levemente embaçada.
“Não”, disse ela automaticamente.
O pai dela deu um passo à frente. “Elara—”
“Não.”
Ela olhou para ele completamente agora.
E viu.
A culpa.
A vergonha.
A decisão já tomada.
Algo dentro dela começou a quebrar.
“Você me ofereceu a eles?”
A expressão de seu pai endureceu instantaneamente, escondendo-se atrás da face de um rei, e não de um homem.
“Eu ofereci a paz.”
“Você ofereceu sua filha.”
“Aurelian cairá se eu não fizer nada.”
“Então você me escolheu para se salvar.”
Um murmúrio agudo percorreu a sala.
O emissário dragão observava tudo em silêncio.
A voz de seu pai tornou-se mais fria. “Cuidado com a sua língua.”
Elara riu uma vez, em descrença.
Cuidado com a sua língua.
Como se ela fosse uma criança fazendo birra, e não uma mulher sendo trocada como gado.
“Você não pode esperar, seriamente, que eu vá por vontade própria.”
“Uma princesa serve ao seu reino.”
“Não”, Elara retrucou. “Um rei protege sua família.”
O rosto dele escureceu.
Por um momento, nenhum dos dois falou.
A chuva batia nas janelas atrás deles.
A mesa de guerra ficava entre pai e filha como um campo de batalha já perdido.
Finalmente, o rei disse baixinho: “Você sabe o que os dragões fazem com as cidades conquistadas.”
Elara sabia.
Todos sabiam.
Aldeias queimadas.
Montanhas de cinzas.
Linhagens inteiras apagadas pelo fogo de dragão.
O Rei Dragão não era apenas temido.
Ele era lendário.
Kaelith Ashdrake.
O governante imortal de Varethis.
O rei que encerrava guerras aniquilando todos que fossem tolos o suficiente para continuá-las.
As histórias diziam que ele uma vez queimou um exército vivo em menos de uma hora.
Outros diziam que ele bebia sangue durante as negociações.
A maioria das pessoas sussurrava seu nome como se fosse uma praga.
E agora, seu pai pretendia entregá-la a ele.
Elara olhou de volta para o emissário dragão. “Quais são, exatamente, as condições?”
“Você viajará para Varethis”, disse ele. “Você permanecerá sob a proteção do Rei Dragão como consorte real até que o tratado seja garantido.”
Consorte real.
Não esposa.
Não rainha.
Algo mais frio.
Posse disfarçada de diplomacia.
“E se eu recusar?”
O dragão inclinou a cabeça levemente.
“Aurelian queima.”
A câmara silenciou novamente.
Elara encarou-o.
Não por causa da ameaça.
Mas pela maneira casual como ele a proferiu.
Como se cidades queimando vivas não significassem nada.
Talvez, para os dragões, não significassem mesmo.
Seu pai aproximou-se. “Elara, ouça-me com atenção. Milhares de vidas dependem desta decisão.”
“E o que acontece com a minha?”
“Você sobrevive.”
Uma risada amarga escapou dela.
“Isso não é a mesma coisa.”
A dor brilhou em seu rosto e depois desapareceu.
Bom.
Deixe-o sentir isso.
Deixe-o sentir, ao menos, uma fração do que ela sentia estando ali.
Usada.
Descartada.
Vendida.
“Eu sou sua filha”, ela sussurrou.
“E você é uma princesa.”
A resposta quebrou algo definitivo dentro dela.
Não filha.
Não Elara.
Apenas princesa.
Apenas útil.
Apenas descartável.
O emissário do dragão observava-a com uma imobilidade inquietante.
Quase como curiosidade.
Elara endireitou-se lentamente.
Se ela chorasse agora, eles confundiriam aquilo com fraqueza.
Ela preferiria morrer antes disso.
“Quando eu parto?” perguntou ela.
O pai dela soltou o ar, num alívio visível.
“Ao amanhecer de amanhã.”
Amanhã.
Deuses.
Ela olhou ao redor da sala.
Nem um único membro do conselho conseguia sustentar seu olhar.
Covardes.
Todos eles.
Eles a sacrificariam e chamariam de nobre, porque isso os fazia sentir menos monstruosos.
O emissário do dragão finalmente se moveu.
Ele deu um passo em direção a ela com uma graça aterrorizante.
Cada instinto em seu corpo gritava para que ela se afastasse.
Ela recusou.
De perto, ele era ainda pior.
Mais perigoso.
Mais bonito.
Havia algo ancestral no rosto dele. Algo completamente alheio à humanidade.
“Você é corajosa”, disse ele.
Elara fixou os olhos diretamente naqueles olhos dourados.
“Não”, respondeu ela suavemente. “Estou furiosa.”
Algo brilhou na expressão dele, então.
Rápido.
Interessado.
E logo sumiu.
Ele inclinou a cabeça levemente.
“Prepare-se, Princesa.”
Elara teve vontade de esbofeteá-lo.
Em vez disso, ela disse: “Diga ao seu rei que espero que ele goste de manter mulheres contra a vontade em jaulas”.
Um silêncio perigoso seguiu-se.
Vários generais pareciam horrorizados.
Mas o dragão apenas sorriu fracamente.
De alguma forma, aquilo era mais ameaçador do que a raiva.
“Cuidado”, murmurou ele. “Nosso rei gosta de criaturas com dentes.”
Então, ele virou-se e saiu da câmara.
As portas se fecharam atrás dele com um estrondo pesado.
Elara ficou paralisada.
O pai dela dispensou o conselho rapidamente depois disso, evitando o olhar dela completamente enquanto os generais se apressavam para sair da sala.
Covardes.
Cada um deles.
Logo, apenas os dois restaram.
Pai e filha.
Rei e sacrifício.
“Você deveria descansar”, disse ele calmamente.
Elara encarou-o em descrença.
“Descansar?”
Sua exaustão surgiu de repente. “Você acha que isso foi fácil para mim?”
“Sim”, disse ela imediatamente.
Isso o atingiu.
Bom.
Ele caminhou em direção às janelas, observando a tempestade que engolia a cidade.
“Quando sua mãe morreu”, ele disse em voz baixa, “eu jurei que protegeria este reino.”
A garganta de Elara apertou-se dolorosamente ao menção de sua mãe.
“Entregando-me a monstros?”
“Salvando vidas.”
Ela balançou a cabeça lentamente.
“Você poderia ter lutado.”
“Nós perderíamos.”
“Você não sabe disso.”
“Eu sei.”
Ele finalmente virou-se para ela, e pela primeira vez ela viu medo em seus olhos.
Medo real.
“Eles não são humanos, Elara. Seus exércitos não podem ser detidos. Kaelith Ashdrake não pode ser convencido quando a guerra começa.”
O nome enviou um calafrio por ela.
Kaelith.
O Rei Dragão.
O monstro que a aguardava.
“O que acontece comigo lá?” ela perguntou calmamente.
Seu pai hesitou.
E aquela hesitação a aterrorizou mais do que qualquer outra coisa.
“Eu não sei.”
A honestidade quase a destruiu.
Ela riu, trêmula, e olhou para o lado antes que ele pudesse ver a ardência súbita em seus olhos.
Durante toda a sua vida, ela soube que o dever vinha antes do amor nas famílias reais.
Mas uma parte infantil dela ainda acreditava que seu pai a amava o suficiente para não fazer isso.
Que estupidez.
“Elara—”
“Não.”
Sua voz falhou levemente.
Ela odiou isso.
“Eu não quero conforto seu agora.”
A dor passou pelo rosto dele novamente.
Mas ele não disse nada.
Porque não havia nada a dizer.
A escolha já havia sido feita.
Amanhã ela seria enviada através do mar para um reino de dragões.
Para um rei sobre o qual se sussurrava em pesadelos.
Para um homem que seria dono do seu destino por completo.
Um sacrifício envolto em seda e ouro.
Elara caminhou em direção às portas da câmara.
Logo antes de sair, ela parou.
Sem se virar, ela perguntou suavemente:
“Se a mamãe estivesse viva… você ainda faria isso?”
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Então, finalmente—
“Não.”
A resposta destruiu-a.
Elara abriu as portas e saiu antes que ele pudesse vê-la chorar.