Prólogo
Eu encarava a bandeja de comida, fumegante, aromática, perfeitamente montada. Meu corpo estava com fome, mas minha alma recuava.
Porque aquilo não era um jantar. Era um lembrete.
Um lembrete de que eu não era uma convidada ali.
Eu era uma posse.
A porta rangeu ao abrir novamente.
Mas, desta vez, não era uma empregada com uma bandeja. Eram quatro mulheres.
Elas se moviam juntas, silenciosas, elegantes, graciosas demais para serem comuns. O perfume suave e caro que as seguia era como um fantasma de luxo, mascarando algo podre por baixo.
Todas as quatro eram lindas... devastadoramente lindas, mas não da maneira que a beleza deveria ser. Elas tinham aquele tipo de beleza que parecia cara, calculada, como bonecas de porcelana em uma prateleira, polidas até que não restasse nada de humano nelas.
Seus sorrisos não chegavam aos olhos.
A mulher à frente se movia de um jeito diferente. Ela era mais velha, mais autoconfiante, com o tipo de confiança que não vinha do orgulho, mas de ter se rendido há muito tempo. Estava na casa dos trinta anos, talvez alguns anos mais nova que ele, com o cabelo castanho preso em um coque elegante e lábios pintados de vermelho-sangue. O diamante em seu dedo brilhava com um peso que revirou meu estômago.
“Então...”, ela disse, seu inglês tingido por um leve sotaque eslavo. “Você é a nova.”
Pisquei, com a garganta apertada demais para falar. Minha voz tinha me abandonado no segundo em que ela entrou no quarto.
Ela não esperou por uma resposta. Em vez disso, sorriu... um sorriso lento e afiado como uma navalha, e estendeu a mão como uma rainha cumprimentando uma súdita. “Sou Elena Petrović. A primeira esposa dele. Antes de começar sua nova vida aqui, você precisa saber de algumas coisas.”
Ela continuou, mas minha vida já estava de cabeça para baixo ao ouvir a primeira palavra.
“Nossos pais selaram nosso casamento para unir os sindicatos albanês e sérvio. Uma aliança perfeita.” O sorriso dela tornou-se frágil. “Ou assim eu pensava.”
O ar fugiu dos meus pulmões. “Primeira... esposa?”, sussurrei, mal conseguindo respirar.
Ela riu. Não foi um riso gentil. Nem mesmo sarcástico. Foi um som que falava de sonhos despedaçados e aceitação amarga. “Oh, querida... você realmente não achou que era a única, achou?”
Antes que eu pudesse responder, outra mulher deu um passo à frente. Mais jovem, talvez na casa dos vinte e poucos anos, com os mesmos olhos penetrantes de Elena, mas mais aguçados, mais frios. Sua beleza era quase cirúrgica.
“E eu”, ela disse, jogando para trás seu longo cabelo escuro, “sou Milena. Irmã mais nova de Elena. Ele decidiu que uma filha Petrović não era o bastante. Ele me quis também, embora ele tenha me tido antes da minha irmã em sua cama de núpcias.” Ela deu uma risadinha, um som morto e vazio. “E o que ele quer... ele pega.”
O quarto girou. Meu estômago revirou e meus lábios se abriram em descrença.
A palavra "pega" ecoou no meu crânio como uma maldição.
A terceira mulher deu um passo à frente. Ela era de tirar o fôlego, alta, escultural, com a pele cor de caramelo e olhos como âmbar polido. Seu sotaque era francês, sua voz melódica, quase suave demais para as palavras que dizia. “Sou Camille. Eu era modelo em Paris. Dior. Milão. Nova York.” Ela sorriu fracamente, mas não havia alegria naquilo. “Até que ele me viu desfilando na passarela. Agora, eu ando por estas paredes sem nada.”
Prendi a respiração. Cada história era pior que a anterior. Cada uma, um aviso. Uma profecia.
Então a quarta saiu de trás das outras. Era a mais jovem, mal tinha dezenove anos, com mãos trêmulas e olhos de corça que se recusavam a encontrar os meus. Sua voz falhou quando ela falou. “Sou Sofia”, sussurrou. “Eu estudava literatura em Praga. Eu nunca o tinha conhecido até que, dois anos atrás, ele decidiu... que eu pertencia a ele.”
Um calafrio percorreu meu corpo, tão frio que pareceu atingir meus ossos. Ela devia ser menor de idade na época. Que tipo de monstro ele é?
Elas não eram esposas. Eram provas. Provas de que, uma vez que ele coloca os olhos em você, não há escapatória. Provas de que seu nome, seu passado, seus sonhos, tudo isso desaparecia no momento em que ele decidia que você era dele.
Eu estava perdida pensando na desgraça que me aguardava, quando a voz de Elena me trouxe de volta.
“Então”, disse Elena, batendo palmas uma única vez, o som nítido e impiedoso. “Agora que as apresentações terminaram...”
Seu olhar percorreu-me lentamente, dos meus pés descalços ao meu rosto. “É hora de prepararmos você.”
“Preparar?”, consegui sussurrar.
Camille foi até uma grande caixa de presente que eu ainda não tinha notado no quarto e a abriu. A visão tirou o fôlego dos meus pulmões.
Dentro, havia uma peça de lingerie, de renda e seda na cor bordô, indecente e pecaminosa, que mal escondia nada, mas exibia tudo; o tipo de coisa feita para ser arrancada, não vestida.
“Isto”, disse Elena, levantando a peça com dois dedos como se fosse sagrada, “é o que ele quer que você use esta noite.”
“Esta noite?”, meu coração disparou. “O que vai acontecer esta noite?”
Embora eu soubesse o que estava por vir, eu ainda tentava dizer a mim mesma que talvez fosse apenas um pesadelo e que, ao acordar, tudo desapareceria.
Mas não, não era. Essa seria minha realidade. Um pesadelo vivo.
O sorriso de Milena era perverso, mas seus olhos... seus olhos estavam vazios. “Esta noite, querida, seu marido vem reivindicar o que é dele.”
As palavras atingiram-me como um golpe no peito. “Não... eu...”


