The Neighbor
POV de Rhea
—
Quatro da manhã é uma hora maldita.
O mundo está silencioso, as ruas estão vazias e até a lua parece estar me julgando.
O que é justo, honestamente.
Porque estou parada do lado de fora da minha confeitaria novinha em folha como uma ex-namorada psicopata, com a testa colada no vidro frio, soltando bafo na vitrine como se o prédio pudesse respirar de volta.
Tem farinha na minha bochecha. Provavelmente no meu cabelo. Definitivamente em lugares onde farinha não deveria estar.
Pareço o fantasma de um sonho fracassado.
E eu me recuso a ser.
A placa acima da porta quase não aparece no escuro, mas sei que está lá. Consigo vê-la mesmo de olhos fechados.
RHEA’S.
Simples. Limpo. Um pouco ousado demais, se você perguntar ao meu irmão.
Dalton acha que "ousado" é um palavrão. Tipo tatuagens, batom vermelho ou orgasmos.
Mas, pensando bem, ele ainda acha que sou uma criancinha.
Não ajuda o fato de termos dez anos de diferença.
Engulo em seco, olhando através do vidro para a escuridão da minha loja. As mesas estão lá. O balcão. A vitrine polida esperando para ser preenchida.
Está tudo pronto.
Exceto pela parte em que as pessoas realmente entram.
Exceto pela parte em que eu ganho dinheiro.
Exceto pela parte em que eu não arruíno completamente a minha vida.
Pressiono a palma da mão na porta como se estivesse sentindo seu pulso.
“Por favor”, sussurro.
Minha voz soa alta demais no silêncio.
Como se o universo estivesse ouvindo.
O que é um pensamento aterrorizante, porque não sei se o universo gosta de mim. Ele me deu sinais bem contraditórios até agora.
Tipo pais que me apoiam.
E um irmão que me ama.
E melhores amigos que enterrariam um corpo por mim sem fazer perguntas.
Mas também…
Dívidas.
Um aluguel que mal consigo pagar.
Uma cidade cheia de pessoas que não sabem o meu nome.
E um sonho que parece pesar mais do que todo o meu corpo.
Inclino-me para mais perto do vidro, com os lábios quase tocando nele.
“Estou falando sério”, murmuro, como se estivesse conversando com uma pessoa. Como se estivesse falando com Deus. “Você tem que funcionar.”
Meu bafo embaça a vitrine novamente.
Por um segundo, vejo meu reflexo, borrado e pálido. Meu cabelo está em um coque bagunçado, meu moletom está coberto de farinha e algo grudento, e meus olhos estão arregalados como se eu tivesse acabado de cometer um crime.
O que, tecnicamente, eu fiz.
Roubei tudo o que tinha e coloquei neste lugar.
Cada centavo. Cada hora. Cada pedaço da minha sanidade.
Porque este é o único sonho que me restou.
Não que eu seja dramática ou coisa do tipo.
Pressiono a testa contra o vidro, deixando o frio arder um pouco. Ajuda. Mantém-me acordada.
Lembra-me que isto é real.
Que eu consegui.
Que estou parada aqui, no escuro, com as mãos tremendo, porque finalmente consegui o que queria.
Eu queria tanto que achei que pareceria fogos de artifício.
Em vez disso, parece uma faca nas minhas costelas.
Solto o ar lentamente.
Lá dentro, a confeitaria não passa de sombra e promessa. O contorno tênue dos meus fornos repousa no fundo como feras adormecidas. Aço inoxidável, dinheiro e risco.
Praticamente já consigo cheirar o amanhã.
Manteiga. Baunilha. Açúcar derretendo em algo pecaminoso.
Fecho os olhos.
Imagino o sino sobre a porta tocando. O som de risadas. Clientes apontando para a vitrine com sorrisinhos gananciosos. Crianças com glacê na boca. Casais dividindo mordidas de sobremesa como se fosse preliminar.
Imagino minhas mãos se movendo rápido, confiantes, criando coisas que não deveriam existir, mas que existem mesmo assim.
Como cupcakes de expresso com lavanda desenhados como uma galáxia.
Como croissants de caramelo com alecrim em formato de animais.
Como os macarons de chocolate amargo com pimenta que vou fingir que não são uma coisa sexy.
Abro os olhos novamente e encaro o vazio.
“Não me deixe fracassar”, sussurro.
Minha garganta aperta.
Porque fracassar não é apenas embaraçoso.
Fracassar significa ter que rastejar de volta para a casa dos meus pais com o rabo entre as pernas, fingindo que não jurei que conseguiria sozinha.
Se isso acontecer… não sei o que vou fazer.
Porque não tenho outro sonho na manga. Não tenho um Plano B.
Eu tenho isto.
E tenho a mim mesma.
O que é, francamente, uma combinação aterrorizante.
Um carro passa pela rua, os faróis deslizando pelo vidro como um holofote. Por um segundo fico iluminada, totalmente exposta, pega no flagra sendo patética.
Depois ele vai embora.
E volto a ficar só eu.
Eu, o escuro e o prédio que possui toda a minha alma.
Endireito-me, limpando a bochecha.
A farinha borra ainda mais.
Perfeito.
Meu celular vibra no bolso.
Nem preciso olhar para saber quem é.
Porque só existe uma pessoa acordada às quatro da manhã além de mim.
Lila.
Pego o aparelho.
LILA: É melhor você não estar fora dessa confeitaria de novo como uma criança vitoriana assombrada.
Meus lábios tremem.
Respondo com o polegar.
EU: Não estou assombrada. Estou motivada.
LILA: Pessoas motivadas dormem.
EU: Pessoas de sucesso não.
LILA: Pessoas de sucesso também não são presas por vadiagem.
Dou uma fungada baixinha, o som seco no silêncio.
Ela tem razão. Provavelmente pareço alguém prestes a invadir o local.
Tecnicamente tenho as chaves, mas estranhos não sabem disso.
Olho para a rua novamente, depois volto a olhar para a porta.
Meus dedos se enrolam em torno do chaveiro no bolso como se fosse um amuleto.
O metal crava na palma da minha mão.
Isso é meu.
Este lugar.
Este sonho.
Amanhã, as portas abrem.
Amanhã, me torno a garota que conseguiu.
Ou a garota que tentou e foi engolida por inteiro.
Pressiono minha mão no vidro uma última vez.
“Apenas… por favor”, sussurro novamente.
Então me afasto.
Viro.
E começo a caminhar para o meu carro.
O ar está frio o suficiente para doer. Meu hálito sai em nuvens pálidas.
Estou na metade do caminho até a calçada quando o poste de luz pisca.
Uma vez.
Duas vezes.
E então estabiliza.
Eu travo.
Não porque tenho medo do escuro. Não tenho. O escuro não me incomoda.
É o que o escuro esconde que faz meu estômago apertar.
Olho de relance para a confeitaria antes de meus olhos varrerem o outro lado da rua.
E é aí que eu vejo.
Uma figura.
Parada na esquina do prédio oposto, na meia-sombra, com as mãos nos bolsos, como se estivesse lá o tempo todo.
Alto.
Parado.
Observando.
Meu coração bate contra as costelas com tanta força que juro que consigo ouvir.
“Que porra é essa?”, murmuro baixinho.
O poste de luz pisca de novo. E não volta a acender.



