Capítulo 1
VALENTINA.
— Você ocupará o lugar de Isabella, Valentina. Não há outra escolha.
As palavras da minha mãe ecoavam na minha mente enquanto eu estava diante dos portões da Propriedade Nevarro. O mundo que eu conhecia desmoronava sob meus pés.
Os portões rangeram ao abrir, e um calafrio percorreu minha espinha.
— Sua irmã se foi. Desapareceu sem deixar rastros. Aquela miserável ainda levou todo o dinheiro que tínhamos.
A propriedade era tão grandiosa e imponente quanto eu imaginava. Era um testemunho da riqueza e do poder da família Nevarro.
Aquilo era uma fortaleza, e eu era sua mais nova prisioneira.
— Case-se com Matteo Nevarro. Dê a ele herdeiros, e nada de ruim acontecerá com você.
Eu nunca tinha estado lá, nem mesmo quando meu pai precisou vir por causa de seus pequenos negócios com o antigo Don.
Minha mãe sempre me manteve afastada, insistindo que não era necessário que ele soubesse que tinha duas filhas.
Era Isabella quem estava prometida a Matteo Nevarro, não eu.
Nunca eu.
Mas com o sumiço de Isabella, eu tive que assumir o seu lugar.
Ninguém apareceu nos portões para me ajudar com as malas. Tive que arrastá-las pela longa entrada, com o peso puxando meus braços.
Estavam cheias de livros e dos meus pincéis favoritos, resquícios da vida que deixei para trás.
— Não me admira que Isabella tenha fugido. O cara deve ser um babaca — murmurei baixinho, soltando um palavrão quando ninguém daquela propriedade imensa veio me ajudar. Não que eu esperasse qualquer ajuda de um lugar tão frio e indiferente quanto aquele.
As portas da propriedade se abriram com um rangido, e lá estava ele.
Matteo Nevarro.
Exatamente como eu vira nas fotografias, e ainda mais.
Muito mais.
Com cabelos tão escuros quanto o céu noturno e olhos de um azul marcante — a cor de mares tempestuosos —, ele parecia ter saído direto de uma revista.
— Senhorita Russo — disse ele, com a voz suave como veludo. — Ou devo dizer, Sra. Nevarro?
Suas palavras foram como um tapa, a confirmação da nova identidade que me foi imposta.
— Valentina Nevarro — respondi, com a voz trêmula, apesar dos meus esforços para mantê-la firme.
— Entre.
Ele não esperou por uma resposta antes de virar as costas e desaparecer na mansão.
Deveria segui-lo?
Aquela era minha oportunidade de fugir e ser livre.
— E sua mãe estaria morta ao amanhecer — sussurrou uma voz na minha mente, traiçoeira e implacável.
Então, eu entrei.
O interior da mansão era tão frio e intimidador quanto o exterior. Tetos altos, pisos de mármore escuro estendiam-se sob meus pés, e as paredes eram forradas com artes caríssimas.
Um lugar desprovido de qualquer emoção.
Matteo me guiou por um labirinto de corredores até chegarmos a uma sala grande e mal iluminada. Um fogo crepitava na lareira, lançando sombras profundas nas paredes.
— Pode sentar — ele gesticulou para a cadeira perto de mim.
Obedeci, afundando nela sem pensar duas vezes.
— Você sabe por que está aqui — disse ele, finalmente quebrando o silêncio.
Engoli em seco e balancei a cabeça. — Sim.
Aquele era o homem com quem eu estava casada. Alguém tão frio quanto um bloco de gelo. Eu sabia meu papel em sua vida: gerar herdeiros, ser uma esposa dedicada que comparecia a eventos e manter minha boca fechada.
Eu não passava de um peão em um jogo de xadrez.
— Bom — Matteo recostou-se na cadeira. — Sua irmã era uma coisinha complicada. Ela me desafiou de formas que eu não esperava. Eu nunca imaginei que ela fosse...
Fugir.
As palavras eram pesadas, carregadas de raiva e decepção.
Uma onda de raiva borbulhou dentro de mim.
Isabella tinha ido embora, e com ela, a vida de liberdade que eu esperava ter.
— Minha mãe... ela me obrigou a isso — eu disse, sufocada, com a voz fraca até para meus próprios ouvidos.
Os olhos de Matteo se estreitaram levemente, o único sinal de que minhas palavras tiveram algum efeito. — Uma escolha sábia. É imprudente quebrar um contrato com os Nevarro.
Mas os Nevarro podiam quebrar contratos sem que nada acontecesse.
Ele poderia ter me rejeitado.
— Farei o meu melhor para cumprir meu papel — eu disse, as palavras escapando antes que eu pudesse contê-las. — Mas não serei um peão no seu jogo. — Minhas mãos tremiam enquanto eu falava, denunciando o quanto eu estava aterrorizada.
Seus olhos fixaram-se nos meus, as profundezas azuis e tempestuosas mais frias que o oceano ao qual se assemelhavam. Havia um brilho de diversão neles, como se ele gostasse de me ver me contorcer sob o peso do seu olhar.
— Bom. Você tem garra. Mas você me pertence, Valentina, e o que você pensa não importa.
Suas palavras foram como um soco no estômago, um lembrete de que não havia escapatória para mim. Sem saída.
— O que você quer de mim? — perguntei, com a voz quase em um sussurro. — Eu não sou Isabella Russo.
Matteo inclinou-se para frente, seus olhos fixos nos meus com uma intensidade que me tirou o fôlego. — Quero sua obediência, sua lealdade... e que Isabella assista enquanto eu te quebro.
O ar me faltou de repente, minha mente atordoada com suas palavras. — Você ama Isabella — eu disse, com a voz trêmula.
Não foi uma pergunta. Foi um fato.
Sua expressão não mudou, mas houve um lampejo em seus olhos — algo sombrio e indecifrável. — O amor é um luxo que não me vem facilmente. Eu me importava com Isabella, mas não a amava.
As lágrimas que eu segurava ardiam, querendo cair, mas eu me recusei a permitir. — Farei o que você pedir — eu disse, com a voz firme, mesmo com o coração batendo forte no peito. — Mas não serei uma segunda Isabella. Nem para você, nem para ninguém.
Os olhos de Matteo escureceram, seu olhar perfurando minha alma. — Você já é a substituta dela, Valentina. Isso conta como uma segunda Isabella.
A tensão no quarto era tão densa que eu mal conseguia respirar.
Não importava o que eu dissesse ou fizesse, Matteo Nevarro sempre me veria apenas como uma substituta, um lugar-tenente para a mulher que ele perdeu. Eu nunca seria uma esposa, nunca seria nada além da sombra da minha irmã.
Matteo levantou-se bruscamente, o movimento quebrando o silêncio pesado. — Você ficará na ala oeste da mansão. Seus aposentos foram preparados e tudo o que precisa está lá.
Eu também me levantei, embora minhas pernas parecessem prontas para ceder. — Isabella deveria ficar em uma ala separada? — perguntei, a pergunta escapando antes que eu pudesse impedi-la.
Eu sabia a resposta antes que as palavras saíssem de seus lábios, mas ouvi-la em voz alta tornou tudo muito mais real.
— Não — respondeu Matteo, virando-se para me encarar mais uma vez. — Isabella ficaria na minha ala.
Meu lugar não era com ele — nem na sua ala, nem na sua vida. Eu não passava de uma ferramenta a ser usada e descartada quando meu propósito fosse cumprido.
Matteo me guiou até a ala oeste, parando diante de uma pesada porta de madeira. Ele a empurrou, revelando o quarto luxuoso lá dentro. — Este será o seu quarto — disse ele, com a voz mais suave agora, quase gentil. — Fique aqui até que os empregados retornem amanhã.
Ele se aproximou, e o espaço entre nós diminuiu. Sua presença era avassaladora, inebriante de um jeito que eu odiava.
Minha respiração falhou, e eu me xinguei pelo calor traiçoeiro que florescia dentro de mim.
— Boa noite — murmurei, com a voz mal passando de um sussurro.
Se ele me ouviu, não deu sinal, apenas virou-se e foi embora sem nem olhar para trás. Fiquei sozinha, cercada pelo luxo frio e sem vida da minha nova prisão.
Caminhei até a janela, afastando as pesadas cortinas para contemplar a luz que desvanecia lá fora.
O jardim abaixo estava em plena floração, uma profusão de cores e vida que parecia um contraste cruel com a escuridão que me cercava.
Isabella estava em algum lugar lá fora. Ela me deixou para o diabo.
— Você desempenhará bem o seu papel, Valentina — Matteo dissera mais cedo, inclinando-se para frente. — Mas não se esqueça, não é apenas a sua vida que está em jogo aqui. Outros pagarão se você falhar.





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