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Ultrapassando o Limite

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Resumo

Ele joga hóquei como se fosse um crime de guerra e ama cada segundo disso. O problema é o árbitro que o observa como se fosse uma prece.

Status
Completo
Capítulos
80
Classificação
5.0 7 avaliações
Classificação Etária
18+

The Agitator - Jace

“Barakat é um MERDA! Barakat é um MERDA!” O coro ecoava pelo Bell Centre como um grito de guerra, vinte mil vozes unidas em seu ódio.

Jace, porra, amava aquilo.

Ele patinou passando pelo banco de Montreal com o taco descansando casualmente sobre os ombros, sorrindo como se tivesse acabado de ouvir uma piada muito boa. E, de certa forma, ouviu — eles estavam perdendo de 4 a 1 com oito minutos faltando para o fim do terceiro período, e o melhor que podiam fazer era gritar o nome dele como se ele fosse a única coisa que importava naquele prédio.

E eles não estavam errados.

“Bela recomposição, Beaumont!” ele gritou por cima do ombro para o capitão de Montreal, que tinha acabado de vê-lo passar voando pela terceira vez naquela noite. “Sua cobertura na zona defensiva parece uma porra de um bazar de usados!”

O maxilar de Beaumont travou tão forte que Jace quase conseguiu ouvir seus dentes rangendo a cinco metros de distância.

Perfeito.

Isso era o melhor. Era por isso que ele vivia — não apenas pela vitória, embora isso ajudasse. Era pela parte de entrar na mente deles. O jeito como homens adultos ganhando milhões de dólares perdiam a compostura porque algum bastardo arrogante de pele morena e mãos melhores não calava a porra da boca.

O juiz soltou o disco para o faceoff.

Jace ganhou de forma limpa — claro que ganhou — e então, só porque podia, bateu a lâmina do taco contra as caneleiras do central de Montreal enquanto patinava ao lado dele. Leve. Brincalhão. Apenas o suficiente para ser pra caralho irritante.

“Qual é, Klarsson, acompanha aí! Eu sei que você está cansado, mas Jesus—”

“Vai se foder, Barakat.”

“Esse é o espírito!” Jace respondeu, já virando em direção à zona ofensiva.

Vinte e seis anos. Melhor temporada da carreira. Quarenta e três gols e contando. A cara da franquia, quer a velha guarda gostasse ou não. “Artilheiro geracional” quando a mídia se sentia poética, “pedaço de merda arrogante” quando eles eram honestos.

Ambas as descrições estavam corretas.

Vicente Martinez encontrou o olhar dele vindo do círculo esquerdo, e Jace enfiou um passe por entre dois defensores que não tinha a menor condição de passar. Preciso. Cirúrgico. Vicente mandou para o fundo da rede no canto da luva, e a buzina do gol soou como uma marcha fúnebre para as esperanças de playoff de Montreal.

5 a 1 para o Nashville Reapers.

A música começou a tocar — algum rock genérico de arena feito para animar uma torcida que não tinha mais nada pelo que torcer — e Jace fez o que sempre fazia quando estava se divertindo tanto.

Ele dançou.

Não apenas uma dança. Uma produção completa. Ele patinou direto para o centro do gelo, fez uma reverência exagerada — braços abertos, cabeça baixa como se estivesse aceitando uma porra de um Oscar — e então voltou a ficar de pé e mandou beijos para os quatro cantos do rinque.

Bem na frente do banco de Montreal.

Onde cada jogador podia vê-lo.

Onde as câmeras iriam captar tudo.

Onde os programas esportivos de amanhã passariam tudo em loop com comentários sobre “espírito esportivo” e “respeito pelo jogo”.

“Barakat, seu filho da puta—”

“Merci, Montreal!” Jace chamou em seu francês terrível de ensino médio, com a mão no coração como se estivesse genuinamente comovido. “Vocês foram uma plateia maravilhosa!”

Alguém no banco bateu um taco contra a proteção de acrílico com tanta força que ecoou. Outro alguém estava gritando, provavelmente com o treinador, provavelmente sobre por que ninguém tinha jogado Jace contra o vidro ainda.

Eles tentaram. Duas vezes no segundo período, uma vez no primeiro. Ele era rápido demais, escorregadio demais, e quando tentavam o contato, ele já tinha ido embora, com o disco no taco ou já tendo passado, deixando-os tropeçar um no outro como crianças na primeira aula de patinação.

“Você vai acabar sendo assassinado um dia desses”, disse Vicente enquanto se reagrupavam no banco, ambos ofegantes, mas sorrindo.

“Eles precisam me pegar primeiro.” Jace pegou a garrafa de água, esguichou um pouco na boca e um pouco sobre a cabeça. O gelado era bom. Tudo parecia bom. Suas pernas vibravam com aquele cansaço perfeito que significava que ele tinha trabalhado, mas sem esvaziar o tanque. Suas mãos estavam em dia, cada passe nítido, cada chute exatamente onde ele queria.

Ele estava na zona. O lugar onde o hóquei deixava de ser um trabalho e se tornava algo próximo de uma religião, onde seu corpo sabia o que fazer antes que seu cérebro processasse, onde ele podia sentir a jogada se desenvolvendo três passos à frente como ler um livro que ele já tinha memorizado.

“Continue provocando assim e eles vão te marcar no próximo jogo”, disse o técnico Barnes quando Jace saiu do gelo.

“Bom. Significa que eles não estão focados em marcar pontos.” Ele piscou e sentou no banco.

Barnes balançou a cabeça, mas não discutiu. Não podia discutir. As estatísticas de Jace eram impecáveis, seu jogo defensivo era sólido, apesar do que as pessoas queriam acreditar, e mais importante: ele produzia. Você não manda um cavalo de corrida parar de correr rápido só porque isso faz os outros cavalos se sentirem mal.

No gelo, Montreal tirou o goleiro. Hora do desespero. Última tentativa de salvar algo de um jogo que já estava decidido desde o segundo período, quando Jace marcou seu segundo da noite em uma jogada que fez o defensor parecer estar patinando no concreto.

No gelo, Montreal tirou o goleiro. Hora do desespero.

Jace observou, calculando.

Ele tocou no ombro de Barnes. “Me coloca lá.”

Barnes levantou uma sobrancelha. “Você já jogou vinte e dois minutos.”

“E eu quero vinte e três.” O sorriso de Jace era afiado. Feral. “Qual é, treinador. Deixa eu girar a faca.”

Barnes balançou a cabeça, mas não conseguiu esconder o sorriso. “Sessenta segundos. Não morra.”

Jace pulou o banco de reservas.

A torcida ainda estava gritando. Ainda vaiando. Ainda gritando o nome dele como um palavrão, como se, se falassem vezes o suficiente, ele fosse desaparecer ou explodir espontaneamente.

Ele os amava por isso.

No ano passado, aquele prédio o viu levantar a Copa. Viu ele fazer chover fogo sobre o time favorito deles nos playoffs, jogo após jogo, até que não restasse nada além de cinzas, mágoa e o nome de Jace Barakat gravado na prata.

Este ano, eles viram sua fantasia de vingança ser destruída na temporada regular também.

Algumas cidades guardam rancor. Montreal guardava como se fosse escritura sagrada.

O disco veio até ele trinta segundos depois — um presente dos deuses do hóquei, na verdade — e ele disparou pelo gelo com ele. Sem defensores entre ele e a rede vazia. Apenas gelo livre e oportunidade.

Ele poderia ter marcado da linha azul. Poderia ter sido limpo e profissional.

Em vez disso, ele patinou até a linha do gol.

Girou no meio da passada para encarar o banco dos Canadiens, com o disco ainda no taco.

E então — com vinte mil pessoas gritando, com os jogadores de Montreal ameaçando, com as câmeras focadas — ele empurrou o disco para trás para dentro da rede sem nem olhar.

Sem olhar, por entre as pernas, desrespeitoso pra caralho.

6 a 1.

O prédio explodiu.

Fúria pura e não filtrada de hóquei.

Jace levantou os dois braços como se tivesse acabado de ganhar a Stanley Cup, patinando de costas para longe da rede, absorvendo tudo — as vaias, o ódio, a bela sinfonia de fúria.

Beaumont saiu do banco agora, patinando direto em direção a ele, com o rosto como uma nuvem carregada.

“Seu arrogante filho da—”

“Algum problema, capitão?” O sorriso de Jace era puro dente. “Porque pareceu que você queria que eu marcasse ali. Sua defesa basicamente me deu uma escolta.”

“Eu vou—”

“Vai o quê?” Jace patinou mais perto, entrando no espaço dele, olhos brilhando com energia maníaca. “Marcar contra nós? Porque, cara, eu tenho novidades—”

Beaumont deu um empurrão nele.

Não forte. Não uma briga de verdade. Apenas um empurrão com as duas mãos no peito que dizia afasta a porra da boca antes que eu te force.

Jace riu. Riu. “Foi o que eu pensei.”

O juiz de linha entrou entre eles antes que a coisa escalasse, mas o estrago estava feito.

O banco de Montreal estava gritando. A torcida estava gritando. Em algum lugar, uma garrafa de água voou para dentro do gelo.

E Jace Barakat patinou de volta para seu banco como um rei voltando de uma conquista, sorrindo tão abertamente que seu rosto doía. Ele tinha três gols, duas assistências e uma sequência de provocações que rodariam o Twitter de hóquei durante a próxima semana.

No túnel, ele ainda estava vibrando. Energia estalando sob sua pele como eletricidade sem lugar para aterrar. A vitória foi boa — vencer sempre era bom — mas era mais do que isso. Era a performance. O domínio. O jeito como ele controlou o jogo como um maestro com uma batuta, ditando o ritmo, criando o caos, fazendo vinte mil pessoas focarem nele e apenas nele.

“Foda, J”, disse Vicente, jogando suas luvas no banco. “Você foi surreal hoje.”

“Eu sei.” Não era arrogância. Era apenas um fato.

Ele tirou o equipamento peça por peça, metódico apesar da adrenalina que ainda cantava em suas veias. Ombreiras. Cotoveleiras. Jersey pesada de suor e vitória. Seu corpo vibrava com energia restante, o tipo que vinha de um jogo como aquele — controle total, domínio total, diversão total.

Seu telefone já estava iluminando. Mensagens acumulando como sempre. Destaques marcados. Repórteres querendo frases sobre a dança, sobre o gol final, sobre se ele achava que Montreal merecia mais respeito.

Ele passou direto pela maioria. Parou em uma de sua mãe: Muito impressionante, habibi. Além disso, você vai me dar um ataque cardíaco um dia desses. Me liga.

Ele sorriu. Respondeu com um emoji de coração e a promessa de ligar amanhã.

Alguém contou uma piada atrás dele — Martinez imitando a cara de fúria de Beaumont — e a sala explodiu. Jace riu, genuíno e alto, porque sim, eles tinham ganhado aquilo. Seis a um no Bell Centre. Fora de casa. Contra um time que os odiava especificamente porque eles eram bons daquele jeito.

Mas mesmo enquanto ria, mesmo enquanto tomava banho, se vestia e embarcava no avião para casa, aquela energia não desaparecia. Ela zumbia. Vibrava. Exigia uma saída.

Essa era a coisa sobre noites como aquela, o barato não acabava quando o jogo terminava. Ele permanecia. Se arrastava sob sua pele e se aninhava lá, deixando-o inquieto, fazendo-o desejar.

No momento em que pousaram em Nashville, ele já tinha tomado sua decisão.

Não ia para casa assistir aos destaques. Não ia mandar mensagem para seus amigos e rever cada momento. Não ia sentar sozinho em sua casa grande demais e deixar a adrenalina desaparecer em nada.

Ele ia sair.

Alguém que pudesse igualar sua energia. Alguém que não se importasse com os pontos, com a dança ou com as manchetes. Alguém que agarrasse esse barato com ele e montasse nele até ambos colapsarem.

Amanhã, ele faria tudo de novo. Amanhã, ele estaria afiado, focado e pronto para arruinar a noite de outro time.

Hoje à noite?

Hoje à noite, Jace Barakat estava em um pico que precisava de companhia, e ele sabia exatamente onde encontrá-la.

Capítulos
1. The Agitator - Jace
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