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INVOCAÇÃO DO AMÓRIO

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Resumo

Após uma dolorosa desilusão amorosa, Amório Fernandes encontra um livro misterioso chamado Invocation em uma casa abandonada na enigmática Rua das Magnólias. O livro promete realizar os desejos daqueles que foram esquecidos pelo amor, mas cada desejo exige um preço. Movido pela solidão e pela esperança de mudar sua vida, Amório aceita os pactos escondidos nas páginas proibidas. Porém, a cada desejo realizado, forças sobrenaturais são despertadas, arrastando-o para uma rede de segredos, paixões perigosas e escolhas capazes de destruir sua alma. Agora, cercado por pessoas que também foram marcadas pelo poder do Invocation, Amório precisa descobrir se o amor verdadeiro pode sobreviver quando nasce de um pacto com a escuridão.

Status
Completo
Capítulos
15
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

O Ritual da Meia-Noite

"Todo contrato tem duas assinaturas. Uma que você vê. E outra que descobre tarde demais."


O livro tinha trezentas e doze páginas.

Amório leu as primeiras vinte e sete sem parar, sem piscar, sem perceber que as horas passavam. Havia algo no texto que era impossível de definir — não era exatamente uma narrativa, não era um manual, não era uma escritura religiosa. Era tudo isso ao mesmo tempo, e nenhum disso. As frases se encaixavam umas nas outras como engrenagens de um mecanismo que ele não entendia mas que claramente funcionava, porque a cada página ele sentia mais, ouvia mais, via mais.

Às duas da manhã, chegou às instruções.

O capítulo se chamava simplesmente 'O Primeiro Passo'. As instruções eram claras, quase cirúrgicas em sua precisão. Um círculo traçado com sal. Cinco velas de cera preta. Uma gota de sangue do dedo médio da mão esquerda — 'o dedo da promessa', dizia o texto, 'o único que possui veia direta ao coração'. E então as palavras. As palavras que ele não devia pronunciar em voz alta mas que seus lábios formaram antes que o cérebro pudesse intervir.

Valakor, Senhor dos Desejos, Habitante do Espaço Entre Desejos, ouça minha voz.

A chama das velas dobrou horizontalmente — todas ao mesmo tempo, todas na mesma direção, como se curvassem diante de alguém que havia acabado de entrar no cômodo.

A temperatura caiu dez graus em segundos.

E então Amório o viu.

Não viu da forma que se vê uma pessoa — com clareza, com contornos definidos, com a certeza da matéria. Viu da forma que se vê uma lembrança que nunca foi sua: fragmentada, movediça, mais sentida do que percebida. Era uma forma. Alta, tão alta que dobrava o teto com a cabeça, embora o teto estivesse intacto. Escura, mas não com a escuridão da ausência de luz — com a escuridão da presença de algo que a luz não conseguia tocar.

Tinha olhos. Dois pontos de branco frio no centro do que seria um rosto.

— Amório Fernandes — disse a voz, e a voz não veio do ser diante dele, mas de dentro do próprio Amório, como se algo dentro de seu peito tivesse aprendido a falar. — Você veio até mim por amor.

— Vim — Amório disse, e sua própria voz soou estranha, distante, como se viesse de outro quarto.

— O que você deseja?

Havia uma resposta certa para essa pergunta. Uma resposta sábia, cautelosa, de alguém que havia lido histórias suficientes para saber como os contratos desse tipo funcionavam. Amório sabia qual era essa resposta. Mas o peito doía, e Camila havia levado as chaves, e sua mãe havia partido quando ele tinha oito anos, e seu pai nunca aprendera o nome do seu time de futebol favorito.

— Quero ser amado — disse Amório. — Verdadeiramente amado. Quero que alguém me escolha.

A forma pulsou. Os olhos brancos brilharam.

— Isso eu posso dar — disse Valakor, e havia algo na voz que soava como prazer. Não o prazer humano, caloroso e imperfeito. Um prazer mais antigo. O prazer de uma armadilha que fecha. — Mas todo presente tem seu preço.

— Qual é o preço?

— Sua alma. Entregue quando cinco corações estiverem ligados ao seu. Não antes. Não depois. Cinco é o número. Cinco é o acordo.

Amório deveria ter perguntado mais. Deveria ter pedido detalhes, cláusulas, explicações. Deveria ter se levantado e saído correndo.

Em vez disso, pressionou o polegar na página aberta e disse:

— Aceito.

A marca apareceu no mesmo instante — no centro do peito, abaixo do esterno, quente como brasa recém-apagada. Não era visível ainda. Mas estava lá. Como uma semente enterrada em solo que ainda não havia recebido água.

As velas se apagaram.

Amório ficou no escuro por um longo momento, ouvindo apenas sua própria respiração.

Depois se levantou, colocou o livro debaixo do braço, e foi para casa.

Na manhã seguinte, quando acordou, havia uma mensagem no celular. Uma número que ele não conhecia. Uma mulher chamada Helena, que dizia ter encontrado o número dele numa lista de contatos de um evento universitário ao qual ele nem se lembrava de ter ido.

Oi. Sei que isso é estranho. Mas não consigo parar de pensar em você.

Amório sorriu.

A marca em seu peito pulsou uma vez, suave, como um coração satisfeito.

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