Um pouco da história do clube
A cidade de Haven foi fundada e colonizada inicialmente por um homem das montanhas chamado Jacob McCandles. Ele chegou à região no final dos anos 1800 para caçar e armar armadilhas, ao contrário de muitos homens que buscavam ouro.
Não veio numa caravana, mas sim com um cavalo e uma tropa de mulas carregadas com todos os suprimentos que achou que precisaria para se sustentar até se estabelecer. Depois, só queria viver da terra, livre das amarras da “civilização”.
Sua primeira propriedade ficava mais acima na montanha, mas quando a cabana original pegou fogo parcialmente — depois de um raio seguido de um inverno rigoroso — ele acabou descendo para um local mais protegido, onde conseguia sobreviver ao frio intenso.
Sua esposa era uma jovem indígena Chinook que ele “conheceu” por acaso enquanto caçava. Um dia, ouviu um grito. Correu o mais rápido que pôde e, ao chegar ao topo da colina, viu um enorme urso-preto arranhando algo escondido numa pequena caverna, cuja entrada estava bloqueada por um tronco grosso.
O urso pulava em cima do tronco com as patas dianteiras, tentando movê-lo ou esmagá-lo. Jacob ouvia a voz aterrorizada de uma mulher gritando por socorro, mesmo sem entender o que ela dizia.
Ele mirou a espingarda e atirou na nuca do animal, acertando a base do crânio. O urso caiu morto na hora. Jacob desceu correndo a colina e encontrou a jovem viva, mas sangrando muito, com as costas dilaceradas pelas garras do bicho. Não tinha nada para estancar o sangue ou fazer curativos.
Por sorte, ela desmaiou ao vê-lo. Mesmo assim, ele precisou puxá-la pelas pernas para tirá-la da caverna pela abertura estreita. Pegou-a no colo e a carregou de volta para sua cabana de um único cômodo, a mais de um quilômetro e meio de distância. Foram semanas de cuidados até que ela se recuperasse. Quando melhorou, o inverno já tinha chegado, e logo ficaram isolados pela neve.
Desde a primeira vez que viu o rosto dela, algo no peito dele se agitou. Seu instinto protetor aflorou, mas havia algo nela que lhe dizia que seria alguém muito especial em sua vida.
Felizmente, ela ficou inconsciente enquanto ele limpava o ferimento e costurava seu ombro. Pelo que conseguiu deduzir — e pelo cesto virado no chão perto da árvore —, ela devia estar se virando quando o urso a atacou de surpresa. Estava colhendo pinhas bem perto da “caverna”, que na verdade era um buraco formado pela erosão do solo sob duas árvores grandes, na beira de um antigo leito de rio.
Ainda bem que uma árvore enorme havia caído na frente, provavelmente durante a última chuva forte, a julgar pelas raízes expostas. O pequeno desnível deu a ela proteção temporária contra o urso. Se Jacob não tivesse aparecido, o animal acabaria quebrando as raízes das árvores e a arrancaria de lá.
Ela dormiu por dois dias inteiros antes de finalmente acordar. Quando abriu os olhos, ficou apenas olhando para ele, que estava sentado ali perto, trabalhando no couro do mesmo urso que a ferira, esticando-o no varal que havia construído.
Jacob ficou de olho nela o resto do primeiro dia e o dia seguinte inteiro, antes de voltar ao local onde a encontrara para cuidar do couro do urso. Ele o esfolou, tirou as vísceras e viu que parte da carne já estava estragada, mas o resto ainda servia. Deixou as partes podres e as entranhas no chão, esquartejou o animal e levou a carne de volta para a cabana. Pendurou tudo no porão que havia cavado quando chegou à região.
Logo aprendeu que dormir ao relento era uma péssima ideia. Ursos. Lobos. Onças. Mas o que mais o deixava nervoso eram as cobras. Conseguia ver os animais grandes chegando e se defender, mas uma manhã acordou com uma cascavel enorme enrolada no cobertor, em cima de sua perna. Ficou imóvel por mais de três horas, com medo de se mexer, até que ela finalmente rastejou para longe, atrás de um rato.
A mulher dormiu bastante durante a semana seguinte, acordando só para fazer suas necessidades no balde que ele deixava ao lado da cama. Depois, ele o levava para fora, esvaziava, lavava e colocava de volta, caso ela precisasse.
Jacob garantia que ela bebesse bastante água limpa do riacho perto da cabana e a alimentava com uma sopa que levava não só a carne do urso, mas também os legumes que cultivava em sua pequena horta. Precisava manter armadilhas ao redor do canteiro para evitar que coelhos, esquilos e veados comessem tudo. Eles também lhe forneciam refeições fáceis, que não exigiam que fosse muito longe para conseguir.
A primeira nevasca chegou depois de duas semanas que ela estava lá e durou mais de quatro meses. Em certo momento, Jacob teve que cavar para sair pela porta da frente e chegar ao porão para pegar mais comida.
Durante esse tempo, ela foi lhe ensinando algumas palavras em Chinook, e ele, algumas em inglês. Não conseguiam ter uma “conversa” de verdade, mas se faziam entender.
Ele a chamava de “Winter” desde que a encontrara, porque foi no inverno. No começo, não entendia o que ela queria dizer quando apontava para si mesma e falava “Kloshe”. Depois, apontava para ele. Foi então que percebeu que ela tentava dizer seu nome e queria saber o dele. “Jacob”, ele disse. “Jacob McCandles.”
No início, ela teve dificuldade, e quando o chamava, soava mais como “Jê-cup”, mas ele não se importava. Quando a primavera chegou, Kloshe já tinha conquistado seu coração.
E, pelo visto, ele também conquistara o dela, porque, quando a neve derreteu, alguns homens de sua tribo apareceram em suas terras, caçando, e a viram com Jacob. Era o segundo ano dele ali, e a primeira vez que tinha contato com indígenas da região. Quando o levaram como prisioneiro até o acampamento, ele rezou para que fossem amigáveis e não achassem que ele a tinha machucado. Kloshe o protegeu, mostrou aos guerreiros seu ferimento e explicou que Jacob a salvara, matara o urso e cuidara dela até que ficasse boa.
Seu pai não ficou nada feliz no começo, mas quando Jacob lhe ofereceu o couro do urso que matara para salvar sua filha, o homem o abraçou e o recebeu de braços abertos. Jacob finalmente pôde respirar aliviado.
Ficaram impressionados por ele ter matado um urso tão grande sozinho e por o couro não estar cheio de buracos. Armas de fogo eram desconhecidas para eles, então matar um predador daquele tamanho não era algo que um homem sozinho costumava conseguir. Além disso, seu tamanho — 2,23 metros — e o fato de ter salvado Kloshe fizeram com que os guerreiros pensassem duas vezes antes de enfrentá-lo. Com o tempo, Jacob foi aceito na tribo como o homem dela.
Jacob não entendeu direito o que estava acontecendo no começo, mas ficou muito feliz quando percebeu que a cerimônia que fizeram significava que Kloshe agora era sua esposa, pois ela pegou sua mão e o levou para seus aposentos.
Tiveram quatro filhos fortes e saudáveis na cabana de pedra e troncos, que começou com um único cômodo e acabou se transformando numa casa maior, de dois e depois três quartos. A construção resistiu por anos, até ser atingida por um raio e queimar as partes de madeira.
Em vez de reconstruir no mesmo lugar, decidiram descer a montanha e ergueram uma nova casa em terreno plano, onde hoje fica a cidade de Haven. A vida ficou bem mais fácil, já que os invernos não eram tão rigorosos, mas a fundação de pedra da antiga propriedade era tão bem construída que ainda está de pé, mais de 150 anos depois.
A propriedade original deles em Haven tinha 200 acres, mas, com o tempo, partes foram vendidas ou arrendadas pelos herdeiros McCandles restantes, “os meninos McCandles”.
Nunca precisaram de cercas, até que outros homens das montanhas começaram a se instalar na região em busca de ouro, pois ouviram dizer que havia nos rios e riachos da área. Infelizmente, não encontraram quantidades significativas acima do que hoje é a divisa com a Califórnia.
De seus filhos, nasceu um grande clã, mas a maioria dos descendentes foi embora com o tempo, em busca de oportunidades melhores nas cidades. Alguns ramos não tiveram filhos homens, então o sobrenome começou a desaparecer. “Velho Cirus McCandles” era o único que restava e era pai do único filho que ainda morava em Haven em tempo integral, Amos McCandles.
Ripley (Riggs), William (Mack), Asher (Trunk) e Amos trabalharam para a empresa de transporte de toras do pai desde que tiveram idade para dirigir.
Todos os “meninos McCandles” andavam de moto desde a adolescência, mas quando o pai de Apollo, Logger, chegou à cidade em uma Harley enorme, eles se apaixonaram pela moto.
Naquela época, Haven, a pequena cidade onde cresceram, não passava de um alargamento na estrada, no fim da estrada de extração de madeira. Era a “área de estocagem”, onde os lenhadores empilhavam as árvores derrubadas e as preparavam para serem transportadas até a serraria. Era ali que montavam o “acampamento-base” e onde os McCandles instalaram seus galpões e o pátio de caminhões, que mantinham a cidade funcionando e crescendo.
Aos poucos, uma pequena cidade — que não tinha muito além das casas dos moradores — foi surgindo. Havia um mercadinho, um pequeno correio, uma agência bancária e alguns comércios, como a loja de roupas da Millie e o restaurante da tia Nita, só para citar alguns. Mas a cidade crescia a cada ano. Muitas pessoas trabalhavam em casa ou se deslocavam até Portland.
Infelizmente, Haven não oferecia muita “diversão”, e as únicas moradias eram as que os lenhadores construíram para viver durante o “tempo morto” no inverno. Algumas eram casas espaçosas e bem-feitas, mas outras mal passavam de barracos que não duravam muito.
Nenhum dos “meninos McCandles” era de beber muito, e o único bar da cidade era o único lugar onde os homens adultos podiam se reunir. Mas misturar bebida e testosterona era receita para confusão. Cirus McCandles cortou isso pela raiz com todos os filhos! Nenhum deles tinha grana para comprar uma Harley nova logo de cara, então encontraram motos usadas e as reformaram até ficarem ronronando como gatinhas. Logger os ensinou muito!
No começo, eram só um bando de adolescentes crescidos andando de moto e se divertindo nas horas vagas. Beber, brigar e transar com mulheres aleatórias eram seus passatempos favoritos. Acabaram criando um clube, usando um velho celeiro abandonado nos fundos da propriedade dos McCandles como oficina para mexer nas motos.
Com o tempo, reforçaram o segundo andar e construíram “quartos” onde podiam desmaiar quando ficavam bêbados demais para dirigir ou queriam privacidade com as mulheres que apareciam para “dar uma passada”. Mas, no geral, era só um lugar para beber, jogar cartas e falar de garotas. Depois, Logger conheceu Darla, e ela se tornou seu mundo. Não demorou muito para que se casassem e Darla engravidasse.
Então Mack conheceu Krista, e ele descreveu a sensação como ser atropelado por um caminhão, só que sem doer. Para eles, não havia dúvida de que estavam destinados a ficar juntos, então se casaram logo.
Darla deu à luz o filho no meio de uma nevasca enorme que atingiu a costa oeste no início de dezembro e o chamou de Abraham Lee, em homenagem a dois homens que Logger sempre respeitou muito: o presidente Abraham Lincoln e o general Robert E. Lee.
Um ano depois, Mack e Krista descobriram que esperavam um filho.
Naquele mesmo ano, Trunk reencontrou uma garota que conhecia desde criança, mas nunca tinha olhado “daquele jeito” antes. Até que um dia, no mercado, ele foi comprar cerveja e ela estava lá, comprando algo para o jantar da mãe.
Os dois se olharam, e Trunk descreveu a sensação como bater de cara num galho de árvore na altura do peito, correndo no escuro, só que, em vez de doer, foi como se alguém tivesse roubado todo o ar do mercado Delaney.
Anita Brighton tinha 1,75 m, cabelos castanhos claros com mechas loiras por passar tanto tempo no sol, mas foram seus olhos castanhos claros e os lábios carnudos e beijáveis que chamaram a atenção de Asher (Trunk). Eles sorriram um para o outro, e um ano depois estavam casados.
Riggs tinha que admitir que as mulheres eram muito atraentes, mas como já tinham sido reivindicadas por seus irmãos — dois de sangue, um por lealdade como irmão do clube —, ele começou a ficar inquieto depois disso e passou a dirigir caminhões cada vez mais. Por ser o mais velho, o pai dependia muito dele, e Riggs sabia tocar todos os aspectos do negócio de transporte da família, mas odiava a parte administrativa e só queria dirigir. Ficar preso num escritório, olhando para as mesmas quatro paredes todo dia, simplesmente não era para ele.
Ele dizia a todos que era porque tinha se apaixonado pela liberdade da estrada aberta e não admitia para ninguém, mas sentia inveja dos homens que estavam encontrando suas mulheres, enquanto a maioria delas tinha medo do seu tamanho, mesmo Trunk sendo maior em quase tudo. Nunca falava nada porque, apesar de ter todos os irmãos por perto e quase nunca estar sozinho, se sentia solitário.
Mas, por causa do jeito como o “Velho McCandles” tocava as coisas, a maioria das cargas que saíam eram toras ou madeira da serraria, e Riggs fazia viagens longas, mas sempre voltava depois de entregar a carga, geralmente de mãos abanando.
O MC que os rapazes tinham começado ainda não era um clube oficial, mas sim um grupo de caras que se reunia para andar de moto no tempo livre, só que o número de membros não parava de crescer.
Darla tinha o “Pequeno Abe”, e Krista estava grávida. As coisas iam bem para o clube, que crescia, mas o negócio de transportes dos McCandles estava mudando.
Quando os federais apareceram na montanha e avisaram que o “corte raso” não era mais permitido, o “Velho McCandles” soube que teria que mudar a forma de fazer negócios ou vender tudo. Para todos eles, a segunda opção nem era considerada. Não havia árvores suficientes para manter a serraria funcionando, então ela fechou, e isso significou que a transportadora perdeu a renda de movimentar aquelas mercadorias.
Cirus estava ficando velho e sua saúde piorava, então passou a empresa para os filhos. Os “rapazes” se reuniram e foi aí que decidiram construir mais armazéns e se tornar uma empresa de transporte exclusiva.
Depois, Krista deu à luz Mason James McCandles, e Mack ficou nas nuvens. Quando o “Pequeno Abe” estava quase completando 2 anos, Darla engravidou de novo. Logger precisou passar mais tempo com ela, porque além do filho ter só 2 anos, a gravidez não estava fácil dessa vez, e ela teve vários sustos com sangramentos fortes.
O “Pequeno Abe”, como Apollo era chamado na época, passava muito tempo com Mack e Krista, que tinham acabado de ter o primeiro filho, Mason, ou com Nita e Asher (Trunk).
Foi então que Amos conheceu Clara! Ela causou um rebuliço na família, porque insistia que Amos se afastasse da “gangue de motoqueiros”, senão ia romper o noivado.
Clara sofria pressão do pai por estar envolvida com Amos desde o começo e ele a convenceu de que a “gangue” dele fornecia drogas para os moradores da região, as mesmas que a mãe dela usava.
Seis meses antes do casamento, a mãe de Clara morreu de overdose, e isso selou o ódio dela pelo clube. Ela se recusava a acreditar que, além de uma ou duas remessas de maconha para o Canadá no começo do clube, eles não tinham nada a ver com drogas e não sabiam quem estava traficando na região na época.
O que eles ainda faziam, na época, era transportar armas, e Clara tinha problema com isso por causa do perigo que colocava Amos.
Foi durante uma briga feia, certa noite, que Amos descobriu o motivo de ela condenar o clube. Quando Clara admitiu que um prospect tinha contado coisas sobre os “negócios do clube”, tentando seduzi-la para ficar com ele no lugar de Amos. Na verdade, o cara só queria se gabar na cidade de ter roubado uma mulher de um dos “rapazes McCandles”.
O prospect tinha “enfeitado” a história e alegado que a remessa incluía drogas, o que era mentira! Isso causou uma grande briga no relacionamento deles, quase acabando com tudo antes mesmo de começar. Foi aí que ela deu o ultimato: ou ela, ou o clube. Ele tinha que escolher.
Amos ainda não era membro oficial do clube, mas foi falar com Logger e pediu uma reunião com todos, incluindo os prospects, sem contar logo o motivo. Mas, sabendo que Amos não faria esse pedido à toa, Logger concordou e marcou a reunião para aquela mesma noite.
Amos se levantou na frente de todos e explicou o que estava acontecendo, falou do ultimato de Clara e apontou o prospect, um cara mais ou menos da idade dele.
No começo, todos acharam que ia ser só uma briga entre rivais disputando uma mulher, até Amos soltar a bomba: o prospect tinha revelado “negócios do clube” para Clara, em detalhes.
Amos provou que estava dizendo a verdade porque sabia detalhes de uma corrida que o clube tinha feito e que ele não poderia conhecer, já que não era membro. O cara sabia que seu destino estava selado.
Ele foi o primeiro a ter que “correr a gauntlet”, e isso estabeleceu as regras de que os assuntos do clube ficavam restritos ao que eles agora chamam de “Church”, e os prospects não podiam saber de nada antes.
O “rato” foi considerado um perigo para o clube e não sobreviveu à fila de homens que formavam a gauntlet, especialmente os “rapazes McCandles”. Normalmente, Amos não teria participado, mas por causa do que tinha acontecido, foi autorizado a ser o primeiro da fila, e até seus irmãos de sangue ficaram impressionados com o soco que deu, fazendo o prospect tropeçar pelo resto da linha. Logger foi quem deu o golpe final na têmpora do homem.
O título de “rapazes McCandles” era uma piada. Todos eles eram maiores do que a maioria dos homens de Haven, até mesmo entre os madeireiros que trabalhavam para o pai.
Riggs tinha 2,13 metros de altura e era “bem musculoso”. Mack tinha só 2,5 centímetros a menos, com 2,11 metros, e também era “muito musculoso”. Mas era Trunk quem se destacava, com mais massa corporal.
Trunk media 2,21 metros e era absurdamente musculoso. Ele escolheu trabalhar pesado com os madeireiros, mas também dirigia caminhão quando necessário ou quando havia uma entrega para fazer na região. Era um homem de fala mansa, coração de ouro, e era amado por todos, especialmente por sua esposa, Nita.
Amos era o menor dos quatro, mas ainda assim media 2,03 metros, pesava 127 quilos e era bem musculoso, então não era nenhum frangote. Ele tentou de tudo para fazer Clara mudar de ideia sobre o clube, mas ela se manteve firme. Ele teve que escolher: ela ou o clube. Foi uma decisão difícil, mas no fim escolheu ela, explicando o que aquilo significava para ele.
— Clara, eu te amo com cada fibra do meu ser, mas você está matando uma parte de mim que sempre vai te culpar por me impor essa condição. Meus irmãos sempre foram uma parte enorme da minha vida, e sinto que você está me pedindo para deixar de conviver com eles, e eu já te digo agora: nem pense em me pedir isso, porque seria como me matar, porque perdê-los me destruiria.
Você simplesmente não entende o quanto somos próximos, e rezo para nunca me arrepender dessa decisão. Houve muitas brigas e discussões sobre o clube ao longo dos anos, mas nos agarramos ao nosso amor e criamos quatro filhos juntos, dois meninos e duas meninas.
Cerca de um ano depois do casamento de Amos e Clara, a sra. McCandles, mãe dos “rapazes”, faleceu tranquilamente durante o sono. Foi como se alguém tivesse apagado a luz da vida do “Velho McCandles”. A saúde dele já vinha piorando, mas a perda da esposa amada partiu seu coração de tal forma que ele pareceu não se importar mais com nada. Ele ainda viu os filhos colocarem a transportadora para funcionar com mais do que apenas o transporte de toras, e as coisas estavam indo bem, mas morreu pouco tempo depois.
Os “rapazes McCandles” se reuniram e decidiram passar a administração da transportadora para Amos. Os outros continuaram dirigindo pelo menos em meio período, enquanto construíam o clube. Todos tinham ações no negócio, mas deixaram a gestão com ele, e Amos fez a empresa prosperar, com a ajuda dos irmãos.
Riggs vinha fazendo viagens longas havia um tempo, mas voltou para casa no funeral do pai e ficou para garantir que Amos conseguisse tocar as coisas sozinho. Depois, pegou a estrada como caminhoneiro independente.
Depois disso, ele voltava para casa uma ou duas vezes por ano, a menos que já estivesse na região. Às vezes, não conseguia ficar mais do que um ou dois dias, mas em outras ocasiões passava uma semana ou mais, para descansar e se atualizar sobre o que estava acontecendo “em casa”.
Não muito depois da primeira gauntlet, Logger e sua “equipe executiva”, como ficaram conhecidos, se reuniram e estabeleceram as “regras da casa” originais, e todos fizeram um juramento de segui-las.
Então Darla entrou em trabalho de parto prematuro e deu à luz a filha antes do tempo, e todos ficaram muito preocupados. Logger estava desesperado, não só pela bebê, que seria a primeira princesa do clube e a menina dos olhos dele, mas também pela esposa. Principalmente quando, menos de uma semana depois de nascer, a bebê morreu por causa de uma válvula cardíaca que não tinha se formado direito, e Darla entrou em desespero.
Logger não sabia o que fazer, porque Darla se fechou em si mesma e basicamente desistiu de tudo. Precisou ser sedada por um tempo, mas mesmo depois que a mandaram para casa, ela não conseguia funcionar. Logger percebeu que ela mal suportava olhar para Abe, porque ele era um lembrete constante da filha que tanto queria e tinha perdido.
Darla ficava sentada na cadeira de balanço no quarto da filha, olhando pela janela e chorando. Ela se viciou nos analgésicos e, o que Logger não sabia, era que também estava bebendo. Basicamente tinha parado de cuidar do filho, mas como ele precisava trabalhar para sustentar a família e também era o presidente do clube ainda sem nome, contratou babás para ficar com eles enquanto estava no trabalho.
Abe tinha pouco mais de 3 anos quando Logger chegou em casa um dia e o encontrou brincando sozinho na terra, dizendo que estava com fome e todo sujo. Quando Logger e Abe entraram na casa, encontraram Darla morta no sofá. Ela tinha desistido, tomado tudo o que restava no armário de remédios e adormecido para sempre.
Logger ficou perdido por um tempo e, aos poucos, entendeu o que a esposa tinha passado enquanto lutava para não se afundar na bebida. O “Pequeno Abe” agora era o centro do seu mundo, e ele fez de tudo para cuidar do filho sozinho, mas não conseguia trabalhar e ficar em casa ao mesmo tempo, e logo percebeu que não podia deixar Abe sem supervisão.
Depois de alguns sustos, Logger ficou com medo de que Abe pudesse se afastar da casa que tinham construído em Haven antes de ele nascer.
Abe tinha se revelado um mestre da fuga e vivia saindo de casa, porque odiava ficar preso lá dentro. Logger vivia preocupado com ele se perdendo na mata ou, pior, sendo atacado por animais selvagens.
Depois de uma experiência particularmente assustadora, em que Logger achou que Abe estava tirando uma soneca e tentou adiantar algumas coisas em casa, levou o maior susto da vida quando foi ver como ele estava e encontrou o quarto vazio.
Quando ouviu um lobo uivar perto da casa e olhou pela janela, viu o filho de 3 anos procurando o “cachorrinho”, percebeu que precisava de alguém para cuidar de Abe mais do que ele conseguia sozinho. Não dava para cuidar do filho, da casa, da terra e ainda trabalhar para sustentar os dois e montar o MC.
Ele passou mais de dois meses depois do funeral de Darla indo e voltando entre a casa e a sede do clube, tentando ser pai para o filho e líder para o clube que ainda não tinha nome. Pagar babás não só era caro, como algumas não eram nada confiáveis.
Tudo chegou ao limite quando, depois de passar quase o dia inteiro lavando roupa e lutando contra a depressão que a casa lhe causava, ele finalmente decidiu que já bastava. Colocou as roupas dele e de Abe numa mala, pôs o menino na caminhonete e o levou para a sede do clube, que na época era uma antiga casa de fazenda que os caras tinham juntado dinheiro para comprar e chamar de “sede do clube”, mas ainda não tinham decidido o nome. Ficava mais ou menos no meio do caminho entre Haven e Portland.
Ele conversou com Krista e Anita sobre cuidar do filho por um tempo. Não havia dúvida de que, embora Logger fosse a figura paterna dominante na vida de Abe, eram Anita e Krista que faziam o papel de mães. Ele só tinha um monte de tios que ajudaram a criá-lo!
Anita tinha sido uma bênção naquele período. Ela cuidou de Abe mais do que qualquer um, principalmente porque Krista já tinha o próprio filho para criar. Abe tinha 5 anos e Mason acabara de completar 3 quando a dinâmica do clube mudou numa noite. Eles estavam voltando de uma entrega de armas bem lucrativa e pararam num bar para tomar uma bebida no caminho de casa. Acabaram salvando uma mulher que estava apanhando do marido, que tinha bebido demais.
Deram uma lição no sujeito e, quando ela contou que não era a primeira vez que ele fazia aquilo e que queria se livrar dele de vez, levaram-na para casa para buscar os filhos com a babá, que estava muito preocupada desde que o marido a obrigara a ir com ele.
A babá disse a Logger que não era a primeira vez que era chamada de última hora para cuidar das crianças daquele jeito e que, toda vez que ia ver como ela e os pequenos estavam no dia seguinte, a amiga aparecia cheia de hematomas e as crianças "assustadas".
A mulher ajudou a arrumar as malas das crianças, pegaram o que precisavam e a levaram de volta para a família em Dakota do Sul.
Eles podiam se sustentar como um clube 1%, mas isso não durou muito depois daquele incidente. Fizeram alguns negócios grandes que os levaram até o Canadá e o Alasca, mas, depois disso, só restaram pequenas remessas de armas e um pouco de maconha, apenas para pagar as contas enquanto trabalhavam duro para estabelecer outras fontes de renda.
Tiveram alguns confrontos com clubes fora da lei locais que tentaram se instalar em Haven, mas foram expulsos sem ajuda da polícia, que na época contava com apenas quatro homens revezando turnos para cobrir os cerca de 500 moradores da cidade.
Aos poucos, Logger e os McCandles formaram o MC, e jovens — que era o que todos eram na época — começaram a se juntar a eles. Mesmo sem terem um nome oficial ainda, o clube cresceu rápido, e eles se mantinham principalmente com o tráfico de armas enquanto construíam a atual sede do clube em um terreno comprado em grupo. Riggs estava em casa nos primeiros dias da obra e ajudou a colocar os primeiros troncos gigantes no lugar.
No começo, não pretendiam que fosse mais do que um MC, mas certa noite, num bar nos arredores de Portland, ouviram uns caras falando em vender mulheres como escravas sexuais na mesa ao lado.
Logger, Mack, Riggs (que estava em casa na época), Trunk, Jokes e Wheeler, o comitê executivo do clube naquele tempo, acharam aquilo nojento e, depois de uma reunião, todos concordaram em limpar a área de gangues de motoqueiros fora da lei que aterrorizavam pequenos negócios e moradores nos arredores de Portland e em cidades como Haven.
Quando descobriram que uma pequena fazenda tinha sido tomada e transformada em um "ponto de passagem" para tráfico humano, invadiram atirando e acabaram não só com a operação, mas com todos os homens que estavam lá.
No começo, acharam que suas ações tinham matado algumas mulheres e até um jovem que eram vítimas. Depois, descobriram que não foram suas balas que os mataram, mas os Vipers, para evitar que testemunhassem contra eles.
Uma mulher que conseguiram salvar contou que os captores já tinham estuprado ou torturado as vítimas até a morte e que, quando o AAMC atacou, os Vipers viraram as armas contra elas e começaram a atirar.
Depois daquele primeiro ataque, a notícia começou a se espalhar, e eles passaram a receber pedidos de ajuda, principalmente de donos ou funcionários de bares quando algo saía do controle em seus estabelecimentos e não queriam chamar a polícia para não atrair atenção.
Não demorou para que os pedidos chegassem também das áreas mais pobres da cidade, principalmente de mulheres que sentiam que a polícia não fazia nada para ajudá-las de verdade e estavam cansadas de apanhar de maridos ou namorados que se recusavam a deixá-las em paz. Eles sempre as ajudavam, mas o foco principal sempre foi e continuou sendo resgatar pessoas em necessidade e acabar com o tráfico humano.
Foi então que surgiu o nome do clube: "The Avenging Angels MC". Eles fizeram da missão ajudar quem estava sendo negligenciado, abusado ou molestados, tirando-os das mãos dos agressores.
Por muito tempo, entregavam os "criminosos" para a polícia, mas depois de ver "reincidentes" saindo com um tapinha nas costas, seja porque pagaram fiança ou porque algum advogado esperto conseguiu anular as acusações, só para voltarem a perseguir as vítimas — seja para intimidá-las e impedi-las de testemunhar ou apenas pelo prazer de machucá-las —, o AAMC passou a intervir e "resolver o problema".
Depois de ver isso acontecer repetidas vezes, começaram a lidar com as coisas do próprio jeito, dando "ajustes de atitude" e "avisos" de que, se não deixassem as mulheres em paz, o AAMC voltaria. Na verdade, foi uma das vítimas que deu a Logger e aos outros a ideia para o nome do clube quando os chamou de "anjos" que tinham "vingado" e a libertado de um homem que a perseguia e espancava. Ela abraçou cada um deles e, pouco depois, deixou a cidade para voltar para a família no Alabama.
Certa noite, estavam passeando pela cidade quando uma mulher correu para o meio da rua na frente das motos, acenando desesperada. Ela caiu de joelhos e implorou por ajuda. As roupas estavam rasgadas, e era óbvio que tinha apanhado feio. Ela apontava e dizia: "Ele está atrás dos meus filhos! Por favor, me ajudem! Ele é louco."
— Onde? — Trunk perguntou, e ela apontou para uma casa a duas portas dali. Nesse momento, ouviram uma menina gritar, e Trunk saiu correndo, deixando a moto no meio da rua. Ele nem diminuiu a velocidade ao arrombar a porta da frente com o ombro. A madeira se estilhaçou quando ele entrou, e então parou por um segundo. Havia um homem em cima de uma criança no chão, o traseiro subindo e descendo como um pistão. O sujeito nem desacelerou quando Trunk arrombou a porta, continuou como se nem tivesse ouvido.
No canto, havia uma menina mais velha, mas não muito, encolhida, chorando e escondendo o rosto. Dava para ver pelo sangue nas pernas e na virilha que ele já a tinha estuprado.
Trunk agarrou o homem pelo pescoço e o arrancou de cima da garotinha, que não devia ter mais de 6 ou 7 anos. Ela estava inconsciente e sangrando muito.
O desgraçado estava tão drogado que nem percebeu que ia morrer. Só se debatia com Trunk, gritando: — Me solta e espera a sua vez! Ainda não terminei.
— Ah, terminou sim! — Trunk rosnou e deu um soco com toda a força na têmpora do homem.
Logger chamou uma ambulância, o que significava que a polícia apareceria. Por sorte, o policial que chegou ajudou a encobrir o "desaparecimento" do sujeito. Descobriram que ele tinha invadido a casa enquanto a mãe e as filhas assistiam a um filme na TV. As duas meninas viram o homem batendo na mãe, mas eram novas demais para entender que ele poderia ir atrás delas, então se esconderam em vez de fugir. Quando terminou com a mãe, ele a nocauteou e saiu "caçando". A mais velha tinha só 8 anos, e a irmã, 6.
A mãe acordou e correu para fora de casa, sabendo que precisava de ajuda, mas nenhum dos vizinhos sequer abriu a porta. Em vez disso, apagaram as luzes da varanda e fingiram não ouvir seus pedidos de socorro para as filhas.
O policial contou que se tratava de um estuprador em série que eles vinham caçando havia meses, que já tinha feito estragos sérios em várias mulheres e crianças, mas essa era a primeira vez com uma vítima tão nova. Foi o primeiro caso em que deram o criminoso de comida para os animais da montanha.
Ao longo dos anos, nasceram crianças no clube, mas só Abe e Mason escolheram ficar. Amos tinha quatro filhos, mas, se Clara tivesse seu jeito, eles nunca teriam nada a ver com o AAMC, pelo menos não diretamente. Trunk e Anita tentaram e tentaram ter filhos, mas não tiveram sorte, e Anita achava que era estéril.
Quando Abe tinha 12 anos, Logger conheceu sua segunda esposa, Rachel, e, embora Abe a respeitasse como esposa do pai e madrasta, eles nunca desenvolveram uma relação "próxima". Para ele, "Tia Nita" era mais como sua mãe.
A primeira sede do clube foi construída com 30 quartos em cada andar, e eram três andares. Depois, acrescentaram o refeitório, a cozinha maior e a sala principal. Mas, como Rachel era esposa de Logger, ela se tornou a primeira rainha do clube e governou bem, estabelecendo as "regras para as mulheres" e ajudando a projetar a sede atual, antes da expansão. Ela comandava as clubwhores com mão de ferro e não hesitava em baixar o martelo se alguma saísse da linha.
Também houve muitas mortes no clube. O primeiro do "staff executivo" a morrer foram os pais de Sarge, "Mack" e Krista McCandles, mortos na maior guerra de gangues que o clube enfrentou, quando Sarge tinha apenas 14 anos.
Também morreram na mesma investida a esposa de Chopper, o cozinheiro do clube, Chloe, Jokes e Wheeler, o SAA e Road Captain do clube, além de vários outros membros de menor patente e muitos prospects. Chopper era membro efetivo havia apenas quatro anos, tendo sido um resgate ele mesmo. Ele e Chloe eram casados havia pouco mais de dois anos quando foi gravemente ferido e ela morreu durante um ataque de gangues rivais à sede do clube.
Nita e Asher "Trunk" McCandles acolheram Sarge e, com o tempo, o adotaram. Um ano depois, Rocky chegou até eles, e ele e Trunk se aproximaram porque Trunk era quem se levantava com ele quando Rocky tinha pesadelos. Menos de um ano depois, Trunk morreu num acidente de caminhão absurdo, e Nita entrou em depressão profunda. Ficou mais de um mês de cama, perdeu muito peso e acabou perdendo o bebê que nem sabia que estava esperando.
Isso aconteceu pouco antes de Doc entrar para o clube, e quando a levaram para o hospital depois que começou a sangrar, já era tarde demais para salvar o bebê. Ela quase desistiu e morreu também.
Mas Tia Nita era guerreira, não desistia fácil. Passou outro mês no hospital, primeiro sofrendo com a depressão profunda em que tinha mergulhado e, depois, se recuperando das perdas — não só do marido, mas do filho que teriam tido. Depois disso, todos os "meninos" do clube se tornaram seus filhos, e ela foi como uma mãe para alguns que nunca tiveram ou que perderam a própria.
Quando voltou para casa, ficaram preocupados com ela subindo escadas, então a colocaram num dos quartos no térreo, e Nita concordou porque sabia que não conseguiria dormir no quarto deles. Não sem Trunk.
Quando se recuperou fisicamente, mas sem o marido amado, Nita decidiu que não podia mais morar na sede do clube. Arrumou suas coisas e voltou para Haven, para a casa onde cresceu, que herdou quando os pais morreram.
Trunk tinha construído para eles uma casa de três quartos nos arredores de Haven, num terreno que herdou do pai, assim como todos os "Meninos McCandles", além de outras cinco casinhas que planejavam encher com os filhos que queriam ter. Ela decidiu que não podia morar ali também. Depois de ficarem vazias por tanto tempo, resolveu alugá-las para ter uma renda, mas às vezes "empresta" para o AAMC ajudar em resgates. Para não enlouquecer, abriu uma lanchonete, o único lugar da cidade onde se podia sentar para comer um "prato feito". Acabou sendo não só um investimento pessoal gratificante, mas também lucrativo.









And the snakes are there.