1 - Isla
As máscaras de oxigênio caíram antes mesmo que eu entendesse que o avião estava caindo.
Em um segundo, a cabine estava cheia de ar reciclado, conversas baixas e o som metálico de alguém apertando o botão de chamada três fileiras atrás de mim.
No segundo seguinte, copos amarelos balançavam do teto como pequenas flores inúteis.
Uma mulher gritou.
Um homem praguejou.
Uma criança começou a chorar tão alto que o som cortava o barulho dos motores.
Eu tinha embarcado em Minneapolis antes do amanhecer, fiz uma conexão em Miami e disse a mim mesma que aquele voo final para St. Lucia seria a primeira decisão que eu tomava por conta própria em anos.
Sem Daniel.
Sem mapa de assentos de casamento.
Sem minha mãe perguntando se eu tinha certeza de que queria envergonhar todo mundo.
Apenas uma lua de mel sem reembolso, uma quase noiva em fuga e o Caribe esperando do outro lado das nuvens.
Meu estômago subiu até a garganta quando o avião despencou.
Não foi uma descida. Foi uma queda. Aquele tipo de queda que rouba todos os pensamentos da cabeça e deixa apenas um terror primitivo.
Minha mão voou para o apoio de braço. Minhas unhas arranharam o plástico. O livro de bolso no meu colo voou para cima, com as páginas tremulando como um pássaro assustado, antes de bater no teto e desaparecer em algum lugar atrás de mim.
Perto dos meus pés, uma aliança de casamento rolou pelo chão.
Girou uma vez. Duas. Pegou a luz do teto em um brilho claro e ridículo.
Então o avião deu um solavanco de lado, e a aliança desapareceu sob o assento.
Lembro-me de pensar, estupidamente, que alguém ficaria chateado com aquilo.
Alguém chegaria ao paraíso, perceberia que perdeu a aliança e passaria o primeiro dia de férias engatinhando debaixo das poltronas enquanto o cônjuge ria e dizia que estava tudo bem.
Então o avião caiu de novo, com mais força.
Minha cabeça bateu na janela.
Uma claridade branca explodiu diante dos meus olhos.
A mulher ao meu lado agarrou meu pulso com tanta força que a dor subiu pelo meu braço.
"O que está acontecendo?", ela soluçou.
Eu não consegui responder.
Porque os comissários de bordo não estavam mais sorrindo.
Porque o homem no corredor, aquele de ombros largos com uma camisa escura que mal tinha falado durante todo o voo, estava com uma mão apoiada no assento à frente e a outra segurando a máscara de oxigênio, com os olhos fixos à frente em uma concentração que me aterrorizava mais do que os gritos.
Ele não parecia confuso.
Ele parecia um homem contando os segundos.
O avião inclinou.
As bagagens saíram voando dos compartimentos superiores. Uma mala de mão atingiu a cabeça de alguém. Café espirrou pelo corredor. Um notebook quebrou contra o teto e depois ricocheteou em uma fileira de assentos.
O interfone estalou.
Uma voz surgiu, aguda e tensa.
"Apoiem-se! Apoiem-se! Abaixem a cabeça! Fiquem abaixados!"
Meu corpo se moveu antes do meu cérebro. Eu me encolhi, com a máscara pressionada contra o rosto e os braços sobre a cabeça.
A mulher ao meu lado ainda chorava.
"Eu não quero morrer", ela sussurrou.
Eu apertei a mão dela.
Eu não tinha conforto para oferecer. Nada útil. Nada sagrado. Nada corajoso.
Então eu menti.
"Você não vai."
O avião deu um guincho.
O metal rangeu ao nosso redor. Um som terrível de torção. Como se o próprio céu tivesse agarrado a fuselagem com as duas mãos e começado a retorcê-la.
O homem no corredor gritou algo, mas o barulho engoliu tudo.
Uma bolsa passou voando pelo meu rosto.
Alguém rezava.
Alguém chamava pela mãe.
O bico do avião mergulhou.
Meu estômago desapareceu.
A janela ao meu lado se encheu de azul.
Não era o céu. Era água. O oceano surgiu de repente, como se estivesse nos esperando.
O impacto estilhaçou o mundo.
Meu corpo foi arremessado contra o cinto de segurança. Uma dor rasgou minhas costelas. Meu rosto bateu em algo rígido. A cabine explodiu em barulho: metal rasgando, vidro quebrando, gritos se misturando à água.
O frio me atingiu tão violentamente que esqueci meu próprio nome.
O oceano entrou pela janela.
Ele golpeou o avião com uma força impossível, preto-esverdeado e furioso, engolindo assentos, corpos, bagagens e luz.
Minha boca se abriu.
Água salgada a encheu.
Eu não conseguia respirar.
Eu não conseguia me mover.
Meu cinto de segurança me prendia no lugar enquanto a cabine inclinava, enquanto a água subia, enquanto as pessoas se debatiam, chutavam e gritavam ao meu redor.
A máscara tinha sumido.
A mulher ao meu lado tinha sumido.
Não.
Não, ela estava lá.
A mão dela.
A mão dela ainda estava enrolada no meu pulso.
Virei o rosto, lutando contra o cinto, lutando contra a água, e vi o cabelo dela flutuando ao redor do rosto como alga escura. Seus olhos estavam abertos. Arregalados. Aterrorizados.
Bolhas escapavam de sua boca.
Tentei alcançar a fivela.
Meus dedos escorregaram.
Alcancei a fivela novamente e o cinto soltou. A água me puxou para o lado.
Tentei agarrá-la. Peguei o tecido. A manga dela. O braço dela. Qualquer coisa. Então um corpo colidiu comigo por trás e eu a perdi.
Eu perdi tudo.
Eu chutei.
Meus pulmões ardiam.
O corredor não era mais um corredor. Era um túnel de mãos, plástico quebrado e sangue. A luz piscava acima de mim, distorcida pela água e pela fumaça. Meu ombro bateu em um assento. Meu joelho atingiu metal. A dor brilhou intensamente, mas logo sumiu sob o pânico maior e mais frio.
Para cima.
Eu precisava ir para cima.
Eu não sabia onde era "para cima".
Algo agarrou meu cabelo.
Eu gritei, mas o oceano levou o grito também. Então uma mão se prendeu ao meu braço.
Com força.
Uma força dolorosa.
Eu lutei contra aquilo, porque tudo estava me agarrando. O avião. A água. Os mortos. Os vivos. Eu chutei e me contorci, mas a pegada só apertou.
Então outra mão pegou as costas do meu colete salva-vidas e puxou.
Minha cabeça bateu contra a parte de baixo de algo. Um assento? Um painel? Uma asa? Eu não sabia. Eu não me importava.
A mão puxou de novo.
Uma forma escura se moveu à minha frente. O homem do outro lado do corredor. O rosto dele estava cortado. Sangue escorria de sua têmpora e sumia na água em fitas vermelhas. Seus olhos estavam abertos, ferozes, quase irritados.
Ele apontou para cima.
Eu balancei a cabeça, porque havia pessoas ali. Havia pessoas debaixo de nós. Ao nosso lado. Atrás de nós. A mulher. A mão dela. Tentei me virar, mas o braço dele se prendeu ao redor do meu peito e ele me puxou para trás.
Eu me debati contra ele, mas ele não me soltou.
Rompemos a superfície em meio ao fogo, e o ar atingiu meu rosto. Puxei o fôlego e só veio fumaça, sal e gritos.
O mundo estava queimando.
Pedaços do avião flutuavam para todos os lados: almofadas de assento, bagagens, metal retorcido, algo enorme e branco boiando na água. Chamas rastejavam pela superfície onde o combustível manchava o oceano. Uma luz laranja brilhava contra a fumaça negra. Pessoas se debatiam na água. Vozes se erguiam, falhavam e imploravam.
"Socorro!"
"Aqui!"
"Meu filho! Meu filho!"
Tentei nadar em direção a eles.
O braço do homem travou ao meu redor como ferro.
"Não", ele gritou no meu ouvido.
Eu dei uma cotovelada para trás e acertei as costelas dele. Ele gemeu, mas não me soltou.
"Tem pessoas lá!", eu gritei.
"Eu sei."
A resposta dele foi pior do que se ele não tivesse dito nada.
Uma onda nos girou de lado, eu engoli água e comecei a engasgar. Ele me arrastou para uma parte quebrada da asa ou da parede, ou sei lá o quê, um pedaço pontiagudo do avião grande o suficiente para flutuar, mas não grande o suficiente para salvar o mundo.
"Aguente firme", ele ordenou.
Eu me contorci para longe dele.
Uma mulher gritou em algum lugar à minha esquerda.
Eu a vi. Vi um lampejo de camisa vermelha. Braços batendo na água. O rosto desaparecendo sob as ondas.
Eu me lancei.
O homem me pegou de novo.
"Não!"
"Me solta!"
"Você vai morrer."
"Então me deixe morrer!"
O rosto dele mudou. Só por um segundo, no entanto. A raiva se quebrou e algo cru surgiu por baixo dela. Horror. Reconhecimento. Um pesar tão antigo e afiado que parecia outro ferimento.
Então ele me empurrou contra os destroços.
"Aguente firme", ele rosnou. "Ou juro por Deus que vou te amarrar nisso."
Eu bati nele.
Eu não pensei. Não escolhi. Minha mão voou, aberta e furiosa, e estalou no rosto dele. A cabeça dele virou com o impacto.
Por um segundo impossível, nós encaramos um ao outro enquanto o oceano queimava ao nosso redor.
Ele olhou para mim lentamente. Sangue escorria pelo seu maxilar. — Se isso te mantiver viva — disse ele, com a voz rouca —, faça de novo mais tarde.
Então, o destroço sob nós deu um solavanco. Agarrei-me instintivamente.
A água agitou-se.
Uma onda ergueu-se entre nós e o local da queda. Quando ela baixou, a mulher de camisa vermelha havia desaparecido.
— Não — sussurrei.
A fumaça ardia nos meus olhos. Minha garganta parecia estar em carne viva. Meu corpo tremia tão violentamente que meus dentes batiam.
Mais pessoas gritavam. Agora, mais longe. Ou talvez meus ouvidos estivessem falhando. Talvez o oceano tivesse entrado na minha cabeça e abafado o mundo inteiro.
O homem empurrou uma almofada de assento rasgada para debaixo do meu peito.
— Passe seus braços por cima dela — disse ele.
Eu não conseguia fazer meu corpo obedecer.
Ele segurou meus pulsos e forçou-os ao redor da almofada.
— Me escute.
Eu olhei para além dele.
Um homem se agarrava a uma mala flutuante. Ele gritava alguma coisa, mas cada onda o arrastava mais para longe de nós.
— Escute — o estranho disparou.
Eu olhei para ele porque sua voz não me dava outra escolha.
Seus olhos eram cinzentos. Notei isso sem motivo. Cinzentos, com as bordas vermelhas por causa da fumaça e do sal, fixos nos meus como se ele pudesse me manter no meu corpo apenas pela força de vontade.
— Você respira quando eu mando — disse ele. — Mantenha seu peito nisso aqui. Não nade em direção ao fogo. E não solte.
— Minha colega de assento — eu disse, engasgada. — Ela estava... a mão dela...
— Eu sei.
— Você não sabe.
— Eu sei — disse ele novamente, e sua voz falhou apenas o suficiente para me fazer odiá-lo ainda mais.
Outro estrondo rompeu o ar.
O destroço atrás de nós iluminou-se intensamente.
O calor inundou a água. O estranho se jogou sobre mim, pressionando-me contra os escombros enquanto algo explodia. Estilhaços sibilavam no oceano. Algo quente cortou meu braço.
Eu gritei.
Ele deu um solavanco, seu corpo ficando rígido sobre o meu. Então, ele levantou a cabeça. — Precisamos nos mover.
— Não.
— O fogo está se espalhando.
— Ainda há pessoas.
Seu maxilar contraiu-se.
— Não haverá mais ninguém se queimarmos com elas.
Eu olhei para ele.
Como uma pessoa podia dizer aquilo? Como uma boca podia formar essas palavras enquanto pessoas morriam perto o suficiente para ouvirmos?
— Você é um monstro — sussurrei.
Algo passou pelo seu rosto.
Ele aceitou. Apenas aceitou, como se eu tivesse lhe entregado algo que ele já possuía.
— Agüente firme — disse ele.
Então ele começou a nadar. Arrastando-me com ele. Eu lutei contra ele até que minhas forças se esgotaram.
Eu lutei até que meus braços ficaram inúteis e meu peito parecia cheio de facas. Até o fogo ficar mais distante. Até os gritos se tornarem mais fracos. Até a noite se expandir ao nosso redor e o avião se tornar uma ferida em chamas no oceano.
Ele manteve um braço enganchado no destroço e uma mão agarrada na parte de trás do meu colete salva-vidas, mantendo-me presa ao objeto flutuante como se esperasse que eu me jogasse dele.
Ele estava certo. Eu poderia ter feito isso.
O choque vinha em ondas.
Frio.
Calor.
Fumaça.
Sal.
Dor.
O choro de uma criança cortou a escuridão, agudo e aterrorizado.
Levantei a cabeça.
O aperto do estranho se intensificou.
— Não — disse ele.
— Você ouviu isso?
Seu rosto ficou imóvel.
É claro que ele ouviu.
O choro veio novamente, mais fraco.
Tentei me mover, mas ele me segurou.
— Por favor — solucei. — Por favor, tem uma criança.
Sua garganta deu um salto.
Ele virou a cabeça para o som. Por um batimento cardíaco, pensei que ele iria. Pensei que o que quer que vivesse sob todo aquele rígido controle venceria.
Então, uma parede de chamas deslocou-se com a correnteza.
O choro parou.
Emiti um som que nunca tinha ouvido sair de mim.
Não foi um grito nem um soluço. Foi algo arrancado da parte mais profunda de mim.
O estranho recuou como se o som tivesse atingido ele.
— Sinto muito — disse ele.
Eu o odiei por isso também.
Eu o odiei porque seu pedido de desculpas pareceu verdadeiro.
Os minutos tornaram-se algo sem forma.
Talvez horas.
A noite nos pressionava. O oceano rolava abaixo de nós, infinito e faminto. Cada parte de mim doía. Minhas costelas. Meu braço. Minha cabeça. Minha garganta. Meu coração, acima de tudo, embora isso soasse dramático e estúpido quando havia pessoas mortas, quando um avião cheio de vidas estava espalhado pelo oceano como lixo.
O estranho nos manteve em movimento.
Não rápido. Não havia para onde ir. Mas ele direcionou o destroço para longe da mancha de fogo, para longe de detritos que poderiam nos cortar, para longe de corpos que eu me forcei a não olhar porque, se começasse a ver rostos, perderia a pouca sanidade que me restava.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou em certo momento.
Não respondi.
Eu não conseguia.
Ele mudou a posição da sua pegada, verificando a almofada sob mim.
— Ei. Fique comigo.
Eu ri.
Saiu quebrada. — Ficar com você?
— Sim.
— Você me arrastou para longe.
— Eu mantive você fora da água.
— Você me arrastou para longe deles.
Seus olhos permaneceram nos meus.
— Sim.
Nenhuma negação. Nenhuma desculpa. Nenhuma suavização. Isso tornou a raiva mais fácil.
Bom.
Eu precisava de raiva.
O luto era grande demais. O medo era grande demais. A raiva tinha bordas. A raiva dava às minhas mãos algo para se segurar.
— Meu nome é Knox — disse ele.
Fechei os olhos.
— Eu não perguntei.
— Não — disse ele. — Mas, se eu for a última pessoa que você vir esta noite, você deve saber quem assombrar.
Abri os olhos.
Havia sangue no seu cabelo. Um corte na têmpora. Queimaduras ou arranhões ao longo de um braço. Sua camisa escura estava colada ao peito, rasgada no ombro. Ele parecia ter sido esculpido a partir da violência.
Eu queria dizer a ele que o assombraria para sempre.
Em vez disso, meus dentes batiam forte demais para falar.
Seu olhar caiu para a minha boca e depois se desviou, rápido e clínico. Ele não estava olhando para mim como um homem olha para uma mulher. Ele estava olhando para mim como um problema que ele se recusava a deixar o oceano resolver.
— Você está com frio — disse ele.
— Que observador.
Suas sobrancelhas se contraíram. Poderia ter sido o fantasma de um humor. Morreu instantaneamente.
— Precisamos ficar juntos.
— Eu não quero ficar com você.
— Eu não perguntei o que você queria.
— Era para eu estar bebendo algo estúpido com um guarda-chuvinha dentro agora.
Seu rosto mudou novamente. Não muito. Apenas o suficiente. — Metade do avião também.
As palavras atingiram como um tapa.
Recuei.
Então, odiei a mim mesma porque ele estava certo, e odiei ele porque ele tinha dito isso.
A fumaça rastejou pela água atrás dele.
Virei a cabeça.
As partes em chamas do avião haviam se espalhado, cada chama era seu próprio funeral pequeno e flutuante. O destroço principal estava mais longe agora, parcialmente engolido pela escuridão e pela fumaça. O oceano fazia sons suaves e horríveis enquanto passava pelos escombros.
Eu escutava.
Por qualquer coisa.
Um choro.
Um grito.
Um mergulho que significasse que mais alguém ainda estava lutando.
Knox ficou muito imóvel ao meu lado.
Talvez ele também estivesse ouvindo.
Talvez estivesse esperando por um motivo para se odiar ainda mais.
As ondas nos levantavam. Nos derrubavam. Nos levantavam novamente.
O fogo estalava ao longe.
Minha respiração saía em lufadas curtas e úmidas.
— Knox — eu disse, e o nome dele tinha gosto de sal e culpa.
Sua mão apertou os destroços.
— O quê?
Olhei através da água em chamas. O oceano rolava negro sob as chamas.
Nenhuma voz se erguia dele agora.
Nenhuma prece.
Nenhum choro.
Ninguém pedindo ajuda.
Nada além de fogo, água e o terrível silêncio deixado para trás.
— Os gritos — sussurrei.
Knox não respondeu.
Ele não precisava.
Os gritos haviam parado.









Sad 😭