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O Que Sobrou de Mim Ama Você

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Resumo

Clara construiu tudo sozinha. A empresa, o apartamento, a vida que parece perfeita de fora. Mas tem coisas que a gente constrói por fora e vai destruindo por dentro sem perceber. Quando ela conhece Miguel numa viagem, não estava procurando nada. Ele também não prometeu nada. Só emprestou o chinelo na areia e ficou olhando do jeito que ninguém tinha olhado pra ela faz tempo. Não deveria ter virado o que virou. Mas com ele, a Clara que ninguém vê finalmente apareceu. E Miguel ficou mesmo assim. Entre o medo de se machucar de novo e a certeza de que não existe nada mais certo do que eles dois, Clara vai ter que decidir se o que sobrou dela é suficiente pra recomeçar. ⚠️ Destinada a maiores de 18 anos. Aborda temas sensíveis, incluindo relacionamento abusivo, perda gestacional e conteúdo emocional intenso.

Gênero
Romance
Autor
ALBA
Status
Em Andamento
Capítulos
31
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 - Clara e Marcelo

Essa história fala sobre reconstrução, sobre amar com medo e sobre escolher ficar quando ir embora parece mais seguro. Espero que a Clara te faça acreditar que o que sobrou de você também pode ser amado.



— Então, fechado?

Estendo a mão sobre a mesa e o Sr. Henrique a aperta com firmeza, sorrindo.

— Fechado, Clara. Você foi a única que entendeu exatamente o que eu queria. Os outros escritórios trouxeram projetos bonitos — o seu trouxe o que eu precisava.

Minha assistente já está preparando os documentos do outro lado da mesa. Assino primeiro, depois ele. O clique da caneta no contrato é pequeno, mas ressoa dentro de mim de um jeito que eu nunca vou cansar de sentir.

— Pode deixar comigo. — digo, recolhendo a minha via. — Você vai adorar o resultado.

Ele se levanta, aperta a mão da minha equipe um por um, e sai satisfeito

A porta fecha.

E só então permito que o sorriso tome o rosto inteiro.

— Parabéns, Clara. — Mara, minha assistente, fala baixo, como se soubesse que eu precisava de um segundo só pra sentir isso.

— Obrigada. — Olho ao redor da sala de reunião — os projetos espalhados, os modelos em escala, as horas que ficaram aqui dentro. — Obrigada a todos vocês.

A equipe começa a recolher as coisas. Eu olho pro relógio.

Quase oito da noite.

O estômago aperta na mesma hora.

Corro até a minha sala antes de ir embora, mas assim que abro a porta já sinto o ar gélido que vem lá de dentro.

Marcelo.

Ele não está em casa.

Está aqui — e isso não é um bom sinal.

O barulho do meu salto contra o piso de madeira escuro faz com que ele perceba minha entrada.

Ele vira o rosto endurecido e o olhar cai em mim. Sentado na minha cadeira, permanece assim conforme eu entro.

— Boa noite, Marcelo.

Continuo guardando as coisas, desligando os eletrônicos. Ele fica sentado, calado.

— Isso é hora de você ainda estar aqui?

Reviro os olhos.

Estou cansada dessas conversas.

— Estou trabalhando, Marcelo. Tem clientes que não conseguem vir no horário comercial. Não estou em posição de dizer não.

Ele solta uma risada cruel.

— Você pode dizer não pra quem quiser. Você é casada comigo. Não precisa dessa merda.

— Não chama aqui de merda. É o meu trabalho — eu gosto de estar aqui.

Ele bate a mão na mesa, me fazendo ficar imóvel.

— Quero você em casa, cuidando da sua família. O meu dinheiro compra esse lugar umas cinco vezes.

— Exatamente, Marcelo. Seu dinheiro. Sua casa. Seu trabalho. Eu também quero o meu espaço.

Ele se levanta e caminha na minha direção.

— O que é meu é seu. Pronto. Isso não é suficiente?

Olho pra baixo, agarrada na minha bolsa.

Não. Não é suficiente. Porque todos os dias eu preciso ouvir que sem você eu não sou nada.

— Chega, Marcelo. Estou cansada. Só quero ir pra casa dormir.

Saio pela porta e segundos depois sinto meu pulso sendo agarrado. Ele me vira de uma vez.

— E eu? Quando você vai ter tempo pra mim? — fala bem perto do meu rosto.

A voz dele entra como uma gilete cortando a pele. Meu corpo fica em alerta, pedindo pra gente se afastar.

— Para, Marcelo. Eu sempre estou em casa. Faço o que você pede — me deixa trabalhar.

— Estou deixando, não estou? Estou sendo — ele faz um estalo com a boca. — Compreensível. Mas e você?

— Eu o quê? Me solta! Você tá me machucando.

— Ainda não estou... mas estou perdendo a paciência.

Ele puxa mais o braço, bruscamente, me fazendo bater contra o próprio corpo dele — muito maior que o meu.

— Estou te deixando muito soltinha. Chega dessa brincadeira. Vou fechar esse lugar.

Começo a me debater tentando me soltar, mas ele não me solta.

— Para! Por favor! Não faz isso. — meus olhos enchem de lágrimas. — Por que você é assim? O que eu fiz pra você?

— Porque a minha mulher anda por aí como se fosse qualquer uma. E você não é. Você é minha, Clara.

Engulo seco enquanto os olhos dele encontram os meus.

Meu corpo arrepia. Entro em desespero — não consigo controlar minhas emoções nos últimos tempos.

Começo a me debater com mais força e ele me aperta mais.

Dói.

Então chuto, não muito forte, entre as pernas dele. Completamente desesperada.

Ele urra e me solta, me empurrando assustado.

Meu salto pisa no degrau da escada.

Perco o equilíbrio e sinto meu corpo indo em queda livre.

— MARCELO!!!!!

Tento segurar na mão que ele estende pra mim, mas é tarde demais.

Nossos dedos se encontram — mas não o suficiente.

Tarde demais.

Por favor me ajuda.

Meu corpo bate contra os degraus e eu vou rolando, rezando pra que tudo fique bem.

Até que meus olhos vão se fechando.

Lentamente.






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