Prólogo
Christian Belmont
Christian Belmont não se lembrava de aprender a andar de bicicleta, da primeira vez que perdeu um dente ou se alguém tinha aplaudido quando ele levava para casa um boletim decente.
Ele se lembrava do som da caminhonete do pai na entrada da garagem.
Aquele som o criou mais do que qualquer um de seus pais. O rosnado baixo do motor, a tosse e o chocalhar antes de desligar, a porta rangendo ao abrir, as botas pesadas batendo no cascalho, uma após a outra. Aquelas botas tinham uma linguagem própria. Lento significava cansado. Rápido significava irritado. Cambaleante significava bêbado o suficiente para tropeçar, mas não para desmaiar, o que era o pior tipo de bebedeira, porque deixava o pai maldoso e ágil.
Christian aprendeu a ler essa linguagem antes de aprender a escrever em letra cursiva.
Ele ficava sentado à mesa da cozinha com um lápis na mão, encarando números que se recusavam a fazer sentido, e o som daquelas botas percorria seu corpo como água gelada. Sua mãe ficava no sofá da sala, com o corpo encolhido sob um edredom velho, a televisão projetando uma luz azul e branca em seu rosto. Às vezes ela estava acordada. Às vezes estava quase acordada. Na maioria dos dias, ela vivia em algum lugar atrás de seus próprios olhos, atrás dos frasquinhos cor de laranja na mesa de centro, atrás de uma névoa na qual Christian não conseguia entrar.
“Mãe”, ele sussurrava, embora soubesse que não adiantava.
Ela podia piscar. Podia virar a cabeça um centímetro. Podia dizer: “Não começa, Chris”, com uma voz tão fraca que mal contava como estar viva.
Então ele não começava.
Seu pai, sim.
Dale Belmont entrava pela porta como uma tempestade. Não daquelas que as pessoas observam das varandas com uma xícara de café na mão, mas daquelas que arrancam o revestimento das paredes e deixam galhos quebrados pelo quintal. Ele era um homem robusto, de pescoço e ombros largos, com os olhos avermelhados, hálito de cerveja e o desapontamento à espreita em ambos os punhos.
Às vezes, Christian tinha feito algo errado.
Às vezes, ele deixava um prato na pia, trazia lama para dentro de casa, esquecia uma tarefa, respirava alto demais durante um jogo de futebol ou olhava para o pai de uma forma que Dale decidia ser desrespeitosa.
Na maioria das vezes, Christian não tinha feito absolutamente nada.
Essa foi a primeira lição que sua infância lhe ensinou: a dor não precisa de um motivo. As pessoas gostam de motivos depois, porque os motivos fazem a dor parecer organizada. Motivos faziam com que parecesse uma máquina com botões e alavancas, algo que você poderia evitar se pisasse com cuidado suficiente. Mas Christian sabia que não. Ele sabia que a dor podia entrar em um cômodo já irritada e escolher você só porque você estava lá.
Sua mãe nunca o impedia.
Essa foi a segunda lição.
Ela se encolhia quando Dale gritava. Puxava o edredom para cima quando Christian caía no chão. Às vezes, chorava sem fazer barulho, com lágrimas escorrendo para a linha do cabelo, como se até elas estivessem tentando sair silenciosamente. Mas ela nunca se colocava entre eles. Nunca pegava o telefone. Nunca fazia as malas. Nunca dizia: “Chega”.
Para ser justo, Christian cresceu odiando essa frase — para ser justo —, porque os adultos a usavam sempre que queriam embrulhar a covardia em papel de presente. Para ser justo, a mãe dele tinha problemas. Para ser justo, Dale bebia porque perdera o emprego. Para ser justo, Christian era uma criança difícil. Quieto, sombrio, atento. Nada afetuoso. Nada fácil.
As pessoas diziam muito essa última parte.
Christian não era fácil.
Ele tinha oito anos na primeira vez em que entendeu que ser indesejado tinha uma forma. Era uma cadeira vazia no show de Natal da escola. Era uma autorização não assinada por três dias. Era jantar cereal porque a mãe tinha esquecido de fazer compras e o pai tinha gastado o dinheiro em algum lugar barulhento de piso pegajoso. Era estar na enfermaria da escola com o lábio cortado enquanto uma mulher de olhar bondoso lhe perguntava o que tinha acontecido, e Christian sabia, de alguma forma, que a verdade só tornaria as coisas piores.
“Eu caí”, ele disse.
A enfermeira olhou para ele por um longo momento.
Christian olhou de volta.
Mesmo naquela época, ele era bom em transformar seu rosto em uma porta trancada.
Aos onze anos, ele conseguia fritar ovos sem queimá-los. Aos doze, conseguia falsificar a assinatura da mãe bem o suficiente para enganar a secretaria da escola. Aos treze, ele sabia como esconder hematomas sob mangas compridas, como dormir com o sono leve, como manter um ouvido atento à caminhonete do pai, como engolir a raiva até que ela ficasse em seu estômago como uma pedra.
Aos quatorze, ele tinha parado de esperar que alguém notasse.
A esperança, ele decidiu, era apenas mais uma maneira pela qual o mundo enganava as pessoas para que ficassem paradas.
Ele cresceu em altura antes de ganhar corpo. Por um tempo, ele era só cotovelos, pulsos e joelhos, um garoto comprido e com cara de faminto, com ossos demais e nenhuma suavidade em lugar algum. Os professores o chamavam de intenso. Outras crianças o chamavam de esquisito, de quieto, ou, certa vez, de “garoto fazendeiro serial killer”, o que era impreciso por vários motivos.
Christian nunca tinha matado ninguém.
Ele também nunca tinha vivido em uma fazenda.
Ele, porém, encarou o garoto até que ele derrubasse a bandeja de almoço e derramasse leite com chocolate nos próprios sapatos, o que Christian considerou o primeiro milagre satisfatório de sua vida.
Ele não tinha amigos.
Amigos queriam coisas. Eles queriam que você fosse à casa deles, que desse explicações, que risse nos lugares certos, contasse segredos, confiasse que eles não usariam esses segredos mais tarde. Christian não via sentido nisso. A amizade parecia para ele como entregar uma faca a alguém e esperar que a pessoa admire o cabo.
Então, ele permanecia sozinho.
Estar sozinho era limpo. Estar sozinho tinha regras. Estar sozinho não prometia nada.
Então, os dezesseis anos chegaram.
Não chegaram de uma vez. Construíram-se lentamente em seus ombros, em suas costas, nos músculos duros de seus braços por carregar sucata, rachar lenha e levantar coisas que ninguém se dava ao trabalho de ajudá-lo a carregar. Ele passou de um metro e oitenta antes que a primavera tivesse acabado. No verão, suas calças velhas não serviam mais, suas botas apertavam e as pessoas que antes olhavam por cima de sua cabeça começaram a olhar nos seus olhos.
Dale também notou.
Christian viu isso acontecer em uma noite úmida de julho, quando a cozinha cheirava a gordura velha, cerveja barata e algo azedo vindo da lata de lixo. Seu pai chegou tarde, bêbado o suficiente para balançar, irritado o suficiente para procurar um motivo. Christian estava na pia lavando um prato porque a pia estava cheia, porque sua mãe não tinha se levantado o dia todo, porque alguém tinha que fazer aquilo e, aparentemente, Deus tinha tirado o nome de Christian da cartola como uma piada.
Dale estava parado na porta, respirando com dificuldade.
Christian continuou lavando o prato.
“Acha que é bom demais para dar um oi?”, perguntou Dale.
“Não”, respondeu Christian.
O prato era branco com um círculo azul na borda. Havia uma lasca perto da borda. Christian lembrava daquela lasca com uma clareza absurda. Mesmo anos depois, ele conseguia vê-la. Um pequeno lugar quebrado em algo comum.
Dale se aproximou.
Christian secou o prato.
“Olhe para mim quando estiver falando com você.”
Christian olhou.
Pela primeira vez, ele não precisou olhar para cima.
Seu pai viu. A mudança. A altura. A largura começando a se assentar sobre o peito de Christian. O garoto se tornando algo menos conveniente de se machucar.
O rosto de Dale se contorceu.
Talvez ele tenha tentado bater porque estava bêbado. Talvez porque estivesse com medo. Talvez porque homens como Dale Belmont acreditassem que o medo é algo que se deve impor aos outros antes que ele transpareça em você.
Christian segurou seu pulso.
Foi só isso.
Ele não revidou. Não naquele momento. Ele simplesmente segurou o pulso do pai com uma das mãos e o manteve ali, entre eles.
O silêncio tomou conta do cômodo.
No sofá, sua mãe se mexeu sob o edredom.
Dale tentou se soltar.
Christian manteve a mão firme.
Ele ficou surpreso com a facilidade. Essa era a parte terrível. Não que ele pudesse fazer aquilo, mas que o monstro de sua infância tinha ossos, tendões e respiração como qualquer outra pessoa. Dale Belmont não era um trovão. Ele não era o destino. Ele não era o mundo inteiro.
Ele era um homem bêbado em uma cozinha suja, cujo pulso cabia na mão do filho.
“Não”, disse Christian.
Uma palavra.
Plana. Baixa. Final.
Dale o encarou, com o rosto vermelho e ofegante, e Christian viu a compreensão rastejar para os olhos do pai. Não era remorso. Christian reconheceria o remorso se já o tivesse visto. Aquilo era cálculo. Era o conhecimento animal de que a presa havia se tornado incerta.
Christian o soltou.
Dale deu um passo para trás.
Depois daquilo, a casa mudou.
Não o suficiente para se tornar um lugar seguro. A casa dos Belmont não sabia como ser segura. Mas Dale parou de atacar com tanta frequência. Sua raiva se transformou em resmungos, insultos, armários batidos, garrafas arremessadas, palavras feias jogadas como fósforos acesos.
Christian suportava isso melhor do que os punhos.
Palavras eram mais fáceis de odiar.
Aos dezessete anos, ele trabalhava depois da escola e nos fins de semana, economizando dinheiro em uma lata de café escondida atrás de uma tábua solta no guarda-roupa. Aos dezoito, ele partiu com duas mochilas, cento e setenta e três dólares e um olho roxo que se recusou a explicar ao velho na rodoviária que insistia em puxar conversa.
“Noite difícil?”, perguntou o homem.
Christian olhou fixamente para a frente.
O velho limpou a garganta. “Parece que o tempo vai mudar.”
“Então use um casaco”, disse Christian.
O homem piscou.
Christian não pediu desculpas.
Aquilo se tornou a sua essência.
Resposta ríspida. Olhar severo. Porta fechada.
As pessoas confundiam isso com arrogância, o que lhe servia muito bem. A arrogância as mantinha afastadas. A grosseria era útil. O silêncio era melhor. Se alguém decidia que Christian Belmont era desagradável, impossível, um bastardo de botas e má atitude, geralmente o deixavam em paz, e Christian tinha construído a maior parte de sua vida em torno de ser deixado em paz.
Ele aceitava empregos que exigiam suas costas, não seu coração. Docas de carregamento. Equipes de construção. Reparos noturnos. Qualquer coisa com ferramentas, peso, suor e um chefe que não perguntasse o que ele estava sentindo. Ele se tornou bom com as mãos porque as mãos faziam sentido. Dobradiça quebrada, troque-a. Bateria descarregada, recarregue-a. Tábua rachada, corte uma nova. As máquinas não mentiam sobre por que falhavam. Paredes não fingiam amor para depois desabar sobre você.
As pessoas faziam isso.
Ele alugava quartos pequenos e, depois, casas menores ainda. Possuía pouco e mantinha menos ainda. Sua geladeira continha ovos, molho de pimenta, frios e um vidro suspeito de picles que o seguia através de três mudanças como uma maldição. Sua ideia de decoração era colocar uma cadeira onde uma cadeira pertencia e desafiar qualquer um a comentar.
Ninguém o visitava.
Isso também lhe servia.
Aos vinte e oito anos, Christian Belmont tinha a aparência de um homem esculpido em vez de nascido. Alto, sólido, sem sorrisos, com ombros que preenchiam portas e olhos que deixavam mentirosos nervosos. Ele se movia pela cidade como se tivesse algo importante para fazer e já tivesse se decepcionado com todos no caminho.
Ele não era cruel, embora muitas pessoas o chamassem assim.
A crueldade exigia o desejo de ferir.
Christian geralmente queria o oposto. Ele queria que as pessoas parassem de exigir coisas dele. Queria que tolos parassem de confundir gentileza com fraqueza. Queria que homens de voz suave e camisas limpas parassem de se safar com a podridão só porque sabiam sorrir para as pessoas certas.
Ele queria, embora nunca admitisse, uma pessoa no mundo que pudesse olhar para ele e não ver um problema para resolver ou uma arma para temer.
Mas querer era perigoso.
O querer tinha dentes.
Então, Christian dizia a si mesmo que não queria nada. Dizia que a confiança era um conto de fadas que as pessoas inventavam porque dormir ao lado de alguém com ambos os olhos fechados soava romântico, em vez de estúpido. Dizia a si mesmo que o amor era uma coleira ou uma mentira, e ele não tinha interesse em usar uma ou acreditar na outra.
Ele se tornou difícil de sentir.
Apenas arestas. Apenas casca. Apenas comentários mal cronometrados, olhos semicerrados e uma voz como brita sendo jogada em uma caçamba de metal. Ele podia esvaziar um cômodo com uma frase. Podia deixar uma mulher chorando furiosa ao oferecer soluções quando ela precisava de conforto. Podia arruinar um momento de ternura dizendo algo como: “Bom, isso foi emocionalmente úmido”, e então se perguntar por que todos pareciam ofendidos.
Mas, enterrado sob todo aquele ferro, estava um garoto que um dia ouvira o som de botas na entrada da garagem e desejara, só uma vez, que alguém chegasse em casa em segurança.
Não gentil. Não alegre. Nem sequer amoroso.
Apenas seguro.
Christian não acreditava mais em segurança.
Ele acreditava em trancas. Em distância. Em manter o dinheiro escondido e as saídas livres. Em nunca precisar de alguém a ponto de a pessoa poder arruiná-lo ao ir embora. Ele acreditava em se tornar grande demais, rude demais, difícil demais para ser usado como saco de pancadas de alguém novamente.
E se, em algum lugar bem profundo sob o tecido cicatricial de sua vida, ainda existisse um coração capaz de ternura, Christian o tinha enterrado tão bem que poderia jurar que não existia mais.
Ele estava errado, é claro.
Mas ninguém tinha chegado perto o suficiente para provar isso.