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O MISTÉRIO DOS ROLOS DE PAPEL

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Resumo

Durante um período de confinamento em casa, a descoberta de um rolo de papel debaixo de um sofá cria um mistério envolvendo os seis habitantes do apartamento. Uma história de densibilidade psicológica e realismo fantástico.

Gênero
Thriller
Autor
JSemeano
Status
Completo
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
13+

Num rolo de papel estavam escritas páginas e páginas de texto. O rolo encontrei-o debaixo do sofá da sala, quando andava a fazer limpezas. Éramos agora seis pessoas em casa, e a limpeza era feita uma vez por semana.

Ao princípio, pensei que se tratava de um rolo de papel higiénico. Uma piada, uma referência aos agitados tempos que vivíamos. Mas não. Era mesmo um rolo de papel onde se podia escrever, mais espesso que o higiénico, um tipo de rolo que eu nunca tinha visto e que achava que só podia existir em certas fábricas. Como teria ido parar ali?

Mas lá estava, bem no cantinho, junto à parede, debaixo do sofá. Provavelmente, já estaria ali há muito tempo. Porque não é fácil espreitar. O espaço é exíguo e tem pouca visibilidade. Para espreitarmos temos que nos ajoelhar no chão da sala e baixar a cabeça o mais possível. E depois, para vermos alguma coisa, é preciso saber distinguir, naquela escuridão, o que quer que seja que não é normal ali estar.

Nem sempre eu fazia isso quando limpava a sala. Nem sempre era eu que o fazia. Mas daquela vez decidi espreitar, como se uma força estranha a isso me tivesse obrigado. Na verdade, ao fim de algum tempo em reclusão numa casa, começamos a ter curiosidade sobre tudo, a reparar em coisas novas, estranhas, a dar valor a qualquer pormenor deste ser estranho ao qual chamamos casa. Aprendi a reconhecer a existência de uma casa. Que uma casa é um ser vivo, com emoções. Que há dias em que uma casa está alegre, e dias em que uma casa está triste. Que há dias em que uma casa nos quer dizer alguma coisa, e dias em que uma casa nos esconde todos os seus segredos.

Naquele dia, a casa entendeu revelar-me um dos seus segredos. Aquele rolo de papel, debaixo do sofá da sala, cheio de palavras escritas.

A primeira palavra era “mãe”. Na verdade, acho que a li quando ainda o rolo estava lá em baixo, encostado à parede. Afinal, é das palavras mais pequenas entre as que usamos mais vulgarmente no nosso dia a dia, e daquelas que conseguimos muitas vezes ler à distância, quanto mais não seja pelo seu formato peculiar, três letras, um til ao meio, exatamente ao meio... é um pouco como a palavra “pai”, mas esta parece menos equilibrada, acaba num “i” e parece que vai a descer...

Enfim, estranhas reflexões estas, mas é como digo: nestas alturas estranhas da vida, estranhos pensamentos e sensações nos ocorrem.

Como naquele momento, no chão da sala grande, a cara encostada ao soalho, os olhos um pouco revirados a fim de conseguir ver melhor. E ao ver ali a palavra “mãe”, pensei numa carta. Coisas de outros tempos, pois então, que hoje quem é que escreve cartas numa folha de papel? Só se for em tempos de quarentena, em que tudo o que é estranho, raro, inusitado, pode acontecer...

Mas não era, na verdade, uma carta. Estiquei o braço, e não consegui lá chegar. Era demasiado para as minhas capacidades, por muito estranho que o Cachorro, o gato lá de casa, estivesse a achar enquanto me olhava com uma curiosidade esfíngica. Como se estivesse a gozar comigo, ele estava lá em baixo, muito tranquilo, junto ao rolo de papel. E até levantou ligeiramente a patinha preta quando a minha mão se aproximou, gesticulando de forma desesperada, para ver se tocava no estranho objeto. O Cachorro achou que aquilo poderia ser um convite para a brincadeira.

Mas não era uma brincadeira, era apenas uma operação de limpeza. Apenas? Bem, a seguir se veria... a verdade é que daquela forma eu não consegui lá chegar, por isso pedi à minha filha Rosa – é a mais novita, tem apenas 6 anos... -- que me fosse buscar uma vassoura à cozinha. A Rosa, ainda de pijama e algo estremunhada, pousou o tablet na mesa da sala e lá foi, arrastando os pés. Demorou uns bons 5 minutos, e durante esse tempo eu fiquei como que hipnotizado no chão da sala, olhando o rolo de papel cheio de letras. Além da palavra “mãe”, comecei a ler outra, que me pareceu ser... “trabalho”. O fato de ter dois “ás” e aquele “lho” no fim é capaz de ter ajudado.

Quando a Rosa veio com a vassoura, eu virei-a ao contrário e estiquei apenas o cabo por debaixo do sofá. Finalmente toquei no rolo de papel, enquando o Cachorro se afastava. O rolo rolou ligeiramente, desdobrou mais umas quantas frases e palavras que a pouco e pouco fui conseguindo ler. Depois do “trabalho”, vi “velho”, “cabana”, “mensagem”, “mortos”... assim soltas, estas palavras já pareciam dizer alguma coisa, e não parecia ser boa, uma sensação especialmente dada pela palavra “mortos”... o mistério adensava-se, e eu gostava disso, jogos de palavras era algo que sempre me tinha fascinado, e ainda mais em período de quarentena. Era a leitura que me suavizava os dias, que fazia as horas passarem mais depressa; eram aquelas personagens que me faziam entender as máscaras que agora via, os olhares que se trocavam entre pessoas apreensivas, os gestos difíceis em cada passo enquanto se espera que o tempo passe.

Finalmente, o rolo de papel chegou à minha mão. A Rosa até levantou os olhos do tablet, mas não ligou muito. Era um rolo pesado, com a largura de uma folha A4, mas na verdade eram muitas folhas A4, coladas e enroladas, com um texto cujo final não se avistava. Como é que uma coisa daquelas ficara tanto tempo debaixo do sofá? Será que estava ali há muito tempo? Não podia ser, pois não? Quer dizer, já estávamos naquela casa há 20 anos... a sala já tinha sido limpa várias vezes, como é de supor. Algumas vezes, talvez não muitas, o sofá tinha sido arrastado para fora do seu sítio...

Sendo assim, como fôra ali parar? Quem escrevera aquilo? Alguém de casa? Alguém que nos visitara, mesmo sabendo que as últimas visitas já tinham ocorrido há mais de dois meses, antes do início da quarentena?

Olhando para o rolo, confirmei que a primeira palavra escrita era mesmo “mãe”. Não estava destacada, era mesmo o início de um texto. Não havia título. Estava escrito à mão, a caneta de tinta permanente preta... o que hoje em dia também já era uma raridade, e deixou-me logo a sensação de algo antigo...

De repente comecei a ficar excitado. O meu espírito de sociólogo, que perdera há muitos anos, e que julgava esquecido, começou a agitar-se. Sabem como é, aquela comichão no estômago, o calor no coração, os pensamentos a circularem depressa...

Levantei-me, com alguma dificuldade, segurando o rolo de papel como se fosse um tesouro, uma relíquia qualquer que tivesse encontrado numa investigação arqueológica, e caminhei lentamente para o quarto. A Rosa nem me viu, não levantou os olhos do tablet, e também não se ouvia mais nada na casa, a não ser um ligeiro mexer de loiças na cozinha, talvez fosse o Samuel, um professor do ensino básico a quem tínhamos alugado um quarto. Coitado, fora apanhado ali pela quarentena e estava impedido de voltar à sua terra, uma aldeiazinha de Trás-os-Montes. Mas o Samuel era muito discreto, e mesmo agora, que estávamos em casa a toda a hora, quase não se dava por ele. Ia à cozinha quando não estava lá ninguém, não se cruzava connosco à entrada da porta da casa de banho, não se deitava às mesmas horas... às vezes, até pensava que ele não estava, que se tinha aventurado a ir à rua, desafiando o estado de emergência e todas as indicações das autoridades. Desafio: isso não era nada consentâneo com o Samuel!

Portanto, aqueles sons vindos da cozinha talvez fossem o Samuel a tomar o pequeno almoço antes que os restantes elementos da casa acordassem. Foi isso que pensei, também não fui confirmar, não estava interessado, agora todas as minhas energias se dirigiam para aquele rolo de papel que tirara debaixo do sofá. Entrei no quarto, sentei-me na cama ainda desfeita, e comecei a abrir o rolo. Comecei a ler o que ali estava escrito, numa caligrafia arredondada, que pensei ser de uma mulher:

“Mãe, fiz uma interrupção no trabalho para te poder escrever. Hoje aconteceu-me uma coisa estranha: um velho bateu-me à porta e, não sei porquê, fui atender. Não é habitual fazê-lo, pois tenho algum cuidado, estou numa terra estranha, vivo sozinha e sou inválida. Por isso, sou muito cautelosa. Mas, não sei porquê, talvez por estar cansada de estar aqui dentro, fui abrir. Era um velho esquisito, não tinha máscara nem nada... tive medo, mas não lhe fechei a porta. Perguntou-me se podia entrar na minha cabana... que coisa estranha, uma cabana? Até me ri, mas ele acrescentou, com um ar muito sério: «Trago-lhe uma mensagem, que poderá evitar muitos mortos!». Pronto, pensei, estou arranjada... agora vem um daqueles velhos malucos, que nos falam sobre o fim do mundo, catástrofes, apocalipses, e por aí... sempre existiram, como sabes, ao longo dos tempos, e agora ainda mais, agora que estamos a viver esta pandemia terrível, que está a matar tanta gente, eles aí estão... e aquele velho, ali à minha porta, a perguntar se podia entrar na minha cabana!”

Ouvi bater a porta do quarto do Samuel. Já tomara o pequeno-almoço, com a discrição habitual. O que faria ele ali fechado? Será que também tinha encontrado um rolo de papel como o meu? A minha imaginação começou a fervilhar...

Mas nessa altura a minha outra filha, a Diana, entrou no quarto. A Diana tinha 10 anos e uma imaginação fora de série. Tinha a certeza de que um dia seria uma escritora de grande qualidade. Ninguém tinha ideias como ela, ninguém via o que ela via, e se eu lhe mostrasse aquele rolo de papel ela inventaria rapidamente uma explicação incrível e encantadora. Ao contrário da Rosa, não se agarrava ao tablet; passava antes o seu tempo a escrever e desenhar. Especialmente desenhar. Dos seus dedos brotavam figuras extraordinárias, traços originais que nos traziam memórias, retratavam lugares, caraterizavam pessoas... era notável, o seu talento!

Quando, naquele dia, entrou no meu quarto, trazia um desenho na mão. Sem uma palavra, colocou-mo sobre as pernas, enquanto eu afastava discretamente o rolo de papel para debaixo do cobertor da cama. Era um desenho perturbante: uma fileira de campas abertas, onde eram colocados caixões. Olhei-a, quase sem fôlego, e uma lágrima assomou aos meus olhos. Eu sabia que ela tinha noção do que se estava a passar no mundo, que de vez em quando via imagens na televisão, mas aquilo perturbou-me mesmo. A sua expressão artística, ainda infantil, levara-a a uma realidade pesada, angustiante para todos nós mas de certeza ainda muito mais para seres com aquela idade.

“Está bonito, filha, mas porque escolheste fazer este desenho? É tão triste!”

Ela sorriu, sorriso infantil, agridoce, encanto único.

“Não és escritor? É para escreveres um livro sobre isto...”

Puxei-a para mim e abracei-a. E disse-lhe que não faltariam livros sobre a pandemia, escritos de todos os géneros, em todo o mundo, em todas as línguas, de escritores muito mais capazes do que eu. Mas disse-lhe também que nada do que fosse escrito poderia alguma vez retratar de forma justa o que estava a passar-se, seriam sempre interpretações, sensações de cada um, pontos de vista comprometidos com a situação. E não lhe disse, mas pensei para mim: nada também poderá descrever este desenho, de campas abertas, feito por uma menina de dez anos!

Nessa altura passou, em direção à sala, o homem mais polido que conheço. O meu irmão, Américo, também estava ali confinado. Mais velho que eu sete anos, o Américo era um homem alto e calvo, sempre bem vestido, aprumado, e trabalhava num casino antes de me vir fazer companhia neste período de reclusão. O local de trabalho estava fechado e o Américo, que vivia sozinho, achou que não aguentaria tanta solidão, e veio ter comigo. A exemplo do Samuel, era uma pessoa discreta, que quase não ocupava espaço na casa. Não perturbava ninguém, não me atrapalhava, esforçava-se por não incomodar. De vez em quando, dava com ele a mirar a rua através da janela, o olhar fixo, distante, como se visse muito para lá daquela estradita e dos carros estacionados dos dois lados.

Aliás, o que mais estranhei daquela passagem dele para a sala foi a velocidade a que o fez, e que não era muito habitual no Américo. Costumava ser mais discreto. Por isso, levantei os olhos do desenho de Diana, devolvi-lho para as mãos, ela saiu para o seu quarto, e eu desloquei-me para a sala. O Américo sentara-se no sofá, com a cara muito vermelha. Estava um bocado afogueado, o que não era nada habitual nele. E nas mãos segurava... um rolo de papel!

Não podia acreditar. O Américo tinha um rolo de papel nas mãos. Idêntico ao meu, aquele rolo de papel. Com letras, palavras, um texto que parecia não ter fim.

Ele olhou para mim com um ar algo atrapalhado. Como se tivesse sido apanhado com algo proibido nas mãos. Quis dizer qualquer coisa, mas nada lhe saiu da boca. Era como se tivesse perdido a voz. Mas não era razão para tanto. Afinal, era só um rolo de papel!

Contudo, eu também estava espantado. A coincidência era incrível. Eu tinha encontrado um rolo de papel debaixo do sofá, o Américo também tinha encontrado um! Aonde?

“No fundo do roupeiro. Bem no fundo do roupeiro, onde eu ainda não tinha procurado nada”, explicou ele.

No fundo do roupeiro! Era muito estranho. O Américo estava num dos dez quartos de visitas que a minha casa tinha. Sim, eu tinha uma casa muito grande, que em tempos fora uma pensão. Em tempos que já lá vão, nos tempos dos meus avós. Depois, a pensão fechou e a casa ficou. Herança após herança, a casa acabou por cair nos braços deste velho e cansado professor de sociologia, que começou logo por escrever um ensaio sobre a vida das casas, a alma que as habita, o segredo que as atravessa ao longo das décadas. Uma coisa estranha, algo original mas muito influenciada pelo trajeto histórico desta pensão, paredes cheias de incidências, soalhos de aventuras, candeeiros de energias. Uma casa como um castelo, registando as suas batalhas e as feridas e mágoas de todos os guerreiros.

Por isso, era bem estranho encontrar tal coisa no fundo de um roupeiro que estivera vazio antes da vinda de Américo. Ele trouxera algumas roupas, não muitas, que pudessem servir para o período de quarentena. O roupeiro não ficara cheio. Não havia nada naquele canto. Um cantinho escuro, ao fundo, à direita. Nada.

E agora... um rolo de papel! Não acreditei que tal pudesse nascer das cabeças da Rosa ou da Diana. As duas miúdas eram muito sossegadas e respeitavam todas as outras pessoas da casa. Como já se percebeu, eram diferentes, mas ambas agarradas aos seus próprios interesses: a Rosa com o tablet ou as suas bonecas, a Diana com os seus desenhos. Lembro-me de um episódio em que a Rosa choramingara porque perdera um Rei, um bonequinho de plástico muito engraçado, com uns orelhas tão grandes que a coroa sobre a cabeça quase não se via. Nunca encontrámos esse Rei. Procurámos em todos os quartos da casa, e na altura eles estavam praticamente todos vazios, e não encontrámos. Poderia aquele Rei ter sido aspirado quando de uma limpeza? Era pouco provável, optei por considerar a hipótese de ter sido deitado ao lixo embrulhado em papéis amarrotados. Mas fiquei com a estranha sensação, naquela altura, de que as casas, sendo seres vivos, também recolhem algumas coisas, em recantos inimaginados, de que nós não fazemos ideia. Ao lembrar esse episódio, estremeci, porque fiquei com a sensação de que as casas, se recolhem coisas, também as podem disponibilizar. Seria isso que estava a acontecer com os rolos de papel?

Sentei-me ao lado de Américo. Sobre as suas pernas, o rolo de papel cheio de palavras escritas. Olhando de soslaio, fui registando algumas: “leito”, “morte”, “ouro”, “travesseiro...” não tinham ligação entre si, provavelmente, mas saltavam como se estivessem vivas, como se brilhassem mais que as outras... certamente já notaram isso quando olham para um texto!

“O que tem escrito?“, perguntei.

Américo encolheu os ombros. Ainda não lera, estava ainda sob o choque do achado, parecia qualquer coisa distante, secreta, íntima talvez. E ele, polido como era, não tinha certezas sobre o que fazer.

“Talvez não deva ler...“, murmurou.

“Se o encontraste, é para leres...“, retorqui eu, mais seguro. E ao mesmo tempo desejoso de saber o que lá estaria. Já percebera que não era igual ao meu texto.

Ele fitou-me com os seus olhos interrogativos, claros como o azul do céu, e eu achei que havia medo ali. Pensei reconhecer os olhos da minha mãe.

“Lê.”

E ele:

“Neste leito de morte, restam-me algumas coisas para contar. Há duas semanas que sofro com este vírus que devasta o mundo, e no meio desse sofrimento vêm muitas visões, imagens novas, estranhas, mensagens que me são dirigidas. Sei agora onde fica o pote de ouro no final do arco-íris. E gostava de revelar o destino antes ainda de enfiar definitivamente a minha cabeça no travesseiro.”

Ele pousou a mão sobre a minha.

“Quem escreveu isto?”

Eu não fazia ideia. Aquele roupeiro estava vazio antes de ele chegar.

“Acho que estamos a delirar”, disse, e levantou-se, levando nas mãos o estranho rolo de papel.

Comecei então a tentar colocar ideias em ordem. Quem escrevera aquilo provavelmente estaria morto. Aquilo parecia ser um texto de despedida. Era um pouco diferente do texto que começara a ler no meu rolo de papel. Dois textos, em suportes idênticos, no mesmo local, estranhamente escondidos, mas com mensagens diferentes. Ou não? Que tal começar a procurar semelhanças, pontos em comum naquelas expressões? O que haveria de parecido entre um velhote que tem um segredo para contar que pode evitar milhares de mortos, e alguém que diz ter encontrado o caminho para o pote de ouro na ponta do arco-íris?

Eu estava há várias semanas em reclusão (acho que até já perdera a conta...), e até ali nada me despertara tanto entusiasmo como aqueles rolos de papel. A nossa existência entre aquelas quatro paredes era francamente monótona. Embora a casa fosse grande, suficientemente grande para que seis seres humanos mantivessem um certo distanciamento, não se cruzassem constantemente uns com os outros, guardando para si alguma intimidade, a monotonia instalara-se: acordar às mesmas horas, tomar o pequeno-almoço quase automaticamente, gastar algumas horas pela manhã cada um à sua maneira, tratar do almoço à hora habitual, comer a seguir, umas vezes todos juntos outras nem por isso, gastar as horas da tarde, lanche pelo meio, jantar, ver televisão, dormir... uma roda incessante de rotinas, à espera da liberdade para andar pelas ruas, correr no parque, viajar até à praia, perder os olhos nas lojas. E mais, e mais, e mais... coisas, muitas coisas a que antes não dávamos tanto valor e que agora pareciam tesouros em risco de serem perdidos. Às vezes sentia-me como o pirata que descobriu a arca preciosa mas que a vê fugir, lentamente, flutuando nas águas do mar, uns tubarões ao lado aparecendo de vez em quando, e a maré ondulando lentamente, inexoravelmente, quase irritante...

Por isso, aqueles rolos de papel estavam a quebrar a monotonia. Porque eram algo absolutamente novo dentro da rotina, algo inesperado, inexplicável mesmo, um mistério que agitava a mente e que agora dominava, quase por completo, a minha atenção. Tinha que ler mais e dessa forma talvez compreender o significado daquilo. O Américo refugiara-se com o seu rolo no quarto. E o meu lá estava, debaixo do cobertor da cama. Levantei-me para o ir buscar mas nessa altura reparei numa folha verde caída no chão, à entrada do corredor que levava à cozinha. Uma folha de espinafres, que alguém tinha deixado cair. E logo a seguir havia outra folha verde, e depois mais algumas, como se alguém tivesse deixado um rasto para que o seguissem.

Sorri, já sabia do que se tratava, só podia ser o Cacílio. O Cacílio era outro dos habitantes da casa durante a quarentena. Tratava-se da pessoa mais idosa que ali estava, tinha 62 anos, e era professor de história. Quando a pandemia foi declarada, o Cacílio estava em minha casa, para ir buscar uns livros de sociologia de que eu lhe falara. Ele estava a fazer uma investigação, a nível pessoal, muito original: queria estudar todos os traços, riscos e desenhos das fortalezas antigas do nosso país. O Cacílio achava, e talvez com alguma razão, que dessa forma conseguiria saber mais sobre as pessoas que tinham trabalhado e construído essas fortalezas. Era um trabalho de índole histórica mas também sociológica, e por isso alguns dos meus documentos poderiam ajudá-lo. Por essa razão o Cacílio estava em minha casa quando a pandemia foi declarada. Ele era uma pessoa um pouco excêntrica, e considerado um pouco louco na comunidade científica. Nervoso, quase esquizofrénico, tinha atitudes inesperadas e difíceis de compreender. E assim foi daquela vez. Declarada a pandemia, recusou-se a sair para a rua. Mesmo estando noutra casa que não a sua – onde, aliás, vivia sozinho... --, o Cacílio não quis mais sair dali, receoso do vírus que estava em todo o lado pronto a saltar-lhe para cima.

Eu gostava dele, tinha simpatia por aquele homenzinho pequeno, de cérebro efervescente, preocupado, e até obcecado, com coisas de que mais ninguém se lembrava. Por isso aceitei a situação, arranjei-lhe um dos quartos vagos na minha imensa pensão, e o Cacílio, agradecido, rapidamente se tornou útil dentro da monotonia do dia a dia: cozinhava, cozinhava com prazer, com dedicação, sem receios ou reticências! Recusava-se a sair à rua, mas como nós encomendávamos os legumes e as carnes, recebíamos tudo à porta e essa situação era aceite sem problemas pelo velho historiador. Era ele que tratava de tudo, recebia os produtos e cozinhava, deixando-nos o tempo livre para outras atividades. Entretanto, ia lendo os meus livros de sociologia, mas eu desconfiava que o velho projeto sobre as fortalezas talvez não passasse nunca disso mesmo, de um projeto.

Por isso, quando vi aquelas folhas de espinafres caídas no chão do corredor não tive dificuldade em relacioná-las com o Cacílio. Certamente as recebera à porta, momentos antes, e ao transportá-las para a cozinha fora deixando cair algumas. Essa parte é que me incomodava um pouco: porque é que deixara cair os espinafres? Embora ele não fosse propriamente meticuloso, não era habitual espalhar os produtos pelo chão.

Por isso, encaminhei-me para a cozinha. Qual não foi o meu espanto quando vi, à entrada da cozinha, uma pessoa que de imediato não reconheci. Um homem alto e magro, cabelos pretos, uma máscara a tapar a boca e o nariz... era o merceeiro da rua, agora me lembrava, era ele que costumava trazer-nos as coisas à porta. Porque estaria ali?

“O senhor Cacílio precisava de ajuda”, explicou-me, um pouco atrapalhado, antes de sair, com todas as cautelas para não nos aproximarmos muito, o receio era real, toda a gente vivia com medo. Compreendi, mas continuei intrigado, porque é que o Cacílio precisava de ajuda?

Entrei na cozinha, os espinafres estavam amontoados sobre a mesa, os tomates, as batatas, o aipo e os pimentos... tudo sobre a mesa, ainda por arrumar, e sentado numa cadeira, virado para a ampla janela por onde entrava um sol exuberante, estava o Cacílio.

Aproximei-me, e qual não foi o meu espanto quando constatei que também ele tinha um rolo de papel, idêntico aos anteriores, pousado sobre as pernas. O Cacílio já tinha, habitualmente, um certo ar espavorido, mas desta vez parecia ter visto um fantasma. Tinha os olhos fixos na paisagem para lá da janela, e a mão direita segurava com firmeza o rolo de papel. Apesar disso, consegui ler algumas palavras, soltas, a uma certa distância: “nariz”, “senhor”, “risco”, “amor”... o que poderiam significar? Bem, certamente não estariam ali por acaso.

O caso, contudo, é que surgira mais um rolo de papel! A coisa estava a tornar-se um verdadeiro mistério, até com alguns indícios de... sobrenatural! Como era possível aquilo? Que possibilidades existem para um cenário destes: que três pessoas, num lote de seis confinadas numa casa, encontrem, num curto espaço de tempo, três rolos de papel escritos com mensagens um pouco enigmáticas?

Naquela altura, tudo me veio à cabeça: estaria a ficar louco, por efeito da longa reclusão? Ou estaríamos, mesmo todos, a ter visões, a deturpar de alguma forma aquilo que estávamos a ver? Ou, de facto, algo de anormal estava a acontecer no mundo, e aquele episódio seria apenas um entre muitos que estariam a suceder em todas as casas onde havia pessoas em reclusão há mais de duas semanas?

O meu espírito de investigador rapidamente se sobrepôs a todas as suposições. “Acordei” o Cacílio da sua letargia.

“Onde estava?“, perguntei, apontando para o rolo.

Ele apontou para o armário dos cereais. “No fundo, lá bem no fundo...“.

Eu percebi, mas fui verificar. O armário tinha alguma profundidade, e normalmente estava sempre repleto: sacos dos mais diversos tipos de farinhas, mas também pacotes de grão, ervilhas e lentilhas, de arroz e de massa, tudo amontoado, não deixando espaço para mais nada. Como seria possível estar ali um rolo de papel, no fundo disto, e não ter sido visto antes? Era um mistério extraordinário!

“Tem calma, Cacílio”, disse-lhe. “Já temos outros dois rolos desses...“.

Não sei se o acalmei dessa forma. Olhou-me com um ar ainda mais enlouquecido, de quem não entende o que se passa. E virou os olhos para o texto, dando a entender que já começara a ler. E, com a voz algo embargada pelo nervosismo, leu: “Tapei a boca e o nariz, e saí para rezar ao senhor. Sabia que corria um certo risco ao andar pelas ruas, mas eu tinha que ir à igreja, pedir pelo meu amor. Mas a porta estava fechada...“.

Nessa altura tocou a campainha. Não acontecia muitas vezes, durante aquele período de quarentena, mas desta vez alguém nos chamava.

“Quem é?“, perguntei, e do outro lado ouvi a palavra “correio”. Abri a porta e o carteiro disse-me que não tinha autorização para subir as escadas, tinha que ir lá abaixo buscar. Assim fiz. Era uma carta, uma simples carta, sem indicação de remetente. Mas vinha dirigida a mim. Quem me escreveria, sem indicar quem era? Teria aquilo algo a ver com o estranho caso dos rolos de papel? Que mistério!

Abri de imediato. Vinha escrita à mão, numa caligrafia apressada, pouco coordenada, por alguém de quem nunca ouvira falar: Samara Kalistoff. Não sabia quem era Samara Kalistoff. Mas ao ler a mensagem, tive a explicação: era uma missionária, que trabalhava em vários países de África, numa instituição chamada Missão do Borradeiro. Samara pedia ajuda, e eu supus que ela enviara centenas de cartas daquelas para alguém na Europa, apelando à sensibilidade para com povos mais desprotegidos, solicitando ajuda financeira, produtos alimentares ou mesmo material educacional. Não era propriamente uma novidade. De vez em quando, surgia algo semelhante na caixa do correio; várias vezes tinha acompanhado, em televisão e em revistas, o trabalho admirável de algumas destas pessoas naquelas zonas remotas, onde o ser humano é tão desprotegido e precisa tanto de um ponto de apoio para poder levantar os olhos para o horizonte. Mas uma coisa é estarmos no nosso lugar de conforto e admirar o trabalho destas pessoas, e outra, totalmente diferente, é sermos contactados, no sentido de fazermos algo, de nos envolvermos, de fazermos parte desse universo. E eu senti, de imediato, que naquele momento não tinha condições para me envolver; aquela era mais uma carta para pousar no tampo da mesa mais próxima e ali ficar, esquecida, até que um dia, em conjunto com uma série de outras cartas, folhetos e envelopes abertos e vazios, viajasse até ao caixote do lixo...

Mas não deixei de achar curioso, e até intrigante, que aquilo sucedesse exatamente enquanto em minha casa acontecia um mistério de difícil explicação.

Pousei a carta numa estante à entrada da sala e decidi voltar para junto de Cacílio. Estaria ele ainda na cozinha, a ler o texto no misterioso rolo de papel? Se bem me lembrava, era a história de alguém que saíra para ir à igreja e a encontrara fechada... dirigi-me de novo para a cozinha, era um corredor comprido, mas de repente algo me chamou a atenção, um papel, no qual antes não tinha reparado, e que estava afixado na porta do quarto de Bantchuana. Bantchuana era o outro dos meus hóspedes durante a quarentena. Como se pode depreender do estranho nome, era africano. Na verdade, chamava-se Tibbs Bontchuana, era natural de Moçambique, o segundo nome era de família, do primeiro não faço ideia da origem. Mas o Bontchuana era um excelente tipo, de que eu gostava muito. Era professor de geometria e, ao contrário do meu irmão e do Cacílio, não era um hóspede inesperado, de situação, de quarentena. Não, já era meu hóspede há três anos, quando necessitara absolutamente de um quarto na grande cidade e não conseguia, por muito que procurasse. Por isso, e embora a minha casa já não funcionasse como uma pensão, alugei-lhe o espaço, a um preço de amigo, e rapidamente ganhei um irmão naquele matulão simpático, sempre sorridente, mas com o rigor e a metodologia de um geómetra. O Bantchuana programava tudo na sua vida, e parecia nunca falhar nessa programação, como se seguisse as medidas exatas dos traços que ensinava na faculdade, a régua e esquadro. Durante aquela quarentena, o moçambicano depressa se adaptara à conjuntura, consciente de que partilhava o espaço com mais cinco pessoas, e por isso nunca se atrasava à hora das refeições, sabia sempre quando a casa de banho estava desocupada, e parecia até programar os períodos em que convivia, na sala grande, com os outros professores e com as minhas filhas. Era um metódico.

Por isso, não espantava que tivesse afixado um programa na porta do seu quarto, mas estranho era um dos pontos desse programa: “10h30 – leitura do rolo de papel”.

Aquilo tinha-me falhado da primeira vez, focado como estava em saber o que se passava na cozinha. Mas agora chamara-me inadvertidamente a atenção. Li várias vezes aquele ponto do programa de atividades do professor Bontchuana. E não queria acreditar. A que rolo de papel se referia ele? Será que também tinha encontrado um, como acontecera comigo, com o Américo e com o Cacílio? E... não tinha dito nada? Pensando bem, até não espantava que, com o seu espírito metódico, organizado, discreto, Bantchuana nada tivesse dito. Afinal, o seu programa não contemplava algo de tão inesperado. Mas era necessário integrar o inesperado no programa...

Enfim, sem pensar mais, bati à porta. Estava a chegar a hora em que ele tinha programado a leitura do rolo de papel. Ninguém respondeu. Por isso, voltei a bater à porta. Então ouvi qualquer coisa lá fora. Uns passinhos rápidos, leves, que não pareciam de alguém com a envergadura do Tibbs mas que eu já conhecia. Entreabriu a porta. Estava tudo escuro lá dentro.

“Agora não posso”, disse, com um grande sorriso, e apontou o programa afixado na porta: “... leitura do rolo de papel”.

“Era mesmo sobre isso que eu queria falar...“, expliquei, mas ele, com o mesmo sorriso de orelha a orelha, empurrou a porta devagarinho e fechou-a suavemente.

Aquilo era mesmo dele. O Bontchuana, metódico até à medula, nunca iria permitir um desvio ao programa. Portanto, eu tinha que esperar que ele lesse o rolo de papel. Olhei para o ponto seguinte da ordem de trabalhos e sorri: “11h15 – dar atenção aos meninos”.

Os “meninos” eram as minhas filhas, especialmente a mais nova, Rosa, pela qual o moçambicano revelava um encanto enternecedor, entrando facilmente nos jogos dela, em tudo o que ela queria fazer, com uma paciência sem limites, e até na descoberta das maravilhas do tablet ele participava, com um entusiasmo superior ao meu, que sempre olhara para estas tecnologias com muitos receios e hesitações. Naquela àrea, para a Rosa o Tibbs era o seu aluno, o que não deixava de ter muita graça, sabendo-se que ele era um excelente professor de geometria.

Mas pronto, face a tal ponto do programa, achei que nessa altura talvez eu tivesse possibilidades de intervir, ou então por via da própria Rosa... sim, porque não?, e não seria propriamente um desvio na agenda do Bontchuana. Por isso, fui falar com a Rosa. Dirigi-me ao quarto dela, mas assim que cheguei à porta ouvi um cantarolar estranho. Era uma voz nova, diferente de todas as que ouvira até ali, um tom entre o estridente e o metálico, não muito agradável. Que música estaria ela a ouvir? Coisas do tablet, certamente...

Bati levemente e entrei. O que vi deixou-me absolutamente boquiaberto. O cantarolar não vinha do tablet, nem de nenhum rádio, computador ou televisão. Vinha de um boneco de madeira, um cão azul erguido nas duas patas traseiras, enquanto as outras seguravam um ramo de rosas. Sim, era um boneco estranhíssimo, de enorme originalidade, que eu trouxera de uma viagem de trabalho a um país asiático, onde fizera investigações junto de um povo que vivia no alto da montanha. Aquele boneco de madeira, esculpido e certamente pintado à mão, fascinara-me desde cedo, de tal forma que acabei por arranjar maneira de o trazer e, alguns anos mais tarde, oferecê-lo à minha filha Rosa. Ela ficou encantada com ele desde o primeiro momento, chamou-lhe Macário, e o boneco estava sempre na sua mesa de cabeceira, com aquele olhar canino, simpático, afável, oferecendo um ramo de rosas. O facto de ser azul também o fazia passar quase despercebido entre as cores infantis que dominavam o quarto.

Mas... o Macário nunca cantara. Aliás, o Macário, sendo um boneco de madeira, nunca revelara sinais de vida ou de qualquer tipo de animação. Ele existia, simplesmente, pousado numa mesa de cabeceira. E, no entanto, agora cantarolava...

Não cantarolava em português. Também era melhor... mas o que cantarolava, numa língua muito esquisita, que parecia arrastar as consoantes e terminar as palavras sempre num tom agudo, estava, aparentemente, a ser entendido pela Rosa. A minha filha, muito concentrada, estava sentada em frente do boneco, com um caderno na mão, e escrevia à medida que ia ouvindo. Não escrevia tudo, escrevia, apercebi-me à medida que me aproximei, apenas palavras soltas, como se fossem aquelas que ia entendendo. Já tinha uma lista razoável, de entre as quais julguei ver: “perigo”, “coração”, “cidade”, “sonho”, “mercado”...

Aproximei-me mais, toquei no ombro da Rosa e, automaticamente, o cantarolar cessou. De súbito, não havia mais som, o Macário voltara a ser apenas um cão de madeira pintado de azul, com um ramo de rosas na mão!

Ao sentir a minha mão no seu ombro, a Rosa voltou-se. Com um sorriso desconcertante, levantou-se e guiou-me até à janela, que dava para um pequeno jardim comunitário, com algumas àrvores frondosas e três bancos de madeira onde, em dias de bom tempo, por vezes me sentava a ler. Era um espaço agradável, diferente, perdido no meio do bulício da cidade, e havia sempre pombos no pequeno relvado verde, ajudando a dar-lhe um ar ainda mais bucólico.

Mas agora havia algo de diferente: a Rosa apontava-me um espaço transformado, em que o relvado verde dera lugar a um relvado... branco! Era desconcertante, e nos primeiros momentos tive dificuldades em acreditar. Depois, acabei por me convencer de que era mesmo assim, tentando perceber como o relvado verdinho, onde os pombos costumavam sacudir-se ao sol e perseguir os insetos, se transformara agora numa espécie de alcatifa branca. Não se tratava de neve, o que também seria invulgar, nem de flocos de algodão, igualmente improvável. Não, era mesmo relva, mas relva branca, da cor das paredes da minha casa, e esse branco da relva transformava por completo o pequeno jardim, dando-lhe um ar quase irreal, como se não estivéssemos acordados mas sim num estranho sonho.

E, no entanto, eu sabia que não era um sonho. Embora parecesse. Afinal, ainda há poucos minutos vira um boneco de madeira a cantar! E, portanto, era a vida, ela própria, que ganhava contornos sobrenaturais, que se transformava como o relvado verde mudara de cor. A vida que nós tínhamos antes estava a mudar, talvez por efeito deste vírus que nos mantinha em reclusão há mais de um mês, que nos tirava o sol, o convívio social, a liberdade nas ruas, a própria possibilidade de projetar o futuro e nos catapultar para a ação.

A Rosa não era uma miúda particularmente imaginativa ou fantasiosa, e por isso parecia aceitar aquelas transformações de uma forma natural, sem grandes interpelações. E talvez isso fosse o melhor. O mesmo não aconteceria com Diana, mais sensível, capaz de absorver o ritmo das coisas, as emoções e as cores que estavam no ar... como reagiria ela ao ver aquele relvado transformado? Provavelmente, também estaria à janela, mas certamente a desenhá-lo, a ver nele mais qualquer coisa...

Puxei pelo braço de Rosa e deslocámo-nos para o quarto ao lado, de Diana. Ela lá estava, de facto, em frente à janela, do lado de lá o relvado branco, do lado de cá um espantoso desenho a crescer nos dedos da minha filha, um extenso relvado branco, no qual havia uma árvore, onde estava encostada uma escada: por essa escada subia... o cão azul! No cimo da árvore havia uma pequena porta, que parecia dar para um sótão. E nesse sótão via-se uma folha de papel, com um texto escrito: “Senti o perigo, o meu coração começou a bater aceleradamente. Aquela não era a minha cidade, era como se estivesse dentro de um sonho... então, entrei no mercado, a ver se encontrava pessoas que conhecia...“.

Não li mais. Havia algo de bastante familiar naquelas palavras, como se já as tivesse lido antes... então lembrei-me, eram as palavras anotadas pela Rosa enquanto o cão azul cantava! Como era possível que a Diana as tivesse apontado e colocado num desenho? Os mistérios eram cada vez maiores, e eu estava capaz de desistir, de me render, de não me intrigar mais, de simplesmente aceitar a transformação do mundo... Mas eu era um sociólogo, a minha formação científica, e humanista, não me permitia desistir perante uma situação destas. Era importante registar, registar, averiguar, ter curiosidade...

Sentei-me na berma da cama da Diana, que deixara o seu desenho, olhando para mim e para a Rosa. Agora, eu estava sentado, em evidente hesitação, e as duas olhavam, paradas, tentando perceber o que eu ia dizer ou fazer. Na minha cabeça, eu tentava colocar uma ordem na confusão: os rolos de papel, o cão azul, o relvado branco, o desenho de Diana. E, já agora, ainda a carta de Samara, será que teria alguma coisa a ver?

Não, era tudo demasiado disperso para haver ligações. A única ligação entre tudo aquilo era o espaço, o espaço da minha casa, a pensão que herdara dos meus antepassados, aquelas paredes onde estávamos confinados há tanto tempo. Por isso, talvez fosse bom juntar tudo num mesmo espaço, para tentar perceber as ligações e os porquês. Achei que talvez fosse boa altura para uma reunião, um encontro coletivo entre todas as pessoas daquela casa, um encontro em que todos refletíssemos sobre o mesmo, sobre aqueles mistérios, sobre o que se estava a passar, sobre a possibilidade de estarmos a ficar esquizofrénicos...

Américo, Cacílio, Tibbs Bantchuana, Rosa e Diana. E eu. Estávamos ali todos, ao redor da enorme mesa da cozinha, tentando perceber o que estava a passar-se. Não tinha sido fácil juntá-los. O Américo, discreto e aprumado como sempre, acedera depressa ao meu apelo. Tinha o seu rolo de papel abraçado junto ao corpo, como se fosse um tesouro que não queria perder. Acho que ainda não tinha lido tudo. O Cacílio estava na cozinha, logo no seu espaço de domínio naquela casa. Sentado a um dos extremos da mesa, parecia bastante descontraído, e não tinha o rolo consigo. Mas colocara um enorme pão alentejano no centro, e ia cortando pacientemente grossas fatias. Quanto ao Bantchuana, claro que fora necessário uma convocatória especial para ele fazer uma alteração no seu rígido planeamento. Estávamos quase na hora de almoço, mas ainda não era a que tinha definido no plano. Àquela hora, o Bantchuana estaria nas suas revisões e estudos de geometria, que apurava todos os dias. Por isso, foi necessário bater diversas vezes à porta e explicar-lhe que era uma exceção, que era importante para que não ficássemos todos malucos. Perante tanta insistência, o moçambicano lá acedeu. Estava nervoso, com gestos miudinhos, como se não se sentisse à vontade, e não levou consigo o rolo de papel. Esse, calculei, deveria estar guardado no quarto, aguardando a hora, na agenda, em que estivesse prevista a leitura. Portanto, provavelmente o texto também ainda não fora todo lido.

Quanto às minhas filhas, acorreram facilmente: gostavam destes encontros imprevistos, destas reuniões que pareciam de família, e por isso estavam sempre disponíveis para aderir. E, para ajudar, a Rosa levara consigo o cão azul, de madeira, e a Diana tinha o seu desenho em cima da mesa, continuando, enquanto esperava, a dar retoques e mais retoques.

Sentei-me, e tinha comigo o rolo de papel. O primeiro da lista? Não sabia, fora o que eu encontrara atrás do sofá da sala. Também não lera mais desde que o encontrara: apenas aquela introdução, sobre o velho que batera à porta pedindo para entrar na cabana, prometendo salvar muitas mortes... Na verdade, eu suspeitava que ninguém lera mais que as primeiras linhas.

“Alguém leu os textos todos?“, questionei, quando me sentei. Olharam-me em silêncio, até que Cacílio decidiu colocar regras no seu domínio: “Quem quiser falar, tira uma fatia de pão, e fala. Os outros ouvem antes de tirarem a sua fatia de pão”.

Sorri quase impercetivelmente. Aquilo fazia-me lembrar qualquer coisa, tinha algo de tribal, de usos e costumes de povos longínquos que algures eu tinha estudado ou sobre os quais tinha lido alguma coisa... e não me admirei que fosse o Cacílio a propor o método, era o velho historiador, investigador de ciências sociais, que despertava, perante uma realidade absolutamente intrigante.

Eu preparava-me para falar quando um miar repentino me chamou a atenção para o Cachorro: estava ali, aos pés da mesa, pedindo qualquer coisa. Estendi a mão para lhe afagar a cabeça, mas ele desviou-se rapidamente e encaminhou-se para a janela.

Sem resistir à curiosidade, fui ver o que se passava. E o que estava do lado de lá da janela era quase surreal: num largo alguidar de plástico havia dezenas de... enguias! Mexiam-se lentamente, deslizando entre si, húmidas, luzidias, peganhentas. E, ainda mais surpreendente: cada uma delas tinha um papel agarrado, e nesse papel havia uma palavra! Era quase como num sonho, algo irreal, fora de todas as possibilidades... e o melhor de tudo é que, olhando com atenção, essas palavras pareciam ter ligação entre si à medida que as enguias deslizavam umas sobre as outras.

“Venham cá todos!“, chamei, e toda a gente se levantou da mesa, olhando pela janela. E todos pudemos então ler o que parecia uma mensagem das enguias:

“As casas têm paredes, teto, chão. Mas não só. Têm portas, janelas, corredores. E têm cantos, recantos, espaços visíveis, espaços invisíveis. As casas têm histórias. Histórias que ficam agarradas a cada um desses espaços, nas paredes, nos tetos, janelas, corredores... As casas têm histórias, protegidas pelo tempo, tapadas pelas horas, ignoradas pelas emoções. E debaixo de uma casa há outra casa, e debaixo da outra casa outras casas mais antigas, e para lá dessas casas mais antigas há jardins, campos, vales, talvez montanhas. E em todos eles há histórias. Histórias fechadas, que podem começar a despertar.”

Era uma mensagem extraordinária. Que todos lemos, creio que até a própria Rosa, com os seus ainda pouco experientes 6 anitos. Tinha algo de mágico, porque as palavras pareciam repetir-se constantemente, como se a mensagem estivesse permanentemente a ser mostrada, não dando azo a dúvidas ou interrupções. E era ainda mais mágica porque parecia, de alguma forma, ser uma explicação para o que nos estava a acontecer, para o mistério dos rolos de papel: o estranho explicava-se com o surreal, por muito incrível que pudesse parecer. Mas a verdade é que vivíamos tempos novos, anormais, e talvez já não devêssemos duvidar de nada. A não ser que tivéssemos todos enlouquecido...

O primeiro a reagir foi, de uma forma natural, o incansável Cacílio. De imediato identificou-se com a mensagem das enguias: “Eu sabia! As fortalezas têm informação. Mas, afinal, não são apenas as fortalezas. Eu estava certo no meu projeto. Mas faltavam-me algumas coisas. As casas, todas elas, têm informação. Entendem, vocês todos? Entendem o que elas nos estão a dizer? As histórias das casas são informação. Só precisam de ser despertadas...“.

E, a partir dali, o Cacílio, inspirado, falou-nos de tudo o que pensara sobre o seu projeto das fortalezas, do que achava que podia representar, e de como aquele mistério, aquela visão das enguias, poderia ser fundamental para o que viria a seguir. E eu falei do lado sociológico disso, de como a noção sobre essa circulação da informação poderia ser importante em termos sociais, de como poderia trazer transformações nas próprias relações entre as pessoas e as casas. O Bantchuana achou que se poderia estudar uma relação entre as casas e as suas formas geométricas, que a circulação da informação talvez fosse diferente conforme se tratasse de um quadrado ou de um círculo... O Américo e a Rosa ouviram tudo em silêncio, enquanto a Diana desenhava. E o que saía das mãos dela era extraordinário: uma espiral, uma espiral imensa, cheia de letras, de palavras difíceis de ler, porque eram demasiado miudinhas, mas essas palavras pareciam suceder-se, uma atrás da outra, infinitamente, ao longo da espiral, ela própria aparentemente sem fim...

Nessa tarde ficámos horas e horas na cozinha, à conversa, e lendo, sem hesitações, os textos nos rolos de papel. Eram histórias reais, de pessoas reais, histórias de outros confinamentos e crises, de vírus que tinham castigado a humanidade, de doenças que tinham alterado os hábitos das pessoas, da vida e da morte que se entrelaçam como enguias.

E nessa noite percebi o que queria dizer despertar. Despertar era entrar em... sonhei com um corredor, ao longo do qual havia pessoas. Pessoas de todos os credos e de todas as raças, pessoas diferentes de diversas maneiras. Essas pessoas estavam todas paradas, como estátuas, como se estivessem adormecidas. Mas eu caminhava. Avançava, lentamente. E cada vez que me aproximava de uma delas, essa pessoa acordava, mexia-se, sorria, começava a falar comigo. E, com esse sonho, eu percebi o mistério dos rolos de papel: era a casa que despertava.

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