Chapter 1: O Peso do Que se Exibe
O restaurante se chamava Aethelred.
Lívia achava o nome pretensioso demais. Era uma palavra arcaica, feita de consoantes pesadas, que o maître pronunciava com a solenidade de quem recita um versículo. Uma refeição custava o equivalente ao aluguel de um apartamento no East End e consistia em pedaços de carne vermelha sobre poças de molho reduzido, ladeados por legumes dispostos na porcelana branca com a precisão de evidências catalogadas numa cena de crime. Tudo era calculado para impressionar.
Tudo era, fundamentalmente, uma performance.
Mas Thomas adorava o Aethelred.
Adorava a reverência antecipada do maître, que o chamava pelo sobrenome antes mesmo que ele atravessasse o hall de entrada. Adorava a adega subterrânea, que cheirava a carvalho e umidade e, sob a luz baixa, lembrava uma pequena capela gótica onde homens ricos se prostravam diante de garrafas empoeiradas. Adorava a acústica do salão principal, projetada para manter as conversas contidas e civilizadas, como todo o resto naquele universo de toalhas engomadas, cristais finos e discrição cara.
Adorava, acima de qualquer outra coisa, o modo como a luz difusa dos lustres incidia sobre a pele exposta pelo vestido vermelho que ela usava.
O tecido era uma seda pesada, esculpida contra o corpo de Lívia com uma precisão quase anatômica. Abraçava a curva dos quadris e comprimia sua respiração apenas o suficiente para manter a postura ereta. Era um vestido deslumbrante — ela sabia disso; Thomas sabia disso; qualquer pessoa no salão que a cruzasse com o olhar saberia.
Mas não fora escolhido por ela.
O decote que emoldurava a curvatura farta dos seios e a fenda lateral, aberta o bastante para revelar a face interna de uma das coxas a cada passo, constituíam uma mensagem endereçada ao mundo. Ela era a peça mais valiosa da galeria particular de Thomas B, o homem sentado à sua esquerda que, antes de se acomodar, puxou os punhos da camisa para fora do paletó num gesto cirúrgico de quem recalibra a própria compostura antes de uma sessão no tribunal.
Lívia conhecia de cor aquele movimento. Era o modo silencioso pelo qual ele reafirmava o controle sobre o espaço onde entrava. O puxão seco no linho, o ajuste exato das abotoaduras de prata — herança do pai, um advogado renomado que acreditava que a desordem no vestuário era o primeiro sintoma da desordem moral.
Thomas William Hiddleston não entrava em lugar algum sem antes reorganizar a arquitetura de si mesmo.
A mesa estava posta com uma simetria irretocável: toalha espessa, taças alinhadas e flores baixas o bastante para não obstruírem a visão. Do outro lado, a cadeira de Victor Santiago, ainda vazia, aguardava com a indiferença elegante de quem ainda não sabia o que estava prestes a testemunhar.
— Nervoso? — perguntou Lívia.
A voz saiu um pouco mais fina do que pretendia e se perdeu no rumor baixo do salão. Ela passou o polegar pela borda do cardápio fechado, contendo o impulso de reformular a pergunta. Havia muito tempo que não tentava atravessar a superfície polida do marido para alcançar o homem que, no início do namoro, respondia a perguntas assim sem transformá-las em inconvenientes.
Os lábios dele se curvaram num sorriso. A expressão era simétrica, produzida com a fluidez de anos de prática — calorosa para quem o observasse de fora, impenetrável para quem o conhecesse pelo avesso.
— Ansioso, meu bem. — O sotaque britânico cortou o ar com elegância afiada. — Victor é um dos litigantes mais letais que já vi atuar. Trazê-lo como sócio é a peça que faltava no tabuleiro.
— Ele parece gentil. Pelo pouco que você comentou.
— E é. — Thomas inclinou levemente o queixo, os olhos azuis percorrendo o rosto da esposa com aquele fascínio particular, em parte carinhoso, em parte predatório. — Quase excessivamente. Mas isso é uma moeda inestimável nos negócios. Júris confiam em pessoas que parecem genuínas; clientes milionários assinam contratos com elas. Facilita o trabalho.Parecem.A palavra permaneceu entre as taças por alguns segundos antes de se dissipar sem deixar resíduo. Lívia baixou os olhos para o cardápio encadernado em couro, cujas páginas já conhecia quase por inteiro, e sentiu o escrutínio do marido pousar sobre seus ombros com um peso quase físico.
Tudo nela, naquela quinta-feira à noite, era a personificação do verbo parecer: o batom vermelho que Thomas deixara sobre a penteadeira naquela manhã não fora um presente, mas uma instrução de figurino; as ondas escuras e volumosas do cabelo haviam sido disciplinadas numa elegância que não era inteiramente sua; os saltos faziam seus passos soarem exatamente como ele gostava sobre o piso do hall de entrada.
Sentia-se amada e, ainda assim, com uma sofisticação triste, reduzida a uma extensão decorativa do homem que a amava.
Victor Santiago atravessou o salão dez minutos depois, desfazendo a formalidade severa do Aethelred com sua maneira expansiva. A despreocupação o precedia.
O sorriso surgiu antes do cumprimento formal. A barba escura conservava um desalinho deliberado, em contraste com o corte impecável do terno grafite. Os dois primeiros botões da camisa estavam abertos, e a ausência de gravata subvertia o código britânico com um charme avassalador.
Uma barra prateada atravessava a cartilagem da orelha, enquanto um pequeno alargador ocupava o lóbulo, detalhes que destoavam do requinte discreto do salão. Na base esquerda do pescoço, uma tatuagem escura acompanhava o músculo e desaparecia sob o colarinho.
— Tom! — A voz trazia a aspereza musical do sotaque colombiano. Ele estendeu a mão grande, marcada pelas veias salientes e apertou a do futuro sócio com um entusiasmo que fez Thomas piscar. Por um milésio de segundo, ele pareceu desarmado pela quebra do protocolo que ele tanto prezava, mas se recompôs no instante seguinte.
— Victor. É excelente tê-lo conosco esta noite. — Thomas retirou a mão com elegância e girou o tronco na direção da esposa. — Permita-me apresentar minha esposa, Lívia.
Ela ergueu o rosto e aceitou a mão estendida. O aperto de Victor foi firme, mas breve, destituído do exibicionismo de força que os colegas de Thomas costumavam aplicar.
— É um enorme prazer finalmente conhecê-la, senhora Hiddleston. — Victor pareceu genuinamente satisfeito. — Tom fala de você com tanto orgulho que eu já começava a desconfiar que pretendia mantê-la em segredo.
— Por favor. Apenas Lívia. — Ela ouviu o próprio sotaque arredondar as sílabas e não tentou contê-lo. Havia anos que ela polia as arestas da própria voz para caber nos salões londrinos, mas algo na descontração de Victor a fez relaxar a vigilância. — O prazer é meu, Victor.
O jantar começou com o estalo seco da rolha deixando a primeira garrafa de Bordeaux. A conversa mergulhou quase de imediato no direito corporativo: fusões hostis, litígios internacionais e a arte de desestabilizar advogados adversários antes que eles alcançassem a sala de audiência.
Thomas estava em seu território.
Falava com a taça suspensa entre os dedos, construindo cada argumento com a segurança de quem passara uma década aperfeiçoando não apenas a profissão, mas o domínio sobre qualquer mesa que ocupasse. Victor o acompanhava com interesse, interrompendo-o vez ou outra para discordar de algum detalhe ou contar um caso próprio.
Lívia mantinha a espinha longa contra o encosto e intervinha apenas quando uma pergunta lhe era dirigida. Atenta, elegante, presente na medida exata em que uma esposa deveria estar sem alterar a direção da conversa.
Foi durante a retirada das entradas, contudo, que uma fissura se abriu.
Enquanto acompanhava a conversa com o automatismo de quem percorre um caminho conhecido, observava a garçonete que os servia. A jovem tinha os cabelos loiros presos num rabo de cavalo e um perfume que lembrava lavanda. O nervosismo aparecia de outras formas: no bloco apertado contra o peito, na rapidez com que confirmava os pedidos, na mancha rosada que se espalhava pelas bochechas sempre que Thomas lhe dirigia a palavra.
A mudança nele foi mínima. O tronco se inclinou alguns centímetros. A voz perdeu a objetividade usada com Victor e adquiriu uma maciez que Lívia conhecia bem. Quando a garçonete se curvou para completar sua taça de água, Thomas ergueu o rosto e reteve a atenção dela por uma fração de segundo além do necessário. Havia ali apenas a expectativa tranquila de um sorriso que ele já sabia que viria. E que, de fato, veio, como tantas outras vezes.
— Muito obrigado, querida.
A palavra não carregava promessa alguma. Era um gesto automático, empregado com a segurança de quem sabia o efeito que causava nas mulheres e apreciava confirmá-lo de tempos em tempos.
— O risoto de lagosta trufada… — prosseguiu, a voz baixa e maleável. — É tão espetacular quanto dizem?
— É… é o favorito dos nossos clientes mais exigentes, senhor Hiddleston. — O rubor subiu pelas bochechas da moça, e seus olhos fugiram para o bloco de notas, como se ali ela pudesse se recompor.
Thomas esperou que ela tornasse a encará-lo.
— Então vou confiar em você — disse, enfim, deixando que um sorriso se formasse. — Imagino que não me indicaria algo que não estivesse à altura.
A garçonete sorriu, quase involuntariamente.
Lívia baixou os olhos e sentiu o incômodo familiar acomodar-se no fundo do estômago. Nos primeiros meses de casamento, cenas assim a atravessavam como vidro. Agora, a dor havia perdido as bordas.
Era uma fadiga de sentinela: o desgaste de vigiar sinais que nunca se tornavam graves o bastante para justificar uma acusação, mas também nunca cessavam por completo. O ciúme permanecia, gasto pelo uso, acompanhado de algo mais difícil de admitir — a exaustão de se importar.
É sempre assim, ela pensou, dobrando e desdobrando uma prega do guardanapo no colo. Em algum momento da noite, ele vai encontrar um par de olhos para esse jogo.
Aquelas pequenas manifestações da vaidade dele a exauriam. Eram sinais de um ego masculino que precisava ser constantemente massageado por qualquer reflexo feminino disponível, um hábito tão integrado à rotina quanto o ato inconsciente de respirar.
No início, Lívia tentava ler cada gesto como uma provocação: olha como sou desejado; como poderia ter a mulher que eu quisesse. Mas, com o tempo, passou a considerar uma hipótese mais desoladora: a de que Thomas estivesse tão absorto na própria admiração que simplesmente se esquecia de que ela estava ali, bem ao lado dele.
A segunda possibilidade doía mais porque não lhe atribuía sequer a importância de uma provocação.
E naquele momento, como em tantos anteriormente, a pergunta retornou: se ele se comportava assim diante dela, com a naturalidade de quem não temia ser visto, como seria em sua ausência? Os gestos ganhariam ousadia? O tom se tornaria mais explícito? Ele se comportaria como alguém que não tinha a quem prestar contas?
Talvez fosse neurose. Lívia sabia que talvez fosse. Mas eram tantos fragmentos acumulados que a dúvida deixou de ser um pensamento e se transformou numa textura permanentemente desconfortável sob tudo.
A garçonete se afastou levando os pedidos, e Thomas retornou à conversa com Victor sem qualquer alteração visível. Para ele, o momento já terminara.
Victor, porém, acompanhou a jovem por um instante antes de voltar a atenção para a mesa. Seus olhos encontraram os de Lívia por acaso — ou perto o bastante disso.
Ela se preparou para a piedade constrangida de quem acabara de testemunhar uma intimidade conjugal mal disfarçada ou para a cumplicidade envergonhada de quem acabara de testemunhar algo que preferiria não ter visto. Mas encontrou um espelho limpo.
Victor apenas ergueu muito discretamente as sobrancelhas, como se reconhecesse que ambos tinham visto a mesma coisa. A expressão dele dizia: Eu vi. Você viu. Nós não precisamos fingir que não aconteceu. Depois desviou os olhos primeiro.
A conversa ameaçou permanecer naquele desconforto. Victor pareceu tão pouco disposto quanto Lívia a suportá-lo. Então, para aliviar aquele peso e, de algum modo, incluí-la, recostou-se na cadeira, cruzou os braços sobre o peito e mudou de assunto com uma brusquidão quase hábil.
— Isso me lembra um jantar em Cartagena.
Era um contador de histórias nato, embora provavelmente não fosse um narrador inteiramente confiável. As mãos largas acompanhavam o ritmo das palavras, o sotaque colombiano emprestava ao inglês uma cadência própria, e havia um calor expansivo na maneira como ocupava seu lado da mesa. Contou, entre risos, sobre um episódio no qual um embaixador brindara diante de uma “relíquia pré-colombiana” que, minutos depois, um garçom recolheu para servir a sopa.
— Era só uma sopeira barata. O homem passou o resto da noite tentando encontrar profundidade histórica no caldo de abóbora.
A história era provavelmente verdadeira apenas em suas partes essenciais. Ainda assim, Lívia riu antes de se lembrar de conter o som. Levou os dedos aos lábios, mas já era tarde.
Thomas interrompeu o próprio movimento com a taça. Não olhou para ela de imediato. Terminou o gole, pousou o cristal no lugar e retomou uma observação sobre uma arbitragem em Genebra, arrastando a conversa de volta ao terreno técnico.
Victor respondeu, mas não abandonou a história. Dois minutos depois, encontrou outra brecha.
— É a anatomia clássica da ruína — disse, girando o vinho na taça. O humor diminuiu, mas não desapareceu por completo. — Criamos monumentos para nós mesmos e esquecemos que basta um gesto banal para expor o vazio.
Alguma coisa trancada há muito tempo dentro de Lívia cedeu sob aquela frase. Uma lucidez lenta atravessou o entorpecimento. A mulher comprimida na redoma da Senhora Hiddleston recuou por um momento, dando espaço à antiga aluna de Letras que encontrava, milímetro a milímetro, o caminho de volta à superfície.
— Lembra muito O Outono do Patriarca — disse.
A própria voz a surpreendeu. Soou diferente, mais firme, mais presente, como um músculo que não se usa há muito tempo.
Victor voltou o corpo para ela. Thomas também.
Lívia apoiou os dedos na base da taça. Por um instante, teve consciência de que poderia encerrar a frase ali, devolvendo a conversa aos dois homens. Em vez disso, prosseguiu.
— Gabriel García Márquez — continuou ela, deixando que a musicalidade do sotaque aquecesse as palavras. — O poder fica tão isolado pela própria encenação que passa a existir dentro de uma realidade inventada. Como o seu embaixador diante da sopeira. A tragédia não é a queda; é viver tanto tempo dentro da farsa que já não se distingue o sagrado do banal. A autoridade acaba se transformando numa piada que ninguém tem coragem de dizer em voz alta.
O silêncio pareceu engolir o tilintar dos talheres ao redor.
Victor não respondeu de imediato. A atenção dele permaneceu nela sem a ansiedade de preencher a pausa, e isso foi suficiente para que Lívia sentisse o corpo se reajustar na cadeira. Não estava sendo tolerada até que os homens retornassem ao assunto importante. Estava sendo ouvida.
Thomas pigarreou.
— Amor. — A palavra saiu macia, revestida daquele afeto ligeiramente condescendente que ele reservava para interrupções inoportunas. Deu um gole lento no vinho. — Não vamos entediar Victor com divagações literárias logo no primeiro jantar.
Lívia sentiu a abertura recém-criada dentro dela se contrair.
— Minha esposa tem o encantador hábito de interpretar até as circunstâncias mais banais pela perspectiva dos livros — acrescentou Thomas, dirigindo a Victor um sorriso que não lhe pedia concordância, apenas encerramento. — Às vezes, ela se esquece de que, fora da literatura, impérios costumam desmoronar por números, disputas judiciais e falta de liquidez.
Lívia permaneceu imóvel. O fechamento aconteceu por dentro: a contenção do maxilar, o ar retido por um segundo, os dedos deixando a taça antes que a apertassem com força excessiva.
Então ergueu o rosto para Thomas.
— E por equívocos de tradução. — A voz saiu baixa, sem qualquer esforço para produzir leveza. — Você provavelmente sabe melhor do que ninguém o que uma divagação nesse sentido pode causar.
Por uma fração de segundo, alguma coisa se imobilizou no rosto de Thomas, mas o sorriso permaneceu no lugar. Apenas os dedos ao redor da haste da taça perderam o movimento.
Victor alternou a atenção entre os dois. Não conhecia a história escondida naquela resposta, mas percebeu que havia entrado, sem intenção, numa conversa iniciada muito antes daquele jantar. Afastou os antebraços da mesa e pareceu considerar por um instante se deveria permanecer fora dela.
Thomas sentiu um pequeno desconforto atravessar-lhe o peito. Compreendeu perfeitamente o que ela lhe devolvera. Não houvera qualquer erro de interpretação entre os dois: Lívia reconhecera, sem omissões nem suavizações convenientes, o que ele acabara de fazer sob o verniz de uma brincadeira conjugal. Agora lhe devolvia o gesto diante de Victor, antes que Thomas pudesse reescrever a cena.
Ele a amava. Amava exatamente aquela inteligência afiada, a mesma firmeza que, seis anos antes, a fizera desafiar sua equipe jurídica e se recusara a alterar uma única palavra da tradução de uma declaração testemunhal porque isso poderia modificar o entendimento do que a testemunha dissera. Aquela firmeza fora uma das primeiras coisas que o havia fascinado nela.
Mas Thomas também amava o controle e nunca aprendera a equilibrar as duas coisas. Quando Lívia ocupava mais espaço do que ele sabia acomodar, o impulso de contê-la surgia antes de qualquer reflexão. Não era falta de admiração. Era a antiga incapacidade de suportar aquilo que não podia conduzir. E ali, naquele momento, a admiração veio acompanhada do desconforto de ter sido confrontado em público.
Lívia não explicou. Baixou os olhos para a taça e deixou que o silêncio guardasse aquilo que pertencia apenas aos dois. Mais fundo, uma voz antiga sussurrou dentro dela, sem raiva, apenas com uma tristeza cansada: houve um tempo em que ele teria perguntado e escutado a resposta até o fim.Ela não sabia em que momento ele deixara de se importar.
— Vou discordar de você, Thomas. — falou Victor com menos expansividade do que antes. A mão fechou-se sobre a própria taça, e por uma fração de segundo ele pareceu consciente de que contrariava o homem que o levara àquele jantar. Ainda assim, continuou.
— Eu não estava entediado. Na verdade, acho que ela acabou de explicar a história melhor do que eu.
Thomas voltou lentamente o rosto para ele.
A voz de Victor pousou na mesa com uma firmeza contida, como se cada palavra tivesse sido escolhida com cuidado. Não havia dureza nem confronto aberto. Justamente por isso, soava mais incisiva — a tranquilidade de quem não precisa disputar lugar para ter o controle.
— Essa é uma interpretação extraordinária, Lívia. — O uso do nome dela, sem título, sem o sobrenome, vibrou no espaço entre eles. — E dolorosamente precisa.
Victor fez uma pausa. O ruído do restaurante tornou-se um zumbido distante; o tilintar dos talheres e o sussurro das conversas nas mesas vizinhas pareceram recuar alguns metros.
— Alguém capaz de enxergar a piada por trás do rito do poder compreende a natureza humana de um modo que nós, advogados corporativos, raramente alcançamos apenas com nossos códigos e jurisprudência.
Os olhos dele permaneceram nos de Lívia. Não havia avaliação naquele olhar, tampouco a condescendência satisfeita de quem acabara de conceder a palavra a alguém. Havia atenção. Simples, inteira.
— Confesso que só li O Outono do Patriarca porque uma antiga colega de faculdade insistiu que o livro expunha a solidão do poder melhor do que qualquer tratado de ciência política. Ela estava certa. E você também está. — Victor inclinou a cabeça em um gesto de deferência solene. — É raro ouvir alguém formular isso com tanta precisão.
Lívia sentiu o rosto aquecer. Não era exatamente embaraço, mas o espanto de reconhecer, depois de muito tempo, o próprio peso. Como alguém que carrega algo por tanto tempo que já não percebe o quanto ela exige, até que outra pessoa, enfim, nomeia o esforço.
Ela sustentou o olhar de Victor e permitiu que um sorriso pequeno lhe tocasse os lábios. Um agradecimento silencioso pela história que a retirara do constrangimento, pelo espaço que ele lhe devolvera e, sobretudo, por ter reconhecido aquela parte dela que acabara de emergir.
Thomas observou a troca por cima da borda da taça.
Ele se recostou na cadeira com uma lentidão calculada. Girou a taça entre os dedos e bebeu um gole curto. Os olhos permaneceram em Victor por cima da borda, com uma fixidez que não era irritação. Era avaliação. Havia em seu corpo a languidez alerta de um felino que ainda não decidira se avançaria ou se continuaria observando.
Olhares de desejo dirigidos a Lívia nunca o haviam perturbado. Eram previsíveis, superficiais e, em algum nível que ele não examinava com frequência, confirmavam o próprio gosto. Eram troféus pendurados na galeria privada de sua vaidade masculina.
Victor não a olhava daquela forma. Estava enxergando-a, e havia uma diferença abissal entre as duas coisas. Essa diferença atingiu Thomas com uma clareza desagradável. Ele nunca perdera uma única noite de sono por homens que cobiçavam a beleza de Lívia, pois sabia que eram exatamente o tipo de homem que ela desprezava.
O perigo real era um homem capaz de enxergar além da superfície e de oferecer a Lívia espaço para voltar a ser a mulher de opiniões afiadas pela qual Thomas se apaixonara, mas que, ao longo dos anos, aprendera a aparar nos jantares porque, quando se expressava, ela tendia a ocupar mais espaço do que ele sabia suportar.
Não porque a cobiçasse, mas porque trazia de volta, de maneira incômoda, o homem que Thomas havia sido quando a conquistara. Aquele que sabia alcançá-la onde a beleza, o desejo e os gestos grandiosos não bastavam.
Thomas nunca chamaria aquilo de prepotência. Preferia entendê-lo como proteção. O amor peculiar de quem teme tanto perder que começa a estreitar o espaço ao redor daquilo que ama, até restar apenas o território que consegue vigiar.
Sob essa necessidade, havia um medo que ele dificilmente admitiria: o de que, ao voltar a se expandir, Lívia revelasse uma desproporção que ele não seria capaz de sustentar. De que descobrisse lugares feitos para ela nos quais Thomas jamais conseguiria entrar.
— Pois então. — A voz permaneceu aveludada, embora um fio metálico corresse sob a maciez. — Um brinde. — Thomas ergueu a taça em direção a Victor com um movimento fluido, quase generoso. — Ao nosso novo sócio. E às mentes extraordinárias das mulheres que nos suportam ao fim de cada dia.
— Aos que sabem ler o mundo nas entrelinhas, então. Salud. — Victor ergueu a própria taça num gesto lento.
Lívia acompanhou o brinde. O vidro frio da haste pressionou seus dedos enquanto ela tentava compreender por que uma conversa tão breve parecia ter deslocado alguma coisa dentro dela.
Um segundo depois, o braço esquerdo de Thomas atravessou o espaço entre os dois. Foi um movimento suave, quase casual. O tecido do paletó roçou o ombro de Lívia quando ele apoiou o braço no encosto da cadeira dela. Para qualquer observador externo, pareceria apenas o gesto afetuoso de um marido satisfeito demais para manter distância da esposa.
Dois dedos desceram e enrolaram uma mecha do cabelo escuro num movimento lento, ritmado. Um carinho. Uma algema de seda. Um lembrete tátil endereçado não apenas a ela, mas principalmente ao homem sentado do outro lado da mesa:
Você pode admirar. E nada além disso.
Depois do brinde, o jantar recuou para um terreno mais seguro. Thomas conduziu a conversa aos detalhes da sociedade, aos clientes que Victor assumiria e às dificuldades políticas que sua chegada produziria entre os sócios antigos. Victor ainda dirigiu algumas perguntas a Lívia, mas já não insistiu em mantê-la no centro da mesa. Talvez por prudência; talvez porque tivesse percebido tarde demais a dimensão do que provocara.
Do lado de fora, o frio de Londres os recebeu sem cerimônia. Victor despediu-se de Thomas com um aperto de mão polido. Quando se voltou para Lívia, não recorreu a nenhuma cortesia vazia. Apenas sustentou o olhar dela por um instante — direto, atento, como se reconhecesse ali a mulher que conseguira emergir por alguns minutos entre os papéis que lhe haviam reservado. Depois, virou-se e seguiu pela calçada.
Dentro do carro já em movimento, Lívia apoiou a cabeça no vidro gelado e fechou os olhos. Ainda reverberava nela aquele breve intervalo em que pudera existir como algo além de uma presença decorativa.
Dez minutos, talvez quinze.
Pouco o bastante para que, numa noite comum, se perdessem entre um gole de vinho e outro. Tempo suficiente, porém, para lembrá-la de uma parte de si que julgava adormecida.
Ao seu lado, Thomas permanecia enclausurado num silêncio rígido, o olhar preso à cidade à frente. Lívia não se voltou para ele. Observou o reflexo distorcido de Londres deslizar pelas poças do asfalto molhado, as luzes alongando-se sobre o vidro como pequenas hemorragias de cor.
O triste, pensou, enquanto as luzes discretas de St James’s desapareciam atrás dos vidros e o carro seguia para o silêncio de Canonbury, era que aqueles poucos minutos haviam sido o único momento da noite em que se sentira inteiramente real.
E não fora o homem sentado ao seu lado quem lhe devolvera essa sensação.








