Sinais de vida
Esta é a continuação direta de ‘O Projeto Sintonia’. Leia o Livro 1 primeiro para evitar spoilers!”
Dentro do pequeno anexo nos fundos da casa principal, o único som era o pingar constante do condensador de água e o rabiscar ritmado do lápis de Zoe sobre o papel pardo.
Aos dezessete anos, Zoe trazia nos olhos a mesma concentração minuciosa que Noah conhecia tão bem. Cercada por tubos de ensaio, lâminas de vidro e um microscópio óptico adaptado com peças de velhos monitores, a jovem examinava amostras de sangue coletadas dos voluntários da vila.
— O conector neural nunca foi apenas um chip de dados, pai — disse Zoe, sem tirar os olhos da lente. — Durante décadas, o sinal do Apex forçava o organismo a trabalhar em um ritmo artificial, mascarando dores e suprimindo sintomas. Agora que o sinal acabou, o corpo humano perdeu esse ‘piloto automático’. É por isso que as pessoas nas ruínas estão adoecendo com tanta facilidade.
Noah encostou-se no batente da porta de madeira, segurando duas canecas de chá de ervas fumegantes. Aos cinquenta anos, os fios prateados dominavam suas têmporas.
— O retorno das emoções e do estresse do mundo real sem nenhuma preparação... — refletiu Noah. — O sistema imunológico não estava acostumado a lidar com a vida sem anestesia.
— Exatamente — assentiu Zoe, afastando uma mecha de cabelo do rosto. — Mas o conector continua preso a uma terminação nervosa principal. Qualquer alteração química no organismo — um aumento de leucócitos ou uma queda de imunidade — gera uma micro-variação elétrica na base do implante antes mesmo de a pessoa sentir dor.
— E o que essa variação significa na prática? — perguntou Noah, pousando uma das canecas na bancada.
— Significa que o implante pode funcionar como um painel de alerta prévio — respondeu Zoe. — Se conseguirmos calibrar um leitor simples para mapear esses impulsos elétricos, podemos identificar uma infecção respiratória ou uma febre viral dias antes dos primeiros sintomas surgirem. Não é sobre fazer milagres, pai. É sobre dar tempo para a nossa equipe agir com os poucos remédios que temos.
Noah olhou para a filha com um sorriso contido e orgulhoso.
— Uma ferramenta de diagnóstico precoce... Sua mãe sempre dizia que a melhor medicina é aquela que evita que o paciente precise de um leito.
— A teoria funciona, mas preciso de mais dados de campo — continuou Zoe, pegando a caneca. — E, acima de tudo, preciso provar que um leitor montado com sucata analógica pode ser reproduzido por qualquer um, em qualquer assentamento.
A conversa foi interrompida pelo som suave de passos no cascalho do lado de fora. Leo apareceu na porta do anexo, trazendo uma prancheta de madeira e uma expressão atenta.
— Bom dia, Noah. Zoe — cumprimentou Leo. — A patrulha da manhã acabou de voltar do limite do Setor 3. O pessoal dos assentamentos das ruínas enviou um emissário. Eles estão lidando com um surto severo de febre entre os idosos e as crianças. O ar contaminado do inverno está tornando tudo pior.
Noah e Zoe se olharam. A urgência da realidade acabara de bater à porta do laboratório.
— É a nossa chance de testar o protótipo do leitor na prática — disse Zoe, já arrumando suas ferramentas na maleta de couro.
— Vamos preparar o transporte — disse Noah, voltando ao seu papel protetor, mas agora como parceiro da filha. — Mas vá preparada, Zoe. Aquela gente passou anos sendo controlada por tecnologia. Convencê-los a deixar você encostar um leitor na nuca deles não vai ser fácil.



