Divinus remove Immortalis
Nas profundezas abissais do Inferno, o silêncio era uma lei ditada pelo fogo. Lilith, a mãe de todos os demônios, permanecia imponente ao lado de Lúcifer. Por eras incontáveis, a sua união foi a fundação de um império de tormento; ela, a sua serva mais devota, ele, o senhor absoluto da queda. Juntos, governavam o Inferno com uma simetria sombria que parecia eterna.
Contudo, nas correntes de ar quente que sopravam dos níveis inferiores, algo estava prestes a mudar. O equilíbrio que sustentava o Reino das Trevas começava a vibrar com uma tensão invisível. O laço que os unia, forjado no orgulho e na rebelião, estava prestes a sofrer a sua primeira e definitiva quebra.
Lúcifer parecia distante e frio mesmo no meio daquele mar de fogo, e Lilith estava exausta. Cansada de carregar o peso do reino sozinha, de ser a senhora do tormento e, no fim, não ser reconhecida nem amada pelo seu senhor.
Os demônios podiam usar magia devido ao seu sangue compartilhado com Lilith e Lúcifer, e era assim que tratavam das torturas no Inferno, e Lilith era a mais poderosa.
Reclusa na solidão dos seus aposentos reais demoníacos, Lilith chorava. Ela queria fugir do inferno mas sabia que isso era uma ilusão, pois Lúcifer sentia tudo que acontecia no Inferno, tal como ela. Qualquer tentativa seria interceptada no mesmo segundo.
Foi no limite do desespero que a resposta se revelou, se Lúcifer a podia sentir devido a sua presença imortal e demoníaca, ela teria de remover esse obstáculo.
Os mortais não pertencem ao Inferno sem uma sentença de punição eterna, sem a sua presença demoníaca imortal, Lúcifer simplesmente não a poderia encontrar.
Lilith decidiu recorrer ao ritual mais proibido e perigoso que ela conhecia: um ritual que afeta apenas quem o realiza.
— Divinus Remove Immortalis — sussurrou ela para a escuridão, sabendo que aquele ritual lhe custaria a sua divindade, mas lhe daria a única coisa que realmente desejava: a liberdade.
Lilith ajoelhou-se no chão frio dos seus aposentos, e desenhou uma estrela de cinco pontas perfeita, com uma pedra afiada que encontrou por perto, cortou a palma da mão e a colocou no centro do círculo, permitindo que o seu sangue fluísse e cobrisse todo o símbolo profano.
Lilith fechou os olhos e começou a entoar o nome do ritual, pronunciando as palavras continuamente por alguns segundos: — Divinus Remove Immortalis... Divinus Remove Immortalis... Divinus Remove Immortalis…
Ao terceiro sussurro, o chão sobre os seus joelhos começou a tremer, e o sangue que preenchia o símbolo profano começou a ferver, emitindo um vapor e começando a queimar a sua mão.
Lilith começou a se contorcer de dor, num grito mudo que ecoava apenas em sua mente, mas a dor não era física, era a sua própria divindade e imortalidade a serem arrancadas do seu corpo e da sua alma.
No seu peito, algo que nunca existirá começou a bater com uma fragilidade aterrorizadora: um coração humano. Sua pele outrora gelida e intocável se transformou em algo quente e aconchegante.
O chão frio de seus aposentos não aguentou a presença de algo tão puro e mortal para um lugar ardente, escuro e solitário. O Chão ruiu sob o simbolo profano, abrindo uma fenda de escuridão absoluta, puxando Lilith para dentro. Ela passou a barreira do mundo divino para o mundo dos mortais, era como se estivesse caindo, a escuridão do Inferno deu lugar a uma brisa fria e humida desse mundo, mas Lilith fechou os olhos e desmaiou.
Lilith acordou estendida na relva, a tremer de frio com o cheiro a maresia e a terra molhada. olhou para cima e viu pela primeira vez em sua existencia um céu estrelado.
Ela estava com medo, estava com frio, estava a sangrar, mas ela não estava mais no Inferno, estava em Olisipo, no ano 12 d.C.
Ela finalmente estava livre.



