Prólogo
Prólogo
Michael Stone estava encarando o mesmo parágrafo há dez minutos.
O livro estava aberto sobre a superfície ampla da sua mesa. Ele mantinha uma mão sobre a página, como se segurá-la ali pudesse, de alguma forma, forçar as palavras a entrarem em sua cabeça.
Não estava funcionando.
Seu escritório estava silencioso, o tipo de silêncio que ele geralmente preferia. A luz do fim da tarde entrava pelas janelas atrás dele, espalhando-se sobre as prateleiras de madeira escura e sobre a pilha de relatórios que Marcus tinha deixado no canto de sua mesa mais cedo naquela manhã.
Michael deveria estar lendo.
Em vez disso, seus pensamentos não paravam de se perder.
Nela.
Uma batida soou na porta entreaberta.
Michael olhou para cima.
E tudo nele se suavizou.
Sophia estava parada ali.
Ela usava um vestido azul-claro hoje, simples, porém elegante, com o tecido caindo perfeitamente ao redor do seu corpo. Seu cabelo escuro estava solto sobre um dos ombros, e havia algo na visão dela que fez a tensão que Michael nem tinha percebido que carregava desaparecer de entre seus ombros.
Sua companheira.
A palavra se estabeleceu nele com a certeza da gravidade.
“Entre.”
Sophia sorriu.
Aquele sorriso também fazia algo com ele.
Sempre fazia.
Ela entrou, fechando a porta apenas até a metade atrás de si.
O olhar de Michael a acompanhou enquanto ela atravessava a sala.
“Você está ocupado”, disse ela.
“Não mais.”
O sorriso dela se alargou.
Sophia se aproximou da cadeira em frente à sua mesa e sentou-se nela com graciosidade.
Michael franziu a testa.
Ela notou.
“O quê?”
“Isso é muito longe.”
Sophia olhou para a distância entre eles.
Havia mal a largura da sua mesa.
Ainda era muito longe.
Longe demais.
Michael fechou o livro.
Ele se recostou na cadeira e deu dois tapinhas em uma das coxas.
“Venha aqui.”
As sobrancelhas dela se ergueram.
“Michael.”
“Venha aqui.”
Havia diversão na expressão dela agora.
“Você tem uma alcateia inteira para comandar.”
“E daí?”
“E daí que eu estou te distraindo.”
“Você diz isso como se fosse um problema.”
Sophia riu baixinho.
Michael sentiu algo quente se espalhar pelo seu peito.
Ela se levantou.
Ele observou cada passo que ela deu ao redor da mesa.
Quando ela o alcançou, Michael abriu um pouco os joelhos e ofereceu a mão.
Sophia a segurou.
Ele a guiou para o seu colo.
Melhor.
Imediatamente melhor.
Um de seus braços envolveu a cintura dela.
Sophia apoiou uma mão no ombro dele.
“Confortável?”, ela perguntou.
Michael olhou para ela.
“Agora estou.”
Ela sorriu novamente.
E, do lado de fora do escritório, logo atrás da porta parcialmente fechada, Mari Case parou de andar.
A bandeja em suas mãos de repente pareceu incrivelmente pesada.
Tinham pedido para ela levar a refeição tardia de Michael depois que ele pulou o almoço.
Eleanor tinha preparado tudo pessoalmente.
Frango assado.
Batatas.
Legumes.
Pão fresco.
Mari se ofereceu para levar antes que Eleanor pudesse impedi-la.
Ela sabia que deveria ter escutado quando Eleanor disse para não ir.
Agora, ela estava paralisada no corredor.
Michael não podia vê-la.
Sophia não podia vê-la.
O ângulo da porta escondia Mari completamente.
Ela só conseguia ver uma pequena parte do escritório.
A mesa de Michael.
A borda de sua cadeira.
O vestido azul de Sophia onde ele caía sobre o joelho dele.
A loba de Mari agitou-se dolorosamente sob sua pele.
Companheiro.
Mari fechou os olhos.
Por favor.
Agora não.
Dentro do escritório, Sophia passou os dedos suavemente pelo colarinho de Michael.
“Você tem estado distante hoje.”
Michael franziu a testa.
“Tenho?”
“Um pouco.”
Ele apertou o braço ao redor dela.
“Não foi minha intenção.”
“Eu sei.”
A voz de Sophia era suave.
Compreensiva.
Perfeitamente compreensiva.
Michael olhou para ela e se perguntou, não pela primeira vez, como ele conseguia funcionar antes dela entrar em sua vida.
Sempre houve responsabilidades.
Expectativas.
Decisões.
Todos queriam algo dele.
Seu pai o criou para liderar antes mesmo de Michael ter idade suficiente para entender o que a liderança significava.
Marcus sabia quanta pressão vinha com isso. Marcus entendia melhor do que ninguém.
Mas nem mesmo Marcus podia lhe dar isso.
Este silêncio.
Esta paz.
Michael afastou uma mecha do cabelo de Sophia do rosto dela.
“Você sabe como eu achava que seria ter uma companheira?”
Sophia ficou imóvel.
Do lado de fora da porta, Mari também ficou.
A expressão de Sophia se suavizou.
“Como?”
Michael ponderou sobre a pergunta.
“Eu achei que seria violento.”
Ela riu baixinho.
“Violento?”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não tenho certeza se sei.”
“Eu achei que haveria aquele momento... avassalador. Como ser atingido por algo.”
Seu polegar acariciou a cintura dela.
“Como se, de repente, nada mais existisse.”
Sophia o estudou.
“E não foi?”
Michael balançou a cabeça lentamente.
“Não.”
Os dedos de Mari apertaram a bandeja.
Sua loba choramingou.
Michael continuou.
“Foi melhor.”
Sophia sorriu.
“Melhor?”
“Pareceu certeiro.”
Aquela palavra cortou Mari com mais precisão do que qualquer outra coisa poderia ter feito.
Certeiro.
Michael olhou para Sophia como se não houvesse mais nada no mundo que valesse a pena ver.
“Foi como reconhecer algo que estava me faltando, sem nem saber que eu sentia falta.”
Mari parou de respirar.
A voz de Michael ficou mais baixa.
“Eu olhei para você e pensei: lá está ela.”
As mãos de Mari tremiam enquanto ela segurava a bandeja.
O garfo sobre a bandeja se moveu.
Um som metálico minúsculo.
Michael parou.
Sua cabeça se virou levemente em direção à porta.
Mari paralisou.
Sua loba despertou.
Vá.
Mari não conseguiu.
Companheiro.
Michael escutou por mais um segundo.
Nada.
Ele se voltou para Sophia novamente.
Do lado de fora, Mari forçou as mãos trêmulas a ficarem paradas.
Sophia tocou o maxilar de Michael.
“Você nunca me contou isso.”
“Estou te contando agora.”
“Por quê?”
“Porque você perguntou.”
“Não.” Sophia sorriu levemente. “Por que você não me contou antes?”
Michael pensou sobre isso.
Porque algumas coisas pareciam privadas demais para serem ditas em voz alta.
Porque ser Alfa significava ter pessoas o observando o tempo todo.
Porque a ternura era algo que ele tinha aprendido a manter trancado.
Mas Sophia era sua companheira.
Não deveria haver nada que ele não pudesse dar a ela.
“Há coisas que ainda estou aprendendo a dizer.”
A expressão de Sophia suavizou.
Michael continuou antes que pudesse mudar de ideia.
“Passei anos me perguntando como ela seria.”
O estômago de Mari deu um nó.
Ela sabia a quem ele se referia.
Sua companheira.
Ela.
Ele estava falando sobre ela.
Para Sophia.
“Eu me perguntava se ela entenderia a alcateia”, disse Michael. “Se ela entenderia a mim.”
Os dedos de Sophia se moveram lentamente pelo cabelo na nuca dele.
“E?”
“Acho que eu temia que ela não entendesse.”
“Por quê?”
Michael deu uma risada baixa.
“Porque eu não sou uma pessoa fácil.”
“Eu notei.”
Ele lhe lançou um olhar.
Sophia sorriu inocentemente.
Michael balançou a cabeça.
“Eu sabia que minha companheira se tornaria a Luna. Todo mundo sabe disso. Mas isso não é o mesmo que saber se alguém realmente será capaz de assumir o papel.”
Mari engoliu em seco.
Sophia se inclinou para mais perto.
“E você acha que eu sou?”
Michael a encarou.
A resposta veio sem hesitação.
“Eu sei que você é.”
Os olhos de Mari arderam.
Ela olhou para baixo, para a bandeja.
O pão estava embrulhado em um pano limpo.
Eleanor tinha adicionado manteiga porque Michael gostava dela quente o suficiente para derreter.
Mari tinha se lembrado disso.
É claro que tinha.
Ela se lembrava de tudo sobre ele.
Cada pequena e boba coisa.
Como ele tomava seu café.
Qual cadeira ele preferia durante as reuniões.
O jeito que ele esfregava o lado do polegar quando estava irritado.
Como a voz dele mudava quando estava cansado.
Como ele parecia quando ria com Marcus e temporariamente esquecia que era Alfa.
Ela sabia de tudo isso.
Michael não sabia quase nada sobre ela.
Dentro do escritório, Sophia inclinou a cabeça.
“O que te deixa tão seguro?”
A resposta de Michael veio facilmente.
“Você sabe quando falar.”
O coração de Mari afundou.
“E quando não falar”, continuou ele. “Você não precisa de atenção a cada segundo. Você não se força a entrar em lugares onde não pertence.”
As palavras doeram mais porque Mari sabia que ele não estava falando dela.
Não conscientemente.
Mas elas a atingiram mesmo assim.
A expressão de Sophia permaneceu suave.
A mão de Michael se moveu lentamente ao longo da cintura dela.
“Você tem dignidade.”
Mari encarou o corredor à frente.
“Você é calma quando todos os outros perdem a cabeça.”
A garganta dela apertou.
“Você faz as pessoas se sentirem confortáveis.”
Mais uma ferida.
“Você não exige coisas de mim só porque você as quer.”
A loba de Mari choramingou.
Ela tentou reprimir isso.
A voz de Michael baixou.
“E você entende que ser Luna é mais do que estar ao meu lado.”
Sophia o observava atentamente.
“O que é, então?”
Michael respondeu sem pensar.
“Carregar a alcateia comigo.”
Mari fechou os olhos.
Aquilo pertencia a ela.
De alguma forma, impossivelmente, ela sabia disso.
Sua loba também sabia.
A dor atrás de suas costelas tornou-se insuportável.
Michael deveria estar dizendo essas coisas para ela.
Talvez não hoje.
Talvez não amanhã.
Mas algum dia.
Quando o vínculo fosse reconhecido.
Quando ele finalmente olhasse para ela e soubesse.
Essas deveriam ter sido as palavras deles.
A conversa deles.
O futuro deles.
Sophia estava sentada em seu lugar, recebendo tudo aquilo.
“Você realmente acredita nisso?” Sophia sussurrou.
A expressão de Michael suavizou ainda mais.
“Eu não teria escolhido você se não acreditasse.”
Escolhido.
Mari estremeceu.
Os dedos de Sophia pararam de se mover.
“Você me escolheu?”
Michael franziu a testa.
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Eu quero ouvir você dizer.”
Ele sorriu levemente.
É claro que ela queria.
Michael nunca foi muito bom em dizer as coisas apenas porque alguém queria ser tranquilizado.
Mas Sophia não era apenas qualquer uma.
“Você é minha companheira.”
Os lábios de Mari se abriram em silêncio.
Michael continuou.
“Minha Luna.”
O corredor ficou embaçado.
“Meu futuro.”
Mari encarou o chão.
A bandeja pressionou suas palmas.
Sophia se inclinou para mais perto.
“E se alguém tentasse ficar entre nós?”
O calor na expressão de Michael mudou.
Não muito.
Mas o suficiente.
Seu maxilar travou.
“Ninguém vai.”
Os olhos de Sophia permaneceram nele.
“E se elas acreditassem que tinham um motivo?”
Michael pensou imediatamente em Mari.
A garota persistente com aqueles enormes olhos feridos que continuava insistindo em algo impossível.
Algo insultante.
Algo que deveria ter parado semanas atrás.
Sua irritação aumentou.
“Ela pode acreditar no que quiser.”
Do lado de fora da porta, Mari parou de respirar novamente.
Sophia não disse nada.
O braço de Michael apertou-se ao redor dela.
“Isso não torna verdade.”
A voz de Sophia permaneceu suave.
“Você sabe que ela está sofrendo.”
Algo desconfortável percorreu Michael.
Ele não gostava de falar sobre Mari com Sophia.
Não porque se importasse com o que Mari sentia.
Mas porque Sophia não deveria ter que lidar com nada disso.
“Ela está machucando a si mesma.”
Mari baixou a cabeça.
Michael continuou.
“Tentei ser paciente.”
“Eu sei.”
“Eu a ouvi.”
“Você ouviu.”
“Eu expliquei a situação.”
Sophia assentiu.
A irritação de Michael crescia só de lembrar daquelas conversas.
Mari parada na frente dele.
Quieta.
Sincera.
Insistindo que algo estava errado.
Que Sophia não era sua mate.
Que Michael precisava ouvir seu lobo.
Como se Michael Stone não entendesse seu próprio lobo.
Como se uma garota de vinte anos entendesse seus instintos melhor do que ele.
“Ela não vai aceitar.”
Sophia tocou o peito dele.
“Talvez ela precise de tempo.”
Michael soltou o ar pelo nariz.
“Quanto?”
“Não sei.”
“Ela nos observa.”
Sophia parecia quase solidária.
“Eu notei.”
“Ela sempre arruma um motivo para chegar perto de mim.”
Mari olhou para a comida que carregava.
Seu estômago embrulhou.
“Ela vive tentando me dizer o que sinto.”
A boca de Michael endureceu.
“Essa é a parte que não tolero mais.”
Sophia ficou em silêncio.
Michael olhou para ela.
“Eu sei o que você é para mim.”
Mari apertou os lábios.
“Eu sei o que isso significa.”
Sua mão apertou a cintura de Sophia de forma possessiva.
“E não vou deixar que outra pessoa estrague isso só porque ela se convenceu de que tem algum direito sobre mim.”
A visão de Mari ficou turva.
Estragar.
Ele achava que ela era o problema.
Sophia encostou-se nele.
“Não quero que fique bravo.”
“Não estou bravo.”
“Está sim.”
Michael olhou para ela.
Sophia sorriu levemente.
Ele suspirou.
“Está bem.”
Ela passou o polegar pelo maxilar dele.
“Não quero que brigue com ela por minha causa.”
“Não estou brigando com ela por sua causa.”
“Não?”
“Não.”
Sua voz ficou mais ríspida.
“Estou resolvendo algo que deveria ter resolvido antes.”
Do lado de fora da porta, Mari sentiu algo dentro dela desmoronar.
Sophia o observava.
“O que você vai fazer?”
Michael ficou em silêncio por um momento.
“Vou fazer ela entender.”
O olhar de Sophia tornou-se mais intenso, quase imperceptivelmente.
“E se ela ainda não entender?”
Michael olhou para a porta entreaberta.
O coração de Mari batia forte contra as costelas.
Ele não conseguia vê-la.
Ela sabia que não podia.
Ainda assim, sentiu-se pega.
Exposta.
A expressão dele estava fria agora.
Nada comparado à suavidade que Sophia recebia.
“Então eu paro de ser gentil.”
Os dedos de Mari ficaram dormentes.
Sophia encostou a testa na dele.
“Você tem um bom coração, Michael.”
Mari quase fez um som.
Não porque discordasse.
Essa era a parte terrível.
Ela amava o coração dele.
Ela o amava.
Ela o amava tanto que, mesmo ali parada enquanto ele, sem saber, a destruía aos poucos, uma parte dela ainda queria entrar e avisá-lo.
Algo estava errado.
Algo estava terrivelmente errado.
Seu lobo sabia.
Mari sabia.
Michael simplesmente não conseguia enxergar.
Sophia o beijou.
Suavemente.
Michael retribuiu.
Mari desviou o olhar.
Ela não podia assistir àquilo.
Não aquilo.
Seu lobo pressionou-a violentamente.
Mate.
Os olhos de Mari encheram-se de lágrimas.
Por favor, pare.
Mate.
“Ele não nos quer.”
O pensamento foi silencioso.
Seu lobo recuou diante disso.
Mari engoliu em seco.
Dentro do escritório, Michael murmurou algo que ela não conseguiu ouvir.
Sophia riu.
Aquela risada terminou o que o beijo havia começado.
Mari recuou lentamente.
Um passo.
Depois outro.
Ela manteve a bandeja equilibrada com pura concentração.
Conseguiu chegar até a metade do corredor antes que uma lágrima escapasse.
Mari limpou-a imediatamente.
Ninguém podia ver.
Ninguém além de Eleanor sabia.
Ninguém além de Eleanor acreditava nela.
E Mari já podia imaginar o que Michael diria se a pegasse chorando fora de seu escritório.
Que ela estava sendo dramática.
Que ela estava passando vergonha.
Que Sophia nunca se comportaria daquela maneira.
Mari fechou os olhos.
As palavras imaginadas doíam quase tanto quanto as que ele tinha dito de verdade.
Ela virou em direção às escadas.
A comida poderia voltar para a cozinha.
Alguém mais poderia levá-la.
Ela não conseguia.
Não agora.
Atrás dela, a porta do escritório de Michael permanecia entreaberta.
Lá dentro, ele abraçava Sophia com mais força.
Ele não sabia que Mari estivera ali.
Ele não sabia que ela o ouvira.
Ele não sabia que as promessas que estava colocando nas mãos de Sophia pertenciam à mulher que desaparecia silenciosamente pelo corredor.
E Michael Stone nunca estivera tão certo de nada em sua vida.
Sophia Galaxy era sua mate.



