O Som Do Vermelho
O vidro da montra devolvia a Dylan um reflexo que ele mal reconhecia.
O casaco de corte impecável e o estilo que todos no shopping elogiavam escondiam o cansaço de quem carregava o mundo nos ombros aos vinte e um anos.
Para Dylan Diamont, Londres não era apenas um destino de intercâmbio; era o campo de batalha onde o trabalho no shopping e os livros da faculdade travavam uma guerra constante pelo seu tempo.
O cheiro de café caro do Starbucks batia no vento, misturado com chuva miúda e perfume que não era dele.
O turno de 8 horas grudava na camisa. Dylan só queria chegar na aula antes de desmaiar de sono.
— Diamont, o turno acabou! — gritou o gerente.
Dylan nem respondeu. Apenas pegou na mochila e enrolou a fita vermelha da chave de casa entre os dedos, um amuleto nervoso que já fazia parte da sua anatomia.
Cetim frio. Nó gasto. Ele fazia isso desde os 15.
Quinze minutos. Era tudo que tinha pra atravessar a praça e chegar à King's College.
O mundo ao seu redor era um borrão de pressa até que o impacto aconteceu.
Foi um som seco.
Papel contra pedra.
O tempo, que antes corria, decidiu parar.
Dylan sentiu o corpo chocar contra algo macio, mas firme. Livros espalharam-se pelo chão como pássaros de asas partidas.
— Mas o quê...? - Dylan começou, a voz rouca pela irritação. — Vê por onde andas! Tenho horas a cumprir, sabias?
Ele baixou-se bruscamente para apanhar as suas coisas, o sangue a ferver. À sua frente, uma jovem permanecia imóvel por um segundo.
Um lenço simples envolvia-lhe a cabeça e óculos de sol escuros escondiam-lhe o olhar, mas a aura de elegância que emanava dela era impossível de ignorar.
O tempo não parou. Só ficou mais caro.
Cada segundo de silêncio entre eles custava uma vida inteira de "e se".
Dylan sentiu o cheiro dela antes de ver o rosto: lavanda com algo amargo, como se ela tomasse chá preto mesmo no verão.
— Eu? — a voz dela soou como um chicote de seda, fria e arrogante.
— Tu vens a correr como se o mundo fosse acabar e a culpa é minha? Devias ter mais cuidado com o espaço dos outros, estrangeiro.
Dylan travou.
O insulto estava na ponta da língua, mas quando se levantou e os seus olhos encontraram os dela por trás das lentes escuras, o ar pareceu faltar.
Houve um silêncio súbito, um desses momentos em que a cidade de Londres parece emudecer sob a chuva miúda.
Por dentro era guerra: Ela é linda demais pra ser real. Ela deve me odiar. Por que ela usa óculos escuros com chuva? Por que eu fico burro perto de mulher com atitude?
— Desculpa — murmurou ele, a brusquidão a dar lugar a uma timidez súbita que o irritou ainda mais.
— Eu estava com pressa.
— Nota-se — retorquiu ela, apanhando o último livro com uma dignidade que não pertencia àquele chão sujo.
Dylan não ficou para ouvir mais. Encerrou a conversa com um aceno seco e apressou o passo, sentindo o peso do olhar dela nas suas costas.
Ele não percebeu que a sua mão estava mais leve.
Não percebeu que a fita vermelha tinha ficado para trás, repousada sobre uma mancha de luz no passeio.
A jovem, Williana "Will" Cooler, ficou parada, vendo-o desaparecer na multidão.
Tinha acabado de despistar o motorista da família numa ruela perto da biblioteca; pela primeira vez em semanas, era livre.
O seu telemóvel vibrou.
— Sim, pai? Estou a chegar... perdi-me na biblioteca.
Ao desligar, o seu olhar caiu sobre um ponto vibrante no chão. Inclinou-se e os seus dedos tocaram o cetim vermelho.
Frio. Gastado. Presa à fita, uma chave. E na fita, escrita à mão, uma morada que ela conhecia por ser perto da sua zona de estudo.
Will fechou a mão na fita vermelha.
O rapaz brusco do shopping tinha acabado de lhe entregar, sem saber, a entrada para o seu mundo.
O problema era: Will não sabia se queria entrar... ou se queria trancar a porta por dentro e ficar com a chave.







