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O Inverno de Montreal

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Resumo

Sophie chega a Montreal para estudar Literatura na McGill University, deixando para trás uma vida que já não sabe se quer recuperar. Entre a arquitetura histórica da cidade, o inverno implacável e o contraste constante entre o francês e o inglês que ecoa em cada esquina, ela tenta construir algo novo - uma versão de si mesma que não carregue tanto peso. Na primeira festa do semestre, ela conhece Mathis: reservado, calculado, com um plano de vida tão rígido quanto o gelo que cobre as ruas da cidade. O que começa como uma provocação displicente na varanda de uma festa se transforma, ao longo da noite, em algo mais difícil de ignorar - olhares que duram um segundo demais, silêncios que pesam mais que palavras. Mas Montreal é pequena para dois estudantes que insistem em cruzar caminhos, e o que parecia ser apenas atração vai se complicando conforme os dois carregam feridas que não pretendiam mostrar a ninguém. Entre o frio da cidade e o calor inconveniente que cresce entre eles, Sophie e Mathis vão precisar decidir se estão dispostos a arriscar tudo o que tentam controlar - ou se vão deixar que o medo os afaste antes que algo real aconteça.

Gênero
Romance
Autor
Gabrielle
Status
Em Andamento
Capítulos
9
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 01

POV: Sophie


O ar de Montreal cortava diferente. Não era só o frio — era outubro ainda, então nem tão cru assim —, mas tinha algo na cidade que fazia Sophie sentir que estava, de verdade, em outro lugar. As placas em francês, o sotaque que trocava de idioma no meio da frase sem aviso, a arquitetura antiga misturada com prédios de vidro. Tudo parecia cenário de um filme que ela ainda não sabia se era comédia ou drama.

Ela subiu a última mala pela escada estreita do dormitório, já ofegante, quando a porta do quarto se abriu de repente e Liv apareceu no vão, os braços cruzados, séria como se estivesse prestes a brigar com alguém.

— Vinte minutos, Sophie. Vinte minutos eu te esperei parada com a porta aberta enquanto você "só ia buscar a última caixa".

— Foi o elevador! Ele quebrou bem na hora que eu ia subir.

— Aham. — Liv não pareceu convencida, mas abriu espaço, deixando ela entrar. — Da próxima vez leva o celular, eu quase desci pra chamar segurança.

Amara já estava no meio do quarto, rodeada de caixas semiabertas, um rolo de fita adesiva na mão e um sorriso enorme que parecia não caber no rosto.

— Finalmente! — ela quase gritou, deixando a fita cair pra abraçar Sophie assim que ela largou a última mala. — Eu já ia começar a decorar sem você, mas guardei a parede boa, olha.

Ela apontou pra um pedaço de parede livre, já com o contorno de um mural de fotos desenhado a lápis, todo torto e cheio de coraçõezinhos nos cantos.

— Isso vai cair no primeiro mês — Liv comentou, sem piedade, se jogando na cadeira do quarto.

— Vai não! — Amara protestou, ofendida, mas ainda sorrindo. — E se cair, a gente cola de novo. É tradição agora.

Sophie riu, se deixando cair na cama nua, olhando pro teto com aquele misto de cansaço bom e adrenalina de quem tinha atravessado o país — ou quase — pra chegar até ali. As três se conheciam desde antes de saberem o que significava "se conhecer" de verdade, e agora, contra todas as chances, estavam dividindo o mesmo quarto de dormitório na McGill, a quase seis horas de casa.

— Ainda não acredito que conseguimos ficar juntas — Amara disse, sentando no chão pra continuar organizando as caixas, animada demais pra ficar parada. — Achei que iam nos separar só pra nos ensinar independência ou algo do tipo.

— Eles tentaram — Liv resmungou. — Mandei um e-mail bem grosseiro pra secretaria até conseguirem trocar. Às vezes precisa fazer barulho.

— Você fez a secretaria inteira te odiar — Sophie brincou.

— E funcionou, não funcionou?

Sophie sorriu, mas seus olhos vagaram até a janela, pra rua estreita coberta por árvores que já começavam a perder as folhas. Lá fora, o mundo parecia maior do que ela estava acostumada — mais frio, mais estranho, mais dela mesma, de um jeito que ainda não sabia explicar.

— Vocês ouviram falar da festa hoje? — Amara perguntou, praticamente vibrando. — Parece que é numa dessas repúblicas perto do campus. Tipo tradição de início de ano, várias turmas veteranas vão!

— Óbvio que eu já tô arrumada mentalmente — Sophie respondeu, se sentando de novo, um brilho genuíno nos olhos. — Adoro festa de início de ano, é sempre a melhor. Todo mundo animado, ninguém cansado de ninguém ainda.

— Essa é a minha garota — Amara sorriu, satisfeita.

— Eu só espero que tenha uma boa playlist — Sophie continuou. — Se for aquele tipo de festa com música ruim o tempo todo, eu vou reclamar a noite inteira.

— Você reclama de qualquer jeito — Liv provocou.

— Reclamo com estilo, é diferente.

As três riram, e Amara aproveitou pra tirar o celular do bolso, abrindo a câmera sem pedir permissão, registrando o momento — as três largadas entre caixas e malas ainda fechadas, rindo de algo que nem fazia tanto sentido.

— Primeira foto do quarto — ela anunciou, mostrando a tela. — Pra lembrar que um dia isso foi só um monte de caixa antes de virar a bagunça permanente que vai se tornar.

Sophie olhou a foto por um segundo — as três ali, cansadas, felizes — e sentiu, por baixo do frio e da estranheza da cidade nova, uma pontinha de certeza: fosse o que fosse que aquele ano trouxesse, pelo menos ela não estava sozinha nisso.

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