A Chegada
POV: Sophie
O ar de Montreal cortava diferente. Não era só o frio — havia algo na cidade que me fazia sentir que eu estava, de verdade, em outro lugar. As placas em francês, o sotaque que trocava de idioma no meio da frase sem aviso, a arquitetura antiga misturada com prédios de vidro. Tudo parecia cenário de um filme melodramático.
Olhei para aquele prédio que um dia foi uma fábrica de chocolate, mas que agora fazia parte do campus da minha faculdade, a quinze minutos da McGill. Era ali que eu ia passar os meus próximos anos, e eu confesso que não conseguia parar de admirar aquele cenário.
Comecei a subir com a minha última mala pela escada estreita do dormitório, já ofegante, quando avistei a Liv na porta do apartamento, de braços cruzados, com a cara de quem já estava impaciente com a minha demora.
— Dez minutos, Sophie. Dez minutos que eu estou te esperando, e você só ia buscar a sua última mala. Meu Deus, por que tanta demora?
— Parece que o elevador quebrou, tive que subir pela escada.
— Aham. Não foi porque você ficou parada mais de cinco minutos agradecendo por estar aqui, não é? — Liv deu uma risadinha de canto, como quem tinha me visto pela janela fazendo exatamente isso.
Emma já estava no meio da sala, rodeada de caixas semiabertas, tentando imaginar como ia caber tudo aquilo dentro de um apartamento tão pequeno.
— Meninas, finalmente! — ela quase gritou, tropeçando numa das caixas ao se levantar, correndo pra nos abraçar. — Eu tenho tantas ideias pra decorar o nosso apartamento.
Ela apontou pra uma das paredes livres, já com o contorno de um mural de fotos desenhado a lápis, todo torto e cheio de coraçõezinhos nos cantos.
— Vamos fazer o nosso mural de fotos bem ali — comentou, animada.
— Só precisamos prender bem, pra não cair na nossa cabeça enquanto a gente tá no sofá — Liv brincou.
— Vai dar certo! — Emma rebateu, sem se deixar abater.
Eu só conseguia sorrir. Sentei no sofá, suspirando, olhando cada detalhe daquele lugar, com aquele misto de cansaço bom e adrenalina de quem tinha atravessado o país — ou quase — pra chegar até ali. Viver tudo isso com as minhas melhores amigas, que eu conhecia havia tanto tempo, parecia parte de um sonho antigo finalmente realizado, e melhor ainda: dividindo o mesmo apartamento.
— Ainda não acredito que conseguimos ficar juntas — Emma disse, sentando no chão pra continuar organizando as caixas, animada demais pra ficar parada. — Achei que a gente ia se separar. Achei que seria impossível.
— Eu corri com as nossas inscrições e usei uns contatos pra nos ajudar — Liv respondeu, dando de ombros como se fosse óbvio.
— Você é perfeita, amiga. Pensou em tudo — sorri, abraçando ela de canto.
Eu não conseguia parar de olhar pra janela, pra rua estreita coberta por árvores que já começavam a perder as folhas. Lá fora, o mundo parecia maior do que eu estava acostumada — mais frio, mais estranho, mais meu. Não sei explicar bem.
— Vocês ouviram falar da festa de hoje? — Emma perguntou, praticamente vibrando. — Parece que é aqui perto. É uma tradição de início de ano, várias turmas veteranas vão!
— Óbvio que eu já estou arrumada mentalmente — respondi, já pensando na roupa e nos acessórios que ia usar. — Adoro festa. Quero aproveitar cada momento da nossa vida, da nossa liberdade.
— Essa é a minha garota — Emma sorriu, satisfeita.
— Nossa promessa está de pé, né? — Liv relembrou, se levantando do sofá com uma mistura de animação e dúvida, como quem ainda testava se todas continuavam dispostas a cumprir o acordo. — Viver intensamente, sem se prender a ninguém. Pelo menos nesse primeiro ano, a gente fica solteira e livre pra fazer tudo que quiser.
— Eu só quero curtir vocês, dançar uma boa música e viver tudo que a gente puder juntas. Essa promessa está mais do que de pé — respondi, animada.
— Com toda certeza! — Emma se levantou e nos abraçou.
Nós três rimos, e Emma aproveitou pra tirar o celular do bolso, abrindo a câmera sem pedir permissão, registrando aquele momento — o começo do nosso sonho.
— Primeira foto do quarto — ela anunciou, mostrando a tela. — Pra lembrarmos que um dia isso foi só um monte de caixa, antes de virar a nossa bagunça.
Olhei pra foto por um segundo, sorri satisfeita, me senti aliviada de poder viver aquilo com elas. Eu tinha certeza de que aquele ano seria incrível.





