Capítulo 01
POV: Sophie
O ar de Montreal cortava diferente. Não era só o frio — era outubro ainda, então nem tão cru assim —, mas tinha algo na cidade que fazia Sophie sentir que estava, de verdade, em outro lugar. As placas em francês, o sotaque que trocava de idioma no meio da frase sem aviso, a arquitetura antiga misturada com prédios de vidro. Tudo parecia cenário de um filme que ela ainda não sabia se era comédia ou drama.
Ela subiu a última mala pela escada estreita do dormitório, já ofegante, quando a porta do quarto se abriu de repente e Liv apareceu no vão, os braços cruzados, séria como se estivesse prestes a brigar com alguém.
— Vinte minutos, Sophie. Vinte minutos eu te esperei parada com a porta aberta enquanto você "só ia buscar a última caixa".
— Foi o elevador! Ele quebrou bem na hora que eu ia subir.
— Aham. — Liv não pareceu convencida, mas abriu espaço, deixando ela entrar. — Da próxima vez leva o celular, eu quase desci pra chamar segurança.
Amara já estava no meio do quarto, rodeada de caixas semiabertas, um rolo de fita adesiva na mão e um sorriso enorme que parecia não caber no rosto.
— Finalmente! — ela quase gritou, deixando a fita cair pra abraçar Sophie assim que ela largou a última mala. — Eu já ia começar a decorar sem você, mas guardei a parede boa, olha.
Ela apontou pra um pedaço de parede livre, já com o contorno de um mural de fotos desenhado a lápis, todo torto e cheio de coraçõezinhos nos cantos.
— Isso vai cair no primeiro mês — Liv comentou, sem piedade, se jogando na cadeira do quarto.
— Vai não! — Amara protestou, ofendida, mas ainda sorrindo. — E se cair, a gente cola de novo. É tradição agora.
Sophie riu, se deixando cair na cama nua, olhando pro teto com aquele misto de cansaço bom e adrenalina de quem tinha atravessado o país — ou quase — pra chegar até ali. As três se conheciam desde antes de saberem o que significava "se conhecer" de verdade, e agora, contra todas as chances, estavam dividindo o mesmo quarto de dormitório na McGill, a quase seis horas de casa.
— Ainda não acredito que conseguimos ficar juntas — Amara disse, sentando no chão pra continuar organizando as caixas, animada demais pra ficar parada. — Achei que iam nos separar só pra nos ensinar independência ou algo do tipo.
— Eles tentaram — Liv resmungou. — Mandei um e-mail bem grosseiro pra secretaria até conseguirem trocar. Às vezes precisa fazer barulho.
— Você fez a secretaria inteira te odiar — Sophie brincou.
— E funcionou, não funcionou?
Sophie sorriu, mas seus olhos vagaram até a janela, pra rua estreita coberta por árvores que já começavam a perder as folhas. Lá fora, o mundo parecia maior do que ela estava acostumada — mais frio, mais estranho, mais dela mesma, de um jeito que ainda não sabia explicar.
— Vocês ouviram falar da festa hoje? — Amara perguntou, praticamente vibrando. — Parece que é numa dessas repúblicas perto do campus. Tipo tradição de início de ano, várias turmas veteranas vão!
— Óbvio que eu já tô arrumada mentalmente — Sophie respondeu, se sentando de novo, um brilho genuíno nos olhos. — Adoro festa de início de ano, é sempre a melhor. Todo mundo animado, ninguém cansado de ninguém ainda.
— Essa é a minha garota — Amara sorriu, satisfeita.
— Eu só espero que tenha uma boa playlist — Sophie continuou. — Se for aquele tipo de festa com música ruim o tempo todo, eu vou reclamar a noite inteira.
— Você reclama de qualquer jeito — Liv provocou.
— Reclamo com estilo, é diferente.
As três riram, e Amara aproveitou pra tirar o celular do bolso, abrindo a câmera sem pedir permissão, registrando o momento — as três largadas entre caixas e malas ainda fechadas, rindo de algo que nem fazia tanto sentido.
— Primeira foto do quarto — ela anunciou, mostrando a tela. — Pra lembrar que um dia isso foi só um monte de caixa antes de virar a bagunça permanente que vai se tornar.
Sophie olhou a foto por um segundo — as três ali, cansadas, felizes — e sentiu, por baixo do frio e da estranheza da cidade nova, uma pontinha de certeza: fosse o que fosse que aquele ano trouxesse, pelo menos ela não estava sozinha nisso.




