Personalizar legibilidade
Aa

Os 12 sabores da imortalidade

Resumo

Após a morte da mãe, Sabrina Vieira viaja para Seul e descobre que ela deixou muito mais do que lembranças: um caderno secreto, doze receitas ligadas aos meridianos do corpo e uma fórmula capaz de desafiar a morte. No centro desse mistério está Eric Kang, herdeiro de uma poderosa família, dono de um passado impossível e de um corpo que parou de envelhecer — mas continua sofrendo. Entre perseguições, segredos, experiências proibidas e uma atração cada vez mais difícil de resistir, Sabrina precisará completar os doze caminhos antes que o tempo de Eric termine. Mas a imortalidade nunca foi uma dádiva. E cada receita cobra um preço.

Gênero
Fantasy
Autor
Fernanda
Status
há 17 dias
Capítulos
8
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1 — O sabor do tempo

Às quatro e vinte e três da manhã, Seul ainda parecia guardar os últimos segredos da noite.

Uma chuva fina escorria pelas grandes janelas do Myeongwol, um dos restaurantes mais prestigiados da cidade. Seu nome significava Lua Brilhante, embora, naquela hora, não houvesse lua alguma no céu — apenas o reflexo das luminárias douradas sobre as mesas vazias e o movimento solitário de uma mulher na cozinha.

Sabrina apertou o avental em torno da cintura e observou os ingredientes espalhados diante dela: raiz de lótus, ginseng vermelho, jujuba seca, cogumelo songi, pera coreana e gergelim preto. No centro da bancada repousava uma pequena caixa de madeira escura, ainda fechada.

Durante o horário de funcionamento, a cozinha do Myeongwol era um organismo barulhento. Antes do amanhecer, porém, aquele espaço pertencia apenas a Sabrina. Era quando conseguia pensar e, principalmente, experimentar.

Havia seis meses, trabalhava secretamente na criação de um menu inspirado nos meridianos do corpo — canais por onde, segundo a medicina tradicional oriental, circulava a energia vital. Cada prato estimularia um meridiano específico e devolveria equilíbrio ao organismo. Mas Sabrina desejava ir além: queria criar um cardápio capaz de retardar o envelhecimento. Talvez até prolongar a vida.

A ideia era pessoal. Escondida atrás dos livros de receitas estava a fotografia de sua mãe, Helena. Após a morte dela, Sabrina encontrara um caderno preenchido com receitas, desenhos do corpo humano e anotações em português, coreano e símbolos indecifráveis. Na última página havia apenas uma frase: “Quando os doze caminhos estiverem em harmonia, o tempo perderá sua força.”

Sabrina acendeu o fogo sob uma panela de cerâmica, acrescentou caldo de ossos, algas e ervas medicinais e cortou a raiz de lótus em lâminas finíssimas.

— Meridiano do pulmão — murmurou. — Tristeza, respiração e apego ao passado.

Acrescentou pera, gengibre e óleo de folhas de pinheiro. O sabor se abriu no peito como uma janela, mas ainda faltava algo. Seus olhos voltaram-se para a caixa entregue na tarde anterior, sem remetente. Dentro havia folhas alongadas, de bordas prateadas, e um bilhete: “Para concluir o primeiro caminho.”

As nervuras de uma folha formavam o mesmo símbolo repetido no caderno de Helena. Sabrina colocou um fragmento no caldo. O líquido dourado tornou-se avermelhado, e um vapor perfumado se ergueu.

— O que eu acabei de fazer?

— Essa é uma excelente pergunta.

Um homem alto, de sobretudo preto e expressão indecifrável, estava na entrada da cozinha. Ele identificou cada ingrediente e chamou a folha de “uma erva que não deveria existir”.

— Quem é você?

— Eric Kang.

Sabrina conhecia o nome: o herdeiro do conglomerado proprietário do restaurante. Os jornais diziam que vivia no exterior ou que estava gravemente doente. Havia ainda quem jurasse que ele não envelhecia.

Eric perguntou quem enviara a erva e, ao olhar para o caderno escondido, mencionou Helena pelo nome. Antes que explicasse como a conhecera, o caldo começou a ferver sozinho.

As bolhas cresceram depressa, embora a chama permanecesse baixa. O líquido avermelhado subiu pelas laterais da panela como se respirasse. Eric cambaleou, levou a mão ao peito e caiu nos braços de Sabrina.

Ela conseguiu ampará-lo antes que sua cabeça atingisse o chão. O peso dele a fez ajoelhar-se, prendendo-o contra o próprio corpo. Eric estava gelado. A respiração, antes irregular, tornou-se tão fraca que Sabrina já não conseguia senti-la contra sua pele.

— Eric? Consegue me ouvir?

Ele não respondeu.

Sabrina tocou seu pescoço à procura da pulsação. O batimento era lento, distante, como se o coração estivesse desistindo entre um movimento e outro.

— Vou chamar uma ambulância.

Ao alcançar o celular no bolso do avental, sentiu os dedos de Eric fecharem-se em torno de seu pulso.

— Não chame ninguém — murmurou.

— Você mal consegue respirar!

— Hospital... não.

— Isto não é negociável.

Ela tentou libertar a mão, mas, mesmo quase inconsciente, ele reuniu força suficiente para detê-la.

— O caldo — disse ele, com dificuldade. — Dê-me uma colher.

Sabrina olhou para a panela, ainda fervendo sem explicação.

— Você enlouqueceu? Nem sabemos o que existe ali.

— Eu sei.

Uma contração atravessou o corpo dele. Seus olhos se fecharam, e a mão que segurava Sabrina perdeu a força.

— Eric!

Ele tornou a abrir os olhos por apenas um instante.

— Por favor.

Sabrina hesitou. Tudo em sua formação lhe dizia para chamar ajuda, afastar o alimento desconhecido e não permitir que um homem à beira de perder os sentidos ingerisse coisa alguma. Mas o pulso sob seus dedos estava desaparecendo.

Com uma das mãos ainda sustentando a cabeça dele em seu colo, Sabrina alcançou uma colher pequena. Recolheu apenas uma porção do caldo e soprou até reduzir o vapor.

— Se isso piorar seu estado, vou levá-lo ao hospital mesmo que precise arrastá-lo.

— Anotado.

A voz não passou de um sopro.

Ela aproximou a colher de seus lábios. Eric bebeu.

Nos primeiros segundos, nada aconteceu.

Então ele arqueou o corpo e inspirou profundamente, como alguém que emergia depois de permanecer tempo demais sob a água. A cor retornou lentamente ao rosto. A pulsação se fortaleceu sob os dedos de Sabrina, e o gelo de sua pele começou a ceder.

Sabrina ainda mantinha dois dedos encostados no pescoço dele. Eric abriu os olhos e a encontrou inclinada sobre seu corpo, perto o bastante para que o perfume dela se confundisse com o vapor das ervas.

— Seu coração está acelerado — murmurou ela.

— Talvez não seja a receita.

Sabrina retirou a mão depressa. O sorriso discreto que surgiu nos lábios dele a irritou mais do que deveria — sobretudo porque era bonito demais para um homem que quase morrera no chão de sua cozinha.

— Funcionou — sussurrou. — O primeiro caminho.

Sabrina exigiu respostas. Eric pegou o frasco da caixa e disse que ele pertencia à pessoa que matara Helena.

— Minha mãe morreu por causa de uma doença.

— Foi o que disseram a você.

Ao ouvir passos no corredor, Eric dirigiu-se à saída de serviço. Advertiu Sabrina para destruir o caderno e esquecer aquela noite.

— E se eu não quiser esquecer?

— Então termine o menu. Mas, quando chegar ao décimo segundo prato, não confie em ninguém.

Depois que ele partiu, o chef executivo apareceu. Sabrina escondeu o que ocorrera e tornou a abrir o caderno. Uma linha vermelha surgira no desenho do meridiano do pulmão. Abaixo da frase de Helena, havia uma nova mensagem: “O herdeiro despertou.”

Deixe Fernanda saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

1

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

0

De Suspense

Emocional

0

Emocional

Profundo

0

Profundo

Tocante

0

Tocante

Chocante

0

Chocante

Boa Escrita

0

Boa Escrita

Enredo Envolvente

0

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

0

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

0

Diálogo Forte

Outras Recomendações

Quando o Tempo Voltou

Ramon Detoni: Apesar de ser o criador essa história conta momentos que gostaria de ter mudado, mas o tempo é curto e escolhas decide o futuro e destinos.

Leia Agora
OBSESSIVO - Parte 1

Sidcleia: Gostei muito, só não gostei do pai competindo com o filho. Mas pode acontecer eu não sei. Ta legal

Leia Agora
Imparável Destino

Maria Fernanda: Há um bom tempo que estou à procura de um livro no qual a protagonista tem uma boa personalidade e senso de humor, a forma como ela consegue dizer e pensar coisas engraçadas mesmo em situações BEM complicadas é admirável. Sobre as coisas que não gostei, na verdade, eu não consigo pensar em nada, tal...

Leia Agora
Entre dois amores.

Batatas: Uma história linda,bem descrita é envolvente sem dúvidas umas das melhores histórias que e já li.

Leia Agora
Além do contrato

jazzed_zebra_782: Boa a história. Linguagem limpa, sem palavrões.

Leia Agora