Capítulo sem título 1
Capítulo 1
Retorno
Doze horas de viagem, duas escalas e três horas com uma criança chutando meu banco tinham acabado com qualquer possibilidade de retorno cinematográfico.
Quando saí na área de desembarque do LAX, eu estava com fome, o cabelo grudado na nuca e uma vontade quase dolorosa de tirar o sutiã.
Foi assim que Sophie me encontrou.
--- Meu Deus.
Parei com a mala ao lado do corpo.
--- O quê?
Ela me olhou de cima a baixo.
--- Nada. Só esperava uma entrada mais Barcelona.
--- Vai se ferrar.
Sophie abriu um sorriso e me entregou um copo de café.
--- Bem-vinda de volta.
Aceitei.
--- Isso é café?
--- Tecnicamente.
Bebi e fiz uma careta.
--- Horrível.
--- Mas é americano. Tem que respeitar a cultura local.
Eu ri.
Era bom vê-la.
Bom de um jeito meio estranho, porque fazia dez meses que eu não via Sophie fora de uma tela. Dez meses desde que ela tinha me deixado naquele mesmo aeroporto com duas malas grandes demais, minha mãe chorando e Ben dizendo que eu ia voltar com um namorado espanhol chamado Javier.
Não voltei com Javier.
Voltei com seis quilos a mais de bagagem, um vocabulário indecente em espanhol e saudade de uma garota argentina que conheci numa aula de projeto em Barcelona.
Meu celular vibrou assim que tirei do modo avião.
Mãe.
Mãe.
Grupo da família.
Ben.
Gabriela.
Abri o de Gabriela primeiro.
Um áudio de quatro minutos e vinte e sete segundos.
--- Ela chorou --- falei.
Sophie pegou a alça da minha mala.
--- A Gabriela?
--- Jurou que não ia.
--- Então obviamente chorou.
--- Quatro minutos.
--- Isso nem é choro. É podcast.
Sorri enquanto guardava o celular.
Gabriela provavelmente tinha começado o áudio me xingando por ter ido embora e terminado fazendo algum plano completamente impossível para aparecer em Los Angeles em duas semanas.
Eu ouviria no carro.
Ou depois do banho.
Definitivamente depois de comer.
Meu estômago roncou.
Sophie olhou para mim.
--- Isso foi você?
--- Não.
--- Mia.
--- Estou há horas sobrevivendo de amendoim.
--- Você não comeu no avião?
--- Tinha uma coisa que eles chamaram de massa.
--- Entendi.
Ela começou a andar, puxando minha mala.
--- Anda. Tenho sanduíche no carro.
--- Eu te amo.
--- Eu sei.
Do lado de fora, o calor bateu na minha cara.
Parei por meio segundo.
Barcelona tinha calor. Claro que tinha.
Mas aquele calor era diferente.
Los Angeles tinha cheiro de asfalto, carro, protetor solar e alguma coisa que meu cérebro reconheceu antes de mim.
Casa.
Não pensei muito nisso.
Estava cansada demais para transformar meu retorno numa experiência emocional.
--- Ben já enlouqueceu? --- perguntei.
--- Desde as seis da manhã.
--- Normal.
--- Mandou “HOJE” no grupo.
--- Em maiúsculas?
--- Existe outro Ben?
Não.
Esse era exatamente o meu irmão.
Entramos no estacionamento.
O carro da Sophie ainda tinha o adesivo velho da UCLA no para-choque, com uma ponta levantada.
--- Você ainda não tirou isso?
--- É vintage.
--- Está descascando.
--- Vintage.
Joguei a bolsa no banco de trás.
O carro também continuava cheirando a protetor solar velho.
Algumas coisas realmente se recusavam a mudar.
Sophie entrou na 405 e eu finalmente abri o sanduíche.
--- Devagar --- ela disse.
--- Não fala comigo.
--- Você vai engasgar.
--- Sophie.
Ela levantou uma mão.
--- Certo. Morra.
Dei uma mordida enorme.
Melhor coisa que eu tinha comido na vida.
Provavelmente não era verdade, mas naquele momento era.
--- A estreia é que horas mesmo?
Sophie virou a cabeça bem devagar.
--- Você é irmã de um jogador da UCLA.
--- Eu acabei de atravessar um oceano.
--- Isso não responde à acusação.
--- Que horas?
--- Sete e meia.
Olhei o relógio do carro.
--- Dá tempo.
--- Dá tempo se você tomar um banho de pessoa normal.
--- Eu tomo banho de pessoa normal.
Ela riu.
--- Você faz tratamento capilar.
--- Isso não faz parte do banho.
--- Mia.
--- Não faz.
Ficamos alguns segundos ouvindo o rádio.
Westwood começou a surgir aos poucos pela janela e foi esquisito perceber que eu ainda sabia exatamente onde olhar.
A esquina onde Ben quase bateu o carro aos dezessete.
A cafeteria em que Sophie e eu passamos metade do primeiro ano reclamando de professores.
Uma calçada que eu tinha atravessado milhares de vezes sem pensar.
Nada parecia importante antes de eu ir embora.
Agora meu cérebro estava catalogando tudo.
--- Ah --- Sophie disse.
Conhecia aquele “ah”.
Continuei olhando pela janela.
--- O quê?
--- Nate perguntou quando você voltava.
Mastiguei.
Engoli.
--- Quando?
--- Semana passada.
--- Podia ter perguntado pra mim.
--- Podia.
Olhei para ela.
Sophie estava muito ocupada olhando a pista.
--- Para com essa cara.
--- Que cara?
--- Essa.
--- Estou dirigindo.
--- Exatamente.
Ela sorriu.
--- Eu só falei que ele perguntou.
--- E eu só falei que ele tinha meu número.
Tinha mesmo.
Nate tinha meu número havia anos.
Às vezes mandava parabéns.
Às vezes respondia alguma coisa no grupo.
Uma vez tinha me mandado uma foto de Ben dormindo com a boca aberta num ônibus do time e escrito apenas: “Seu gêmeo.”
Não éramos estranhos.
Também não éramos exatamente amigos separados do Ben.
Nate fazia parte da casa.
Dos churrascos.
Dos domingos.
Dos aniversários.
Das brigas idiotas.
Eu sabia como ele tomava café e ele sabia que eu odiava ketchup.
Era justamente por isso que tudo ficava um pouco inconveniente.
Porque Nate também era bonito.
Sempre tinha sido.
Não precisei viajar para Barcelona para descobrir que Nathaniel Callahan tinha ombros largos, um sorriso irritante e olhos que ficavam quase cinza quando ele estava cansado.
Eu só tinha muita prática em fingir que isso não significava nada.
--- Ele continua capitão? --- perguntei.
Sophie riu.
--- Mudança de assunto muito sutil.
--- Estou perguntando do time.
--- Continua. E aparentemente é o capitão perfeito. Responsável. Equilibrado. Um exemplo para a juventude americana.
--- Nate?
--- Pois é.
Eu ri.
Nate era responsável.
Isso era verdade.
Exemplo para a juventude americana já parecia exagero.
--- Ben deve odiar.
--- Ben diz que a imprensa está sendo enganada.
--- Também parece correto.
Sophie mudou de faixa.
--- Seu irmão está bem, aliás.
--- Eu sei.
--- Falo do futebol.
Assenti.
Eu tinha acompanhado.
Vídeos, mensagens, chamada, transmissão quando conseguia.
Ben era meu gêmeo. Dez meses do outro lado do oceano não mudavam isso.
Mas tinha coisas que eu sabia que ele não contava por telefone.
Eu também não contava tudo.
Talvez fosse normal.
Talvez a gente descobrisse agora.
Quando chegamos em casa, minha mãe ainda estava trabalhando, então fui recebida por uma cozinha vazia e a mensagem dela dizendo que chegaria antes de sairmos para o estádio.
Subi com a mala.
Meu quarto estava igual.
Quase.
Tinha uma caixa do Ben em cima da minha cadeira.
Abri.
Cabos.
Um controle de videogame.
Duas camisetas.
--- Filho da mãe.
Peguei o celular e mandei:
MIA: TIRA SUAS COISAS DO MEU QUARTO
Ele respondeu antes de eu chegar ao banheiro.
BEN: BEM-VINDA ❤️\ BEN: HOJE\ MIA: EU VI\ BEN: 11\ MIA: EU SEI SEU NÚMERO, BEN\ BEN: só conferindo
Sorri sozinha.
Idiota.
Tomei banho rápido de verdade, com o cabelo preso para não cair na armadilha do tratamento capilar que Sophie tinha previsto.
Depois vesti jeans, tênis e uma camiseta da UCLA.
Olhei para a camiseta azul com o 11 que estava dobrada na gaveta.
Claro que estava ali.
Ben tinha deixado antes de eu viajar.
Peguei.
Quando desci, Sophie já estava perto da porta.
Ela olhou para o número.
--- Ah, ele vai ficar insuportável.
--- Já está.
--- Justo.
Minha mãe chegou cinco minutos depois, me esmagou num abraço, reclamou que eu estava magra apesar de eu definitivamente não estar e tentou convencer a gente a comer mais antes de sair.
Tudo normal.
Tudo tão normal que minha garganta apertou por um segundo.
Ignorei.
No carro, Gabriela mandou outra mensagem.
GABI: já me odeia menos por ter chorado?
Respondi:
EU: não\ EU: cheguei viva\ EU: indo ver o ben jogar\ GABI: manda foto do capitão gostoso
Fiquei olhando para a tela.
Depois digitei:
EU: qual deles?
Três pontinhos apareceram imediatamente.
--- Por que você está rindo? --- Sophie perguntou.
Bloqueei o celular.
--- Gabriela.
--- Eu gosto dela.
--- Você nem conhece ela.
--- Já gosto.
Quando chegamos perto do estádio, o trânsito engrossou, as pessoas começaram a aparecer com camisas da UCLA e meu cansaço diminuiu um pouco.
Luzes.
Música.
Gente gritando.
Aquela energia idiota que sempre me fazia nervosa mesmo quando eu não tinha nada a ver com o jogo.
Sophie estacionou.
Saí do carro e ajeitei a camiseta 11.
--- Preparada? --- ela perguntou.
Olhei para o estádio.
Ben estava lá dentro.
Nate também.
Dez meses pareciam muito menos quando eu podia atravessar um estacionamento e encontrar os dois.
--- Agora estou.
E dessa vez era verdade.