Capítulo 1
Elara Voss corria há tempo suficiente para que a floresta deixasse de ser um lugar e se tornasse um castigo.
Galhos arranhavam seu casaco. Folhas molhadas deslizavam sob suas botas. Cada respiração rasgava sua garganta, e o frio se instalara tão fundo sob sua pele que ela já não sabia dizer se tremia pela noite ou pelo medo.
Atrás dela, um cachorro latiu.
Não estava perto.
Mas não estava longe o suficiente.
Elara tropeçou em uma raiz, apoiou-se no tronco de um pinheiro e forçou as pernas a continuarem se movendo.
“Espalhem-se!”, um homem gritou em algum lugar entre as árvores. “Ela não pode ter ido longe.”
Outra voz respondeu, abafada pela chuva e pela distância: “Malrec a quer viva.”
Uma pausa.
Então, mais claro:
“Não machuquem as mãos dela.”
O estômago de Elara deu um nó.
Suas mãos.
Sempre as mãos.
Ela as fechou em punhos enquanto corria, sentindo as unhas cravarem nas palmas. Por vinte e três anos, sua mãe a ensinara a escondê-las quando coisas estranhas aconteciam. Esconda suas mãos. Controle sua respiração. Conte de dez para trás. Nunca deixe ninguém ver o que você é.
Sua mãe morrera há três anos.
As regras permaneceram.
O feixe de uma lanterna cortou a escuridão atrás dela.
Elara se abaixou por instinto. A luz passou pelo tronco onde sua cabeça estivera um segundo antes.
“Ali!”
Ela correu mais rápido.
Uma dor aguda surgiu em seu tornozelo esquerdo. Ela a ignorou.
Os homens que a perseguiam não pareciam cansados. Isso a assustava mais do que os cachorros. Eles a perseguiam desde a capela em ruínas perto de Hawthorne, desde que o estranho de casaco cinza a olhara através de uma fileira de bancos quebrados e a chamara por um nome que ninguém ali deveria conhecer.
Elara Voss.
Não Srta. Voss.
Não a garota da farmácia.
Não a mulher quieta que mantinha as cortinas fechadas nas noites de luar e nunca ficava muito tempo nas festas.
Elara Voss.
Como se ele estivesse esperando por ela.
Como se tivesse encontrado algo que lhe pertencia.
Um galho quebrou atrás dela.
Perto demais.
Ela girou.
Um homem surgiu entre duas árvores, de ombros largos, capuz caído, a chuva brilhando em sua cabeça raspada. Ele não portava arma. Apenas uma lâmina estreita cinza-prateada e um cordão de couro enrolado em um pulso.
“Pare”, ele disse.
Elara recuou.
“Eu disse para parar.”
“Eu ouvi você.”
A boca dele se contraiu. “Então seja sensata.”
“Você perseguiu a mulher errada se esperava sensatez.”
Ele avançou.
Elara levantou as duas mãos.
O mundo respondeu.
Tudo aconteceu rápido demais.
Em um momento, havia apenas terror. No seguinte, o chão sob as botas do homem convulsionou.
Raízes rasgaram o solo negro com um som como de ossos se partindo. Elas envolveram o tornozelo dele e puxaram. Ele atingiu o chão com força suficiente para perder o fôlego.
Elara ficou estática.
Ele também.
Por um momento, nenhum dos dois se moveu.
Uma luz verde-dourada tênue cintilou sob a pele de suas palmas.
Não.
A voz de sua mãe surgiu em sua memória com uma clareza impiedosa.
Nunca deixe que eles vejam.
A expressão do homem mudou.
Não era surpresa.
Era reconhecimento.
“Moon-blood”, ele sussurrou.
O coração de Elara parou.
Ela não sabia o que aquelas palavras significavam.
Mas sabia que nunca as tinha ouvido antes.
As raízes apertaram a perna dele.
Ele sorriu.
Isso foi pior do que se ele tivesse gritado.
“Malrec estava certo.”
Elara soltou a magia como se estivesse se queimando.
As raízes caíram.
Ela se virou e correu.
O homem gritou atrás dela. Outros responderam.
Agora eles sabiam.
A floresta parecia se fechar ao seu redor. Agulhas de pinheiro açoitavam seu rosto. A chuva se acumulava em seus cílios. Seu pulso batia na base de seu crânio.
Ela podia sentir a magia sob sua pele, inquieta e quente apesar do frio. Estava assim há meses, ficando cada vez mais difícil de suprimir. Velas chamejavam quando ela estava com raiva. Hera subia pelas paredes quando ela não conseguia dormir. Uma vez, depois de acordar de um pesadelo, ela encontrou flores de gelo cobrindo todas as janelas de seu apartamento, mesmo sendo junho.
Ela dizia a si mesma que o luto faz coisas estranhas com a mente.
Há muito tempo ela deixara de acreditar nessa mentira.
Outro cachorro latiu.
Elara desviou descendo a colina.
As árvores mudaram.
No início, ela não notou como.
Então, a vegetação rasteira diminuiu. Os pinheiros tornaram-se mais velhos, seus troncos tão grossos que três pessoas de mãos dadas não conseguiriam abraçá-los. Líquen pálido cobria pedras semienterradas sob o musgo.
E a floresta ficou em silêncio.
Sem insetos.
Sem corujas.
Sem cachorros.
Elara diminuiu a velocidade.
Seus pulmões ardiam.
Uma pedra estava diante dela.
Era mais alta que sua cintura, preta com a chuva, com sua superfície esculpida com a forma da cabeça de um lobo sob uma lua crescente.
Ela parou tão bruscamente que seu tornozelo ferido quase cedeu.
Por um segundo terrível, alívio e horror chegaram juntos.
Ela conhecia aquele símbolo.
Todos os criados perto das florestas do norte o conheciam.
Pais contavam histórias sobre ele quando as crianças se afastavam demais das estradas. Caçadores evitavam árvores marcadas com ele. Trilheiros riam de velhas superstições até que seus celulares perdiam o sinal e as trilhas começavam a levá-los em círculos.
Blackthorn.
O território tinha uma dúzia de nomes nas histórias humanas.
A Madeira Morta.
Terra de Lobos.
O lugar onde as pessoas desapareciam.
Sua mãe usara apenas um.
Proibido.
Elara tocou a escultura molhada com as pontas de dois dedos.
Uma memória se abriu dentro dela.
Ela tinha nove anos, sentada de pernas cruzadas no chão da cozinha enquanto a chuva batia nas janelas. Sua mãe, Mara, ajoelhada à sua frente com uma tigela de sal entre elas.
“Existem lugares onde você nunca deve ir”, ela dissera.
“Porque são perigosos?”
“Porque um ódio antigo é mais perigoso do que dentes.”
Então Mara desenhara um lobo sob uma lua crescente no sal.
“Se você vir esta marca, dê meia-volta.”
“Por quê?”
O rosto de sua mãe ficou imóvel.
“Porque nenhuma bruxa cruza as terras de Blackthorn e continua viva.”
Elara tirou a mão da pedra.
Vozes soavam por entre as árvores atrás dela.
“Ela está perdendo velocidade!”
“Fechem o lado oeste!”
Os cães haviam parado de latir.
Seus condutores, não.
Elara olhou para além do marco.
Nada parecia ter mudado. A mesma floresta se estendia à frente, escura e encharcada de chuva.
Mas ela sentiu.
Uma pressão roçou sua pele como dedos invisíveis.
Uma barreira.
Magia.
Antiga e vigilante.
Atrás dela, uma luz branca se movia entre as árvores.
“Ela não vai cruzar”, disse alguém.
Uma risada ecoou.
“Nem as bruxas são tão estúpidas.”
Elara olhou para a pedra novamente.
Então, para os homens que vinham para capturá-la viva.
Seu medo se transformou em algo mais frio.
“É o que vamos ver”, sussurrou.
Ela deu um passo adiante.
A barreira passou por ela como um relâmpago de inverno.
Sua respiração falhou.
Por um instante, cada nervo de seu corpo pareceu despertar. O poder inquieto dentro dela avançou em direção à linha invisível, como se reconhecesse algo do outro lado.
Então, a sensação desapareceu.
Elara cambaleou para frente.
Atrás dela, a perseguição parou.
Completamente.
Ela se virou.
Os feixes das lanternas pairavam a alguns metros além do marco.
Ninguém cruzou.
O homem de cabeça raspada que ela prendera com raízes apareceu entre outros dois. Suas calças estavam rasgadas no tornozelo. Sangue escorria por sua canela.
Ele encarava Elara do lado humano da barreira.
Ela esperava raiva.
Em vez disso, ele parecia quase divertido.
“Você facilitou as coisas”, ele gritou.
A pele de Elara arrepiou.
“Para quem?”
O sorriso dele se alargou.
“Você vai ver.”
Ele levou dois dedos à testa em uma saudação irônica.
Então, ele e os outros desapareceram entre as árvores.
Elara ficou imóvel.
A chuva escorria de seu cabelo para o queixo.
Seu alívio durou três segundos.
O primeiro rosnado veio da sua esquerda.
Baixo.
Profundo.
Perto o suficiente para sentir nas costelas.
Elara se virou lentamente.
Dois olhos âmbar a observavam por entre as árvores.
Então, outro par apareceu mais atrás.
E outro.
Sete pares de olhos.
Não.
Oito.
Um lobo cinzento gigantesco surgiu no descampado.
Elara tinha visto lobos em parques de vida selvagem quando criança. Criaturas esguias e belas que andavam de um lado para o outro atrás de cercas, enquanto turistas pressionavam câmeras contra o vidro.
Aquilo não era nada disso.
Os ombros do animal chegavam quase à altura de suas costelas. A chuva escurecia sua pelagem. Sua cabeça era larga, suas patas enormes, e cada movimento continha uma inteligência que tornava a palavra animal perigosamente insuficiente.
Um lobo negro emergiu ao lado dele.
Depois, um marrom.
Eles formaram um semicírculo.
Elara recuou.
Seu calcanhar tocou a pedra da barreira.
Atrás dela esperavam homens que queriam suas mãos.
À frente esperavam lobos que matavam bruxas.
“Perfeito”, ela murmurou.
O lobo cinzento mostrou os dentes.
A magia brilhou sob as palmas de Elara.
Ela as fechou com força.
Não.
Se as histórias fossem verdadeiras, mostrar a eles o que ela era só tornaria tudo pior.
Um lobo escuro menor se moveu para frente.
Seu corpo estremeceu.
Elara esqueceu-se de respirar.
Os ossos se moveram sob a pelagem com uma série de estalos suaves. O animal se ergueu, mudou, se transformou. O pelo recuou. Os membros se alongaram. Em segundos, um homem nu estava agachado onde o lobo estivera.
Ele se endireitou sem qualquer constrangimento.
Elara encarou seu rosto porque qualquer outra opção parecia indelicada.
Ele era jovem, talvez uns vinte e cinco anos, com o cabelo curto e a chuva escorrendo por seus ombros.
Suas narinas se dilataram.
Sua expressão endureceu.
“Bruxa.”
Os lobos reagiram instantaneamente.
Rosnados ecoaram pela clareira.
Pelo visto, não adiantou esconder.
Elara ergueu o queixo.
“Aparentemente, todos estão muito observadores esta noite.”
Os olhos do homem brilharam com um tom dourado não natural.
“Você cruzou o território Blackthorn.”
“Notei isso.”
“Então você sabe o que acontece a seguir.”
Seu coração martelava.
“Tenho direito a um tour antes?”
Ninguém riu.
Ela não esperava realmente que rissem.
O rapaz retraiu os lábios, expondo os dentes.
O lobo cinzento deu um passo à frente.
A magia de Elara saltou em resposta.
As folhas secas ao redor de suas botas começaram a tremer.
Uma faísca vermelha cintilou entre seus dedos.
Os lobos se abaixaram.
Prontos.
Elara fez o mesmo.
Ela não fazia ideia do que pretendia fazer. Raízes haviam parado um humano. Oito lobisomens eram um problema diferente.
O lobo cinzento saltou.
“Chega.”
A palavra foi calma.
O lobo parou no meio do salto tão abruptamente que suas garras abriram sulcos na lama.
Todas as cabeças se viraram.
Elara também.
Um homem saiu da floresta.
Ele não tinha pressa.
Ele não precisava.
A clareira mudou ao redor dele.
Essa era a única forma que Elara conseguia descrever. Os lobos se afastaram antes que ele os alcançasse. O rapaz nu baixou o olhar. Até o ar pareceu ficar mais denso.
O estranho vestia calças pretas, botas pesadas e uma camisa escura com as mangas dobradas até os antebraços, apesar da chuva. Sem casaco. Sem arma visível.
Ele era alto e de ombros largos, mas não era o seu tamanho que fazia os instintos de Elara gritarem.
Era a quietude.
Ele parecia um homem que nunca precisou provar que era perigoso.
Cabelos escuros caíam úmidos sobre sua testa. Uma cicatriz pálida cortava uma das sobrancelhas. Seu rosto poderia ser bonito, se houvesse qualquer coisa acolhedora nele.
Não havia.
Os olhos dele se fixaram em Elara.
Não eram âmbar.
Eram quase pretos.
Por um segundo, ela esqueceu o frio.
Alfa.
Ela não sabia como sabia disso.
Talvez porque todos os outros soubessem.
Os lobos baixaram a cabeça.
O jovem disse: "Alfa. Ela atravessou a fronteira oeste."
O olhar do estranho não deixou Elara.
"Eu posso ver isso."
Sua voz era baixa e controlada.
Ele deu um passo à frente.
A magia de Elara reagiu imediatamente.
Não violentamente.
De um jeito diferente.
O calor em suas palmas desapareceu.
Uma atração estranha surgiu sob suas costelas, fraca como o primeiro puxão da maré.
Então, desapareceu.
O Alfa parou a alguns metros de distância.
Suas narinas dilataram.
Algo se moveu por trás de seus olhos.
Elara agarrou a ponta do casaco.
Ele a olhou como se vê-la tivesse mudado um cálculo que ele já tinha terminado.
"Você sabe onde está?", perguntou ele.
"Infelizmente."
"Então você conhece a lei."
"Ouvi dizer que a hospitalidade aqui é horrível."
Um dos lobos fez um som que poderia ter sido uma risada contida.
O Alfa não sorriu.
"Quem estava seguindo você?"
O olhar de Elara se voltou para as árvores atrás dela.
"Homens."
"Eu imaginei."
"Parabéns."
O guarda transformado se mexeu inquieto.
A expressão do Alfa permaneceu indecifrável.
"Nomes."
"Não tenho nenhum."
"Por que eles estavam atrás de você?"
Elara pensou no cordão de couro, na lâmina cinza, na ordem para não machucar suas mãos.
"Pergunte a eles."
"Eles não cruzaram a fronteira."
"Talvez eles sejam mais inteligentes do que eu."
"Isso ainda está para ser visto."
Ele deu mais um passo à frente.
Cada nervo no corpo de Elara ficou tenso.
Os olhos dele mudaram.
Aconteceu tão rápido que ela quase achou que tinha imaginado: íris pretas brilhando como ouro derretido.
Ele inspirou.
O músculo de seu maxilar travou.
"Você é uma bruxa."
"Você é observador."
Desta vez, alguém definitivamente tossiu para esconder uma risada.
O olhar do Alfa desceu para as mãos dela.
Elara se sentiu exposta.
"Que tipo?"
"O tipo inconveniente."
"Não existem bruxas convenientes."
As palavras foram secas, mas carregavam uma história.
Ódio.
Não um ódio abstrato. Pessoal.
Elara reconheceu, pois vira seus primos menos intensos nos rostos humanos por toda a vida: suspeita de tudo que não podia ser explicado, medo envolto em regras.
"Então suponho que esta conversa terminou", disse ela.
"Ainda não."
O lobo cinza rosnou novamente.
O Alfa virou a cabeça levemente.
O som parou.
Quando ele olhou de volta para Elara, algo dentro dele pareceu se quebrar.
KAEL
Kael Thorne passou vinte e nove anos confiando em seu lobo.
Ele o avisara antes de emboscadas.
O guiara por tempestades.
Reconhecera mentiras no cheiro do medo.
Ele nunca tinha falado com ele com uma palavra humana.
Nem uma vez.
Até agora.
Companheira.
Kael ficou perfeitamente imóvel.
Não.
A palavra o atingiu com a força de uma lâmina.
Seu lobo surgiu sob sua pele, violento com a certeza.
Companheira.
A bruxa estava parada à sua frente, encharcada pela chuva, exausta, com lama riscando uma bochecha e uma mão sangrando onde suas próprias unhas tinham cortado sua palma.
Uma bruxa.
Sua companheira.
Impossível.
O universo não poderia ser tão cruel.
Sua mãe morrera com fogo de bruxa queimado em seu peito.
Ele tinha dezesseis anos quando a levaram para casa envolta em um cobertor cinza, porque não restara vestido suficiente para cobrir o corpo.
Ele construiu sua vida sobre uma única certeza desde aquela noite.
Bruxas trazem ruína.
Seu lobo não se importava.
Proteger.
A atenção de Kael mudou para Garrick, o lobo cinza, enquanto o macho deslocava seu peso em direção à mulher.
Perto demais.
Um rosnado saiu da garganta de Kael antes que ele pudesse impedi-lo.
Cada membro da patrulha congelou.
Os olhos da bruxa se arregalaram.
Verdes, Kael notou.
Verdes com um anel âmbar ao redor das pupilas.
Ele odiou ter notado.
"Alfa?", perguntou um dos guardas com cautela.
Kael olhou para a mulher novamente.
Ela devolveu o olhar com medo evidente e uma rebeldia quase insultante.
Não havia reconhecimento no cheiro dela.
Nenhuma atração correspondente.
Nada.
Se ela fosse sua companheira, deveria sentir algo.
Ela não sentia.
Seu lobo rosnou dentro dele.
Companheira.
Garrick deu um passo à frente novamente.
O corpo de Kael se moveu antes de qualquer pensamento.
Ele se colocou entre o lobo e a bruxa.
O silêncio caiu.
A patrulha encarava.
A mulher encarava.
Kael ouviu sua própria voz, mais fria que a chuva.
"Ninguém encosta nela."
E, pela primeira vez desde que se tornou Alfa de Blackthorn, ele não fazia ideia de qual seria sua próxima ordem.




God! An epic beginning!!!