Capítulo 1
LENORA
Por Antero De Vian (Pseudônimo)
São Paulo – Brasil - 2026
I
Lenora percebeu que alguma coisa estava errada porque estava quase satisfeita, e “quase” começava a ganhar um peso de “não”.
Ficou algum tempo sentada na beira da cama, ainda nua, sentindo sob os pés o chão frio do apartamento, tentando decidir se tinha mesmo pensado aquilo ou se era apenas uma dessas frases dramáticas que aparecem quando ninguém está olhando.
O homem no banheiro era bonito. Beijava bem, cheirava bem, tinha sido gentil antes, durante e depois, transou direitinho, preocupou-se em fazê-la gozar, pau bom, duração ok e, aparentemente, possuía a qualidade rara de saber a hora de calar a boca.
Não havia promessa pendurada sobre a cama; nenhuma namorada conhecida, nenhum constrangimento que precisasse ser resolvido pela manhã. Era exatamente o tipo de encontro que Lenora aprendera a considerar bem-sucedido.
Do banheiro veio o barulho da descarga.
Ela se levantou.
O quarto estava abafado. Abriu um pouco a janela e deixou entrar aquela mistura característica de madrugada paulistana: ar frio, ônibus distante, algum barulho de escapamento de moto, cidade.
Pegou a calcinha do chão e a vestiu.
O sujeito apareceu na porta secando as mãos na camiseta.
— Tem toalha?
— Atrás da porta.
— Não vi...
— Porque você usou a camiseta.
Ele olhou para as próprias mãos e sorriu.
— É.
Lenora também sorriu.
Gostava dele justamente naquele instante. Não o suficiente para querer vê-lo na terça-feira seguinte, mas gostava.
— Quer água?
— Quero.
Foi até a cozinha sem se preocupar em colocar mais nada. Ele a acompanhou alguns segundos e sentou-se à mesa enquanto ela enchia dois copos no filtro.
— Você mora aqui faz tempo?
— Um ano e pouco.
— Legal.
— É.
Entregou-lhe o copo.
O apartamento ainda tinha lugares que pareciam provisórios. Uma caixa de livros continuava fechada embaixo de uma cadeira desde a mudança. Havia dois quadros encostados na parede porque Lenora nunca decidira onde pendurá-los. Na cozinha, entretanto, tudo tinha lugar. Gostava da cozinha, não necessariamente de cozinhar, apesar de fazê-lo; logo, aquela parte da casa tinha sido resolvida primeiro.
Ele tomou a água inteira.
— Acho que vou indo...
— Tá.
Nenhum dos dois fez aquela pequena peça social em que alguém diz “já?”, esperando que a resposta seja “posso ficar”.
O homem terminou de se vestir. Lenora foi até a porta com ele.
Beijaram-se outra vez. Bom beijo.
— A gente se fala.
— Se fala.
Fechou a porta.
Ficou olhando para a madeira durante dois segundos.
Depois trancou.
Era isso.
Não havia tristeza. Não havia arrependimento. Não havia sequer vazio, e talvez fosse justamente isso que começasse a incomodá-la.
Havia vontade.
Ainda.
Lenora olhou para o corredor que levava ao quarto.
— Ah, vai tomar no cu, Lenora!
Falou sozinha.
Ao invés... Foi tomar banho.
A água demorou alguns segundos para aquecer, ela esperou fora do jato com os braços cruzados sobre o peito. Quando finalmente entrou, encostou a testa nos azulejos e deixou a água correr pela nuca, escorrer pela linha da coluna, passar entre as nádegas, fazer a curva até a frente, onde encontrou seus dedos circulando a maciez da carne dos lábios, expondo e escondendo seu clitóris, apertando, soltando, depois descendo e entrando pela passagem palpitante entre as pernas.
Repetiu, acelerou, variou, experimentando o calor da água e o do próprio corpo juntos, até que as coxas, tremendo, começaram a bater uma contra a outra e cada poro, cada pelo, sentiu as minúsculas descargas elétricas que subiram da pelve até seus olhos, que fecharam quando a cabeça foi para trás e o rosto se expôs à precipitação e ao vapor quente que vinham do chuveiro com a certeza: agora estava satisfeita.
Recompôs-se, enrolou-se na toalha e olhou para seu relógio sobre a pia.
“Sábado... Não, domingo!”
Duas e quarenta e sete.
Às vezes, a vida dela parecia organizada demais para alguém que vivia daquele jeito.
Trabalhava diligentemente. Pagava as contas. Ligava para os pais. Não usava drogas. Não faltava porque estava de ressaca. Fazia mercado. Sabia exatamente quanto tinha na conta corrente e quanto precisava deixar quieto até o próximo salário.
E transava.
Muito.
O problema era que, nos últimos meses, isso começara a parecer mais e mais com uma atividade administrativa.
Pensar.
Escolher.
Conseguir.
Ir.
Fazer.
Voltar.
Repetir.
Não era por falta de prazer, era justo o contrário: tinha demais, mas gostava demais.
Só não sabia mais exatamente por quê e isso sim a assustava.
Mais nova, ela achava que pessoas sexualmente livres eram aquelas que transavam com quem quisessem.
Agora começava a suspeitar de que a liberdade talvez fosse justamente conseguir não transar com alguém que quisesse.
A descoberta a irritava.
“Algumas coisas deveriam permanecer simples.”
Seu pai provavelmente teria uma frase sobre aquilo. Ele tinha frases sobre quase tudo. Algumas boas; outras, apenas uma maneira professoral de um cara inteligente transformar opinião em sentença universal.
A mãe olharia por cima dos óculos e perguntaria se ela estava precisando de alguma ajuda.
Estava.
Pensar nos dois fez com que sorrisse.
O espelho estava inteiramente coberto de vapor. Lenora passou a mão e abriu um pequeno círculo.
O próprio rosto apareceu.
Cabelo encaracolado, volumoso e escuro molhado, olhos verdes, claros demais naquela pele, nariz que na adolescência considerara grande e que depois aprendera a achar bonito, boca inchada de beijo.
Vinte e cinco anos.
Deduziu que não parecia uma pessoa em perigo.
Isso era parte do problema.
Lenora aproximou o rosto do espelho.
— O que cê tá fazendo!?
A mulher no vidro não respondeu.
— Boa conversa...
No quarto, a cama ainda carregava o cheiro dos dois. Lenora sentiu o corpo engatar novamente a primeira marcha e reagir antes do pensamento, e ficou parada.
Aquilo a sobressaltou.
Não o desejo.
O automatismo.
Vestiu uma camiseta larga, abriu a gaveta procurando um short e encontrou uma calcinha bege enorme que a mãe provavelmente teria considerado adequada a uma internação hospitalar.
Olhou para ela.
“Perfeita.”
Vestiu-a.
Foi para a sala.
Tinha sono, mas não queria dormir.
Abriu a geladeira, encontrou uma caixa de leite condensado começada, levantou a pequena aba de papelão e bebeu um gole diretamente dali.
Fechou.
Pensou.
Abriu novamente.
Mais um.
— Chega.
Sentou-se no sofá.
A televisão estava desligada. Preferiu assim.
Durante algum tempo, apenas ouviu o ronco de São Paulo existir atrás da janela.
Foi então que Pedro Barreto apareceu.
Não fisicamente.
Pedro havia saído da vida dela fazia anos e possuía a boa educação de continuar fora.
Mas apareceu naquela forma irritante que certas pessoas assumem depois de muito tempo: não como memória inteira, mas como uma pergunta.
Lenora puxou os joelhos para perto.
Ele teria ficado.
Claro que teria.
Essa era uma das coisas que a enfureciam nele quando estavam juntos. Pedro sempre ficava.
Ficava depois do sexo.
Ficava depois da briga.
Ficava quando ela estava chata.
Ficava quando não havia absolutamente nada para acontecer.
E Lenora, com vinte anos, não soube o que fazer com um homem que ficava.
Gostava dele.
Isso era verdade.
Muito mais verdade do que a versão imediatamente posterior, conveniente, em que tentara reduzir Pedro Barreto a uma espécie de erro de juventude. Mas não agora.
Ele era bonito e gostoso. Engraçado quando relaxava. Tinha mãos grandes, e uma educação que não parecia ensaiada. Não era burro, não era preguiçoso, não era cruel.
Só não fazia o coração dela parecer querer fugir do peito ou de alguma coisa, mas, lá atrás, ela não teria sabido como dizer isso.
Então fez pior.
“Renan.”
Ela fez uma careta.
— Nossa...
O tom já continha vergonha suficiente.
Renan foi uma merda.
Nem como pecado serviu direito.
Era amigo de infância de Pedro, o que tornava tudo muito mais grave e, portanto, muito mais eficiente. Lenora precisava terminar uma relação e não tinha competência emocional para simplesmente fazê-lo.
Criou uma explosão.
Renan serviu como dinamite.
Duas ou três vezes.
Sexo ruim, conversa pior, uma intimidade que desaparecia imediatamente depois que ambos se vestiam.
E então Pedro soube.
Lenora esperara alguma coisa violenta. Um grito. Uma porta batendo. Talvez uma acusação à altura daquilo que fizera.
Pedro só ficou muito pálido.
Essa era a lembrança que permanecia.
Não o que disse.
A cor do rosto.
Depois foi embora.
Durante anos, Lenora pensou que a culpa vinha do fato de tê-lo traído.
Naquela madrugada, sentada sobre sua calcinha horrorosa no sofá, na Aclimação, ocorreu-lhe que talvez viesse de outra coisa.
Ela tinha feito questão de que ele soubesse.
Ficou olhando para os próprios pés.
— Sou uma filha da puta.
Dessa vez, não havia humor.
Quando começou a seguir a vida de Pedro pelo Orkut, fez isso escondida até de si mesma.
Não era perseguição.
Era pior porque era mais banal.
De vez em quando, entrava.
Via uma foto.
Uma viagem.
Uma festa.
Depois apareceu Helena.
Lenora levou algum tempo para compreender quem era, pois o rosto lhe era familiar... Irmã de Renan.
A vida às vezes tinha um senso de humor muito específico.
Pedro e Helena sempre moraram no mesmo bairro. Possível que se conhecessem desde crianças. Lenora realmente não sabia. Descobriu apenas que, em algum ponto depois dela, os dois tinham se aproximado.
Soube também que a amizade entre Pedro e Renan jamais se recompôs.
Renan acabou como cunhado.
Lenora achou aquilo muito engraçado e profundamente triste.
Mais tarde, já no Facebook, continuaria olhando de longe.
Não porque quisesse Pedro de volta. Isso é muito importante. Mas porque tinha carinho por ele.
E porque às vezes precisava confirmar que o estrago que fizera não tinha destruído a vida de ninguém.
Talvez fosse egoísmo também e provavelmente era.
Não tinha mais tanta necessidade de sair inocente das próprias análises.
Naquela madrugada, entretanto, Pedro voltou por outra razão: pela primeira vez, ela se perguntou se talvez ainda estivesse procurando justamente aquilo que não existia nele.
Alguma coisa que doesse antes de doer.
Alguma incerteza.
Algum risco.
O pensamento veio incompleto.
Lenora bocejou.
Não era hora para filosofia.
Levantou-se.
Foi ao banheiro fazer xixi, lavou as mãos, voltou para a cama e começou a tirar tudo de cima.
Isso era uma regra.
Não moral.
Higiênica.
Abriu o armário, colocou roupa de cama limpa, alisou-a com a mão duas vezes e deitou-se.
A cidade continuava lá fora.
Lenora virou de lado.
Cinco minutos depois, estava acordada.
Dez minutos.
Quinze.
Pegou instintivamente seu pequeno telefone celular Nokia, prateado.
Não havia ninguém para quem quisesse ligar.
Isso também era novo.
Colocou-o de volta no carregador.
Preciso conversar com alguém.
Não com Estevão.
Não com Adele.
Não com Mônica ou com uma amiga.
Precisava de alguém que não a amasse.
Alguém que não precisasse protegê-la das respostas.
A indicação veio alguns dias depois.
— Ela trabalha com compulsão — disse a amiga. — Mas é freudiana, tá? Depois não vem me xingar.
— Por que eu te xingaria?
— Porque você vai querer resposta, e ela vai te devolver pergunta.
— Nossa, que útil.
— Tá vendo?
— O nome dela?
A amiga procurou na agenda.
— Amanda.
— Amanda do quê?
— Pra que você quer o sobrenome? Vai investigar a mulher?
— Evidente.
— Lenora.
— Tô brincando.
Não estava inteiramente.
Anotou o telefone.
Demorou três dias para ligar.
Quando finalmente ligou, a recepcionista atendeu.
Marcaram para a semana seguinte.
Pertinho, Vila Mariana, fim da tarde.
Lenora anotou os detalhes e colocou o papel na bolsa.
Na terça-feira, trabalhou o dia inteiro como se nada estivesse prestes a acontecer.
Na quarta, também.
Na quinta, às quatro e dezessete, entrou no banheiro da agência, olhou para o próprio reflexo e percebeu que havia escolhido uma blusa melhor do que a média para ir à terapia.
Ficou alguns segundos olhando para si.
Passou água no rosto.
Saiu.
O consultório era acolhedor, mesmo ficando num prédio de oito andares, com salas comerciais organizadas em dois conjuntos de duas por andar.
A recepção comum do andar era pequena, ficava no corredor recuado que era o hall do elevador. A recepcionista, Priscila, servia àquelas quatro salas do sexto andar, sua mesa ficava no centro do hall, emoldurada por uma janela que, quando a persiana estava aberta, dava vista para a Rua Vergueiro. Havia umas poltronas boas para a espera, um tapete, alguns quadros de paisagens na parede e uma planta grande em um vaso; o cheiro de ar-condicionado incomodava um pouco.
Lenora chegou seis minutos antes.
Achava pontualidade uma forma básica de respeito.
Priscila indicou uma poltrona.
Ela se sentou.
Esperou.
Às cinco em ponto, uma porta se abriu.
A mulher que apareceu era mais jovem do que Lenora esperava.
Talvez trinta anos.
Baixa, magra.
Cabelo ruivo curto.
Não aquele ruivo desesperadamente vermelho de tinta barata: ruivo natural, cobre. Havia alguma coisa clara no rosto sardento que fazia os olhos parecerem ainda mais azuis.
Vestia-se bem, de um jeito clássico, neutro: camisa creme, calça preta discreta e confortável, um cinto fino, lindo, e um mocassim feminino que certamente a fazia parecer mais alta.
Sem esforço aparente, era uma mulher elegante.
Ela olhou para a recepção.
— Lenora?
A voz era mais grave do que o corpo sugeria.
Lenora se levantou.
— Eu.
Amanda sorriu.
Estendeu a mão.
— Amanda. Pode entrar.
Lenora a apertou.
Mão pequena, fria.
Foi a primeira coisa que percebeu.
A segunda foi o perfume.
A terceira, tempos depois, seria a mais importante: o fato de que Amanda não pareceu particularmente impressionada com ela.
Naquele dia, Lenora considerou isso apenas profissionalismo.
Entrou.
A porta se fechou atrás das duas.
E, durante quase um ano, toda quinta-feira, às cinco da tarde, Lenora atravessaria aquela porta acreditando que estava entrando num consultório; demoraria para perceber que havia entrado em outra coisa.