Parte 1 - O Vazio
O Vazio
Embora religião e mitologia raramente sejam consideradas fontes confiáveis pelos historiadores modernos de Solrik-Dal, existem histórias tão antigas e tão semelhantes entre povos que jamais tiveram contato entre si que algumas delas passaram a ser tratadas não apenas como crenças, mas como possíveis registros de acontecimentos reais.
A mais antiga dessas histórias é também a mais difícil de compreender.
Antes dos continentes, antes dos deuses e antes mesmo do tempo, não existia mundo algum.
Havia apenas o vazio.
Não existiam estrelas, luz, matéria ou vida. Apenas uma vastidão escura e silenciosa, preenchida por gases sem forma que vagavam por uma existência ainda sem nome.
Foi desse vazio que surgiu aquilo que as religiões mais antigas chamam de Chama Primordial.
Uma energia vermelha apareceu entre os gases do espaço. Inicialmente pequena e instável, ela cresceu, expandiu-se e, em algum momento impossível de determinar, tornou-se consciente.
Essa consciência não possuía criador.
Não havia ninguém antes dela.
Ela simplesmente existia.
E, ao reconhecer a própria existência, deu a si mesma um nome:
Egni-Var.
Aquela que posteriormente seria conhecida como a Deusa Vermelha, a Primeira Chama e, principalmente, a Deusa da Criação.
Por um período impossível de medir, Egni-Var permaneceu sozinha.
Ainda não existia tempo e, portanto, dizer que sua solidão durou anos, séculos ou eras seria incorreto. Para Egni, talvez aquele momento tenha durado apenas um instante. Talvez tenha durado uma eternidade.
Mas eventualmente a primeira deusa conheceu algo que nenhuma criatura antes dela poderia ter conhecido:
o tédio.
Egni podia criar matéria, luz e energia, mas nenhuma dessas coisas conseguia responder-lhe. Nada podia observá-la, discordar dela ou simplesmente permanecer ao seu lado.
Foi então que Egni realizou sua primeira verdadeira criação.
Ela decidiu criar alguém que pudesse compreender sua existência.
Não um servo.
Não uma criatura.
Mas um igual.
Da energia primordial da própria deusa nasceu uma segunda consciência.
Egni lhe concedeu poder sobre aquilo que ainda não existia: a passagem entre um acontecimento e outro.
Assim nasceu Tid, o Deus do Tempo.
E com o nascimento de Tid, pela primeira vez, o universo passou a possuir um antes e um depois.
Os mitos afirmam que foi naquele instante que o tempo verdadeiramente começou.


