Capítulo -01
A neblina densa da madrugada ainda teimava em pairar pesada sobre os imensos arranha-céus cinzentos e espelhados daquela metrópole implacável.
O trânsito na avenida principal rugia de forma impaciente, formando um mar interminável de faróis vermelhos e amarelos que serpenteavam lentamente entre as calçadas abarrotadas de gente.
Para quem vinha de fora, a cidade parecia um monstro mecânico que nunca dormia, engolindo os sonhos, o tempo e a energia de milhares de pessoas todos os dias sem olhar para trás.
No canto de uma estação de metrô bastante movimentada, onde o vento gelado cortava a passagem dos pedestres apressados, Alice tentava desesperadamente se isolar daquele caos ensurdecedor.
Para ela, o barulho ensurdecedor da cidade desaparecia sempre que abria seu velho sketchbook de capa gasta e amarelada pelo uso constante.
Seus dedos ágeis, já marcados de forma permanente pelo grafite macio, seguravam o lápis com firmeza, correndo com pressa indescritível pelas folhas de papel.
Ela observava atentamente a postura curvada e cansada de uma senhora que vendia flores na escadaria e tratava de eternizar seus traços cansados no papel.
Cada linha que Alice desenhava com precisão carregava a urgência silenciosa de quem tinha pavor de passar a vida inteira invisível.
Ela não queria ser apenas mais um número nas estatísticas daquela selva de pedra; ela queria que sua arte dissesse ao mundo que ela realmente existia e sentia.
Cada sombra no papel era um pedaço de sua própria alma tentando encontrar um lugar ao sol na imensidão daquela metrópole fria.
Enquanto isso, a poucos quarteirões dali, outro coração solitário batia exatamente no mesmo ritmo acelerado e sufocante que o dela.
Felipe caminhava sob a garoa fina que começava a cair, carregando duas telas pesadas debaixo do braço com uma expressão de exaustão profunda no rosto.
Ele voltava de mais uma tentativa frustrada em uma galeria de arte moderna muito conceituada no centro da cidade.
O marchant de plantão nem sequer havia olhado direito para o seu portfólio antes de dispensá-lo com um sorriso cínico e desdém.
As mãos de Felipe estavam completamente manchadas de tinta acrílica fresca — resquícios de uma madrugada inteira tentando acertar o tom perfeito de azul para um quadro.
Ele sentia o peso esmagador daquele fracasso recente pressionando suas costelas, mas, no fundo, a chama de sua paixão pela pintura se recusava a apagar.
Felipe sabia que tinha talento, mas a dureza da cidade grande parecia conspirar diariamente contra os seus sonhos mais sinceros de viver da própria arte.
De repente, uma rajada de vento cortante e totalmente inesperada invadiu a entrada aberta da estação de metrô, pegando os dois de surpresa.
A lufada violenta arrancou a folha principal do caderno de rascunhos de Alice, fazendo-a planar perigosamente e rodopiar no ar.
O papel bailou sobre o asfalto úmido e cinzento, arrastado pela força do vento até colidir diretamente contra o peito do casaco de Felipe.
Surpreso com o impacto leve, Felipe esticou os dedos manchados de tinta e segurou a folha com muito cuidado para que ela não rasgasse.
Seus olhos curiosos baixaram instantaneamente para o papel, curiosos para ver o que o vento havia jogado em seu caminho.
O que ele viu o paralisou completamente por um segundo inteiro no meio da multidão que esbarrava nele: era um retrato impressionante e cheio de alma.
O desenho capturava perfeitamente a solidão urbana e a essência daquelas pessoas apressadas, revelando um talento bruto e sensível.
Ao notar imediatamente que seu precioso desenho havia voado, Alice levantou a cabeça num sobresalto e correu em direção ao estranho.
Quando Felipe ergueu o olhar para encontrar a dona daquela obra magnifica, ele deu de cara com os olhos brilhantes e assustados dela.
Por um único e mágico instante, o fluxo contínuo de pessoas ao redor pareceu simplesmente evaporar, como fumaça ao vento.
Naquele segundo exato, a metrópole inteira silenciou ao redor deles, unindo dois sonhadores que buscavam exatamente a mesma coisa.